EDITORIAL EDITORIAL

 

 

Eduardo Siqueira; Tânia Araújo; Hermano Castro; Anaclaudia Gastal Fassa

Editores convidados

 

 

As áreas de saúde do trabalhador e saúde ambiental têm apresentado substancial crescimento nos últimos anos. Tal crescimento possibilitou a construção de novos projetos e implementação de experiências inovadoras que vêm sendo capazes de viabilizar alternativas concretas para os múltiplos problemas enfrentados nesses campos. Essas alternativas vêm sendo edificadas a partir de ações em diferentes esferas: universidades, instituições de pesquisa, serviços de saúde, sindicatos e organizações não-governamentais. Em vários países das Américas podem ser encontrados exemplos de investimentos inovadores nessas duas áreas. Apesar do crescimento ocorrido, o que efetivamente garantiu avanços relevantes, pode-se observar que os desafios nesses campos são ainda múltiplos e complexos. Um desses desafios se refere à fragmentação das ações e seu caráter, quase sempre, regionalizado. Ou seja, na grande maioria das vezes, as ações ou o conhecimento produzido é pontual, localizado. Na prática, para a área como um todo, isto tem restringido as possibilidades dessas iniciativas inovadoras alcançarem um caráter mais global e se fortalecerem como alternativa viável. Amplos e mais significativos avanços poderiam ser alcançados com a superação do estado de fragmentação das ações, seja a partir de uma estreita articulação entre as áreas de trabalho e ambiente, seja por meio da integração mais efetiva das ações no interior de cada uma dessas áreas.

O avanço neoliberal observado nos últimos anos, na maioria dos países da América, nos impõe o desafio de, a partir de uma óptica diferenciada, aglutinar esforços para o seu enfrentamento, dando visibilidade às discrepâncias sociais que esse modelo socioeconômico é capaz de gerar com graves conseqüências sobre o ambiente e o mundo do trabalho.

A compreensão de que na atual fase de globalização do mundo da produção dever-se-ia constituir também uma perspectiva de articulação entre os vários atores comprometidos com a defesa do ambiente e da saúde dos trabalhadores, na direção de "uma nova ordem das coisas", gestou a proposta de construção de uma rede, na qual se pudesse, inicialmente, trocar informações e experiências na área de saúde do trabalhador e ambiental.

Essa iniciativa ganhou contornos mais concretos em uma conferência realizada na cidade de Morélia, no México, no ano de 2000. A primeira conferência, intitulada Primeira Conferência em Saúde Ocupacional e Ambiental sob o Marco da Integração das Américas reuniu representantes de vários países das três Américas e possibilitou a articulação de vários profissionais, oriundos de diferentes instituições e de distintas áreas do conhecimento. Nessa conferência, delinearam-se linhas de atuação e fortaleceu-se o propósito de constituição de espaços abertos, sob diferentes formas, para fomentar debates, discussões temáticas, ações e, fundamentalmente, permitir a troca e circulação de informações. Concebeu-se ainda, nessa conferência, o esboço de um projeto intitulado Observatório das Américas. A partir desse ponto inicial, outras ações germinaram.

Uma dessas ações foi a continuidade das iniciativas de trocas e discussões. Assim, entre 17 e 20 de junho de 2002 realizou-se em Salvador a II Conferência do Observatório das Américas, a II Conferência de Saúde Ocupacional e Ambiental: Integrando as Américas. O evento contou com a presença de cerca de 200 lideranças expressivas da área de saúde do trabalhador e ambiental do Brasil e vários outros países das Américas como Estados Unidos, Venezuela, Chile, Argentina, México, Peru e Equador, representando sindicatos, universidades, serviços de saúde e organizações não-governamentais (ONGs).

Temas como alternativas presentes para o enfrentamento do neoliberalismo, o fortalecimento da solidariedade internacional entre todos os que lutam pela melhoria das condições de trabalho e saúde dos trabalhadores e a construção de modelos alternativos nortearam as discussões da conferência.

O número temático que apresentamos a seguir constitui um passo a mais no caminho que temos pela frente: construir uma rede de profissionais e ativistas latino-americanos que se proponham a observar a realidade dos trabalhadores nas Américas visando à mudança das condições de trabalho e ambientais na direção do "outro mundo possível" a que todos aspiramos. Este número da revista Ciência & Saúde Coletiva foi co-editado por quatro pessoas: Hermano Castro, coordenador do Centro de Ecologia Humana e Saúde do Trabalhador da Fiocruz; Eduardo Siqueira, do Departamento de Ambiente do Trabalho da Universidade de Massachusetts Lowell; Tânia Araújo, Núcleo de Epidemiologia da Universidade Estadual de Feira de Santana e Anaclaudia Gastal Fassa, Pós-Graduação em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas.

Os artigos que compõem o número enfocam alguns dos muitos temas discutidos em grupos de trabalho na conferência: a economia política da globalização neoliberal e as respostas sociais a ela, a Área de Livre Comércio das Américas (Alca); o relato das conquistas e história dos movimentos sociais pelo banimento do amianto e controle da exposição ao benzeno no Brasil; o trabalho infantil; aspectos psicossociais do trabalho e estresse, vigilância epidemiológica em saúde do trabalhador, agrotóxicos, dentre outros. Trata-se, portanto, de contribuições diversificadas e abrangentes de profissionais brasileiros e estrangeiros que em sua maioria participaram do evento. A elas se somam trabalhos de pesquisadores brasileiros que, embora não apresentados em Salvador, muito contribuem para o esforço comum de retratar e analisar os principais problemas enfrentados pelos trabalhadores neste país.

