TEMAS LIVRES FREE THEMES

 

Pedras sobre vidas: vítimas e viúvas na indústria de mármore em Itaoca (ES)

 

Stones crushing lives: victims and their widows in the marble industry in Itaoca (ES)

 

 

Maria das Graças Barbosa MoulinI; Carlos Minayo-GomezII

IDepartamento de Psicologia Social e Desenvolvimento, Universidade Federal de Espírito Santo. Av. Fernando Ferrari s/n, Goiabeiras. 29060-970 Vitória ES. mgbmoulin@gmail.com
IIEscola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz

 

 


RESUMO

Este texto apresenta, em estudo etnográfico, impactos sociais gerados para famílias de trabalhadores vítimas de acidentes de trabalho fatais no setor de rochas ornamentais em Itaoca, distrito de Cachoeiro do Itapemirim (ES). Analisaram-se os núcleos de sentido: cultura familiar; vivência dos acidentes fatais; experiências de lutos familiares; modo de agir da empresa e do sindicato em relação aos direitos; recursos materiais, simbólicos e afetivos usados pelas famílias para enfrentar adversidades decorrentes do acidente. A gestão autoritária, baseada no apelo à virilidade e na improvisação, propicia a ocorrência de acidentes. Necessidades de subsistência, valorização do trabalho como atributo de honradez e ausência de outras opções contribuem para sujeitar os trabalhadores. A maioria das viúvas encontra na fé religiosa, na solidariedade da família e da comunidade e na assistência prestada pelo sindicato, apoio afetivo, simbólico e material. Constata-se omissão dos empresários e ausência de proteção do poder público às famílias. Apontam-se avanços na organização dos trabalhadores em sindicato e mudanças positivas promovidas por empresários do setor, premidos pelos critérios exigidos para exportação.

Palavras-chave: Saúde dos trabalhadores, Trabalho no setor de rochas, Acidentes fatais


ABSTRACT

This text based on an ethnographic survey presents the social impact on the families of victims of fatal work accidents in the ornamental stone industry in Itaoca, district of Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, Brazil. The following elements are analyzed: family culture; living with fatal accidents; experiences of family grief; the way the companies and the union deal with worker rights; material, symbolic, and emotional resources used by the families to face hardship caused by accidents. Authoritarian management appealing to masculinity and improvisation are factors that favor work accidents. The need to earn their living, the fact of valuing work as an attribute of honorableness and lack of options render the workers subject to domination. Most of the widows are highly religious and receive emotional, symbolic and material support from their families, the community and the union. There is a notable lack of concern and support for the families on the part of managers and public institutions. Advances in the organization of the union and improvement of the working conditions forced by the demands of export buyers have occurred recently.

Key words: Worker health, Work in the ornamental stone sector, Fatal work accidents


 

 

Introdução

Neste artigo, analisamos alguns dos impactos sociais que vêm gerando a ocorrência de acidentes de trabalho fatais no setor de rochas ornamentais, no sul do Estado do Espírito Santo. Trata-se especificamente de compreender a situação criada para as famílias de trabalhadores vítimas desses acidentes que moram na pequena localidade de Itaoca, distrito do município de Cachoeiro do Itapemirim (ES), considerado a "capital do mármore do Brasil". Tal localidade, de 5.000 habitantes aproximadamente, cuja economia está alicerçada fundamentalmente na extração de mármore e granito, tornou-se conhecida com a designação de "Vila das Viúvas", expressão usada pela imprensa regional, devido ao grande número de mulheres que perderam seus maridos e residem em suas estreitas ruelas. Por muitas delas, ainda de terra batida, escoam-se toneladas de pedras. Um tom enevoado de pó de mármore encobre a paisagem local. É intensa a movimentação de caminhões que circulam por suas estradas íngremes e precárias, carregando perigosamente pesados blocos, chapas de mármore e pedras marruadas.

O setor de mármore abrange as seguintes atividades: trabalho de extração de blocos, realizado nas pedreiras; transformação dos blocos em chapas de mármore, nas serrarias; beneficiamento para a fabricação de produtos utilizados na construção civil, nas marmorarias e produção de pó de calcário com pedras refugadas da extração, nas moageiras. Estima-se que existam mais de 1.600 empresas em todo o Estado, na maioria pequenas e médias, das quais 1.200 aproximadamente estão localizadas no município de Cachoeiro de Itapemirim. Os acidentes de trabalho, nesse setor, resultam da exposição a graves situações de risco, como: explosões de dinamite, maquinário obsoleto, postos de trabalho em grandes alturas usando pesados marteletes, transporte e manobra de toneladas de mármore, caminhões que "pegam no tranco" e desmoronamentos de pedras.

