“Tihik quando bebe Kaxmuk não tem pai, nem mãe, nem irmão”: Percepções sociais das consequências do uso da cachaça no povo indígena Maxakali/MG/Brasil

Roberto Carlos de Oliveira Belinda F. Nicolau Alissa Levine Ana Valéria Machado Mendonça Victoria Videira Andréa Maria Duarte Vargas Efigenia Ferreira e Ferreira Sobre os autores

Resumo

Este artigo explora um dos aspectos mais interessantes e menos estudados no Brasil: as consequências das experiências complexas e contraditórias da substituição total de bebidas tradicionais indígenas pela cachaça, introduzida pelo contato interétnico. Contribui com a carência de ampliação de estudos na temática, analisando as consequências negativas do uso de álcool Maxakali. Enquanto estudos antropológicos enfatizam funções do beber tradicional e contemporâneo como “lubrificantes” sociais, as percepções sociais Maxakali ressaltam consequências negativas do uso da cachaça vendida ou trocada no contato interétnico. Interpretou-se no cotidiano, símbolos e significados dessas consequências, narradas por 21 lideranças em grupos focais. Com a substituição da Kaxmuk pelos Maxakali, ocorreram adaptações surgidas pelo contato interétnico, com relações negativas para quem bebe, suas família, aldeia e comunidade. No mundo-da-vida, as consequências negativas apresentaram-se em forma de acidentes, desarmonias conjugais, negligências, além de comportamentos violentos, doenças e mortes. Este estudo reforça a importância de produção de conhecimentos aprofundados e abrangentes visando a identificação de grupos vulneráveis em busca de soluções participantes.

Palavras-chave
Índios sul-americanos; Bebidas alcoólicas; Problemas sociais; Pesquisa qualitativa

Introdução

O impacto das consequências relacionados à introdução de bebidas alcoólicas destiladas, ou bebida de alto teor alcoólico, nos povos indígenas durante o expansionismo ocidental e, contemporaneamente ofertada pelo chamado contato interétnico, é um dos aspectos mais interessantes e pouco estudados no Brasil11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64.,22 Fernandes JA. Selvagens Bebedeiras: Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil Colonial [tese]. Niterói: Universidade Federal Fluminense; 2004., quer seja pela ambiguidade e a superficialidade com que são tratadas todas as questões de comportamentos inadequados, quando do uso por esses povos, quanto aos aspectos filosóficos e visões de mundo utilizados para sua abordagem. Entre os 305 povos indígenas brasileiros, o uso de bebidas alcoólicas - fermentadas, destiladas e/ou misturadas – é considerado um problema social e de saúde pública, com consequências negativas para suas famílias, aldeias e comunidades11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64.

2 Fernandes JA. Selvagens Bebedeiras: Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil Colonial [tese]. Niterói: Universidade Federal Fluminense; 2004.

3 Souza MLP. Alcoolização e violência no Alto Rio Negro [tese]. Manaus: Universidade Federal do Amazonas; 2004.

4 Souza MLP, Garnelo L. Quando, como e o que se bebe: o processo de alcoolização entre populações indígenas do alto Rio Negro, Brasil. Cad Saude Publica 2007; 23(7):1640-1648.

5 Ferreira LO. O "fazer antropológico" em ações voltadas para a redução do uso abusivo de bebidas alcoólicas entre os Mbyá-Guarani, no Rio Grande do Sul. In: Langdon EJ, Garnelo L, organizadores. Saúde dos Povos Indígenas: Reflexões sobre antropologia participativa. Rio de Janeiro: Contra Capa; 2004.

6 Souza JA, Oliveira M, Kohatsu M. O uso de bebidas alcoólicas nas sociedades indígenas: algumas reflexões sobre os Kaingang da bacia do rio Tibagi. Paraná. In: Coimbra C, Santos R, Escobar AL, organizadores. Epidemiologia e Saúde dos Povos Indígenas do Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2003.

7 Ghiggi Junior A, Langdon EJ. Reflexões sobre estratégias de intervenção a partir do processo de alcoolização e das práticas de autoatenção entre os índios Kaingang, Santa Catarina, Brasil. Cad Saude Publica 2014; 30(6):1-10.

8 Pereira PPS, Ott AMT. O processo de alcoolização entre os Tenharim das aldeias do rio Marmelos, AM, Brasil. Interface Comunicação Saúde Educação 2012; 16(43):957-966.
-99 Pena JL. Os índios Maxakali: a propósito do consumo de bebidas de alto teor alcoólico. Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI 2005; 2(2):99-121..

