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Contaminação por Bacillus cereus em superfícies de equipamentos e utensílios em unidade de alimentação e nutrição

 

Contamination by Bacillus cereus on equipment and utensil surfaces in a food and nutrition service unit

 

 

Renata Aparecida MendesI; Ana Íris Mendes CoelhoI; Raquel Monteiro Cordeiro de AzeredoI

IDepartamento de Nutrição e Saúde, Universidade Federal de Viçosa. Avenida Peter Henry Rolfs s/n. 36570-000 Viçosa MG, E-mail: renata.mendes@ufv.br

 

 


RESUMO

A constatação de que Bacillus cereus é um microrganismo que constitui problema especial em plantas de processamento de alimentos, dentre as quais se incluem restaurantes universitários, levou a realização deste trabalho, que teve como objetivo contribuir para a avaliação de riscos a que se expõem os usuários de cozinhas de grande porte, por meio da identificação de pontos do ambiente, a partir dos quais o microrganismo pode ser transferido aos alimentos. A presença de B. cereus foi detectada em 38,3% das amostras de equipamentos e utensílios estudados. As contagens atingiram até 5,7x102 UFC/cm2, sendo que os valores mais elevados foram obtidos a partir de amostras dos setores de distribuição, indicando a importância destes locais como fontes potenciais de transmissão do microrganismo para os alimentos.

Palavras- chave: Bacillus cereus, Equipamentos, Utensílios, Contaminação de superfícies, Unidade de alimentação e nutrição


ABSTRACT

The confirmation that Bacillus cereus is a microorganism that represents a special problem in food processing plants, such as university cafeterias, inspired this work, the scope of which was to evaluate the risks consumers are exposed to by identifying the contamination points from whence the microorganism can be transferred on to food. The presence of B. cereus was detected in 38.3% of the equipment and utensils studied. Counts of up to 5.7x10 2 CFU/cm2 were found, with the highest values being found in samples from distribution sectors, indicating the importance of these areas as potential sources of microorganism transmission on to food.

Key words: Bacillus cereus, Equipments utensils, Surface contamination, Food and nutrition service


 

 

Introdução

As doenças de origem alimentar são amplamente reconhecidas pelos efeitos agudos no trato gastrintestinal. Outros sintomas também podem ocorrer e, em alguns casos, a gravidade pode ser tal que os doentes chegam a óbito1. Os agentes etiológicos dessas enfermidades também podem causar doenças crônicas, que ocorrem independentemente ou acompanhadas de sintomas agudos. Muitos dos processos crônicos apenas recentemente têm sido associados a patógenos de origem alimentar2. Os custos decorrentes dessas doenças são enormes, em termos de tempo, sofrimento das pessoas, gastos com médicos e mortes ocorridas1,3.

As Unidades de Alimentação e Nutrição (UAN), no Brasil, são locais onde se identifica grande parte dos surtos de doenças de origem alimentar4, sendo o Bacillus cereus um dos agentes etiológicos implicados. Os dados relativos a intoxicações alimentares atribuídos a esse microrganismo são escassos5, porém permitem deduzir sua importância epidemiológica como agente etiológico dessas doenças.

Os alimentos são contaminados por B. cereus durante o manuseio, processamento, estocagem ou distribuição, podendo o microrganismo crescer e determinar a ocorrência de doenças de origem alimentar6, que se manifestam sob a forma de duas síndromes, uma emética, que é similar à causada pela enterotoxina produzida por Staphylococcus aureus, e outra diarreica, semelhante à causada pela enterotoxina de Clostridium perfringens7. A ocorrência de ambas as síndromes está associada, geralmente, ao consumo de alimentos previamente submetidos a tratamento térmico, de forma que, alimentos cozidos e mantidos sob temperaturas que permitam a germinação dos esporos e multiplicação das células, são altamente importantes fontes do microrganismo ou de suas toxinas8. Entre os alimentos mais freqüentemente contaminados por B. cereus estão os cereais e derivados, produtos de laticínios, carnes, alimentos desidratados e especiarias9. Alguns estudos têm demonstrado a habilidade do microrganismo de crescer em temperaturas de refrigeração em vários substratos10,11.

O isolamento do microrganismo pode ser feito a partir de equipamentos e utensílios utilizados no pré-preparo, preparo, cocção e distribuição dos alimentos, evidenciando que processos de limpeza e sanitização, quando realizados de maneira inadequada, podem contribuir para que estes locais sejam fontes de contaminação dos alimentos. Segundo Andrade e Macedo12, equipamentos e utensílios mal higienizados têm sido freqüentemente incriminados, isoladamente ou associados com outros fatores, em surtos de doenças de origem alimentar.

