RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Alan Camargo Silva; Jaqueline Ferreira

Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (IESC), UFRJ

 

 

Canesqui AM. Ciências Sociais e Saúde no Brasil. 2ª Edição. São Paulo: Hucitec Editora; 2011.

 

 

Resumidamente, Ana Maria Canesqui graduada em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e doutora em Ciências Médicas pela Universidade Estadual de Campinas, por meio de uma linguagem objetiva, clara e convidativa, é autora do livro Ciências Sociais e Saúde no Brasil. A peculiar trajetória da carreira como docente-pesquisadora em universidades nacionais e internacionais permite a Canesqui explanar minuciosa e criteriosamente sobre as questões constitutivas do ensino, pesquisa e publicações na área da Saúde Coletiva brasileira, com ênfase nas Ciências Sociais e saúde, tema este discutido com vigor nesta obra.

Nas suas considerações introdutórias, Canesqui aponta que para se discutir a abordagem das Ciências Sociais no campo da saúde é preciso levar em consideração a pluralidade profissional da área biomédica e da Saúde Coletiva brasileira. Além disso, é necessário analisar o desenvolvimento do ensino e da pesquisa na Saúde Coletiva e o próprio interesse de cientistas sociais pelo campo da saúde.

A autora menciona que embora haja determinadas especificidades em Ciências Sociais em saúde, esta não se configura como um campo autônomo ou alheio às Ciências Sociais. Por meio de uma breve análise histórico-contextual, Canesqui traça como se estabeleceu a noção de saúde de um modelo estritamente biológico para a valorização da dimensão bio-psico-social nas instituições e nas áreas de conhecimento no Brasil. Para tal discussão, aspectos sociais, políticos, ideológicos, econômicos e culturais constitutivos dos saberes e práticas biomédicas e sanitárias são indeléveis para a compreensão da abordagem das Ciências Sociais na saúde, em especial, nos espaços acadêmico-profissionais da Saúde Coletiva.

Nesse contexto, no primeiro capítulo, intitulado O perfil dos cientistas sociais dedicados à saúde, emerge um panorama acerca do volume, da distribuição regional e institucional, da formação acadêmica, do tempo de trabalho e das atividades dos profissionais envolvidos no desenvolvimento das Ciências Sociais e saúde no Brasil especificamente das últimas três décadas do século XX.

Canesqui menciona que grande parte dos cientistas sociais dedicada à saúde trabalha no setor público e se concentra na região Sudeste, primordialmente pela maior densidade de articulações institucionais e de produção de conhecimento/ tecnologia na área da saúde. Partindo-se de uma análise comparativa por região/ estado brasileiro, a autora também esclarece os possíveis motivos que fizeram com que determinadas instituições ligadas à saúde por meio da abordagem das Ciências Sociais tenham ganhado representatividade no contexto nacional.

Canesqui afirma que os cientistas sociais em saúde possuem a formação inicial majoritariamente provinda das Ciências Humanas e Sociais. Além disso, a autora problematiza os possíveis fatores associados aos tipos de títulos de pós-graduação dos profissionais/ acadêmicos em saúde, bem como analisa o aumento significativo do interesse das relações entre Ciências Sociais e saúde a partir da década de 1970, como abordado em outra oportunidade1. Houve um aumento de 343% de profissionais incluídos na área a partir de tal década.

No segundo capítulo, O ensino das ciências sociais e saúde, Canesqui argumenta inicialmente sobre as relevantes contribuições das Ciências Sociais para os profissionais de saúde e o crescente interesse de especialização de cientistas sociais na academia em questões voltadas à saúde em geral. O ensino das Ciências Sociais e saúde se potencializou nos campos biomédicos e sanitários nas décadas de 1980 e 1990, principalmente pelo estímulo da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco), como pode ser visto em outro trabalho da autora2.