Com a introdução dos destilados, em especial a cachaça11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64.,22 Fernandes JA. Selvagens Bebedeiras: Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil Colonial [tese]. Niterói: Universidade Federal Fluminense; 2004., bebida com teor alcoólico 3,3 a 10 vezes maior que as bebidas fermentadas de fruta ou hidromel1010 Brasil. Decreto nº 6.871, de 04 de junho de 2009. Dispõe sobre a padronização, a classificação, o registro, a inspeção, a produção e a comercialização de bebidas. Diário Oficial da União 2009; 05 jun., pela cultura dominante, pesquisadores brasileiros desta área11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64.

2 Fernandes JA. Selvagens Bebedeiras: Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil Colonial [tese]. Niterói: Universidade Federal Fluminense; 2004.

3 Souza MLP. Alcoolização e violência no Alto Rio Negro [tese]. Manaus: Universidade Federal do Amazonas; 2004.

4 Souza MLP, Garnelo L. Quando, como e o que se bebe: o processo de alcoolização entre populações indígenas do alto Rio Negro, Brasil. Cad Saude Publica 2007; 23(7):1640-1648.

5 Ferreira LO. O "fazer antropológico" em ações voltadas para a redução do uso abusivo de bebidas alcoólicas entre os Mbyá-Guarani, no Rio Grande do Sul. In: Langdon EJ, Garnelo L, organizadores. Saúde dos Povos Indígenas: Reflexões sobre antropologia participativa. Rio de Janeiro: Contra Capa; 2004.

6 Souza JA, Oliveira M, Kohatsu M. O uso de bebidas alcoólicas nas sociedades indígenas: algumas reflexões sobre os Kaingang da bacia do rio Tibagi. Paraná. In: Coimbra C, Santos R, Escobar AL, organizadores. Epidemiologia e Saúde dos Povos Indígenas do Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2003.

7 Ghiggi Junior A, Langdon EJ. Reflexões sobre estratégias de intervenção a partir do processo de alcoolização e das práticas de autoatenção entre os índios Kaingang, Santa Catarina, Brasil. Cad Saude Publica 2014; 30(6):1-10.

8 Pereira PPS, Ott AMT. O processo de alcoolização entre os Tenharim das aldeias do rio Marmelos, AM, Brasil. Interface Comunicação Saúde Educação 2012; 16(43):957-966.
-99 Pena JL. Os índios Maxakali: a propósito do consumo de bebidas de alto teor alcoólico. Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI 2005; 2(2):99-121. buscam apreender as concepções de comportamento desses povos no que diz respeito aos atos culturais, construção, apreensão e utilização de formas simbólicas desses destilados que resultam em doenças e marginalidade dos povos indígenas.

Além do impacto já bem conhecido da introdução dos destilados, e do traço de uma identidade estigmatizada pela população envolvente, a de “beberrões” para os índios Bororo11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64.,22 Fernandes JA. Selvagens Bebedeiras: Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil Colonial [tese]. Niterói: Universidade Federal Fluminense; 2004. e de “alcoólatras” para os Maxakali11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64., o problema é muito antigo. Para ambas comunidades, remontam aos primeiros contatos entre indígenas com as frentes de expansão de suas regiões11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64.,22 Fernandes JA. Selvagens Bebedeiras: Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil Colonial [tese]. Niterói: Universidade Federal Fluminense; 2004.,99 Pena JL. Os índios Maxakali: a propósito do consumo de bebidas de alto teor alcoólico. Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI 2005; 2(2):99-121..

Para os Bororo, em 1829, já se faziam detalhadas descrições e relatórios pictográficos de cenas de embriaguez, em consequência da distribuição de cachaça nas fazendas da região de Cárceres/MT11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64.. Para os Maxakali, sua relação com os destilados foi relatada pioneiramente em 191899 Pena JL. Os índios Maxakali: a propósito do consumo de bebidas de alto teor alcoólico. Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI 2005; 2(2):99-121.. A Kaxmuk (cachaça) permite, não somente uma alteração da euforia mais rápida e elevada às bebidas fermentadas, colocando-os em contato com os espíritos durante seus rituais, como também, nos estados de transe alcoólico, ressuscita antigas divergências1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008., brigas entre si, “uns quebrando as cabeças dos outros”1212 Rubinger MM, Amorim MS, Marcato AS, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980., podendo chegar até mesmo a uma transformação da condição humana e assassinatos entre parentes e não parentes1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980.

14 Álvares MM. Yãmiy, os espíritos do canto: a construção da pessoa na sociedade Maxakali [tese]. Campinas: Unicamp; 1992.
-1515 Vieira MG. Virando Inmõxã: uma análise integrada da cosmologia e do parentesco Maxakali a partir dos processos de transformação corporal. Amazônica 2009; 1(2):308-329..

