Fleischer S (Diretora) e Laboratório de Imagem e Registro de Interações Sociais (IRIS), Universidade de Brasília. Bicha Braba. Documentário etnográfico, 30 min, 2015.

Ana Gretel Echazú Böschemeier Elizabethe Cristina Fagundes de Souza Sobre os autores
Fleischer, S. ( Diretora e) . , Universidade de Brasília. Bicha Braba. Documentário etnográfico, 30 min, 2015

Bicha braba - Um documentário produzido com base na pesquisa etnográfica, realizada entre 2008 e 2014, no bairro da Guariroba (Ceilândia/DF), com senhoras e senhores em sua experiência com os “problemas de pressão” e de “açúcar no sangue”. Como é conviver com a hipertensão arterial e a diabetes mellitus na Ceilândia? Aportes de uma Antropologia da cronicidade. A pesquisa tem coordenação de Soraya Resende Fleischer e o projeto continua até agora.

A vida de uma obra depende tanto de seu contexto de criação quanto daquele, sempre vivo e mutável, da sua recepção. Essa resenha traz a contribuição do documentário etnográfico Bicha Braba à Saúde Coletiva, a partir da devolutiva de sua recepção por quatro turmas de estudantes, sendo duas de graduação relativas à disciplina, ofertada no Bacharelado em Gestão de Serviços de Saúde, e duas em disciplinas de metodologia qualitativa em saúde, junto ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Na condição de professoras, temos nos confrontado com o desafio de obter material visual para uso em aulas. No Brasil, as Ciências Humanas e Sociais se constituem como um campo minoritário dentro da divisão de saberes que a Saúde Coletiva institucionalizou. A pouca produção acadêmica dentro da subárea se reflete também nos conteúdos visuais: em termos pedagógicos, isso significa a procura de vídeos produzidos como trabalhos finais de disciplina ou de trechos de filmes nas plataformas visuais de livre acesso. Nestas, os materiais nem sempre têm qualidade, se compondo muitas vezes de imagens aleatórias cortadas e coladas a partir de buscas por palavras-chave que reproduzem imaginários sociais até o infinito.

O documentário etnográfico Bicha Braba se apresenta como um material diferenciado, produzido por profissionais da área de antropologia da Universidade de Brasília, que demonstra em trinta minutos aspectos caros à pesquisa qualitativa em saúde, dentre os quais desaceleração do tempo, foco nas falas das(os) sujeitas(os) e papel ativo da(o) pesquisadora/pesquisador na construção da pesquisa.

Entram em cena os relatos de vida de Matilde, Isabel, João Demóstenes, Maria do Carmo, Maria do Rosário, Maria Pereira e Faria, todas(os) elas(es) moradoras(es) do bairro da Guariroba, na Região Administrativa da Ceilândia (DF), a mais populosa da cidade, ao mesmo tempo em que a que concentra maior número de migrantes do Nordeste e, também, uma das mais afetadas pelos processos de precarização de moradia e de progressiva gentrificação na Capital do país. Nesse cenário, a partir do olhar sensível da etnógrafa, são apresentados os relatos de vida daquelas pessoas, narrados por elas mesmas e ligados por um elo comum: a relação carnal delas com certas doenças “compridas”, dessas que se alongam no tempo, como a diabetes e a hipertensão.

Bicha Braba se apresenta como um documento precioso sob dois pontos de vista: temático e metodológico. Em termos temáticos, o documentário se ocupa de um problema de Saúde Pública. Em 2015, seguindo a tendência mundial, as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) foram causa de aproximadamente 72,6% das mortes no Brasil11. Brasil. Ministério da Saúde (MS). Vigitel Brasil 2014: Vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: MS; 2015.. A diabetes, doença que no documentário adquire o apelido de bicha braba, está entre as principais DCNT, isoladamente, ou associada a outras enfermidades, como, por exemplo, a hipertensão arterial. No entanto, mesmo que haja percepção cada vez mais aprimorada do alcance dessas doenças em largos conjuntos populacionais dentro do país, o conhecimento que existe a respeito de como as pessoas vivenciam esses processos, como afeta sua rotina diária, as formas de se relacionar com as(os) outras(os) dentro e fora de casa e a maneira em que essas pessoas aderem (ou não) aos tratamentos prescritos pelo sistema médico oficial são pouco conhecidos. Tais aspectos são abordados de forma sensível e nos convocam à reflexão sobre os efeitos subjetivos do adoecimento e sua expressão singular.

Do ponto de vista metodológico, o material transmite uma série de características que são caras à pesquisa qualitativa em saúde, a destacar aqui quatro delas: 1) a geração de um deslocamento imediato das(os) ouvintes; 2) a temporalidade alargada; 3) a prioridade às vozes das(os) sujeitas(os); 4) a inclusão em cena das(os) pesquisadoras(es) que articularam a pesquisa.

