Como se fosse da família: a relação (in)tensa entre mães e babás

Letícia Carvalho de Mesquita Ferreira Sobre o autor
Silveira, LMB. Como se fosse da família: a relação (in)tensa entre mães e babás. Rio de Janeiro: E-Papers, 2014.

… as pessoas, que antes eram as crianças, transferem o carinho para outras pessoas, constroem suas famílias, suas vidas, e você vai ficando. O menino cresceu, casou e teve filho e você vai cuidando e vai ficando esquecida.

É com um trecho da entrevista de onde foi retirado o extrato acima que Liane Silveira conclui o último capítulo de Como se fosse da família: a relação (in)tensa entre mães e babás. O livro é fruto de uma pesquisa acadêmica exemplar, conduzida pela autora ao longo de seu doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ. O objetivo que orientou a pesquisa foi o de compreender as relações entre babás e mães de bebês e crianças que recorrem ao serviço dessas profissionais para gerir o cuidado de seus filhos. Em termos teóricos, o estudo foi cuidadosamente inscrito no campo em que o antropólogo Gilberto Velho, então orientador da autora, foi precursor no Brasil: a antropologia das sociedades complexas, produzida a partir de pesquisas etnográficas junto a camadas médias urbanas. Em termos metodológicos, foi conduzido por meio de um paciente trabalho de campo, da realização de entrevistas com babás e mães, e, ainda, da análise de acervos iconográficos de fotógrafos que se dedicaram a retratar, em álbuns hoje sob a guarda de um museu, algumas famílias brasileiras.

Além de resultado de uma pesquisa rigorosa, o próprio livro de Silveira pode ser lido como um belo álbum de família: trata-se, afinal, de um conjunto de cenas, memórias e esquecimentos produzidos por sujeitos que mantêm entre si laços não só de sangue, mas também de afeto, de interdependência e de necessidade. Ao invés de retratos, contudo, o álbum produzido pela autora é composto por relatos etnográficos, histórias de vida e impactantes trechos de entrevistas como, por exemplo, a concedida por Danielle, de onde foi extraída a fala supracitada.

Danielle, uma babá de 40 anos, solteira e sem filhos, aponta, naquela fala, para os principais temas explorados na obra: o apagamento da figura da babá, analisado como um fenômeno sociológico amplo, especialmente revelador de características da sociedade brasileira; o intenso vínculo afetivo estabelecido entre a babá, a criança que fica sob seus cuidados e outros membros da família dessa criança, em especial a mãe; e a própria ideia de cuidado, que define o serviço para o qual a babá é contratada, mas, ao mesmo tempo, é alvo de constantes disputas entre babá e mãe. Soma-se a esses temas, ainda, a questão da incontornável hierarquia e da clara distância social que organizam as relações entre a babá e a família que a contrata, que são ora minimizadas, ora intensificadas pela peculiar intimidade característica da prestação do serviço de cuidar. Hierarquia e distância social, a propósito, aparecem em outro trecho da fala de Danielle, quando a babá diz: É assim que é a vida de babá. É isso, você tá na casa de gente milionária, e você tem que voltar, querida, para São Cristóvão, Madureira, Quintino. Mas eu sou muito feliz.

O apagamento sociológico das babás, os vínculos afetivos que caracterizam suas relações com crianças e mães, as disputas em torno do que seja o cuidado e, ainda, a hierarquia e a distância social são temas explorados por Silveira a partir de uma expressão por ela ouvida no trabalho de campo e, não sem razão, escolhida para intitular o livro: “como se fosse da família”. Acionada por algumas mães como forma de descrever a relação que mantêm com as babás de seus filhos e, por vezes, com suas ex-babás, essa expressão é dotada de uma força narrativa ímpar diante do material empírico em que se sustenta o livro. Isto porque é capaz de sintetizar as muitas oposições que caracterizam as relações entre babás e mães: relações repletas tanto de intimidade quanto de desigualdade, que são, a um só tempo, afetivas e profissionais e, ainda, constituídas tanto por atos de doação (de tempo, de investimento emocional e de dádivas) quanto de remuneração salarial. Sugerindo que o universo da família é idealmente composto por apenas um dos termos de cada uma dessas oposições (intimidade, afeto e doação), não sendo receptivo aos demais (desigualdade, profissionalismo e remuneração), a expressão “como se fosse da família” parece talhada para englobar tanto o que inclui quanto o que exclui a babá da família.