Apesar desses estudos etnográficos com outras perguntas de pesquisa reconhecerem as consequências relacionadas ao uso da Kaxmuk entre os Maxakali, existe uma carência de ampliação de pesquisa nesta temática, campo em desenvolvimento e construção.

Este artigo apresenta a questão - Como os Maxakali percebem as consequências do uso da Kaxmuk com o objetivo de compreender, sob o ponto de vista nativo, as percepções sociais sobre as consequências negativas do uso da cachaça.

Para finalizar, apresenta-se o contexto em que o conhecimento etnográfico foi aqui veiculado, atributo importante tanto na inserção do pesquisador em campo quanto para quem os dados foram fornecidos1616 Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 12ª ed. São Paulo, Rio de Janeiro: Hucitec, Abrasco; 2010.. O primeiro autor deste estudo, dentista sanitarista, trabalha com os Maxakali há 19 anos e atuou na gestão técnica da Atenção Primária à Saúde (APS) Maxakali por mais de nove anos. Acreditamos que esta experiência multiprofissional vivida no Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, no período de 2003 a 2013, com quatro equipes da APS e da Saúde Mental Maxakali, contribuiu também com o modo para quem os dados desta pesquisa qualitativa foram fornecidos.

Metodologia

Os Tikmu'un são reconhecidos pelo Estado brasileiro pelo etnônimo Maxakali99 Pena JL. Os índios Maxakali: a propósito do consumo de bebidas de alto teor alcoólico. Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI 2005; 2(2):99-121.,1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.,1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980.-1414 Álvares MM. Yãmiy, os espíritos do canto: a construção da pessoa na sociedade Maxakali [tese]. Campinas: Unicamp; 1992., indica o conjunto dos povos Makoni, Monoxó, Kapoxó, Malali, Maxakali, Cumanaxó, Panhame com suas famílias falantes da língua Maxakali, seus respectivos cantos e rituais celebrados nas Casas de Religião1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.,1717 Marcato SA. O indigenismo oficial e os Maxakali (séculos XIX e XX). In: Rubinger MM, Amorim MS, Marcato SA, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980.. Vivem em 6.543 hectares que compreendem uma terra e duas reservas indígenas1515 Vieira MG. Virando Inmõxã: uma análise integrada da cosmologia e do parentesco Maxakali a partir dos processos de transformação corporal. Amazônica 2009; 1(2):308-329., distribuídas no entorno de quatro municípios mineiros (Figura 1), na fronteira com o Estado da Bahia1515 Vieira MG. Virando Inmõxã: uma análise integrada da cosmologia e do parentesco Maxakali a partir dos processos de transformação corporal. Amazônica 2009; 1(2):308-329..

Figura 1
Localização do povo indígena Maxakali, região nordeste de Minas Gerais.

Os Maxakali constituem o segundo maior grupo étnico de Minas Gerais1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.; originários de áreas da Mata Atlântica1212 Rubinger MM, Amorim MS, Marcato AS, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980., povo tradicionalmente semi-nômade, caçador e colecionador1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.

12 Rubinger MM, Amorim MS, Marcato AS, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980.

13 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980.
-1414 Álvares MM. Yãmiy, os espíritos do canto: a construção da pessoa na sociedade Maxakali [tese]. Campinas: Unicamp; 1992.. Este grupo mantêm uma conexão grupal e uma identidade étnico-cultural graças à manutenção da sua língua e à frequência nas Casas de Religião para realização de seus rituais trazidos por seus ancestrais, e ainda não desfigurados ou esquecidos1212 Rubinger MM, Amorim MS, Marcato AS, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980.

13 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980.
-1414 Álvares MM. Yãmiy, os espíritos do canto: a construção da pessoa na sociedade Maxakali [tese]. Campinas: Unicamp; 1992.,1717 Marcato SA. O indigenismo oficial e os Maxakali (séculos XIX e XX). In: Rubinger MM, Amorim MS, Marcato SA, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980..

Diante da carência de estudos qualitativos e quantitativos sobre o fenômeno em estudo na literatura, buscamos ampliar o espectro de teóricos que contribuísse para a formação de um marco teórico sobre ação social. Identificamos em Schutz1818 Schutz A. Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar; 1979. conceitos que colaboram para o entendimento dos princípios de uma abordagem compreensiva da ação social1818 Schutz A. Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar; 1979.. A atualidade desse pensamento teórico reside no fato de permitir compreender e (re)interpretar a realidade com base na ação e na subjetividade do ator social1919 Souza MNC. Algumas considerações sobre a sociologia de Alfred Schütz. Revista Eletrônica dos Pós-Graduandos em Sociologia Política da UFSC 2012; 9(1):1-26.. Sua exposição sobre métodos básicos da Fenomenologia de Hursel e da sociologia compreensiva de Weber1919 Souza MNC. Algumas considerações sobre a sociologia de Alfred Schütz. Revista Eletrônica dos Pós-Graduandos em Sociologia Política da UFSC 2012; 9(1):1-26. foi crucial para definí-la como o enfoque a ser dado para a coleta e análise dos registros das entrevistas.

