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Prevalência de aleitamento materno exclusivo e fatores associados: estudo transversal com mães adolescentes de 14 a 16 anos em Porto Alegre, RS, Brasil

 

The prevalence of exclusive breastfeeding and associated factors: a cross-sectional study of teenage mothers between 14 and 16 years of age in the city of Porto Alegre in the State of Rio Grande do Sul, Brazil

 

 

Andréa Morais de GusmãoI; Jorge Umberto BériaI; Luciana Petrucci GiganteI; Andréa Fachel LealII; Lígia Braun SchermannI

IPrograma de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Universidade Luterana do Brasil. Av. Farroupilha 8001/Prédio 14/228, São Luis. 92.425-900 Canoas RS Brasil. andreagusmao@uol.com.br
IIPrograma de Pós- Graduação em Epidemiologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 


RESUMO

Estudo transversal com objetivo de verificar a prevalência e os fatores associados ao aleitamento materno exclusivo (AME) em mães adolescentes de 14 a 16 anos cujos bebês de até seis meses nasceram em Porto Alegre (RS), no ano de 2009. A composição da amostra teve como base 50% dos nascidos vivos da população em estudo. Foram entrevistadas 341 mães adolescentes em seus domicílios. As variáveis investigadas como possíveis determinantes do AME foram: sociodemográficas, de assistência pré e pós-natal, aspectos psicoemocionais maternos, condições de nascimento e características do bebê. As razões de prevalência (RP) foram obtidas por regressão de Poisson mediante análise hierarquizada. A prevalência de aleitamento materno exclusivo variou de 47,8% no primeiro mês de vida do bebê até 13,8% aos seis meses, diminuindo, em média, 24% a cada mês de vida (RP = 0,76; IC95%: 0,68-0,85). Além da idade do bebê, também estiveram associadas ao aleitamento materno exclusivo a escolaridade materna (RP = 1,53; IC95%: 1,18-1,98) e a multiparidade (RP = 1,57; IC95%: 1,02-2,46), esta última observada em apenas 4,7% da amostra. As mães adolescentes com maior escolaridade e que possuem filhos vivos de gestações anteriores apresentaram maior prevalência de aleitamento materno exclusivo.

Palavras-chave: Aleitamento materno exclusivo, Adolescência, Estudos transversais, Prevalência


ABSTRACT

This is a cross-sectional study to verify the prevalence and associated factors related to exclusive breastfeeding in adolescent mothers between 14 and 16 years of age with 6-month-old or younger babies, born in Porto Alegre in the State of Rio Grande do Sul, Brazil, in 2009. The sample was based on 50% of the newborn babies from the population surveyed. A total of 341 adolescent mothers were interviewed in their homes. The variables considered as potential determinants of exclusive breastfeeding were social and demographic, pre- and post-natal assistance, emotional aspects of the mother, birth conditions and baby characteristics. Prevalence ratios (PR) were estimated by Poisson regression by means of hierarchical analysis. The prevalence of exclusive breastfeeding ranged from 47.8% in the first month of life up to 13.8% after six months and declined, on average, 24% for each month of life (RP = 0.76; CI95%: 0.68-0.85). Besides the baby's age, the factors associated with exclusive breastfeeding were maternal education (PR=1.53; CII95%: 1.18-1.98) and multiple births (PR=1.57; CI95%:1.02-2.46), the latter observed in only 4.7% of the sample. Teenage mothers with higher schooling and with live children from earlier pregnancies manifested higher prevalence of exclusive breastfeeding.

Key words: Exclusive breastfeeding, Adolescent, Cross-sectional studies, Prevalence


 

 

Introdução

O leite materno é o alimento ideal para o recém-nascido (RN) e o lactente, desempenhando inquestionável papel no crescimento e no desenvolvimento infantil1. Suas vantagens estão extensamente documentadas na literatura mundial2-5. A Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde do Brasil recomendam amamentação exclusiva por seis meses e complementada até os dois anos ou mais6,7. Nesse contexto, torna-se importante a realização periódica de estudos que informem a frequência da amamentação permitindo acompanhar as tendências do aleitamento natural e suas modalidades nas localidades investigadas8.

