ARTIGO ARTICLE

 

Significado da intervenção médica e da fé religiosa para o paciente idoso com câncer

 

The meaning of medical intervention and religious faith for the elderly cancer patient

 

 

Jorge Juarez Vieira TeixeiraI; Fernando LefèvreII

ICentro de Ciências Médicas e Farmacêuticas, Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Rua Universitária 1619, Jardim Universitário. 85819-110 Cascavel PR. jorgetei@hotmail.com
IIDepartamento de Prática de Saúde Pública, Faculdade de Saúde Pública, USP

 

 


RESUMO

Neste estudo, procurou-se identificar o significado da intervenção médica e da fé religiosa para o paciente idoso com câncer. Pesquisa qualitativa e descritiva foi desenvolvida no período de 9/01 a 28/03/2001 no Hospital do Servidor Público Estadual - Francisco Morato de Oliveira/ IAMSPE. A amostra foi não aleatória, constituída de vinte idosos com câncer. A coleta de dados ocorreu mediante a técnica da entrevista semi-estruturada. Para a tabulação e análise dos dados, utilizou-se o método do Discurso do Sujeito Coletivo, com aplicação de três figuras metodológicas: a Idéia Central, as Expressões-chave e o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). As principais idéias centrais presentes nos discursos foram: 1. Nada a reclamar. Eu acho muito bom e penso que eles estão no caminho certo; 2. Não. Por enquanto estou acompanhando tudo o que os médicos falam; 3. Eu já participei, mas atualmente não; 4. Eu não participo de atividade religiosa; 5. Fortalecimento, esperança e equilíbrio. A fé religiosa é tudo!; 6. Continua a mesma, porém, mudou a maneira de ser. O DSC mostra que o procedimento médico adotado forneceu maior esperança ao paciente, elegendo a fé religiosa como instrumento-chave para o enfrentamento da doença.

Palavras-chave: Intervenção médica, Fé religiosa, Câncer, Idoso, Pesquisa qualitativa


ABSTRACT

This study aimed at identifying the meaning medical intervention and religious faith have for the elderly patient with cancer. A descriptive and qualitative investigation was developed between January 9 and March 28, 2001 in the Hospital do Servidor Público Estadual - Francisco Morato de Oliveira/IAMSPE (Hospital for State Public Servants). The studied sample was not randomized and consisted of 20 elderly men and women with cancer. The data were collected in semi-structured interviews and organized and analyzed using the Collective Subject Discourse method, applying three methodological illustrations: the Central Idea, Key Expressions and the Collective Subject Discourse (CSD). The main central ideas of the discourse material were: 1. Nothing to complain about. I think it is very good and they are on the right track; 2. No. For now, I'm doing everything the doctors say; 3. I've already participated, but not currently; 4. I don't participate in religious activity; 5. Invigoration, hope and balance. Religious faith is everything! 6. It remains the same; however, it changed the way to be. The CSD shows that the adopted medical intervention gave the elderly renewed hope and that religious faith is a key instrument for facing the disease.

Key words: Medical intervention, Religious faith, Cancer, Elderly, Qualitative research


 

 

Introdução

A aplicação de técnicas cirúrgicas, radioterápicas, quimioterápicas e biológicas para o tratamento resultam na cura de mais de 50% dos pacientes diagnosticados com câncer1. Ringdal2 relata que, quando o diagnóstico ocorre precocemente e a intervenção é instituída, o paciente apresenta uma chance real de cura e o processo invasivo estará afastado. Paralelamente, se a força poderosa da mente for invocada e esta estiver aliada à fé religiosa, com o intuito de recuperar-se do agravo, o paciente se sentirá mais feliz e com outra disposição para enfrentar a doença, podendo, desta forma, provocar alteração em seu quadro.

A religião, em sentido estrito senso, ocupa um importante espaço na vida das pessoas, e a religiosidade pode ajudá-las a encontrar o significado e a coerência no mundo3. Estudo realizado por Holland et al.4 sobre a função da religiosidade e da crença espiritual no enfrentamento do melanoma maligno destaca que a fé religiosa e a espiritualidade contribuíram de forma ativa na luta cognitiva dos pacientes e as suas convicções religiosas forneceram significado e perspectiva, permitindo acumular experiência para o enfrentamento da doença. Revisões sistemáticas têm confirmado quantitativamente que a religião é epidemiologicamente um fator de proteção5-7.