Segundo Schutz1818 Schutz A. Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar; 1979., “ação” é a conduta humana previamente planejada cujos sentidos são produzidos mentalmente. Entende-se, ainda, que apenas uma pequena parte do conhecimento de mundo de uma pessoa se origina de sua própria experiência, a maior parte lhe é transmitida por outras pessoas de seu convívio sociocultural1818 Schutz A. Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar; 1979..

Neste sentido, reconhecemos que a ação social dos Tikmũ’ũn entrevistados são resultados da interação em diferentes contextos intra e interétnicos onde os envolvidos mobilizam a maior parte dos conhecimentos previamente adquiridos por seus antepassados e, contemporaneamente, produzem significados para a ação, em um processo reflexivo1818 Schutz A. Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar; 1979.,1919 Souza MNC. Algumas considerações sobre a sociologia de Alfred Schütz. Revista Eletrônica dos Pós-Graduandos em Sociologia Política da UFSC 2012; 9(1):1-26.. Tornou-se ímpar compreender a realidade do convívio sociocultural das lideranças Maxakali entrevistadas, a partir de suas experiências, identificando com elas os motivos pragmáticos que as orientam na vida cotidiana Tikmũ’ũn, considerando que “motivo” significa o estado de coisas, o objetivo que se quer lograr mediante a ação emprendida1818 Schutz A. Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar; 1979., neste estudo, o uso da Kaxmuk.

Para compreender essa realidade e descrever suas características, sob a ótica nativa, fazemos um recorte fenomenológico, acrescentando alguns aspectos cosmológicos Maxakali às características (etno)biopsicossociais de Schutz1616 Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 12ª ed. São Paulo, Rio de Janeiro: Hucitec, Abrasco; 2010.,1818 Schutz A. Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar; 1979.,1919 Souza MNC. Algumas considerações sobre a sociologia de Alfred Schütz. Revista Eletrônica dos Pós-Graduandos em Sociologia Política da UFSC 2012; 9(1):1-26., assumindo a cultura como um sistema fluido e aberto à reinterpretação como assevera Geertz2020 Geertz C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora; 1989.,2121 Geertz C. O saber local. 5ª ed. Petrópolis: Vozes; 2002..

Nesta forma de compreensão, as consequências do uso da Kaxmuk deixam de ser percebidas como um conjunto de sintomas físicos e biológicos imutáveis observado no mundo empírico e passa a ser melhor entendido como um processo subjetivo construído através de contextos socioculturais33 Souza MLP. Alcoolização e violência no Alto Rio Negro [tese]. Manaus: Universidade Federal do Amazonas; 2004. vivenciados intersubjetivamente pelos Tikmũ’ũn contemporâneos (Figura 2), que partilham uma teia específica de significados1818 Schutz A. Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar; 1979.

19 Souza MNC. Algumas considerações sobre a sociologia de Alfred Schütz. Revista Eletrônica dos Pós-Graduandos em Sociologia Política da UFSC 2012; 9(1):1-26.

20 Geertz C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora; 1989.
-2121 Geertz C. O saber local. 5ª ed. Petrópolis: Vozes; 2002..

Figura 2
Esfera social Maxakali: comunidades, aldeias, residências e casas de religião (Kukex). Brasil, 2014.

Além de Schutz1818 Schutz A. Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar; 1979.,1919 Souza MNC. Algumas considerações sobre a sociologia de Alfred Schütz. Revista Eletrônica dos Pós-Graduandos em Sociologia Política da UFSC 2012; 9(1):1-26. e Geertz2020 Geertz C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora; 1989.,2121 Geertz C. O saber local. 5ª ed. Petrópolis: Vozes; 2002., de modo complementar, as contribuições de pesquisadores Latino Americanos11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64.

2 Fernandes JA. Selvagens Bebedeiras: Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil Colonial [tese]. Niterói: Universidade Federal Fluminense; 2004.

3 Souza MLP. Alcoolização e violência no Alto Rio Negro [tese]. Manaus: Universidade Federal do Amazonas; 2004.

4 Souza MLP, Garnelo L. Quando, como e o que se bebe: o processo de alcoolização entre populações indígenas do alto Rio Negro, Brasil. Cad Saude Publica 2007; 23(7):1640-1648.