Entre 1996 e 2004, ocorreram setenta e três acidentes fatais com trabalhadores dessa categoria no Estado, representando uma média anual de 8,1, num universo de vinte mil trabalhadores1. Uma característica desses acidentes é o estado lastimável em que ficam os corpos dos acidentados, comumente esmagados por pedras ou dilacerados por dinamite. Uma parte considerável dos óbitos acontece em pedreiras clandestinas, sem o devido registro no Departamento Nacional de Produtos Minerais (DNPM) e sem fiscalização do Ministério do Trabalho. Num lugar onde prevalece esse tipo de trabalho perigoso e penoso, há apenas um posto de saúde e nunca houve ações de vigilância em saúde do trabalhador.

A população de Itaoca, quatro décadas atrás, vivia num mundo eminentemente rural. Gradativamente, por meio do trabalho no mármore, vem-se forjando uma cultura típica de trabalhador assalariado urbano, regida por valores e princípios fundados no tripé "família, trabalho e localidade"2. Esse processo de transição cultural se reflete, na última década, num maior grau de mobilização pelo reconhecimento de direitos fundamentais.

 

Material e método

Trata-se de pesquisa de cunho qualitativo, cujo intuito foi compreender, além das diversas implicações para as famílias vitimadas por acidentes fatais, as significações e os valores próprios daquele grupo, bem como os paradoxos e as contradições, que sustentam a convivência com essa trágica realidade.

Os temas norteadores referiram-se aos aspectos seguintes: informações sobre o acidente e interpretação de suas causas; modo de agir da empresa em relação à observância dos direitos; assistência e apoios sociais recebidos para enfrentar as adversidades decorrentes do acidente; meios encontrados para se recuperarem (ou não) das conseqüências da perda do familiar; recursos materiais, simbólicos e afetivos para superar o evento.

Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com: quatro viúvas e uma mãe de vítimas de acidentes fatais; dois trabalhadores que sofreram acidentes graves e suas respectivas esposas; dois diretores do Sindicato dos Trabalhadores do Mármore, Granito e Calcário (SINDIMARMORE). As entrevistas com os sindicalistas tiveram como intuito compreender a posição do sindicato frente aos problemas vividos pelas famílias e esclarecer uma série de situações relatadas pelas mulheres referentes aos processos de trabalho desse setor ou a determinadas particularidades da localidade.

As entrevistas, após o consentimento esclarecido dos participantes, foram gravadas e transcritas literalmente. A análise do material coletado foi realizada a partir do agrupamento das categorias empíricas que emanaram dos discursos dos informantes, com vistas a compreender a lógica interna que rege o pensar e o agir das famílias estudadas. Para tanto, realizou-se uma análise temática, buscando descobrir os núcleos de sentido3 presentes ou subjacentes no discurso que denotam estruturas de relevância, valores de referência e modelos de comportamento.

 

Descrição e análise de resultados

A pesquisa proporcionou a discussão de diversas temáticas peculiares à cultura e aos impactos sociais dos acidentes fatais na indústria de mármore em Itaoca. Analisaram-se os seguintes núcleos de sentido: informações sobre a cultura familiar; vivência e experiências de lutos familiares provocados pelos acidentes; o sofrimento e a resignação; apoios recebidos; o ancoradouro da religião; posicionamento das empresas em relação aos acidentes fatais; papel do sindicato na conquista de direitos.

Informações sobre a cultura familiar

As famílias entrevistadas têm em comum o fato de se constituírem de maneira mais extensa e abrangente do que as nucleares convencionais. A maioria dos casais tem três ou quatro filhos. Avós, adultos e crianças convivem muitas vezes numa mesma habitação, em duas casinhas num mesmo terreno ou em casas de dois andares.

Vários familiares apontaram a rede de vizinhança, de amigos e, mesmo, a "comunidade" como fatores de bem-estar, de consolo e de obtenção de facilidades nas horas difíceis, referindo-se aqui aos casos de acidentes fatais ou mutilantes, conforme relato: "Não posso reclamar dos meus vizinhos, na hora que eu mais precisei, eles me ajudaram, abaixo de Deus foi eles". A convivência estreita, solidificada com ajudas mútuas, não exclui eventuais desavenças, reveladas em expressões como: "sem comentários", "aqui todo mundo sabe de tudo" ou "negócio de fofoca em lugar pequeno é fogo!". Ainda assim, a valoração positiva do lugar predominou nos discursos de familiares e acidentados.

Os moradores não gostam do nome de "Vila das Viúvas" para designar sua comunidade. Segundo seus depoimentos, o termo transmite a idéia de um lugar de mortos, aleijados e assemelhados. No entanto, quando incitados respondem com naturalidade: "nessa rua, qualquer lado que você for tem uma vítima da pedreira". Apontam problemas, que não são poucos: poluição, degradação do meio ambiente e ausência de outras opções de trabalho, a não ser na extração do mármore.