No estudo do aleitamento materno, diversas metodologias e conceitos são utilizados, dificultando a comparação dos resultados obtidos. Para padronizar as estatísticas de aleitamento materno exclusivo no país, foram definidas as idades de corte de 30, 120 e 180 dias9. A literatura brasileira utiliza a definição de aleitamento materno exclusivo (AME) adotada pela OMS, ou seja, quando a criança recebe somente leite materno, direto da mama ou ordenhado, ou leite humano de outra fonte, sem outros líquidos ou sólidos, com exceção de gotas ou xaropes contendo vitaminas, sais de reidratação oral, suplementos minerais ou medicamentos7.

A adolescência, de acordo com a OMS10, corresponde ao período de vida entre 10 e 19 anos de idade totalizando, em 2009, 1.200 milhões de adolescentes na população mundial - uma a cada cinco pessoas11. No Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010 os adolescentes representavam 17,9% da população total12.

O estudo do perfil de morbidade deste grupo populacional tem revelado a presença de doenças crônicas, transtornos psicossociais, fármaco-dependência, acidentes, problemas de saúde ocupacional, doenças sexualmente transmissíveis e problemas relacionados à gravidez, parto e puerpério13.

A gravidez na adolescência, especialmente entre as mais jovens, guarda relação com altas taxas de morbimortalidade, tanto entre as mães quanto entre os filhos10,14; com condições socioeconômicas desfavoráveis15,16 bem como efeitos emocionais negativos17,18.

As estatísticas nacionais relativas à gravidez na adolescência revelaram redução nas taxas específicas de fecundidade, conforme dados do IBGE. O grupo de 15 a 19 anos que concentrava 18,8% da fecundidade total em 2000, passou a concentrar 17,7% em 201019.

Os índices relacionados ao aleitamento materno (AM) na última pesquisa realizada nas Capitais e Distrito Federal (DF) demonstram que esta prática tem aumentado no Brasil7. A mediana do tempo de amamentação passou de 1,5 meses em 1975 para 4,1 meses em 1989; 6,7 meses em 1996; 9,9 meses em 199920 e, finalmente, 11,2 meses em 20087.

Quanto à estimativa da probabilidade de aleitamento materno exclusivo (AME) em bebês de seis meses, verifica-se uma tendência evolutiva para o conjunto das capitais brasileiras e DF, tendo em vista que passou de 7,7% em 19999 para 9,3% em 20087. Para a cidade de Porto Alegre, a estimativa anteriormente citada passou de 6,5% em 19999 para 8,2% em 20087.

Alguns estudos demonstram que a interrupção do AME nos primeiros meses está associada à baixa renda familiar, pouca idade materna, primiparidade e retorno da mãe ao trabalho21-23. Outros estudos apontam como fatores protetores do AME, dentre outros, maior escolaridade materna, situação conjugal com vínculo, experiência anterior de amamentação e mulheres que residem em sua própria casa24,25.

São indiscutíveis os avanços do AM no Brasil apesar da heterogeneidade de sua prática nas diversas regiões do país. Tal constatação leva à necessidade de diagnósticos locais que são de fundamental importância na elaboração de políticas de incentivo à amamentação, adequadas a cada comunidade26,27.

O presente estudo tem como objetivo verificar a prevalência de AME nos seis primeiros meses de vida dos bebês de mães adolescentes de 14 a 16 anos em Porto Alegre (RS) e identificar fatores associados. Este estudo faz parte de uma pesquisa mais ampla intitulada: "Fatores associados à gestação na adolescência: um estudo de casos e controles com jovens de 14 a 16 anos em Porto Alegre, RS", que contou com o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

 

Método

Estudo de delineamento transversal com mães adolescentes entre 14 e 16 anos que tiveram filhos em Porto Alegre (RS) no ano de 2009.

Para composição da amostra, tomou-se como base dados do Sistema Nacional de Nascidos Vivos (SINASC) da cidade de Porto Alegre, referentes ao número de bebês nascidos vivos no ano de 2008, de mães adolescentes de 14 a 16 anos (850), estimando-se esse mesmo número de partos para o ano de 2009.

