RESENHAS BOOK REVIEWS

 

 

Rosa Maria de Araujo Mitre

Departamento de Ensino, Instituto Fernandes Figueira, Fiocruz

 

 

Ostermann AC, Meneghel SN, organizadoras. Humanização, Gênero e Poder: contribuições dos estudos de fala-em-interação para a atenção à saúde. Campinas: Editora Fiocruz, Mercado de Letras; 2012.

 

 

Trata-se de uma coletânea que aborda, a partir da análise das falas entre médicos e pacientes, o tipo de interação que costuma ocorrer entre esses atores durante consultas ginecológicas e obstétricas, buscando correlacionar os achados com o debate sobre humanização e gênero. Fruto de uma parceria bem vinda entre a linguística e a saúde coletiva, a obra discorre sobre como estudos baseados na fala-em-interação podem subsidiar uma reflexão sobre as relações de poder, encontros e desencontros que marcam a produção do cuidado em saúde.

Focando um tema extremamente caro tanto para pesquisadores quanto para profissionais de saúde – a comunicação entre profissionais e pacientes, o livro nos convida a refletir sobre a importância do processo comunicacional nas relações em saúde como constitutivo das ações e práticas, com especial recorte para a saúde da mulher.

As organizadoras, Ana Cristina Ostermann (linguista) e Stela Meneghel (médica), construíram uma obra baseada na interseção dos saberes de suas áreas, numa proposta de explorar por um ângulo bastante original e inédito na língua portuguesa – o estudo das interações gravadas de atendimentos à saúde – temas ligados a gênero, poder e humanização. Apresentam como a abordagem teórico-analítica da Análise da Conversa, quando utilizada nos estudos da área de saúde, pode possibilitar a reflexão sobre questões de ordem macro, através da percepção que as mesmas se corporificam em nível micro através da interação e das relações interpessoais.

Configurada em cinco partes, a coletânea apresenta na primeira parte as características e os desafios da metodologia que norteou a construção dos capítulos analíticos – a Análise da Conversa que é o estudo da fala em interação. De base etnometodológica, a Análise da Conversa, segundo Ostermann, "busca descrever, analisar e compreender a fala como uma característica básica e constitutiva da vida social humana". Nessa perspectiva, a fala é percebida como uma forma de ação social que possibilita a manifestação de valores e identidades.

A segunda parte traz em seus capítulos, construídos a partir de dados oriundos de pesquisas sobre a observação de consultas médicas de ginecologia, o quanto as falas revelam as relações, muitas vezes assimétricas, que se estabelecem nestes encontros e sobre o desconforto que certos temas considerados tabus provocam. Qualquer tipo de comportamento pode ser alvo de avaliação ou julgamento moral num processo interacional, entretanto alguns como estilo de vida, conduta pessoal e sexualidade podem tornar-se particularmente delicados. Através da Análise da Conversa isso fica claro e possibilita um olhar reflexivo em como na prática se oferta ou não, a real possibilidade de produção de saúde. Ou seja, o quanto o sujeito, neste caso as mulheres, são mais ou menos empoderadas ou autorizadas a tornarem-se participantes ativas desse processo, que diz respeito não apenas a seu corpo, mas a sua vida.

Em seguida, a parte três correlaciona como a Análise da Conversa pode se constituir como uma abordagem analítica potente para investigar as questões relacionadas à humanização da saúde. Destaca a possibilidade de esta metodologia favorecer a compreensão das estratégias comunicativas utilizadas por profissionais e pacientes para a construção de um entendimento mútuo, bem como as dificuldades e os dilemas que permeiam este processo.

A parte quatro aborda gênero e sexualidade através da análise do exame de anamnese. Questões como a heteronormatividade, a contracepção e a ênfase dada em geral no cuidado à gravidez indesejada em detrimento do cuidado com as doenças sexualmente transmissíveis aparecem pela investigação das falas. Esta parte traz também o único capítulo da obra que contempla o gênero masculino. Diferente das mulheres, o que emerge na discussão é a preocupação com a virilidade associada ao procedimento de vasectomia e com a idade.

A conclusão da obra é feita na parte cinco, que retoma as contribuições que a Análise da Conversa pode ofertar para a relação entre profissionais e usuários não apenas nos serviços de saúde, mas para se pensar uma atenção mais integral. Utilizando referencial de estudiosos, as organizadoras (e autoras desta parte) destacam a centralidade do tema relação médico-paciente na prática clínica, referendando a importância da formação. É interessante destacar que pelo fato da Análise da Conversa usar termos e interpretar os dados pelo ponto de vista dos participantes dos estudos, as autoras optaram por trabalhar com o binômio médico-paciente no lugar de profissional de saúde-usuário, usualmente adotado pela saúde coletiva. Justificam que como os termos profissionais de saúde e usuários não surgiram nas falas, por uma questão de coerência metodológica não foram utilizados na obra.

Uma das coisas que chama atenção neste livro é como a aproximação entre duas áreas distintas – linguística e saúde – pode apontar tantas interfaces. A humanização enquanto política pública e modo de se pensar saúde, não pode prescindir da comunicação e certamente métodos e ferramentas que melhor capacitem para entender e desvelar este processo são mais do que bem vindos. Junto a isto, a coletânea em questão traz um importante e interessante recorte de gênero propondo-se a debruçar sobre um assunto delicado que é o exercício da sexualidade aparecendo de forma mais velada ou explícita nos encontros em saúde.

Sua leitura provoca no mínimo uma reflexão de como através das pausas, interrupções ou substituições de termos evita-se expor ou explorar temas que sejam desconfortáveis ou constrangedores, ou ainda sobre os quais se têm determinados juízos de valor pré-estabelecidos. Ou ainda, como através da fala, o profissional pode amenizar constrangimentos produzindo termos que facilitem para o paciente apresentar suas dificuldades, facilitando um entendimento. Este é fundamental para evitar danos nesta relação que muitas vezes podem comprometer as prescrições e a própria adesão ao tratamento.

Fica o desafio de como dar conta disto no exercício profissional, valorizando o processo comunicacional e entendendo que a despeito da medicina e das instituições de saúde terem sido concebidas de forma a tratar com "neutralidade" situações e temas considerados delicados, na interação entre sujeitos sempre existe a singularidade e a imprevisibilidade. Dessa forma, poder dar voz ao paciente, bem como validar e valorizar suas contribuições e percepções é utilizar a linguagem como recurso para humanizar a saúde. Como a coletânea destaca, é através da interação que realizamos nossas ações no mundo, dessa forma, não se pode desprezar a interação no processo de cuidar.

ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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