Apesar do avanço científico tanto curativo quanto preventivo do câncer, o câncer ainda leva consigo a idéia de sofrimento e morte8. Este fato, por si só, desencadeia reações emocionais peculiares que devem ser levadas em consideração9. As pessoas religiosas podem encontrar certo significado em situações ameaçadoras de vida e até em situações com resultados fatais prováveis2. A religiosidade e a espiritualidade sempre foram consideradas importantes aliadas das pessoas que sofrem e/ou estão doentes10.

Por que as pessoas procuram terapias complementares ou suplementares, incluindo a religião e a espiritualidade? Os pacientes em desespero podem ser desencorajados a respeito da realidade do tratamento convencional. Assim, o medo, os efeitos adversos, as experiências negativas anteriores e o desejo por mais cuidados de suporte são outras razões apresentadas pelo paciente para buscar a prática não convencional. As pessoas podem estar infelizes com a tecnologia impessoal da medicina moderna e, assim, procuram enfatizar o autocuidado e o bom estado do corpo, mente e espírito11.

A religião e a espiritualidade recentemente têm recebido atenção especial frente aos fatores psicossociais que podem influenciar os resultados da saúde física12. Para Mitka13, finalmente os estudos estão emergindo e mostrando o benefício da religião e da espiritualidade para a saúde pública. Levin7 relata que, se algum dia a religião foi um tópico marginal das pesquisas em envelhecimento, atualmente não o é.

Os comportamentos religiosos são bastante freqüentes na idade avançada. Os profissionais da saúde que trabalham com estas pessoas devem estar alertas sobre a importância e a função da religião como visão de mundo e estratégia para enfrentar o estresse14. Os idosos com câncer podem usar a sua religiosidade como uma estratégia de enfrentamento na busca de alívio quando estão angustiados15.

Por que algumas pessoas idosas se tornam deprimidas, perdem a esperança e são incapazes de lutar eficazmente contra o câncer, enquanto outras com o mesmo agravo não se tornam deprimidas? Esta é uma área que deve ser explorada. A espiritualidade e a força que alguns idosos encontram ao expressar a sua fé religiosa podem explicar o porquê de eles não se deprimirem e serem capazes de manter a esperança, enfrentando eficazmente doenças como o câncer15. A fé em Deus cresce quando as pessoas ficam mais velhas, aumentando, assim, a leitura da Bíblia e a participação em cultos16-19.

Esta investigação teve como objetivo identificar o significado da intervenção médica e da fé religiosa para o paciente idoso com câncer.

 

Método

A tipologia da pesquisa é de natureza qualitativa, descritiva. A amostra é não aleatória, composta por vinte pacientes idosos (60 anos ou mais) com câncer não hospitalizados. Os sujeitos da pesquisa foram atendidos na Central de Quimioterapia/Ambulatório de Oncologia e no Serviço de Assistência Domiciliar do Hospital do Servidor Público Estadual - Francisco Morato de Oliveira/IAMSPE. O estudo foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa tanto da instituição promotora (Faculdade de Saúde Pública-USP) como da receptora (Hospital do Servidor Público Estadual - Francisco Morato de Oliveira/IAMSPE).

A coleta de dados ocorreu mediante a técnica da entrevista semi-estruturada, conforme formulário pré-testado. As entrevistas foram desenvolvidas no período de 9 de janeiro a 28 de março de 2001.

O critério de inclusão para a escolha dos pacientes foi estar ciente e informado de que era portador de câncer, independentemente da fase da doença quando da realização da quimioterapia. A Central de Quimioterapia, por intermédio do corpo de enfermagem, já sabedora da situação do paciente, perguntava ao mesmo se gostaria de conversar com o pesquisador e após confirmação positiva encaminhava-o. Além das informações da Central de Quimioterapia sobre a situação do paciente, o pesquisador também manteve contato com a equipe médica para confirmação dos fatos. Nesse momento, em sala exclusiva, o pesquisador dialogava com o idoso para saber do interesse em participar da pesquisa. O critério de exclusão foi para os pacientes que aceitavam parcialmente a sua doença ou negavam o diagnóstico, fato esse informado previamente ao pesquisador pela Central de Quimioterapia. Um paciente foi eliminado do estudo (não aceitação do diagnóstico) e um segundo negou-se a participar por motivos pessoais.

