Adoecimentos e sofrimentos de longa duração

Miguel Ângelo Montagner Silvia Angela Gugelmin Aldo Braz Braz Magalhães JúniorSobre os autores
Canesqui, AM. Adoecimentos e sofrimentos de longa duração. São Paulo: Hucitec, 2015.

Na temática do adoecimento crônico este livro é um dos mais abrangentes, empíricos e bem estruturados que se pode usufruir, pois de forma única consegue abordar temas de alta complexidade e apresentar as múltiplas facetas da questão de forma aprofundada. Torna-se uma leitura obrigatória para qualquer pesquisador, sanitarista ou estudante da área da saúde, dado o crescente avanço das doenças crônicas no Brasil e no mundo. A organizadora, uma das precursoras na discussão acerca do adoecimento de longa duração no país, teve mérito enorme na seleção e organização dos temas desta coletânea, dado que compreender as doenças crônicas implica, para as ciências sociais e humanas, compreender o sofrimento e o impacto que elas causam nos indivíduos afetados.

No primeiro capítulo, Canesqui discorre sobre a contribuição das ciências sociais e humanas na análise das enfermidades de longa duração. Um contraponto interessante nesse texto é a justaposição de publicações com abordagens nas ciências sociais e na epidemiologia. Enquanto nas ciências sociais o enfoque está nos sujeitos que passam por sofrimentos prolongados devido as doenças crônicas, no campo epidemiológico a preocupação está no caráter terapêutico, preventivo, curativo/paliativo desse sofrimento. Canesqui demonstra que não se trata de uma contraposição das ciências sociais e da epidemiologia, mas da necessidade de interlocução entre saberes distintos, sobretudo no que ela nomeia a relação entre material e imaterial, isto é, as condições objetivas, a cultura e a organização social.

O adoecimento crônico é objeto de análise e discussão do segundo capítulo, escrito por Barsaglini. Os termos cronicidade, cura, cuidado, risco e fator de risco, condições crônicas, historicamente construídos sob a influência da epidemiologia, são problematizados à luz das ciências sociais e humanas. Conceitos complementares são inseridos na discussão, a fim de compreender a dinamicidade das relações causais complexas desses adoecimentos, em especial determinantes sociais em saúde, vulnerabilidade, sofrimento e fragilidade social. Desta forma, a autora amplia a noção de condições crônicas, incitando a necessidade de rever o sentido de cura nesses casos, sendo mais adequado pensar em reequilíbrio no modo de viver a vida com uma nova condição crônica.

A seguir Yoshino aborda um dos tipos de sofrimento atual vivenciado por nossa sociedade, a obesidade. Ela analisa diversas estatísticas sobre o assunto e nos dá a dimensão do problema. Mostra o caráter social da doença e defende que a execração sistêmica do “gordo” apenas aumenta o sofrimento causado ao sujeito. Discorre sobre a normatividade corpórea e a discriminação que fazem parte do contexto e que provocam dores físicas e emocionais, colocando a obesidade como um sofrimento social generalizado, ainda que com peculiaridades e singularidades em cada caso.

No quarto capítulo, Pinto faz uma imersão no tema com uma narrativa detalhada sobre a realidade do sujeito com dor crônica, totalmente distinta da visão do modelo biomédico. Neste trabalho a autora usa um relato de caso bastante extenso que descreve os meandros entre necessidade e produtividade econômica. Aponta que essas relações descaracterizam o sujeito como ser, pois, sua sobrevivência passa a ser subordinada às relações capitalistas. O texto se diferencia ao trazer em um relato único a realidade intrincada de séries estatísticas antigas, que comprovam o peso do trabalho ao trabalhador e que as condições crônicas, dores e sofrimentos por ele causados (quando há abusos) vão muito além da enfermidade em si.

O capítulo cinco aborda a anemia falciforme, como um adoecimento de longa duração, que impõe ao sujeito viver “com e apesar da doença”11. Adam P, Herzlich, C. Sociologia da Doença e da Medicina. Bauru: Edusc; 2001. . Tal condição é caracterizada por sua descoberta muitas vezes tardia, dado a “camuflagem” da mesma. As autoras analisam o processo de tornar-se doente, cujos elementos micro e macrossociais, a identidade do sujeito, o momento da epifania, as ajudas externas, o constante contato com médicos, equipes de saúde, entidades de apoio aos portadores, instituições governamentais e discussões étnicas, reforçam a importância da detecção precoce e tratamento acessível para toda a vida.

Dentre os sofrimentos de longa duração, Trevisan discute no capítulo seguinte os riscos e as condições adversas atreladas ao trabalho de motoristas de carga altamente perigosa, tema pouco explorado na literatura nacional. A ideia de risco é amplamente discutida, confrontando as visões quantitativas e qualitativas sobre o assunto e como o seu significado e importância se alteraram ao longo da história. Com base nos depoimentos colhidos a autora reconhece que os motoristas “anulam “os riscos para se manterem no emprego, o que agrava o stress mental.