5 Ferreira LO. O "fazer antropológico" em ações voltadas para a redução do uso abusivo de bebidas alcoólicas entre os Mbyá-Guarani, no Rio Grande do Sul. In: Langdon EJ, Garnelo L, organizadores. Saúde dos Povos Indígenas: Reflexões sobre antropologia participativa. Rio de Janeiro: Contra Capa; 2004.

6 Souza JA, Oliveira M, Kohatsu M. O uso de bebidas alcoólicas nas sociedades indígenas: algumas reflexões sobre os Kaingang da bacia do rio Tibagi. Paraná. In: Coimbra C, Santos R, Escobar AL, organizadores. Epidemiologia e Saúde dos Povos Indígenas do Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2003.

7 Ghiggi Junior A, Langdon EJ. Reflexões sobre estratégias de intervenção a partir do processo de alcoolização e das práticas de autoatenção entre os índios Kaingang, Santa Catarina, Brasil. Cad Saude Publica 2014; 30(6):1-10.

8 Pereira PPS, Ott AMT. O processo de alcoolização entre os Tenharim das aldeias do rio Marmelos, AM, Brasil. Interface Comunicação Saúde Educação 2012; 16(43):957-966.
-99 Pena JL. Os índios Maxakali: a propósito do consumo de bebidas de alto teor alcoólico. Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI 2005; 2(2):99-121.,2222 Langdon EJM. O abuso de álcool entre os povos indígenas no Brasil: uma avaliação comparativa. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 27-46.

23 Souza MLP, Schweickard JC, Garnelo L. O processo de alcoolização em populações indígenas do Alto Rio Negro e as limitações do CAGE como instrumento de screening para dependência ao álcool. Rev. Psiq. Clín. 2007; 34(2):90-96.

24 Oyacer AM, Nanco J. Alcooholismo y etnia: criticas y propuestas. In: Salgado MS, Mella IJ, organizadores. Salud, cultura y território: bases para uma epidemiologia intercultural. Santiago de Chile: Lincanray; 1998. p. 43-58.
-2525 Menendez EL. El processo de alcoholizacion: revision critica de la producion socioantropologica, histórica y biomédica en America Latina. Rev. Centroam. Cienc. Salud 1982; 8(22):61-94. e da literatura etnográfica Maxakali99 Pena JL. Os índios Maxakali: a propósito do consumo de bebidas de alto teor alcoólico. Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI 2005; 2(2):99-121.

10 Brasil. Decreto nº 6.871, de 04 de junho de 2009. Dispõe sobre a padronização, a classificação, o registro, a inspeção, a produção e a comercialização de bebidas. Diário Oficial da União 2009; 05 jun.

11 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.

12 Rubinger MM, Amorim MS, Marcato AS, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980.

13 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980.

14 Álvares MM. Yãmiy, os espíritos do canto: a construção da pessoa na sociedade Maxakali [tese]. Campinas: Unicamp; 1992.
-1515 Vieira MG. Virando Inmõxã: uma análise integrada da cosmologia e do parentesco Maxakali a partir dos processos de transformação corporal. Amazônica 2009; 1(2):308-329.,1717 Marcato SA. O indigenismo oficial e os Maxakali (séculos XIX e XX). In: Rubinger MM, Amorim MS, Marcato SA, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980. também moldaram as estratégias de coleta e análise dos dados desta pesquisa.

O que fizemos: partimos das realidades vividas pelos sujeitos da pesquisa, contadas em grupos focais, aqui denominados de Grupos de Rodas de Estórias (GRE), onde obtivemos as descrições significativas desses sujeitos a respeito de suas experiências, passíveis de serem compreendidas e desveladas na sua essência.

GRE podem ser entendidos e utilizados como modelos de discursos e de conversas da vida cotidiana2626 Lunt P, Livingstone S. Rethinking the focus group in media and communications research. J Commun 1996; 46(2):79-98.. Geram discussão e, portanto, revelam tanto os significados supostos pelas pessoas na etapa de comentários como a maneira pela qual as pessoas negociam esses significados; geram diversidade e diferença, tanto dentro como entre grupos, permitem descrever as realidades vividas dos entrevistados com base nas suas ações e subjetividade2626 Lunt P, Livingstone S. Rethinking the focus group in media and communications research. J Commun 1996; 46(2):79-98.,2727 Kitzinger J. Qualitative Research: Introducing focus groups. BMJ 1995; 3(1):311-299..