Embora tenha sido planejado escolher aleatoriamente 50% das adolescentes que tiveram filho em 2009, a estratégia foi impossível porque muitos endereços não foram encontrados. Todas as elegíveis foram procuradas até três vezes. Quando não encontradas, eram substituídas por outra adolescente do SINASC Porto Alegre até completar a amostra.

Para adequação do questionário e da logística, foi realizado um estudo piloto com onze mães adolescentes que não foram incluídas na amostra.

Os dados foram coletados mediante aplicação de questionário estruturado por estudantes da área da saúde, previamente treinadas e supervisionadas. A coleta dos dados foi realizada nas residências das adolescentes entre os meses de julho/2009 a maio/2010. As informações da Declaração de Nascido Vivo (DN) foram coletadas junto à Secretaria de Saúde do Município de Porto Alegre.

O controle de qualidade das entrevistas se deu através de contatos telefônicos aleatórios em que algumas questões do questionário eram perguntadas novamente e checada a veracidade das respostas em 17% dos questionários.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Ulbra e pela Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) era assinado pelo (a) responsável e, em caso de emancipação, pela adolescente.

As variáveis estudadas como possíveis determinantes do desfecho (AME) foram: a) sociodemográficas (idade da mãe, cor da pele autodeclarada pela mãe, escolaridade materna, escolaridade da avó materna, frequenta escola atualmente, rendimentos, classe social segundo classificação Abipeme, casada ou vive com alguém); b) assistência pré e pós-natal (número de consultas de pré-natal, tipo de assistência de saúde, nasceu em Hospital Amigo da Criança (HAC), tipo de parto, filhos vivos de gestações anteriores); c) aspectos psicoemocionais maternos (desejo por essa gravidez, atitude do parceiro, reação da família quanto à gravidez, indicadores emocionais maternos, expectativa em relação ao futuro, autovalorização e sofrimento psíquico); d) condições de nascimento (peso ao nascer e Apgar); e) cuidados com o bebê (quem cuida do bebê, grau de dificuldade para cuidar do bebê, percepção da saúde do bebê, diarreia, febre, problemas de pele e problemas respiratórios) e f) características do bebê (idade e sexo do bebê)28-32.

O banco de dados foi construído pelo programa Teleform com escaneamento dos questionários e posterior migração dos dados para o pacote estatístico SPSS 18.0 for Windows para fins de análise.

A análise estatística se deu através de análise univariada com a descrição do perfil das mães e dos bebês; análise bivariada constando do cruzamento das variáveis de exposição com o desfecho mediante tabelas de contingência (teste qui quadrado e teste para tendência linear); e, por último, análise multivariada, realizada por modelo de regressão de Poisson com variância robusta para a investigação do efeito conjunto das variáveis de exposição sobre o desfecho. Este teste foi escolhido por se tratar de estudo transversal com desfecho não raro33.

A análise multivariada foi realizada conforme modelo hierarquizado expresso na Figura 1, que permite verificar se a associação entre desfecho e o fator em estudo é direta ou mediada pelo efeito das outras variáveis. Os efeitos das variáveis que se encontram em um mesmo nível hierárquico funcionam como fatores de confusão para as demais do mesmo nível e para as de níveis inferiores. Por sua vez, estas últimas podem exercer um efeito mediador das influências das variáveis de níveis superiores34.

Permaneceram no modelo final as variáveis cujo valor de p < 0,20 na análise bivariada e com plausibilidade de acordo com o modelo teórico. O nível de significância adotado para todas as análises foi p < 0,05.

 

Resultados

Foram entrevistadas 431 mães adolescentes cujos bebês nasceram em Porto Alegre (RS) no ano de 2009. Excluíram-se três por não cuidarem dos seus bebês, uma por falecimento do bebê e cinco por não constar a data do nascimento na ficha do SINASC, restando 422 mães adolescentes para análise. Destas, 341(80,8%) possuíam bebês com idade que variavam de 0 a 180 dias, constituindo-se na amostra do presente estudo.

Para esta amostra de 341 mães adolescentes foi possível estimar a prevalência de AME de 38%7 com margem de erro absoluta de aproximadamente cinco pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Além disso, o poder do estudo seria de 80% para estimar razões de prevalência de 1,5 para os fatores de risco estudados, com nível de confiança de 0,05.