Cozinhas de grande porte, como é o caso do restaurante onde foi conduzido o presente trabalho, são ambientes propícios ao crescimento de B. cereus, isto porque grandes lotes de alimentos passam por longos períodos de resfriamento e tempos de espera, entre preparo e consumo. Além disso, os processos que garantem a sanitização de áreas, utensílios e equipamentos, freqüentemente são operados de forma precária, por motivos econômicos ou por deficiências da mão-de-obra. Tais observações sugerem a necessidade de um estudo que avalie os riscos de exposição ao microrganismo a que os usuários da unidade estão expostos, por meio da identificação de pontos do ambiente a partir dos quais este pode ser transferido aos alimentos.

 

Metodologia

O trabalho foi realizado em restaurante de uma universidade pública do estado de Minas Gerais. Avaliou-se a contaminação de 24 utensílios e 6 equipamentos, utilizando-se o método da esponja13. Esponjas de poliuretano, de aproximadamente 5 x 5 cm, após terem sido esterilizadas (121ºC por 15 minutos), foram umedecidas em água peptonada estéril a 0,1% (p/v) e friccionadas nas superfícies, para a coleta das amostras. Nas tábuas de polietileno, tabuleiros de aço inoxidável e carrinhos isotérmicos basculantes, a coleta se deu em 5 áreas de 50 cm2 cada e nos demais utensílios e equipamentos, sobre toda área que entra em contato com o alimento.

Em cada utensílio e equipamento selecionado foram feitas duas coletas de amostras para análise, obtidas após o procedimento de higienização usado na rotina de produção da unidade. Entre os utensílios analisados, apenas as bandejas estampadas eram higienizadas mecanicamente enquanto que para os demais utensílios e equipamentos, o processo era manual. As amostras foram imediatamente levadas ao laboratório, onde foram preparadas diluições decimais seriadas (10-1 e 10-2), com semeadura em placas de Petri contendo ágar vermelho de fenol-gema de ovo-manitol-polimixina B (Ágar MYP ou meio de Mossel). Após a incubação a 30º C por 18 a 24 horas, foi feita a contagem e isolamento de exemplares típicos de B. cereus. A confirmação dos isolados foi feita de acordo com a metodologia proposta pela agência governamental americana FDA (Food and Drug Administration), descrita por Azeredo8. As contagens foram expressas em Unidades Formadoras de Colônia por cm2 (UFC/cm2).

 

Resultados e Discussão

A presença de B. cereus foi detectada em 38,3% do total de amostras de superfícies de utensílios e equipamentos analisados (Tabela1). Este microrganismo também foi detectado por Silva Jr. e Martins14 em 23% dos moedores de carne, 20% dos copos de batedeira, 12% das facas de cozinha, 25% das espátulas, 11% das escumadeiras, 14% das conchas e 14% das pás, dentre os diferentes tipos de equipamentos e utensílios avaliados a partir de cozinhas industriais de São Paulo.

Foi observada desde a não detecção do microrganismo até valores de 5,7x102 UFC/cm2, sendo as contagens mais elevadas obtidas a partir de amostras de utensílios do setor de distribuição (Tabela1). Uma vez que a legislação brasileira não estabelece limites para a contagem do microrganismo em superfícies de processamento de alimentos15, utilizou-se como referência para análise dos resultados obtidos a recomendação de Silva Jr.16, que é a ausência desse microrganismo em 50 cm2 da amostra. Verificou-se que 38,3% das amostras de utensílios e equipamentos analisados não atendiam a essa recomendação.

A presença de B. cereus nas amostras analisadas pode ser conseqüência de falhas no processo de higienização utilizado no restaurante, que era constituída pela etapa de limpeza, mas não necessariamente possuía uma etapa de sanitização. Considerando a análise de utensílios de mesa, representados por bandejas de aço inox estampadas, constatou-se a presença de B. cereus em 50% das amostras. Entre utensílios e equipamentos de preparação, a contagem de B. cereus até 4,5x101 UFC/cm2 foi identificada (Tabela 1). Ao classificar os utensílios de acordo com o risco de causar toxinfecção alimentar, Silva Jr.16 considera os acessórios de mesa (pratos, bandeja estampada, garfo, faca, colher, copo de vidro) como utensílios de baixo risco, porque entram em contato com o alimento apenas durante o consumo, não havendo tempo suficiente para que haja reprodução do patógeno e, eventualmente, produção de toxina. Já os utensílios e os equipamentos de preparação são classificados como sendo de alto risco, por permanecerem em contato direto com os alimentos por períodos de tempo expressivos.