Em Itaoca, faltam investimentos públicos em saúde, educação e saneamento básico, apesar de, segundo alguns moradores, aí serem arrecadados 40% dos impostos do município. A situação de descaso contrasta com o tratamento dispensado em outros municípios onde foram instaladas grandes empresas, como o caso da mineração de ferro da Companhia Vale do Rio Doce em Itabira (MG)4 ou de produção de celulose em Aracruz (ES)5.

Acostumadas ao papel feminino tradicional, o sucesso familiar é vivenciado pelas mulheres da localidade quando o esposo, a partir da inserção no trabalho assalariado, lhes permite responsabilizar-se pelo cuidado dele e dos filhos. A ausência do marido, na ocorrência de um acidente fatal, causa vários abalos ao ritmo de vida: perda do pai-provedor; maior escassez do orçamento doméstico; desequilíbrio na educação dos filhos e nas relações familiares. Essa divisão de papéis, como parte da cultura da classe trabalhadora tradicional 6, também foi relatada em estudo realizado na localidade portuguesa de Pardais7 que, de modo semelhante, vive da extração do mármore.

Mortes anunciadas

A notícia de um acidente numa pedreira corre rápida. O lugarejo é pequeno e todos sabem que "o que tem ali é feio" e pode acontecer a qualquer momento: "acidente em pedreira não tem voz ativa, não. Pode estar bom, pode estar ruim, o cara cai mesmo". Para os trabalhadores, é como se houvesse uma determinação da fatalidade por sobre as vontades dos sujeitos. Portanto, só restaria esperar o choque e o estupor da notícia cotidianamente temida.

É recorrente a menção, pelos entrevistados, de outros eventos acidentários ou de situações que antecederam à ocorrência do acidente fatal. É como se o passado se reconstituísse no percurso de um fato previsível: Mas antes dele morrer ele já tinha sofrido um acidente na mesma pedreira, com sete meses de trabalho. Eles deram fogo lá, uma carga muito grande que atirou uma pedra muito longe que atingiu uma caçamba velha que estava num canto. Eles ficavam embaixo dela se protegendo do fogo. A pedra veio, pegou na caçamba e prendeu meu marido debaixo. Ele ficou mais de uma semana cuspindo sangue, andando todo torto. Quebrou costela, ficou todo cheio de hematoma, perna, costas, porque essa pedreira quando não mata deixa seqüelas muito grandes no ser humano. (Viúva 1)

Nas conversas mais privadas com suas mulheres, os trabalhadores manifestaram a noção clara do perigo que corriam e expressaram seus medos: Ele sempre falava assim: eu vou parar de trabalhar nessa pedreira porque essa pedreira está muito perigosa. Eu ia até pedir um pra ir lá orar aquela pedreira [...] Tinha medo antes de acontecer o acidente. Sempre chegava aqui e falava: ah, nega, eu estou trabalhando num lugar lá tão perigoso. Sempre ele falava assim! (Viúva 3)

Como é comum nos processos mais arcaicos de extração de minério4, a gestão do risco junto aos trabalhadores das pedreiras, em lugar de focalizar a previsibilidade do acidente, interpela o trabalhador em sua masculinidade: Falou comigo uma vez que o encarregado mandou: vai embaixo daquilo ali pra limpar. Ele falou que estava perigoso. O encarregado perguntou se ele não era homem. Poucos dias depois aconteceu o acidente! (Viúva 3)

Por sua vez, para o trabalhador, o medo latente não pode sobrepassar a necessidade do cumprimento do dever e a responsabilidade para com a família. Sua alternativa é pedir demissão, continuar enfrentando os riscos ou esperar pela aposentadoria que pode ou não ocorrer se for colhido pelo acidente fatal: Eu acho que eu tinha mais medo porque o homem é obrigado a trabalhar. Eu acho que se ele tiver medo não consegue trabalhar. Talvez tem medo, mas não demonstra. Ele sempre falava: assim que eu aposentar eu não vou trabalhar em pedreira mais não. Só faltavam dois anos pra ele aposentar.