A distribuição da frequência de aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida apresentou um decréscimo progressivo, com exceção do segundo mês do bebê, variando de 47,8% em bebês com até 30 dias a 13,8% naqueles com 151 a 180 dias. No momento da entrevista, 37,8% dos bebês estavam em AME; 31,7% em aleitamento materno não exclusivo e 30,5% não estavam sendo amamentados (dados não apresentados em tabela).

A Tabela 1 descreve as características sociodemográficas das entrevistadas. Por ocasião do parto, 58,1% tinham 16 anos, 48,5% declararam-se de cor branca e 37,0% apresentavam oito ou mais anos de estudo. Quanto às mães das entrevistadas (avós maternas), 3,5% nunca frequentou a escola. Observou-se que 74,2% das mães adolescentes não frequentavam a escola no momento da entrevista e que 89,7% não exerciam trabalho remunerado. A maioria delas (57,3%) encontrava-se na classe social C (classificação da Abipeme30) e 63,3% era casada ou vivia com companheiro.

Na análise bivariada, a escolaridade materna, frequentar a escola, rendimentos e classe social atingiram nível de significância menor ou igual a 0,20 e foram inseridas na análise multivariada. Após o ajuste para fatores de confusão, apenas a escolaridade materna apresentou associação significativa com o desfecho. Ser mãe adolescente com mais anos de estudo (8 a 11 anos de estudo) aumentou em 49% a prevalência de amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida.

A Tabela 2 apresenta os resultados referentes à assistência pré e pós-natal e aos aspectos emocionais maternos. Apenas 2,1% das mães não realizaram o pré-natal. A maioria (92,4%), daquelas que o fizeram, consultou em Posto de Saúde ou Unidade de Estratégia de Saúde da Família (ESF). Quanto ao local de nascimento do bebê, 73,7% dos partos foram realizados em hospitais credenciados na Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC), sendo 71,5% deles por via vaginal. Das 341 mães, 16 (4,7%) já tinham um ou mais filhos. Quanto aos aspectos emocionais maternos, 40,4% das mães haviam desejado a gravidez, recebendo apoio do parceiro em 78% dos casos e da família em 91%. Quando indagadas a respeito de si mesmas, 84,4% das adolescentes não apresentaram indicadores emocionais comprometidos, 84,7% tinham uma autovalorização positiva e 75,4% não relataram sofrimento psíquico intenso. Em relação ao futuro, apenas 20,9% relataram nenhuma ou pouca expectativa. As variáveis tipo de parto, filhos vivos de gestações anteriores, indicadores emocionais, autovalorização e sofrimento psíquico foram analisadas pela regressão de Poisson por terem atingido significância menor ou igual a 0,20 na análise bivariada. Permaneceu no modelo a variável filhos vivos de gestações anteriores após ajuste para fatores de confusão. Mães adolescentes com um ou mais filhos anteriores possuem 1,33 vezes mais prevalência de AME do que mães adolescentes sem filhos vivos anteriores.

Quanto às condições de nascimento, descritas na Tabela 3, 10,6% dos bebês apresentou baixo peso ao nascer e 2,6% foram classificados com Apgar abaixo de 8 no 5º minuto. As mães adolescentes tiveram ajuda para cuidar de seus bebês em 82,2% dos casos e 59,8% delas declarou não encontrar dificuldade nesta tarefa. Apenas 5,3% percebeu a saúde dos filhos como regular/ruim. Quanto aos problemas de saúde percebidos pelas mães, 12,8% referiu que seus bebês costumavam apresentar diarreia, 11% febre, 10,9% problemas de pele e 21,1% problemas respiratórios. Quanto às características dos bebês, 54,0% eram do sexo masculino e 79,9%, concentravam-se na faixa etária de até 4 meses (< 121 dias).

Na análise bivariada, alcançaram nível de significância menor ou igual a 0,20 as variáveis: grau de dificuldade para cuidar do bebê, febre, problemas de pele e idade do bebê. Após a análise multivariada, somente a idade do bebê permaneceu no modelo. Constatou-se que, em média, a prevalência de AME diminuiu 24% em cada mês de vida do bebê até os seis meses.

