EDITORIAL EDITORIAL

 

 

Este número da revista Ciência & Saúde Coletiva publica vários artigos da demanda espontânea que cresce a cada dia, na medida em que nosso periódico vai se firmando como referência dos pesquisadores e professores da área de saúde coletiva. Convencionamos que um número da série que publicamos durante o ano deve contemplar, especificamente, esse acervo de trabalhos não-temáticos. Nesta oportunidade, em que não há um tema específico a ser introduzido, gostaria de levantar, para nossos leitores, dois problemas que venho observando na experiência como editora.

A primeira questão diz respeito a uma parte específica dos artigos: os resumos que precedem o texto integral. A meu ver, trata-se de extrato de texto que deve ser bastante valorizado e talvez em função da concisão isso dificilmente acontece. A diagramação definida pelo projeto gráfico da revista limita o tamanho do resumo em 1.200 caracteres, e no entanto, é muito importante que ele se constitua numa síntese da totalidade do trabalho. É preciso não esquecer que o resumo é a apresentação estratégica do artigo; deve ser, portanto, escrito de forma sóbria e informativa para transmitir ao leitor: o objeto em estudo, os objetivos pretendidos, o método empregado e os resultados. Recebemos com alguma freqüência trabalhos em que apenas constam o objeto, os objetivos e os métodos, privando o leitor das conclusões. Outras vezes, os resumos contêm palavras demais, adjetivos demais, explicações demais e conteúdo de menos, com pouca informação ao leitor.

Outro ponto para o qual ouso chamar atenção é menos didático e normativo e mais ideológico: trata-se da pouca, escassa e limitada citação, pelos autores brasileiros, dos seus companheiros "nacionais". Na maioria das vezes não percebo uma valorização dos colegas pelos colegas; ocorre, na verdade, uma supervalorização de autores estrangeiros. Observo isso mesmo nos casos em que a bibliografia nacional é mais consistente. Esse tipo de comportamento é um problema sério, muito comum na América Latina (acabo de participar de uma reunião internacional de editores científicos em que a questão foi muito criticada). Para provocar direi que o fato é fruto da "mente colonizada", apropriando-me de uma expressão de Milton Santos, usada em uma de suas últimas conferências antes de falecer. Na ocasião, esse autor seminal e respeitado mundialmente questionava a mania nacional de desprestigiar a produção local, fosse pela atribuição de conceitos mais baixos em relação ao que é publicado em periódicos em inglês, ou mesmo pelo menosprezo, deixando de citá-la.

Como queremos que nossos periódicos e nossas produções sejam referenciadas se nós mesmos não as lemos e discutimos? Creio eu que o hábito de não ler os colegas de nosso país ou de não referenciá-los é uma atitude naturalizada que devemos submeter à crítica e, quem sabe, tentar modificar. Sobre este último ponto, bastante delicado e melindroso, gostaria de me explicar, dizendo que não sou bairrista, considero o acesso à ciência um direito universal e não acho que a ciência tenha pátria. Estou apenas lembrando que a leitura do que é produzido pelos colegas do país, para apreender o estado do conhecimento e mesmo para criticar, constitui parte do esforço de fazer avançar a dinâmica científica nacional de que tanto o país necessita para não perder o bonde da história.

 

 

Maria Cecília de Souza Minayo
Editora científica

 


 

This issue of Ciência & Saúde Coletiva features spontaneously submitted (non-thematic) articles, an increasingly common situation to the extent that our journal has consolidated itself as a reference for both researchers and faculty from the field of collective health. We have agreed to reserve one issue a year for this set of articles that have not been submitted for specific thematic issues. On this occasion, when there is no predefined overarching theme, I wish to call our readers' attention to two aspects that I have observed in my experience as Editor.

The first relates to a particular component of the articles: the abstracts preceding the full text. I believe abstracts should be highlighted, but this rarely happens, perhaps because they are so concise. The journal's layout limits an abstract's size to no more than 1,200 characters, yet it is extremely important that it provides a synthesis of the article as a whole.

After all, the abstract is the article's strategic introduction; it should thus be written in a serious and informative way to provide readers with the following: the object of study, the objectives, the research methodology, and the results. We frequently receive articles that include only the object of study, the objectives, and the methodology, thereby depriving readers of the conclusions. On other occasions the abstracts have too many words, too many adjectives, too much explanation, and too little content, with little substantive information for readers.

Another important point is less didactic and normative and more ideological, namely the limited citation, by Brazilian authors, of their "national" colleagues. More often than not, colleagues fail to valorize colleagues; on the contrary, there is an over-valorization of foreign authors. I have observed this unfortunate trend even in cases where the national literature is more consistent. This is a serious and common problem in Latin America (I have just participated in an international meeting of science editors where the issue was extensively criticized). To add fuel to the debate, I would say that it is the result of a "colonized mind", to quote an expression by Brazilian geographer Milton Santos in one of his final lectures. On the occasion, this seminal and world-renowned author challenged the Brazilian mania of neglecting domestic academic output, either in favor of the English-language literature or simply overlooking national output by failing to cite it.

How can we expect our journals and academic output to be referenced if even we fail to read and discuss them? I believe that failing to read and cite the work of our Brazilian colleagues is a habit that we take for granted and that we should submit to critique, and who knows, attempt to change. On this last, highly delicate and sticky point, I wish to say that I am not xenophobic, that I consider access to science a universal right, and that I believe science has no homeland. I am merely highlighting that to read what our compatriots produce and to learn the local state of knowledge (even to criticize it) are both part of the effort to foster progress in the scientific dynamics our country needs in order not to be left behind by history.

 

 

Maria Cecília de Souza Minayo
Scientific Editor

ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: revscol@fiocruz.br