A seleção dos participantes foi intencional2828 Turato ER. Tratado da metodologia da pesquisa clínico-qualitativa: construção teórico-epistemológica, discussão comparada e aplicação nas áreas da saúde e humanas. Petrópolis: Vozes; 2003.. O primeiro autor e um auxiliar de pesquisa realizaram visitas in loco nas aldeias das duas comunidades, quando as lideranças definiram critérios de inclusão: representar as duas comunidades, ser adulto, de ambos os gêneros, ser ou possuir cargo de liderança; deveria ainda ser indicada e aprovada pela sua comunidade. Estes cuidados conferiram heterogeneidade relevante entre os participantes nas características de formação dos GRE2727 Kitzinger J. Qualitative Research: Introducing focus groups. BMJ 1995; 3(1):311-299..

Por conflitos de agendas, sete lideranças não compareceram. Trabalhamos com 21 lideranças que vivem junto às comunidades como: professores (07), lideranças (04), agentes indígenas de saúde (04), de saneamento (03), dois pajés e uma vereadora, divididos em três GRE; sendo cinco mulheres (26 a 40 anos) e 16 homens (24 a 51), juntas, representavam as duas comunidades e 11 das 17 aldeias.

Após os esclarecimentos e anuência de todos participantes, os GRE foram conduzidos e coordenados pelo primeiro e último autores deste estudo auxiliados por um observador, orientados por um roteiro semiestruturado.

Seguidas as etapas de aquecimento e desenvolvimento, foi lida lentamente a estória “A Kaxmuk na minha aldeia” (Quadro 1), construída a partir do referencial teórico11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64.

2 Fernandes JA. Selvagens Bebedeiras: Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil Colonial [tese]. Niterói: Universidade Federal Fluminense; 2004.

3 Souza MLP. Alcoolização e violência no Alto Rio Negro [tese]. Manaus: Universidade Federal do Amazonas; 2004.

4 Souza MLP, Garnelo L. Quando, como e o que se bebe: o processo de alcoolização entre populações indígenas do alto Rio Negro, Brasil. Cad Saude Publica 2007; 23(7):1640-1648.

5 Ferreira LO. O "fazer antropológico" em ações voltadas para a redução do uso abusivo de bebidas alcoólicas entre os Mbyá-Guarani, no Rio Grande do Sul. In: Langdon EJ, Garnelo L, organizadores. Saúde dos Povos Indígenas: Reflexões sobre antropologia participativa. Rio de Janeiro: Contra Capa; 2004.

6 Souza JA, Oliveira M, Kohatsu M. O uso de bebidas alcoólicas nas sociedades indígenas: algumas reflexões sobre os Kaingang da bacia do rio Tibagi. Paraná. In: Coimbra C, Santos R, Escobar AL, organizadores. Epidemiologia e Saúde dos Povos Indígenas do Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2003.

7 Ghiggi Junior A, Langdon EJ. Reflexões sobre estratégias de intervenção a partir do processo de alcoolização e das práticas de autoatenção entre os índios Kaingang, Santa Catarina, Brasil. Cad Saude Publica 2014; 30(6):1-10.

8 Pereira PPS, Ott AMT. O processo de alcoolização entre os Tenharim das aldeias do rio Marmelos, AM, Brasil. Interface Comunicação Saúde Educação 2012; 16(43):957-966.
-99 Pena JL. Os índios Maxakali: a propósito do consumo de bebidas de alto teor alcoólico. Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI 2005; 2(2):99-121.,2222 Langdon EJM. O abuso de álcool entre os povos indígenas no Brasil: uma avaliação comparativa. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 27-46.

23 Souza MLP, Schweickard JC, Garnelo L. O processo de alcoolização em populações indígenas do Alto Rio Negro e as limitações do CAGE como instrumento de screening para dependência ao álcool. Rev. Psiq. Clín. 2007; 34(2):90-96.

24 Oyacer AM, Nanco J. Alcooholismo y etnia: criticas y propuestas. In: Salgado MS, Mella IJ, organizadores. Salud, cultura y território: bases para uma epidemiologia intercultural. Santiago de Chile: Lincanray; 1998. p. 43-58.
-2525 Menendez EL. El processo de alcoholizacion: revision critica de la producion socioantropologica, histórica y biomédica en America Latina. Rev. Centroam. Cienc. Salud 1982; 8(22):61-94.,2929 Souza MLP. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013.

30 Edwards G, Marshall EJ, Cook CCH. O tratamento para o alcoolismo: um guia para profissionais de saúde. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2005.
-3131 Woititz JG. Adult children of alcoholics. Deerfield Beach: Health Communications, Inc; 1990. e da experiência de nove anos do primeiro autor no âmbito da atenção primária e especializada da saúde Maxakali. Em seguida, foi lançada a pergunta: “O que você sentiu quando ouviu a estória? Como foi ouvir esta estória? Eu quero ouvir você contar a estória de Kaxmuk da sua aldeia”. Na fase dos comentários, as lideranças contaram suas estórias vividas.