O modelo final da regressão multivariada está apresentado na Tabela 4. As variáveis associadas à maior prevalência de aleitamento materno exclusivo foram: escolaridade materna (RP = 1,53; IC95%: 1,18-1,98); filhos vivos de gestações anteriores (RP = 1,57; IC95%: 1,02-2,42) e idade do bebê (RP = 0,76: IC95%: 0,68-0,85).

 

Discussão

No presente estudo, a prevalência de aleitamento materno exclusivo (AME) entre bebês de até seis meses de mães adolescentes de 14 a 16 anos em Porto Alegre foi 37,8%, variando de 47,8% no primeiro mês até 13,8% aos seis meses.

Apesar de estar aquém das recomendações da OMS6, esse resultado se aproxima dos encontrados em estudos de abrangência nacional, com mães de todas as idades, como a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, PNDS/2006, onde a prevalência de aleitamento exclusivo entre o nascimento e seis meses incompletos foi de 38,6% (PNDS/2006)35 e a II Pesquisa de Prevalência de Aleitamento Materno nas Capitais Brasileiras e Distrito Federal (DF) realizada em outubro de 2008, onde 41% dos bebês menores de seis meses estavam em AME no conjunto das capitais brasileiras e DF; 43,9% na Região Sul e 38,2% em Porto Alegre7.

Estudo realizado por Cruz et al.36 sobre práticas alimentares no primeiro ano de vida de filhos de adolescentes no município de Volta Redonda (RJ) igualmente mostra cifras semelhantes às do presente estudo quanto à prevalência de AME nos seis primeiros meses do bebê (36,1%) e aponta não haver diferenciação dessa prevalência comparativamente às mães adultas. Vieira et al.37 corroboram com este resultado mostrando não haver diferença em ser filho de mãe adolescente ou adulta com relação ao AME até os seis meses do bebê.

Outros estudos realizados com mães adolescentes e adultas na região serrana do RS e no Município do Rio de Janeiro mostram prevalência de AME em menores de seis meses de 55,% e 58,1%, respectivamente38,39.

Em estudo comparativo realizado no interior do Paraná, Almeida et al. entrevistaram 197 mães adolescentes e adultas com objetivo de descrever a prevalência de AME em crianças nascidas antes e após a implantação de um programa de redução de morbimortalidade infantil. A prevalência de AME referida no sexto mês de vida foi 34,0% e 36,5% respectivamente, estando, no entanto, sujeita ao viés de memória das respondentes40.

Na presente pesquisa, destaca-se que menos de 50% das crianças de até um mês estão em AME, havendo uma progressiva queda desta no decorrer dos seis primeiros meses de vida do bebê. Outras pesquisas, tanto regionais38,41 como nacionais39, que estudaram mães adolescentes e adultas também observaram uma queda progressiva da AME nos seis primeiros meses de vida do bebê. No entanto, chama a atenção que as prevalências de AME iniciais são substancialmente superiores às do presente estudo, atingindo, respectivamente, 90.9%38 e 82,1%39 no final do primeiro mês.

Pode-se pensar que a introdução precoce de outros alimentos, observada no presente estudo, ocorreu devido a intercorrências no processo de amamentação. Em estudo quantitativo sobre o perfil da amamentação em grupos de mães adolescentes, foi constatado um aumento de 15 para 32,5 no percentual de adolescentes que referiu problemas na amamentação após a alta hospitalar devido, predominantemente, a traumas mamilares41. Igualmente, uma possível insegurança da mãe adolescente em prover uma alimentação adequada ao bebê pode ter contribuído para o resultado obtido42,43. Tal fato também é evidenciado por Marques et al.44, que, em revisão bibliográfica nas principais bases de dados (Medline, LiLacs, Scielo), apontam mitos e crenças (tais como, "leite fraco", "o leite materno não mata a sede do bebê" , dentre outros) que geram sentimentos de culpa e ansiedade na nutriz, dificultando a amamentação.

Já ao final do sexto mês, a prevalência de 13,8% de AME encontrada no presente estudo se aproxima, especialmente, à pesquisa com mães adolescentes e adultas da região serrana do RS, que mostrou 14,1% de AME38.