Para enfrentar o cotidiano adverso, a valorização da virilidade e da coragem frente às situações de risco induz os trabalhadores à construção de "ideologias defensivas"8, que redundam na minimização dos riscos reais, como se verificou também em estudo nessa mesma indústria9. As palavras de uma viúva remetem a algumas das justificativas habituais que sustentam a disposição diária de trabalhar e de enfrentar o trabalho perigoso em lugar de recusá-lo: Quando tem que acontecer alguma coisa acho que não tem jeito. Acontece em qualquer lugar. A gente corre risco em qualquer lugar. Ninguém quer morrer, ninguém tem esperança de morrer, todo mundo quer é viver! Então, desde que a pessoa está trabalhando, pode ser clandestino ou não, ele está vivo. Ele trabalha hoje, hoje ele vem embora, está vivo. Amanhã vem embora vivo, então a esperança dele é de progredir, nunca de morrer. (Viúva 1)

Quando o acidente acontece, até a sua causa imediata chega a ser desconhecida para a família: Eu não sei explicar, eu só sei que ele morreu na pedreira. Mas como foi exatamente eu não sei porque os responsáveis, pela pedreira, nenhum me deu assistência e ninguém explica nada direito. Um fala uma coisa, outro fala outra coisa. Não tem uma versão certa do que aconteceu. Não tenho. (Viúva 1)

Mas as mulheres e seus familiares sabem que faltam equipamentos de segurança e que as empresas mascaram as verdadeiras circunstâncias dos acidentes: Ele caiu da pedreira, só que como foi eu não sei. Segurança não tinha não. Ele reclamava comigo: nega, lá eles não estão dando nada a não ser a corda para gente se amarrar. Aí mandavam ele assinar uma folha como se ele tinha apanhado os negócios de segurança. Aí quando chegou no dia que ele caiu, eles foram e espalharam aquele monte de cinto de segurança, corda, luva, bota, aquele monte de negócio no chão. Aí passou na televisão no dia que ele caiu, aquele monte de negócio lá no chão. (Esposa de acidentado)

As versões sobre as fatalidades são sempre contraditórias e assim tendem a permanecer, pois os fatos dificilmente são apurados. Restam fragmentos de discursos ouvidos de colegas de trabalho e de sindicalistas, noticiados pela mídia ou comunicados oficiais da empresa: Dali ninguém viu nada, porque eu não apurei isso. Da prancha caiu e depois disseram que socorreram ele. Mas, uns falam que ele saiu vivo, outros falam que ele morreu na hora. A gente não sabe nem em que acreditar. (Viúva 2)

Nas descrições das fatalidades, são impressionantes as imagens usadas pelas famílias para descrever os níveis de destruição dos corpos após o acidente: "esmaga o sujeito", "fica feito uma folha de papel", "feito pedaços de homem", "quebra ele todo". Uma das viúvas refere: Eu já vi muito, eu já fui a muitos velórios de pessoas mortas pela pedreira, cada um pior que o outro. Você olha assim, um morre hoje, outro amanhã está pior do que aquele. Meu marido ficou em pedaços, tanto que a gente não pode nem colocar roupa nele. Ele foi sepultado enrolado num lençol, dentro de um caixão. Ele era alto, enorme, você olhava o caixão, você dizia assim, aquele que está morto ali não é o fulano. O caixão pequenininho, ele ficou totalmente irreconhecível. Estava com os dentes todos quebrados, o rosto todo mutilado. Não tinha cabeça, os meninos viram, todo mundo aqui viu! Um homem forte com quase dois metros. É horrível. Eu não gosto muito de ficar falando nesse assunto porque é pior. Mas às vezes a gente tem que falar, tem que desabafar! (Viúva 1)

Entretanto, morrer no trabalho, enfrentando o perigo - apesar da dramaticidade da destruição dos corpos - pode adquirir também outro sentido para as famílias e para a população local. E é precisamente no valor do trabalho, forjando a dignidade da pessoa, que esse grupo encontra significado para a vida e a morte de seus entes queridos. Como refere Rodrigues10, a morte para a civilização atual, constitui um tabu, algo a evitar ou com o qual não se sabe como lidar. Diferentemente, a comunidade de Itaoca vivencia a morte como parte do ciclo da vida. E os que morrem no trabalho são valorados justamente porque morreram "dignamente", de forma honrada (exatamente por estarem trabalhando). Tal fato pode ser ilustrado com o caso de uma família, que chegou a guardar e mostrar as fotos do parente acidentado no caixão e de outro familiar fotografado na hora do acidente.