A partir do capítulo sete, os estudos inovam ao utilizar a produção textual de espaços virtuais, relatos provenientes de grupos terapêuticos e do papel de acompanhantes no tratamento do câncer. Neste capítulo, Canesqui e Separavich trazem uma discussão densa com a antropologia, filosofia e sociologia sobre as dinâmicas sociais, contextuais e discursivas. Os relatos de mulheres e homens sobre a menopausa e a pressão alta são divididos como de contingência focados na mudança do corpo; narrativas regressivo/táticas que englobam a dualidade entre o almejado desejo e a realidade dos fatos relacionados a ambas condições; e relatos progressivos que objetivam o reconhecimento do sujeito como doente. A superação do sofrimento e das perdas, a mobilização dos serviços de saúde e das tecnologias médicas, a depressão, o apelo à religião, também perpassam as análises discursivas.

A expressão textual dos sujeitos em blogs é digna de estudo e atenção dos órgãos competentes, pois guardam em si uma riqueza de intenções e subjetividades. Nesse capítulo oito, constata-se que, do ponto de vista do biopoder22. Foucault M. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal; 1988.,33. Rabinov P, Rose N. O conceito de biopoder hoje. Revista de Ciências Sociais Política & Trabalho 2006; 24:27-57., os blogs são uma afronta ao conhecimento médico e científico, pois eles têm geralmente um teor pessoal de divulgação de assuntos médicos. Segundo Arruda, esses blogs são importantes como rede alternativa de comunicação e têm papel fundamental no reconhecimento dos doentes e no fortalecimento de uma rede que se apropria da resolução de alguns problemas inerentes ao convívio dos doentes com suas condições crônicas.

No capítulo nove, Lopes evidencia que os sujeitos com diabetes apresentam implicações gerais em suas atividades corriqueiras, bem como mudam suas percepções acerca de si próprios, de seus corpos e funções sociais. A inovação está ao analisar sujeitos diabéticos em atividades psicoterápicas, as quais parecem minimizar a solidão enfrentada pelas perdas de entes queridos e de laços familiares, e ao mesmo tempo enfatizar o cuidado de si. Lopes ressalta que o método retira o indivíduo do foco dos fatores externos, das demais pessoas, da situação em si e o coloca presente, com plena atenção em seus processos internos, suas emoções, alterando seus parâmetros de percepção do ambiente e fomentando uma nova forma de lidar com seu corpo e de interação social.

No capítulo dez, Montagner e Canesqui tratam de um tema de altíssima relevância, dado que o câncer de mama ainda é o mais prevalente no sexo feminino. A ênfase do texto recai no papel do acompanhante, como aquele que “faz tudo”, resolve as pendências da pessoa, leva, traz, assiste, entre outras atividades da vida das enfermas. As autoras nos remetem à discussão do apoio social, do cuidado e da reciprocidade. Diante das diversas experiências, o ato de acompanhar e ser acompanhado está intimamente ligado aos laços afetivos existentes entre as partes. Essas relações transcendem o entendimento cotidiano, dado que as expectativas dos enfermos sobre seus acompanhantes sempre são superadas,evidenciando a satisfação mútua. As autoras ressaltam que, para o processo de cura, os acompanhantes são fundamentais pois interferem no bem-estar e na humanização do cuidado, ao representar algo familiar no terreno incerto do adoecimento crônico.

O último capítulo foca na revisão da literatura sobre a experiência do adoecimento por câncer. Ressalta-se a importância do câncer nos contextos mundial e nacional, mostrando o predomínio de estudos epidemiológicos referente a prevalência, tratamentos e vigilância. Porém, devido às mudanças que a doença ocasiona em seus pacientes, ela provoca modificações na personalidade e distintas reações dos acometidos.

Em resumo, com distintas teorias e métodos de análise, os estudos versaram sobre a representação social da doença, a imagem corporal, a identidade subjetiva, a experiência com a doença, com o tratamento e hospitalizações. Ficou clara a necessidade de estudos na matriz socioantropológica, para evidenciar outras facetas do adoecimento, aumentar a produção de artigos na área e entender os aspectos qualitativos relacionados a essa condição.

Esta coletânea é um grande avanço para a construção do conhecimento sobre condições e sofrimentos crônicos. O diálogo entre a sociologia, antropologia, psicologia, política e epidemiologia, perpassa todos os textos, possibilitando elucidar questões e levantar outras problemáticas necessárias e inovadoras. Os temas abordados nesta obra e suas diversas facetas nos fazem lembrar de experiências pessoais e próximas, evidenciadas nas falas de sujeitos de pesquisa e nas considerações dos pesquisadores. Em suma, a coletânea não se limita ao adoecimento de longa duração inserido no tempo e no espaço, mas à singularidade e subjetividade da vida em si mesma.

Referências

  • 1
    Adam P, Herzlich, C. Sociologia da Doença e da Medicina. Bauru: Edusc; 2001.
  • 2
    Foucault M. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal; 1988.
  • 3
    Rabinov P, Rose N. O conceito de biopoder hoje. Revista de Ciências Sociais Política & Trabalho 2006; 24:27-57.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Fev 2018
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