Estudos internacionais igualmente mostram prevalências baixas e decréscimo considerável de AME em bebês de até seis meses. Um estudo canadense de abrangência nacional, realizado com 5.615 mulheres com idades > 15 anos, mostrou resultados semelhantes aos do presente estudo. Enquanto quase a metade das mulheres canadenses pesquisadas amamentavam exclusivamente seus bebês aos três meses, somente 13,8% o faziam aos seis meses45. Outro estudo de base populacional realizado nos Estados Unidos da América mostrou que somente 16,8% dos bebês de seis meses estavam sendo amamentados exclusivamente46.

Assim como Frota e Marcopito47 em estudo com mães adolescentes e não adolescentes de Montes Claros, MG, pode-se pensar que a adolescência não está associada à interrupção precoce do aleitamento materno.

Contrariamente às pesquisas já citadas, no presente estudo houve um acréscimo no AME entre o primeiro e segundo mês de vida do bebê o que pode ser explicado por provável adaptação na amamentação após a alta hospitalar em razão de esse ser reconhecidamente um período de maior incidência de intercorrências no processo de lactação41.

A associação significativa entre escolaridade materna e duração de aleitamento materno encontrada neste estudo revela que mães com menor escolaridade tendem a introduzir outros alimentos mais precocemente. Este resultado tem sido sistematicamente observado em outros trabalhos39,45,48-51, tanto com mães adolescentes como com adultas, e pode estar relacionado ao maior acesso a um conjunto de informações e reconhecimento sobre os benefícios do aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida do bebê das mães com maior nível educacional6,7.

Ter tido filhos vivos de gestações anteriores, mesmo sendo apresentado por apenas 4,7% das mães adolescentes entrevistadas, aumentou em 57% a prevalência de amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida do bebê. Certamente nada se sabe sobre a experiência prévia com relação à amamentação nesta amostra, mas Pereira et al.39 destaca que mães adolescentes e adultas que haviam amamentado anteriormente por mais de seis meses, aumentaram em 27% a prevalência de aleitamento materno exclusivo. Al-Sahab et al.45 igualmente mostraram que, dentre outras variáveis, ter tido gestações anteriores foi associada à maior probabilidade de aleitamento materno exclusivo aos seis meses em mães canadenses.

Os resultados desta pesquisa fornecem um quadro da situação do aleitamento materno exclusivo em mães adolescentes de 14 a 16 anos na cidade de Porto Alegre, mostrando que a prevalência de AME é baixa e tende a diminuir durante os seis primeiros meses de vida do bebê. Poucos estudos sobre maternidade abarcam esta faixa etária inicial da adolescência. Atenção especial deve ser dada aos grupos de mães adolescentes com baixa escolaridade e que não possuem experiência anterior com amamentação, reforçando a necessidade dos profissionais da saúde de continuar estimulando e apoiando a amamentação exclusiva nos bebês menores de seis meses.

É importante ressaltar algumas limitações do presente estudo. Por se tratar de um estudo transversal, não pode ser utilizado para estabelecer relações causais definitivas. Além disso, a amostra foi formada predominantemente por adolescentes com maior vulnerabilidade social, concentradas nas classes sociais mais baixas (C, D e E) e que utilizaram, quase exclusivamente, os serviços públicos de saúde. Por fim, as mães adolescentes com filhos vivos de gestações anteriores não tiveram sua experiência anterior com amamentação completamente evidenciada.

 

Colaboradores

AM Gusmão realizou a fundamentação teórica, correção do banco de dados, análise e interpretação dos dados, redação do artigo e aprovação final da versão a ser submetida para publicação. JU Béria, LP Gigante, AF Leal e LB Schermann participaram da concepção e delineamento do projeto mais amplo, treinamento da equipe de coleta de dados, elaboração do banco de dados, revisão do artigo e aprovação final da versão a ser submetida para publicação. LB Schermann participou ainda como orientadora no método da pesquisa, análise e interpretação dos dados.

 

Agradecimentos

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo financiamento da pesquisa.

 

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Artigo apresentado em 10/05/2012
Aprovado em 21/06/2012
Versão final apresentada em 08/07/2012

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