Na memória cultivada, a virilidade e a coragem para enfrentar os riscos são enaltecidas às vezes como expressões de heroísmo: Ele subia em qualquer rampa, até de 30, 60 metros. Ele subia amarrado de corda e muitas pessoas não tinha coragem de subir. Aí o rapaz falou assim: graças a Deus que seu marido morreu em acidente. Porque ele foi um herói, que ele trabalhava, ele não tinha medo de trabalho, não tinha medo de perigo, ele era um homem muito corajoso. (Viúva 2)

Desta forma, as famílias recriam um mundo onde a valorização moral do trabalho, a condição de bom trabalhador, de pai provedor e exemplar dão sentido ao sofrimento atual. Essa elaboração da dor vem claramente expressa nas palavras da viúva: Eu mesma converso com meus filhos. Meus filhos, vocês tem que dar graças a Deus, porque é triste você saber que seu pai morreu na mão de um bandido, um tiro, uma facada. Isso é muito triste, da família ver e lembrar. Pelo menos vocês sabem que ele estava trabalhando, trazendo o pãozinho pra vocês comerem dentro de casa. Nesse caso, a imagem do falecido permanece no imaginário familiar, reproduzindo uma cultura de trabalho que certamente será seguida pelos filhos homens e terá influência na forma como as filhas organizarão sua vida conjugal: Todo mundo fala que ele morreu como um herói, porque ele morreu trabalhando, não morreu igual a um bandido. Era um homem trabalhador, nunca perdeu dia de serviço. Morreu na honestidade, dentro do trabalho dele. (Viúva 2)

Resignar-se para não sucumbir

Quando analisamos o discurso predominante entre as famílias dos acidentados, a resignação se transforma em estratégia de sobrevivência física e mental: A gente aprende a ser mais solidário, ser mais tranqüilo, porque se você ficar agitado, sempre ficar lembrando, quer se vingar, fica uma pessoa violenta. Eu acho que não vale a pena (Viúva 3). Essa maneira de dar sentido e continuidade à vida vem da experiência de fragilidade: o que eu tenho feito é só pensar, fiquei doente, ali tem um monte de remédio pra depressão, remédio pra dor. É só sofrimento, porque eu era uma pessoa que vivia tranqüila, trabalhava na colheita de tomate, e aquele menino ali estudava, depois trabalhava comigo na colheita do tomate. Meu marido morreu e eu não pude mais trabalhar. Eu não tive estrutura nenhuma pra trabalhar. (Viúva 1)

Para as viúvas, as reações dos filhos constituem fonte de preocupações, ao mesmo tempo em que tempera sua fibra para agüentar as dificuldades: "A minha menina caçula fala que prefere morrer. Chama ele para vim buscar ela, você precisa de ver. É uma tristeza só" (Viúva 3). Assim como: "As crianças ficaram muito mal na escola. Meu menino também era muito agarrado com ele, ficou doente. Tive que levar no médico, ele falou que aquilo era emocional" (Viúva 2). Uma vez passado o choque inicial causado pela notícia do acidente, vão se reconstruindo afetiva e materialmente de acordo com as condições em que se encontrava o trabalhador no momento do acidente.

As situações de maior sofrimento e abandono ocorrem com as famílias dos acidentados sem contrato formal de trabalho, como pode ser observado neste relato indignado de uma viúva: Não trabalhava de carteira assinada, mas estava com os documentos todos prontos para tirar carteira. Só que ele morreu antes. Trabalhava lá há sete meses. Então, é isso o que sei, que ele morreu lá e o responsável pela pedreira recusou a assinar carteira. E agora eu estou tendo trabalho porque botei na justiça e estou correndo atrás disso, sem pensão e sem assistência. O dono da pedreira é um picareta, um irresponsável. (Viúva 1)

A despeito das adversidades, as famílias, particularmente as mulheres, e até os acidentados que conseguiram sobreviver, mas ficaram incapacitados para o trabalho, buscam intensamente superar os impactos iniciais do acidente sobre o curso normal de suas vidas. As mães dizem que precisam se "aprumar" em função dos filhos. E todos os entrevistados testemunham uma maior união entre os membros das famílias e muitas expressões de solidariedade por parte dos parentes.

No processo de dar continuidade aos modos de andar a vida, as famílias encontram o apoio e o alento em crenças e práticas religiosas. Em consonância com Geertz11, constatamos que o suporte religioso torna as dificuldades e fatalidades da vida passíveis de serem suportadas: Eu oro muito à noite, de manhã. A minha força mesmo vem de Deus. Tem colegas, amigas que me apóiam muito, me ajudam, até mesmo em recursos materiais. É daí que vem a minha força, primeiramente de Deus, e depois dos meus amigos. (Viúva 3)

A força da crença religiosa aparece também no relato de outra viúva, da forma como recebeu a notícia do acidente: Deus já falou comigo no meu ouvido que eu ia ficar viúva. Aí eu falei com minha vizinha (que lhe deu a notícia do acidente) não precisa chorar, não, eu estou preparada. E Deus me preparou mesmo! (Viúva 2)