Quadro 1
"A Kaxmuk na minha aldeia"

Os relatos ocorreram em português e/ou na língua Maxakali. Algumas lideranças traduziam as falas na língua Maxakali. Quando o grupo já sinalizava o esgotamento da discussão sobre suas estórias, deu-se início à segunda sessão de perguntas, objetivando-se aprofundar ou esclarecer dúvidas sobre aspectos discutidos2727 Kitzinger J. Qualitative Research: Introducing focus groups. BMJ 1995; 3(1):311-299.. As falas foram gravadas em áudio e vídeo e depois ouvidas e transcritas, dando origem a um relatório, incluindo as anotações dos condutores e do observador dos GRE.

Seguindo os pressupostos da análise temática de Boyatzis3232 Boyatzis RE. Transforming qualitative information: thematic analysis and code development. California: Sage Publications Ltd; 1998., dois pesquisadores iniciaram a análise das narrativas por meio da leitura flutuante. Com a decomposição do conteúdo das estórias e debates, desenvolveram um sistema de codificação, posteriormente discutido e refinado em consenso. Este serviu de base para as análises seguintes, reformulado sempre que a análise e a emergência de novos temas surgiam. A codificação e agrupamento dos dados com identificação de categorias em temas foram evoluindo até se atingir a saturação teórica dos dados. O agrupamento temático com suas respectivas unidades de significados encontra-se ilustrado na Figura 3.

Figura 3
Síntese esquemática das dimensões e categorias analíticas das consequências negativas do uso da Kaxmuk Maxakali.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais e pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa.

Resultados e discussão

Os entrevistados ao contarem suas estórias reconheceram as consequências negativas do uso da Kaxmuk. Suas percepções foram atribuídas, ora como autores, ora como expectadores junto a parentes ou não parentes, em casa, na aldeia ou na cidade. A Figura 3 apresenta o conjunto das dimensões e categorias analíticas das realidades experimentadas subjetiva e intersubjetivamente no mundo-da-vida Maxakali. Segundo Schutz1818 Schutz A. Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar; 1979.,1919 Souza MNC. Algumas considerações sobre a sociologia de Alfred Schütz. Revista Eletrônica dos Pós-Graduandos em Sociologia Política da UFSC 2012; 9(1):1-26., essas realidades se expressam numa síntese biopsicossocial. Com esta postura teórico metodológica, agrupamos as experiências de cada entrevistado nos espaços familiares e comunitários de ação desse ser biopsicossocial. Apesar de algumas consequências poderem ser experimentadas em mais de uma dimensão, como atentam Edwards et al.3030 Edwards G, Marshall EJ, Cook CCH. O tratamento para o alcoolismo: um guia para profissionais de saúde. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2005., acreditamos que este agrupamento proporciona informações relevantes para pensar, com os Maxakali, possíveis prevenções.

Dimensão inidividual

Em relação ao beber abusivo e o perigo de se beber sozinho, beber até cair, amnésia e mortes por acidentes, entre os Maxakali que consomem álcool, a quantidade ingerida é considerada perigosa à saúde pelos próprios Maxakali, conforme relato: “Quando tihik vai para a cidade comprar cachaça e bebe, eu acho que é perigoso, vai cair (bebem até cair) e morrer. Se ele deitar, vai dar sono... (fica deitado) o dia todo, vai morrer por causa do sol quente e ninguém vê na hora”. Tais percepções corroboram com os achados de outros estudos33 Souza MLP. Alcoolização e violência no Alto Rio Negro [tese]. Manaus: Universidade Federal do Amazonas; 2004.-44 Souza MLP, Garnelo L. Quando, como e o que se bebe: o processo de alcoolização entre populações indígenas do alto Rio Negro, Brasil. Cad Saude Publica 2007; 23(7):1640-1648.,88 Pereira PPS, Ott AMT. O processo de alcoolização entre os Tenharim das aldeias do rio Marmelos, AM, Brasil. Interface Comunicação Saúde Educação 2012; 16(43):957-966.,2222 Langdon EJM. O abuso de álcool entre os povos indígenas no Brasil: uma avaliação comparativa. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 27-46.-2323 Souza MLP, Schweickard JC, Garnelo L. O processo de alcoolização em populações indígenas do Alto Rio Negro e as limitações do CAGE como instrumento de screening para dependência ao álcool. Rev. Psiq. Clín. 2007; 34(2):90-96., cujo consumo de álcool encontrado é diferente do estilo da população nacional.