A etapa seguinte consistiu na apresentação do objetivo e na pesquisa aos sujeitos eleitos. O termo de responsabilidade do pesquisador e de consentimento livre e esclarecido foi fornecido aos pacientes idosos com câncer e mais uma vez deixou-se livre a participação ou não do estudo. Aos candidatos que aceitaram garantiu-se total sigilo e anonimato. Os critérios utilizados obedeceram à resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde sobre pesquisas com seres humanos.

Para o tratamento dos dados foi empregada a técnica de análise do discurso do sujeito coletivo20-23 que consiste num conjunto de procedimentos de tabulação e organização de dados discursivos, sobretudo (mas não exclusivamente) daqueles provenientes de depoimentos orais.

Esses procedimentos envolvem, basicamente, as seguintes operações sobre os discursos coletados:

- Seleção das expressões-chave de cada discurso particular, por exemplo, de cada resposta a uma dada questão. As expressões-chave são segmentos contínuos ou descontínuos de discurso que revelam o principal do conteúdo discursivo; são uma espécie de "prova discursivo-empírica" da "verdade" das idéias centrais.

- Identificação da idéia central de cada uma dessas expressões-chave e que é a síntese do conteúdo dessas expressões, ou seja, o que elas querem efetivamente dizer. Identificação das idéias centrais semelhantes ou complementares.

- Reunião das expressões-chave referentes às idéias centrais semelhantes ou complementares, em um discurso síntese que é o discurso do sujeito coletivo (DCS).

- O DCS representa, portanto, um expediente ou recurso metodológico destinado a tornar mais claras e expressivas as representações sociais, permitindo que um determinado grupo social (no caso de pacientes idosos) possa ser visto como autor e emissor de discursos comuns, compartilhando entre seus membros. Com o sujeito coletivo, os discursos não se anulam ou se reduzem a uma categoria comum unificadora, já que o que se busca fazer é precisamente o inverso, ou seja, reconstruir, com pedaços de discursos individuais, como em um quebra-cabeça, tantos discursos-síntese quantos se julgue necessário para expressar uma dada "figura", um dado pensar ou uma representação social sobre um fenômeno.

A análise dos dados foi desenvolvida com suporte da literatura científica.

 

Resultados e discussão

Os dados apresentados são referentes a vinte pacientes idosos com câncer. Não é pretensão exaurir a discussão dos DSC mas, sim, distinguir os pontos considerados de relevância em relação aos objetivos propostos.

Dos pacientes entrevistados, dez pertenciam ao sexo feminino e dez, ao masculino. A idade média foi de 67,1 anos para os homens e de 68,6 para as mulheres, com amplitude de 60 a 87 anos. Quanto à escolaridade e estado civil, 55% possuíam oito anos ou mais de estudo e casado.

Conhecer a ótica do usuário que busca o serviço de saúde pública é uma etapa importante frente ao processo interventivo. Neste sentido, a primeira pergunta colocada para os sujeitos idosos tenta resgatar o pensamento sobre o tratamento médico frente ao seu problema de saúde. O Quadro 1 destaca três idéias centrais (IC) e respectivos discursos.

Primeira IC: "Nada a reclamar. Eu acho muito bom e penso que eles estão no caminho certo". No Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), há destaque para um tratamento melhor e de que a internação hospitalar produziu bons frutos em seu estado de saúde. Um trecho do discurso chama a atenção para o resultado positivo dos recursos tecnológicos dispensados para o seu tratamento "[...] com esse tratamento eu acho que eles estão no caminho certo [...] dentro do que a medicina dispõe [...]". O discurso também aparenta sinal de gratidão aos profissionais de saúde frente ao desempenho na situação problema. "Não tenho nenhuma queixa [...] não esperava melhor, porque sem o tratamento médico eu não estaria aqui".

Segunda IC: "Eu não tenho muita profundidade". Aqui a terapêutica frente à doença aparece no discurso coletivo como uma incógnita. Estudo longitudinal sobre o conhecimento dos pacientes com câncer avançado sobre o tratamento aponta que menos da metade dos 163 pacientes entendiam corretamente o objetivo fundamental da terapia24.

Terceira IC: "Depende do procedimento médico". Para os pacientes desse discurso, o procedimento cirúrgico parece se apresentar de forma menos traumática. "A cirurgia quando erradica [...] eu acho que se torna mais fácil". Em sentido oposto, a quimioterapia ou a radioterapia emerge como terapêutica que pode levar ao desenvolvimento de eventos adversos: "[...] esse tratamento está muito agressivo ao corpo humano, né?".

Na vida de um paciente com câncer, a busca por terapias alternativas pode ocorrer com certa freqüência. Três IC possibilitaram a construção do material discursivo (Quadro 2).