Mas o sentimento religioso não é um fenômeno que surge com o infortúnio, ele faz parte do dia-a-dia dessa comunidade, informando a maneira como o cotidiano de risco é pensado e vivido: Eu ia até pedir um para ir lá orar aquela pedreira. Porque está muito perigoso, a gente vê cada coisa! Eu falei assim (para o marido), bota Deus em primeiro lugar, você pede a Deus do momento que você está ali, pra Deus te guardar. (Viúva 2) Outras expressões e atitudes também são reveladoras: "Deus vai tomar conta", referindo-se à situação da família. "Entrego na mão de Deus que vai fazer a justiça verdadeira... Fica na mão de Deus, vamos ver o que vai dar agora a indenização", falando sobre o advogado contratado para conseguir seus direitos. "Eu pedi muito a Deus pra não entrar em depressão", referindo-se à busca de forças espirituais para não sucumbir ao sofrimento. Outra dimensão desse sentimento religioso diz respeito aos patrões: "Eu não guardo raiva de ninguém. Peço a Deus por eles também".

Assim, junto com o apoio mútuo dos membros familiares e a solidariedade dos amigos, a religiosidade ocupa um papel importante no enfrentamento da morte de entes queridos e é também um valor estruturante da cultura dessa população, que restaura a ordem necessária para continuar vivendo de forma digna e reconhecida.

Posicionamento das empresas em relação aos acidentes e acidentados

As famílias dos trabalhadores mortos acabam aceitando os acidentes como algo inerente ao processo de trabalho de extração de pedras. Seus discursos refletem o dilema dos trabalhadores expostos cotidianamente a situações perigosas, cujas atitudes oscilam entre garantir a sobrevivência ou correr do risco de morte. Uma das viúvas interpreta essa situação problemática quando diz: "Se a gente for lá e parar uma firma, quantas crianças não vão morrer de fome?" (Viúva 2). Mas, após os acidentes fatais, outra das entrevistadas assinala uma visão diferente: "É melhor um desempregado vivo do que um empregado morto" ou "se essa pedreira estivesse fechada, ele estaria vivo" (Viúva 1).

Diante dos desfechos de morte, um dos maiores sofrimentos das famílias é a reação quase sempre indiferente e escamoteadora dos patrões. Para eles, numa concepção típica da moral operária, para a qual Thompson12 chamou atenção, deveria haver lealdade e reciprocidade dos empresários com o empregado que deu sua vida pelo trabalho. Daí, o sentimento de indignação perante as expectativas frustradas de solidariedade dos patrões: "Não veio aqui perguntar se a gente estava precisando de alguma coisa, se queríamos que pagasse um aluguel, uma água, uma compra" (Esposa de acidentado). No mesmo sentido, outros depoimentos evidenciam o mesmo padrão: Se esse homem fosse realmente um ser humano, se não fosse um picareta igual ele é, eu mais os meus filhos não estaríamos passando essa situação toda. Se ele não fosse um bicho, um monstro, ele mesmo reconheceria, não precisava de eu ter ido procurar ele e ser humilhada. (Viúva 1)

Por tratar-se de uma localidade sem tradição de movimentos operários, as relações entre trabalhadores e patrões ocorrem geralmente num sistema de troca de favores e de compadrio e esse é um motivo a mais que fundamenta a revolta das famílias. Na sua visão, seria de se esperar que o empregador confortasse e amparasse a viúva, ao menos até que uma pensão lhe fosse concedida: Porque quando o empregado tem o patrão que considera ele como ser humano, a obrigação do patrão é procurar a viúva e conversar. Não é esperar a viúva se descontrolar, procurar a justiça e lutar sem condições de sobreviver para poder ganhar um dinheirinho e tratar dos filhos. (Viúva 1)

Assim, quando acontece um acidente, o conflito entre capital e trabalho, camuflado por relações aparentemente de compadrio, se desvela em todas suas contradições. O compadre/patrão não consola a família, ao contrário, deixa-a ao léu e revela-se interessado tão somente em eximir-se dos danos pelo ocorrido. Em conseqüência, as viúvas e os familiares vêm-se compelidos a ter que buscar na justiça o caminho para seus direitos. A frustração é maior quando, contrariamente, o patrão qualifica de ingratidão o fato de a família recorrer à justiça trabalhista, como se ela devesse se conformar com a falta de condições de sobrevivência: Veio aqui, falou desaforo comigo, me jogou uma porção de coisa na cara. Ele não é um patrão ruim não, se o meu marido precisava de dinheiro, ele estava pronto para ajudar. Ele emprestou dinheiro para comprar geladeira. Mas isso tudo ele me jogou na cara. Eu falei assim: eu sei que você ajudou, mas não foi de graça, meu marido te pagou tudo o que ele apanhou com você. E ele trabalhou muitos anos com você e era para você reconhecer um pouco. (Viúva 3)