O deslocamento é gerado pela falta de uma narração omnisciente: frente a essa falta de voz única, emergem timidamente sotaques particulares, nervosismos ao falar, risos, silêncios, olhares cúmplices. Logo, então é possível materializar o que textos caros à metodologia qualitativa em Ciências Humanas e Sociais destacam: a experiência da doença e, ao mesmo tempo, a importância da experiência do trabalho de campo como produtora de sentidos sobre o social. Como a pesquisadora francesa Jeanne de Favret Saada22. Favret-Saada J. Ser afetado. Cadernos de Campo 2005; 13(13):155-161. sugere a respeito do campo quando se está em um tal lugar, é-se bombardeado por intensidades específicas (chamo-las de afetos) que geralmente não são significados. Esse lugar e as intensidades que lhe são ligadas têm então que ser experimentados: é a única maneira de aproximá-los. A intensidade da circulação de afeto no trabalho de campo foi captada pela câmera sensível da equipe etnográfica, cuja narrativa nos aproxima dessa substancialidade informe, difícil de nomear, porém constante e inevitável, da própria experiência de habitarmos nossos corpos.

Um senso do tempo estendido faz com que as cenas se diferenciem radicalmente daquelas produzidas pela grande mídia. Lentidão, vagar, respeito dos silêncios e de espaços vazios de narrativa oral se tornam aspectos chave na compreensão da temporalidade que é própria da pesquisa qualitativa. Essa temporalidade, “comprida” como a própria doença crônica, permite o estabelecimento de laços de confiança dentro da pesquisa, coisa que se reflete na produção de materiais que testemunham e problematizam os pontos de vista das(os) sujeitas(os). Surgem do diálogo gestos e cumplicidades, modificações a respeito das recomendações médicas ou decisões pautadas a partir de desejos individuais que dificilmente emergiriam em instâncias de uma maior normatividade, onde a realidade da doença apareceria, por defeito, expressa nas prescrições médicas apresentadas e impelidas a serem aceitas a partir de uma particular apreensão da complexidade e multidimensionalidade da mesma.

Outro aspecto a destacar é a centralidade crescente que ganham as vozes de quem narra a própria experiência. Pouco ouvidas por médicos(as), enfermeiros(as) e demais experts na área da saúde, as pessoas possuem um conhecimento que é precioso para compreender qualquer doença: aquele que é enraizado no corpo, que surge dele e pulsa ao ritmo de seus processos vitais – prazer, dor, ansiedade, repressão de emoções, libertação de risos em amplas gargalhadas. As doenças, assim, são tiradas da sua existência nominal como categorias genéricas, aplicáveis a todas(os) as(os) sujeita(os) que possuam determinadas características objetivamente definíveis enquanto que “portadoras(es)” e são colocadas para vibrarem na complexa e vital materialidade do corpo que pulsa com elas.

A pesquisadora aparece de forma marginal em uma única cena. Esse detalhe é um dos mais significativos do produto textual, pois demonstra, ainda que por um único instante, a existência do outro lado dessa interlocução. O fato da câmera mostrar que existe “alguém” que pesquisa, pergunta e posiciona seu corpo como interlocutor(a) nas conversas por trás das câmeras aparece como um salvo-conduto epistemológico que, em uma única aproximação, é capaz de quebrar o naturalismo que tendemos a construir quando ouvimos às e aos protagonistas da pesquisa, dando lugar para a reflexividade a partir do reconhecimento do papel ativo da pesquisadora na construção dos fatos em campo.

Sugerimos esse vídeo como um item indispensável para servir de material no ensino de Ciências Humanas e Sociais em Saúde no Brasil de hoje. Mesmo quando o conteúdo da potencial disciplina não esteja centrado nas doenças crônicas, Bicha Braba tem capacidade de transmitir de forma simples e coerente uma série de atitudes metodológicas que são caras à pesquisa qualitativa em saúde. Nessa mesma linha, o documentário é capaz de gerar uma série de estranhamentos, ao mesmo tempo em que aparece como disparador de questionamentos, catalisador de emoções e encorajador de práticas. A respeito desse último ponto, foi destacado por nossas(os) alunas(os), em várias ocasiões, a sensibilização para a prática das(os) profissionais em saúde: ao se defrontarem com os relatos vivos de quem experimenta a doença no seu cotidiano, contradizendo regras protocolares, sofrendo as dificuldades de cumpri-las e reinventando suas próprias regras de convivência com a doença, as e os profissionais que entram em contato com esses universos particulares inscritos em cada sujeita(o) podem produzir empatia melhor com as particularidades, demandas e pequenas-grandes minudências do convívio com cada bicha braba.

A experiência de usar Bicha Braba em diferentes públicos e contextos de ensino-aprendizagem leva-nos a recomendá-lo como material para estimular a reflexão crítica e os processos de escrita. Sua força narrativa qualifica-o muito além de um recurso didático-pedagógico, como ferramenta para provocar debates e a reinvenção de práticas de cuidado a serem compartilhadas entre usuárias(os) e profissionais de saúde.

Referências

  • 1
    Brasil. Ministério da Saúde (MS). Vigitel Brasil 2014: Vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico Brasília: MS; 2015.
  • 2
    Favret-Saada J. Ser afetado. Cadernos de Campo 2005; 13(13):155-161.

  • Errata
    Na resenha Fleischer S (Diretora) e Laboratório de Imagem e Registro de Interações Sociais (IRIS), Universidade de Brasília. Bicha Braba. Documentário etnográfico, 30 min, 2015.
    DOI: 10.1590/1413-81232018242.26642017
    p. 669
    onde se lê:
    Elisabethe Cristina Fagundes de Souza
    leia-se:
    Elizabethe Cristina Fagundes de Souza
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