Esperamos que este número possa fomentar a perspectiva de integração que gerou os primeiros movimentos desse grupo de profissionais, e sobretudo, possa abrir espaços para as questões e discussões referentes ao ambiente e ao trabalho. Compreendemos que o momento que vive o Brasil, com a possibilidade concreta de mudanças mais substanciais na vida do povo brasileiro, é mais do que necessário reavaliar o estado atual das relações entre a economia brasileira e o mundo do trabalho, situando-as num pano de fundo maior do que o Brasil. Agora, mais do que antes, ou tentamos definitivamente integrar as Américas com o nosso trabalho, sonho de Bolivar, ou não seremos capazes de responder aos desafios colocados perante nossos povos no início do século 21.

 


 

 

Eduardo Siqueira; Tânia Araújo; Hermano Castro; Anaclaudia Gastal Fassa

Guest editors

 

 

The fields of workers' health and environmental health have grown tremendously in recent years, fostering new projects and innovative experiences to deal with multiple problems. Universities, research institutions, health services, trade unions, and nongovernmental organizations have played a central role in this process. Various countries of the Americas have witnessed innovative investments in the two fields. Despite such growth, the challenges are still numerous and complex. One such challenge is to overcome the fragmentation of actions and what is often an excessively regional or local focus. Broad and significant advances could be achieved by overcoming such fragmentation through closer linkage between the two fields and more effective integration of efforts within each area.

Neo-liberal encroachment in recent years in most countries of the Americas has challenged us to join forces to deal with this phenomenon, giving visibility to the social discrepancies that this socioeconomic model generates, with severe consequences for both the environment and the world of work.

Our realization that the current globalization of production demands linkage between the various players committed to the defense of the environment and workers' health led to the proposal to build a network to exchange information and experiences in these two fields.

The initiative actually began taking shape in a conference in the city of Morélia, Mexico, in 2000. Entitled the 1st Conference on Occupational and Environmental Health in the Framework of Integration of the Americas, the event convened representatives from various countries of the three Americas, including professionals from different institutions and fields of knowledge. Lines of activity were defined, thereby strengthening the proposal to establish open spaces under different formats to promote debates, thematic discussions, and actions, especially allowing for an ongoing exchange and circulation of information. During this conference a project entitled the Observatory of the Americas was also drafted.

Moving ahead with the proposal, on June 17-20, 2002, the 2nd Conference of the Observatory of the Americas or 2nd Conference on Occupational and Environmental Health: Integrating the Americas was held in Salvador, Bahia, Brazil. The conference was attended by some 200 key leaders in workers' and environmental health from Brazil and other countries, including the United States, Venezuela, Chile, Argentina, Mexico, Peru, and Ecuador, representing unions, universities, health services, and nongovernmental organizations.

Themes such as alternatives for dealing with neo-liberalism, strengthening of international solidarity among all those struggling to improve working and health conditions for workers, and the construction of alternative models provided the basis for discussions at this conference.

This thematic issue of Ciência & Saúde Coletiva constitutes a further step in this network of Latin American professionals and activists who propose to observe the reality of workers in the Americas with a view towards positive changes in working and environmental conditions. The special issue of Ciência & Saúde Coletiva was edited jointly by four key figures in this process: Hermano Castro, coordinator of the Center for Human Ecology and Workers' Health, Fiocruz; Eduardo Siqueira from the Department of Work Environment, University of Massachusetts Lowell; Tânia Araújo from the Department of Epidemiology, State University in Feira de Santana (Bahia); and Anaclaudia Gastal Fassa from the Postgraduation Program in Epidemiology, Federal University in Pelotas.

The articles focus on some of the numerous topics discussed in the working groups at the conference, including the political economics of neo-liberal globalization and relevant social responses in the sphere of the Free Trade Agreement of the Americas (FTAA); reports on successes in the history of social movements to ban asbestos and control benzene exposure in Brazil; child labor; psychosocial aspects of work and stress; epidemiological surveillance in workers' health; and a study on the effects of pesticides. The issue includes a diverse range of contributions by Brazilian and international experts, the majority of whom participated in the conference, in addition to Brazilian articles that were not presented at the event, but which contribute greatly to the common effort to portray and analyze the main problems faced by workers in Brazil.

We hope that this issue will foster the perspective of integration that led to the first efforts in the "Observatory", especially opening spaces for issues and discussions pertaining to the environment and work. We believe that given Brazil's current historical juncture, with concrete possibilities for substantial changes in the lives of the Brazilian people, it is absolutely necessary to reevaluate the current state of relations between the Brazilian economy and the world of work, contextualizing these relations against a broader backdrop than the country itself. Now more than ever, we either integrate the Americas once and for all through our work (Bolivar's dream) or we will be incapable of responding to the challenges facing our peoples at the dawn of the 21st century.

ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: revscol@fiocruz.br