"Correr atrás dos direitos" também fica difícil para uma viúva cujos filhos continuam trabalhando na empresa em que seu marido se acidentou. O temor de represálias - como a demissão deles - acrescenta um dano maior à falta do pai provedor, numa localidade onde as oportunidades de trabalho são escassas: Os filhos trabalhavam na pedreira. Como o patrão não falou nada em indenização, eu fui à delegacia e consegui esse advogado lá. Ele soube que eu tinha corrido atrás. Ele mandou meus dois meninos embora por causa disso. E demoraram muito para conseguir serviço. (Viúva 3)

Algumas famílias chegam a ficar totalmente intimidadas com insinuações dos patrões sobre os riscos a que se exporiam ao recorrer à justiça: A indenização até hoje nada. Vieram aqui em casa me ameaçar, ameaçaram minhas filhas. Se nós corrêssemos atrás de alguma coisa ia dar problema. Mas até hoje também não resolveu nada da indenização (Viúva 3). Isso ocorre também com os colegas de trabalho do falecido. Ameaçados de demissão, caso deponham a favor da família, são compelidos a testemunhar a favor da empresa: Até o próprio colega dele que era amigo de criança falou que não conhecia ele. Inclusive teve um vizinho meu aqui, com quem a gente passa até festa de Natal junto, ele foi testemunha uma vez e agora não quis mais. A firma comprou ele para ele não ser testemunha, porque ele viu a morte do meu marido. (Viúva 2)

As dificuldades para depor a favor da família vitimizada são mitigadas, às vezes, pela moral religiosa de colegas do falecido, como conta a viúva: Ele [um colega de trabalho de seu marido] fala comigo: vou testemunhar com você até a morte. O que eu falar é verdade porque eu sou cristão e eu gosto da verdade. Na hora que você precisar, eu estou junto. Ele sabe o sacrifício que eu estou passando, entende? Eu acho que ele se coloca assim: já pensou se minha mãe tivesse passando por isso?

A falta de compromisso das empresas proprietárias ou arrendatárias das pedreiras com as famílias, após os acidentes, tem sido a tônica dominante, quase nenhuma assume a responsabilidade pelos danos causados. Em geral, como observaram alguns dos entrevistados, os patrões "ficam bicudos" frente à mobilização das famílias em busca de seus direitos.

Alguns empresários, no entanto, parecem ir se diferenciando dos demais e já se empenham em cumprir a legislação, principalmente porque o sindicato, organizado a partir de 1991, reivindica normas de segurança no trabalho e as empresas são pressionadas pela necessidade de obter a certificação de qualidade exigida para exportação de mármore. Essa pressão externa vem sendo bem acolhida por algumas empresas, levando a que as famílias comecem a fazer diferenciações: "Eu não vou botar todo mundo no bolo. Porque tem muito patrão responsável e tem muitas empresas que resolvem os problemas". De qualquer forma, em relação aos acidentes fatais que tivemos a oportunidade de pesquisar, soubemos apenas de um empresário que atendeu prontamente a família, oferecendo-lhe inclusive um seguro de vida.

Papel do sindicato na conquista dos direitos trabalhistas

O papel do sindicato é hoje reconhecido pelas viúvas e familiares dos acidentados, pois se tornou seu aliado na reivindicação dos direitos, como pode ser constatado nos depoimentos seguintes: O pessoal do Sindimarmore se ofereceu para ajudar em tudo que pudesse. Eles estenderam a mão de uma maneira que eu nem conhecia. Eu nem imaginava que existia esse negócio de sindicato, essas coisas, e eles entraram assim de uma maneira, como se a gente já se conhecesse há anos, e ajudaram a gente. (Esposa de acidentado grave)

Eu tenho que falar uma coisa para você: se não fosse esse Sindimarmore também eu tinha passado fome. Eu sou uma das vítimas que não posso reclamar de nada. Eu fui muito bem atendida, tanto por aqueles sócios quanto pelo advogado. Eles me ajudaram muito. (Viúva 1)

Na trilha de maior organização dos trabalhadores, suas causas se tornaram mais visíveis. Em janeiro de 1999, a Rede Globo de Televisão transmitiu uma série de reportagens, mostrando o cotidiano de trabalho e os acidentes na atividade de extração de mármore no sul do Estado. Também o jornal A Gazeta (de grande circulação em todo o estado do Espírito Santo) publicou reportagem sobre a realidade de trabalho e da vida em Itaoca. Em rede nacional, a sociedade tomou conhecimento das condições de trabalho e das muitas viúvas de Itaoca com seus dramas e sua dor. Não há mais como escamotear uma realidade de trabalho que ganha horário nobre na televisão, por isso as empresas maiores estão tendendo a obedecer às leis trabalhistas e de segurança. No entanto, os acidentes migraram para as empresas clandestinas e de extração de pedras marruadas. Nelas, reproduz-se no cotidiano a informalidade e a improvisação. Nas pedreiras clandestinas, as mineradoras que detêm o decreto de lavra arrendam a pedreira para ex-empregados que as exploram sem nenhum critério de segurança, sem preocupação com a saúde, a vida do trabalhador e o meio ambiente. Diferentemente do início da atividade no setor, tais empresas enfrentam atualmente a organização sindical empenhada em garantir o direito à saúde e a vida dos trabalhadores da categoria.