Primeira IC: "Não. Por enquanto estou acompanhando tudo o que os médicos falam". O discurso coletivo para a maioria dos idosos (75%) se apresenta de forma aderente ao procedimento médico acordado e as orientações parecem ser seguidas. Estudo realizado por Rodrigues et al.25 com o objetivo de identificar alguns aspectos das crenças e dos sentimentos dos pacientes portadores de câncer sobre sua doença e tratamento evidenciou que a maioria dos pacientes (60%) relatou que fazia somente o tratamento prescrito pelo médico e não utilizava outros tipos de tratamento.

Em contexto diferente, a afirmação "[...] a gente procura de tudo [...]" emerge na segunda IC. Neste discurso, a fala do coletivo tende para a busca de qualquer produto sugerido. É forte a procura pelo transcendental, benzimento, cura pelas mãos, etc, embora o tratamento oficial não deva ser abandonado. "[...] O tratamento oficial eu não aconselho deixar". Rosner11, em estudo sobre a religião e a medicina, afirma que o medo, os efeitos adversos, as experiências negativas prévias e o desejo por mais cuidados de apoio são algumas das razões apontadas por pacientes, justificando a busca por outras terapias. Estudo objetivando avaliar o uso de terapias complementares destaca que aproximadamente 33% dos pacientes idosos com câncer utilizam a terapia alternativa26. A urgência que muitos pacientes e familiares sentem em procurar qualquer beneficio em potencial ou uma opção de tratamento esperançoso leva muitos pacientes a tentar qualquer promessa de tratamento que é oferecido27.

Terceira IC: "Tudo! Mas agora apenas o tratamento médico". Há destaque para o caráter transitório. Num primeiro momento, a idéia central vem enaltecida pelo medo da perda da vida, porém as sugestões eram bem-vindas. "Tudo o que se possa imaginar [...]".

O fato de já ter participado ou estar participando de alguma atividade religiosa foi a próxima indagação formulada aos idosos. O material coletado forneceu quatro IC (Quadro 3).

Na primeira IC, "Sim, eu participo", o discurso mostra a importância das atividades religiosas. A participação do sujeito coletivo é pontuada em diversos movimentos. "Eu faço pregação de casa em casa, tenho também as reuniões [...] Já participei de diversas coisas [...]". Práticas religiosas podem ajudar o paciente a relaxar, distrair e a melhor aceitar os efeitos da solidão e do isolamento, situações tão freqüentes na fase idosa da vida28.

A segunda IC, "Eu já participei, mas atualmente não", realça o sujeito coletivo participativo em atividades religiosas no passado, mas no momento devido às limitações físicas, há impedimento para a sua atuação, embora a fé ainda esteja presente. "Agora eu não posso sair quase [...]". As pessoas idosas experienciam maiores limitações funcionais e neste sentido têm menor probabilidade de engajamento nas várias atividades da igreja, embora a atividade religiosa pessoal não cesse com o avançar da idade, há somente um desengajamento parcial das atividades religiosas organizadas29, 30.

Por outro lado, na terceira IC, aparece a expressão "Eu não participo de atividade religiosa". Na fala do coletivo transparece o não envolvimento em atividades religiosas, embora afirme que Deus ainda faz parte de sua vida. "Eu gosto de religião. Eventualmente eu recorro a um pensamento cristão".

Em contraste com a primeira e a segunda IC, porém, mais próximo da terceira IC, a quarta IC aparece com o tema "Na hora do aperto". Este discurso mostra um fato pitoresco que pode estar presente na vida de indivíduos que enfrentam situações de ameaça ou de rompimento com a vida, ou seja, a busca do transcendental quando os recursos terrestres findam. Pesquisa realizada sobre o apoio social baseado na igreja e no enfrentamento destaca que é mais provável que as pessoas utilizem a questão religiosa como enfrentamento quando surgem tempos difíceis31.

O que a fé religiosa significa na vida do paciente idoso com câncer? Frente a esta questão, duas IC se apresentam (Quadro 4).

Primeira IC: "fortalecimento, esperança e equilíbrio. A fé religiosa é tudo!". O discurso do sujeito evidencia uma ligação humana com Deus. "A religião é uma religação de nós com o supremo". Estudo qualitativo sobre como as mulheres recém diagnosticadas com câncer de mama viviam destaca que uma parcela encontrou apoio em suas crenças religiosas e as crenças as capacitavam para continuar vivendo com a doença: "I believe there is something between heaven and earth, something that directs, and maybe that is the reason to keep holding on"32. Mull et al. 33, em trabalho sobre a função da religião na saúde e bem-estar de idosos, afirmam que a crença e as atividades religiosas foram importantes na vida de muitas idosas.