As cargas horárias e os conteúdos destinados ao ensino das Ciências Sociais e saúde podem variar significativamente entre os programas/cursos universitários. Cronologicamente, a autora discute sobre as tendências teórico-metodológicas e as perspectivas de análises de distintos campos disciplinares que permeiam o cenário do ensino das Ciências Sociais e saúde no Brasil ao longo do tempo.

Canesqui discorre sobre as questões supracitadas entre os níveis/tipos de formação (graduação, especialização, residência médica, mestrado e doutorado) oferecendo um panorama crítico sobre o impacto desse tipo de abordagem no campo biomédico e sanitário, sendo este último, de acordo com a autora, mais íntimo em considerar as relações entre saúde e sociedade. Por fim, o capítulo traz também alguns debates relativos à importância da formação/desenvolvimento acadêmico-profissional de pesquisadores-docentes, assim como aspectos técnico-pedagógicos que ainda devem ser aprimorados.

A produção acadêmica, título do terceiro capítulo, na linha de outros trabalhos da autora3,4, mapeia densamente as permanências e as alterações dos interesses de temas e de conteúdos dos trabalhos publicados relacionados às ciências sociais e saúde nos últimos anos. Ao longo do texto, a autora detecta algumas lacunas de conhecimento na literatura relativa às Ciências Sociais e saúde e sugere novas ou mais frentes de investigação em determinadas temáticas no âmbito da Saúde Coletiva brasileira.

Durante todo o capítulo, o texto é dividido em tópicos relativos aos temas pesquisados e os seus conteúdos com a finalidade de haver uma espécie de diagnóstico e de análise aprofundada de como está sendo abordado cada assunto/ categoria (sistemas terapêuticos ou alternativos de cura; políticas e instituições de saúde; saúde e doença; recursos humanos; saúde reprodutiva, sexualidade e gênero; movimentos sociais e saúde; violência e saúde; educação e comunicação em saúde; e por fim, planejamento, gestão e avaliação nos serviços de saúde).

Nas considerações finais, embora Canesqui tenha pontuado as suas limitações metodológicas e de análise, o texto termina elucidando de modo categórico sobre o aumento da visibilidade das Ciências Sociais e saúde durante as últimas décadas. O texto contribuiu significativamente para se pensar nos temas e nos conteúdos abordados na Saúde Coletiva brasileira, em especial no (não ou possível) diálogo disciplinar, bem como nas questões complexas relativas aos pressupostos epistemológicos que compõem tal campo.

Portanto, embora o livro Ciências Sociais e Saúde no Brasil resgate e ratifique algumas reflexões da autora já divulgadas em periódicos de referência na Saúde Coletiva, pode-se afirmar que, com mérito, tal obra sintetiza essencialmente as demandas do arcabouço teórico das Ciências Sociais e saúde. De modo enriquecedor, não somente no nível da produção de conhecimento científico, o instigante texto também se torna uma ferramenta norteadora de destaque, na medida em que possibilita refletir acerca das políticas sociais e do desenvolvimento da intervenção profissional em saúde.

O livro aponta os meandros de como as Ciências Sociais estão inseridas nos espaços acadêmico-profissionais em saúde que ultrapassam os referenciais teóricos eminentemente atrelados à área biomédica. Destarte, é inegável, portanto, a relevância da leitura desta obra para os distintos profissionais e/ou sanitaristas envolvidos na produção de pesquisas, na gestão, no ensino e/ou na intervenção em saúde.

 

Referências

1. Canesqui AM. Sobre a presença das ciências sociais e humanas na saúde pública. Saúde soc. 2011; 20(1):16-21.         

2. Canesqui AM. As ciências sociais e humanas em saúde na Associação Brasileira de Pós-graduação em Saúde Coletiva. Physis 2008; 18(2):215-250.         

3. Canesqui AM. Temas e abordagens das ciências sociais e humanas em saúde na produção acadêmica de 1997 a 2007. Cien Saude Colet 2010; 15(4):1955-1966.         

4. Canesqui AM. Produção científica das ciências sociais e humanas em saúde e alguns significados. Saúde soc. 2012; 21(1):15-23.         

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