Outro aspecto importante na análise desses resultados é que esporos de B. cereus possuem uma pronunciada habilidade de adesão ao aço inoxidável, que é um material comumente encontrado em equipamentos e utensílios. As células aderidas podem, subseqüentemente, formar biofilmes, tornando-se mais resistentes aos sanificantes, o que pode representar um problema adicional17,18. Entretanto, Guinebretiere et al. 19 verificaram a ausência de B. cereus na superfície de equipamentos analisados da linha de processamento de um produto de origem vegetal, constatando a eficiência dos processos de limpeza e sanitização utilizados, especialmente devido ao uso de esporicidas adequados para este microrganismo, indicando que esta fonte de contaminação pode ser perfeitamente controlada. Este patógeno foi detectado em 27% das amostras de bancadas de aço inoxidável desta UAN em estudo realizado anteriormente, que demonstrou ser o setor de preparo de massas o único ponto, entre os avaliados, onde não houve o isolamento do microrganismo20.

Outros autores também relataram condições higiênico-sanitárias insatisfatórias de equipamentos e utensílios a partir de estudos realizados em UAN, como Chesca et al. 21 que consideraram adequadas, apenas 10% das amostras avaliadas numa UAN localizada no Estado de Minas Gerais. A avaliação das condições microbiológicas de utensílios e equipamentos utilizados em três restaurantes self-service no Estado do Espírito Santo revelou que os mesmos não atendiam às recomendações americanas para coliformes totais e fecais. Os autores sugeriram que os restaurantes deveriam atuar de forma preventiva no sentido de evitar riscos à saúde dos usuários, uma vez que a contaminação de equipamentos e utensílios é um fator que contribui com grande freqüência na ocorrência de surtos de doenças de origem alimentar22. Em outro estudo realizado para avaliar a qualidade sanitária de equipamentos, superfícies, água e mãos de manipuladores de alguns estabelecimentos que comercializam alimentos também foram constatados altos índices de contaminação, especialmente em equipamentos e mãos de manipuladores23. O estado de conservação de utensílios como tábuas de corte e a dificuldade de higienização podem ter contribuído para os resultados insatisfatórios para 62,5% das amostras de equipamentos e utensílios em análise de condições higiênico-sanitárias de uma UAN24.

Considerando que o microrganismo foi isolado a partir de amostras de equipamentos e utensílios obtidos de diferentes setores da UAN (Tabela 1) e as características de Bacillus cereus quanto à resistência de esporos e a capacidade de adesão a superfícies é importante que a UAN utilize preventivamente procedimentos operacionais padronizados para adequada higienização desses materiais analisados. O controle desse patógeno na unidade requer, ainda, medidas mais abrangentes como o monitoramento das demais fontes potenciais de contaminação incluindo ar, água e demais superfícies que entram em contato com esses equipamentos e utensílios.

 

Conclusão

Apesar de não ter sido observada a presença de B. cereus na maior parte dos utensílios e equipamentos analisados, deve-se salientar que, em se tratando de um microrganismo patogênico, a sua simples detecção no ambiente já é suficiente para sugerir a adoção de medidas para o seu controle. Embora tenha havido grande variação na contagem de B. cereus a partir dos diferentes pontos analisados, é importante considerar que o patógeno, a partir desses pontos e por meio de contaminação cruzada, pode atingir os alimentos prontos para o consumo. Considerando que a bactéria exibe grande capacidade de sobrevivência e se multiplica em ampla faixa de temperatura, a transferência de um pequeno número de células pode dar origem a populações causadoras de doenças de origem alimentar, desde que o alimento fique estocado por períodos que assim o permitam. Portanto, para prevenir com segurança a ocorrência de doenças de origem alimentar por B. cereus é importante a adoção de medidas rigorosas de higiene dos equipamentos e utensílios, especialmente nos pontos onde foi identificada a presença do microrganismo.

 

Colaboradores

RA Mendes trabalhou na coleta, análise dos dados e na redação final do artigo. AIM Coelho foi responsável pela orientação, análise de dados e redação final do artigo. RMC Azeredo trabalhou na concepção do projeto, orientação, análise de dados e redação final do artigo.

 

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Artigo apresentado em 02/04/2008
Aprovado em 01/09/2008
Versão final apresentada em 22/09/2008

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