O discurso do sujeito coletivo destaca que quem tem fé religiosa se sente mais bem preparado e forte para lutar contra as adversidades da vida. "A fé religiosa faz com que a gente viva bem com a vida, se fortaleça e tenha um horizonte mais santo". O sujeito coletivo também enaltece que somente a fé foi capaz de encorajá-lo a enfrentar várias intervenções cirúrgicas. Koenig34 relata que a crença e as práticas religiosas se tornam particularmente importantes para as pessoas quando se tornam doentes e procuram enfrentar o estresse de um procedimento cirúrgico e a dificuldade do processo da reabilitação que algumas vezes se segue. Muitos pacientes vêem na fé um "remédio" muito poderoso para o seu restabelecimento. Os pacientes com câncer mantêm a esperança por que buscam significado e confiança em um ser superior. A manutenção da esperança é importante para suportar o sofrimento35.

Opostamente, a segunda IC, "Se eu não ver eu não acredito", parece apresentar o forte apelo do ver para crer. Para Krause et al.36, a dúvida religiosa tende a desgastar os sentimentos de bem-estar psicológico.

A próxima questão buscou entender como era a fé religiosa antes da doença e como está agora. Na fala do sujeito coletivo, duas IC são destacadas (Quadro 5).

Primeira IC: "Continua a mesma, porém mudou a maneira de ser". Esta afirmação parece significar a busca de uma reflexão mais profunda na ótica do sujeito coletivo. "A minha maneira de ser é muito diferente agora". Pessoas com forte fé religiosa podem redefinir eventos potencialmente negativos em sua vida em termos de religiosidade, como uma oportunidade de crescimento espiritual ou como parte de um plano divino mais amplo37.

Segunda IC: "Eu tinha muitas dúvidas. Agora eu estou mais segura". O discurso tende a revelar que a fé se fortaleceu após o sujeito passar por situações difíceis. "Depois que eu fiquei doente..., eu acho que a minha fé cresceu [...]".O discurso coletivo deixa a entender que o aprofundamento da palavra sagrada forneceu maturidade ao idoso. É preciso acreditar, ter fé em algo transcendente que seja capaz de completar as ansiedades individuais e sociais38. Risberg et al.39, ao estudar a cura espiritual em 642 pacientes noruegueses hospitalizados com câncer num estudo multicentro, afirmam que 139 (23%) relataram uma intensificação da fé religiosa depois do diagnóstico do câncer.

 

Considerações finais

O discurso do sujeito coletivo idoso com câncer forneceu importante material para a análise e discussão. Quanto ao procedimento intervencionista, parece haver um sentimento de satisfação e de agradecimento aos profissionais de saúde envolvidos no tratamento e na aplicação dos recursos tecnológicos. O discurso mostra que o idoso tem pouco conhecimento das conseqüências da terapia intervencionista e de que o tempo poderá lhe fornecer maior entendimento. Também aparece o discurso de que quanto menos agressiva for à técnica instituída, melhor será para o bem-estar do paciente. A terapia alternativa na vida do paciente idoso com câncer se revela em várias nuances, ora inexistente, ora evidenciada, ora suprimida.

Quanto à fé religiosa, o discurso coletivo enaltece-a tendo como resultado a esperança, o equilíbrio e o fortalecimento, propiciando a luta pela vida e a serenidade para aceitar a doença. Para o sujeito coletivo, a fé e o tratamento aparecem como parceiros íntimos e a sinergia é positiva para o enfrentamento da doença. O discurso ainda mostra que o aprofundamento por meio da leitura de textos religiosos evidencia a maturidade, a segurança, o conforto e o otimismo em relação ao tratamento instituído.

 

Colaboradores

JJV Teixeira trabalhou na concepção teórica, pesquisa de campo, análise dos dados, elaboração e redação final do texto e F Lefèvre participou na concepção teórica, análise dos dados e revisão do manuscrito.

 

Agradecimentos 

Agradecemos a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP Processo 98/15909-2) pelo apoio financeiro.

 

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Artigo apresentado em 12/07/2006
Aprovado em 25/06/2007
Versão final apresentada em 10/07/2007

ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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