 

Considerações finais

Tentamos compreender o surgimento de uma chamada "Vila das Viúvas" na localidade de Itaoca. A vivência das famílias face aos acidentes de trabalho incapacitantes e fatais evidenciam os problemas e as contradições existentes, tanto no processo de produção como de reprodução. As famílias criticam o processo de trabalho na extração de mármore e, ao mesmo tempo, se orgulham de aí operarem. Reconhecem a exploração que sofrem, mas se resignam e encaminham seus filhos para o mesmo tipo de atividade. Resignam-se e servem-se da resignação como forma de resistência e superação da dor. As viúvas abominam os patrões por não terem sido tratadas como parte de sua família e os respeitam porque é deles que esperam o emprego do qual tiram o sustento.

A mulher, englobada pela figura do homem provedor, não o substitui, quando viúva. Sua tarefa reside nos valores ligados à casa, aos cuidados cotidianos e à função de manter a família ainda mais unida. Por isso, é tão importante obter os direitos ao seguro e à pensão.

O discurso do heroísmo, tanto em vida, enfrentando os perigos, quanto na morte digna e honrada revela alguns dos caminhos tortuosos pelos quais os valores e a cultura dessa população contribui para uma noção fatalista, tanto do processo do trabalho quanto da aceitação resignada de grande número de acidentes ali ocorridos.

Faz parte desse contexto a crença no suporte religioso para a vida cotidiana e para os desafios promovidos pelos acidentes fatais. Apesar da fé, da solidariedade e do apoio sindical, a vida das viúvas de Itaoca é marcada pelo sofrimento, pelo silêncio. O re-ordenamento da sua vida cotidiana, tangida a partir da tragédia, lhes exige um novo olhar para o mundo. E seria muito importante que pudessem contribuir para uma melhor gestão dos riscos, voltada para a vida e não para a morte.

A mudança nas relações e condições de trabalho dependerá cada vez mais do movimento dos trabalhadores e das pressões externas. Para a família dos acidentados, urge que os efeitos sociais do acidente fatal no setor de rochas se tornem uma questão importante para os poderes públicos que têm por obrigação proteger a vida humana. E, sobretudo, é preciso que o conjunto de atores - empresários, trabalhadores, familiares, sindicato e instâncias públicas - avancem de modo que o acidente de trabalho fatal ou mutilante seja uma absoluta exceção ou real fatalidade.

 

Colaboradores

MGB Moulin participou de todas as etapas, desde a concepção, coleta e análise dos dados à redação do artigo e C Minayo-Gomez participou da concepção do estudo, da interpretação dos resultados e na elaboração final do artigo.

 

Referências

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2. Duarte LFD. Da vida nervosa nas classes trabalhadoras. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1986.         

3. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Abrasco; 2006.         

4. Minayo MCS. De ferro e flexíveis: marcas do Estado empresário e da privatização na subjetividade operária. Rio de Janeiro: Garamond; 2004.         

5. Piquet R. Cidade-Empresa: presença na paisagem urbana brasileira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1998.         

6. Hoggart R. Utilizações da cultura. Lisboa: Editorial Presença; 1973.         

7. Almeida MV. Senhores de si: uma interpretação antropológica da masculinidade. Lisboa: Fim de Século Edições; 1995.         

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9. Moulin MGB, Reis CT, Wenichi GH. No meio do caminho havia uma pedra - organização do trabalho e saúde no processo de extração e beneficiamento de mármore. In: Kiefer C, Fagá I, Sampaio MR, organizadores. Trabalho, Educação e Saúde: um mosaico em múltiplos tons. Vitória: Fundacentro; 2000. p. 221-240.         

10. Rodrigues JC. Tabu da morte. Rio de Janeiro: Achiamé; 1983.         

11. Geertz C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 1978.         

12. Thompson EP. The moral economy of the English crowd in the eighteenth century. Past and present 1971; 50:27-39.         

 

 

Artigo apresentado em 02/05/2007
Aprovado em 15/05/2007
Versão final apresentada em 10/09/2007

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