A obra é composta por quatro capítulos e por uma introdução que, por sua riqueza, parece compor ela mesma um quinto capítulo. Explicitando que seu interesse primordial é pelas “relações e negociações entre camadas sociais distintas movidas pelo trabalho e pelos afetos que articulam essas relações, ora atenuando, ora velando os antagonismos de classe,” a autora anuncia, já na introdução, umas das grandes contribuições do trabalho: a reflexão sobre o fato de que, embora sejam atenuados ou velados no cotidiano, os antagonismos de classe presentes nas relações entre mães e babás não são nunca plenamente desfeitos. São eles, aliás, que denunciam que as babás não são “da família” – são, no máximo, “como se fosse”. Silveira não só anuncia essa reflexão na introdução do livro, como já de saída a coloca em perspectiva histórica, através do diálogo direto com a obra de Gilberto Freyre e da produtiva imersão nos acervos dos fotógrafos Militão Augusto de Azevedo e Carlos Eugênio Marcondes de Moura. Com esses recursos, a autora revela as raízes dos antagonismos de classe entre mães e babás, articulando-os, por um lado, à figura das amas-de-leite e das amas-secas, paulatinamente apagadas da história das famílias brasileiras, e, por outro, à noção de equilíbrio de antagonismos, cara à obra de Freyre.

Ao deter-se sobre imagens, via a imersão em acervos fotográficos, a autora inicia o que é desenvolvido no primeiro capítulo: a ideia de que refletir sobre as babás e suas relações com as mães demandou, no caso de sua pesquisa, a condução de uma “etnografia do olhar”. Voltar o olhar antropológico para a díade mães-babás implicou, nesse sentido, analisar os olhares das babás em direção às crianças, mas também os olhares lançados pelas mães dessas crianças às babás e, em condições de assimetria, pelas próprias babás em direção às mães. Para tratar de tantos pontos de vista, Silveira optou por conduzir seu estudo a partir de um lugar especialmente produtivo: uma praça, por ela designada Praça dos Girassóis, onde os olhares cruzados entre mães, babás e, ainda, a própria pesquisadora, puderam ser, eles mesmos, observados.

Apresentadas as condições de produção de sua “etnografia do olhar,” no segundo capítulo a autora se detém sobre o fato de que babás são, ao mesmo tempo, parte do conjunto de empregados domésticos das casas em que trabalham, mas também profissionais que buscam, ora com mais, ora com menos sucesso, diferenciar-se desse conjunto, marcando as especificidades do serviço que prestam. Tornando esse quadro ainda mais complexo, Silveira aborda também a igualdade de gênero que conecta as babás às suas patroas sem, no entanto, desfazer as demais desigualdades e diferenças constitutivas de suas relações.

Essas desigualdades e diferenças são o foco do terceiro capítulo, em que a autora explora as entrevistas que realizou na praça e em outros espaços por onde circulou em companhia de babás e mães. Revelando que, além de uma “etnografia do olhar,” sua pesquisa consistiu também em um delicado trabalho de escuta, a autora explicita as divergências de perspectiva e as difíceis negociações implicadas nas relações entre mães e babás, sobretudo no tocante aos seguintes temas: concepções de infância, da prática do cuidado e das noções de maternidade e de família. No capítulo, a autora trata ainda de enquadramentos morais que parecem intensificar tais divergências e negociações: as ideias, diferentemente concebidas por mães e babás, do que seja “uma boa mãe,” “uma mãe de verdade,” “uma boa babá,” uma babá que é “como se fosse mãe,” e, ainda, “uma péssima babá”. Muitas vezes temidas e utilizadas como categorias de acusação ora por mães, ora por babás, essas ideias são analisadas a partir de trechos de entrevistas cirurgicamente recortados e apresentados ao leitor.

No quarto capítulo, por fim, Silveira trata do tema que, ao mesmo tempo em que define o papel das babás, complexifica ainda mais suas relações com as mães: o dinheiro que recebem como remuneração e, portanto, o fato de que ser babá é uma carreira que, se por um lado, pode ser convergente com os (restritos) campos de possibilidade em que essas mulheres estão imersas, por outro pode contrastar, não sem causar sofrimento, com seus projetos e desejos de futuro. Concluindo com maestria o livro, esse capítulo deixa latente que se um dos muitos pares de oposição que organiza o pensamento ocidental moderno é aquele que separa o que é da ordem dos afetos e das paixões daquilo que seria da ordem das técnicas e dos interesses, a situação particular das babás revela a impossibilidade da manutenção dessa separação na experiência da vida cotidiana. A situação dessas mulheres, apresentada através do olhar e da escuta primorosa de Silveira, nos coloca em contato com os dilemas, as angústias e os dramas vividos por sujeitos de carne e osso que, para mais uma vez evocar a babá Danielle, devem elaborar uma forma de vida que dê conta de acolher aquela impossibilidade e, ainda, equacionar laços de intenso afeto com a igualmente intensa possibilidade, como Danielle mesmo diz, de ficar esquecida.

Pela sensibilidade com que trata essas questões, pela presença firme que garante a suas interlocutoras nas páginas do livro e pela capacidade de estranhar muito do que se encontra não só naturalizado, mas ativamente esquecido no dia-adia das camadas médias da sociedade brasileira, a obra de Silveira é uma contribuição sem igual no campo da antropologia das sociedades complexas produzida no Brasil e sobre o Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Set 2015
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