Mesmo sabendo dos riscos do “beber e cair”, fica evidente na fala dos Maxakali a previsibilidade de desfechos, quando indivíduos se colocam em situações de risco até mesmo fatal, conforme relato: “Meu pai morreu com 25 anos. Ele foi para a cidade e tomou muita cachaça. Tinha muita cachaça dentro da barriga dele. Ele bebeu e deitou, estava com sol muito quente, a cachaça foi e queimou o coração dele, ele morreu. Cachaça é perigoso”. Mais que simplesmente destruir a saúde dos Maxakali, provocando mortes por coma alcoólico e outras enfermidades, índios morreram por insolação ao ficarem jogados durante horas ao relento11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64..

Os Maxakali reconhecem a vinculação de outras doenças (hipertensão, diabetes) com o uso da cachaça, bebida que eles nunca fabricaram3333 Maxakali R, Maxakali P, Maxakali I, Maxakali M, Maxakali T. Hitupmã'ax: curar. Belo Horizonte: Cipó Voador; 2008., confirmado neste estudo conforme relato: “No passado, tihik Maxakali não tinha pressão alta, hoje tem muito tihik que tá tomando remédio para pressão alta. Mesmo tomando remédio para pressão alta continuam tomando Kaxmuk”.

Além das doenças não transmissíveis, lideranças apontaram também, sinais de enfermidades causadas pelo uso, disse um informante: “E também cachaça vai estragar a barriga. Depois barriga fica assim (coloca as mãos aumentando o tamanho da barriga) e fica amarelo (passando as mãos no rosto).”

Percebem também o perigo da interação medicamentosa entre Kaxmuk com os medicamentos controlados, conforme relato: “ O médico passa um remédio de controle, aquele paciente toma aquele remédio e bebe a cachaça, ele pode morrer”. Acrescentou outro participante: “Fica morte também, porque ele fica deitado na cama quietinho, sem ninguém, e vai que fica a morte”.

Nos processos interacionais, relataram consequências emocionais e de saúde com parentes de quem bebe: “Porque a bebida traz muita doença, não é só a cachaça que vai trazer a doença. A gente que é mulher pensa, às vezes o filho que não tem o problema pensa no parente, pensa no irmão que está bebendo, pensa na tia. Como a parente está falando, o pessoal dela bebe, mas ela não sabe o que acontece porque ela sai. Porque ela sente problema, ela ficou muito doente, tem pressão alta”. Consequências estas que vão ao encontro aos descritos por Edwards et al.3030 Edwards G, Marshall EJ, Cook CCH. O tratamento para o alcoolismo: um guia para profissionais de saúde. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2005., em sua obra sobre o tratamento do alcoolismo.

Quanto aos perigos de acidentes e traumatismo, Rubinger et al.1212 Rubinger MM, Amorim MS, Marcato AS, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980. relatam que a esposa de um pajé teve parte de seu pé amputada por queimadura, já que, a índia embriagou-se tanto que não sentiu que colocava seu pé numa fogueira. Apesar do maior consumo de Kaxmuk ser pelos homens, acidentes e traumatismos também ocorrerem entre as mulheres: “Eu tenho uma irmã, que eu não escondo. Sábado teve uma festinha lá em casa, ela bebeu tanto, bateu num pé lá e caiu e quebrou isso aqui (clavícula); mesmo ela machucada, ela ainda bebe”!

Dimensão familiar

Segundo Eitlle et al.3434 Eitle TM, Johnson-Jennings M, Eitle D. Family structure and adolescent alcohol use problems: Extending popular explanations to American Indiansc. Soc Sci Res 2013; 42(6):146-1479., a família, como um contexto dinâmico e único para crianças em desenvolvimento, tem sido um tópico negligenciado nos estudos de uso de álcool entre povos indígenas. Para compreender os papeis e responsabilidades dos membros que compõem uma família, Dessen e Silva Neto3535 Dessen MA, Silva Neto NA. Questões de Família e Desenvolvimento e a Prática de Pesquisa. Psic.: Teor. e Pesq. 2000; 16(3):191-292. destacam que é preciso, sobretudo, estudar as interações e relações desenvolvidas entre os diferentes grupos familiares e situar as famílias frente aos contextos históricos, social, cultural e econômico que as atravessam.

Popovich1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980. estudando casamentos e relação de parentesco, observou que qualquer nível de parentesco dos Maxakali carrega um conjunto de definições, papeis e responsabilidades para a conduta. Cada nível tem um armazenamento de informações, bem como um instrumento que conduz à ação trazendo consigo muitas expectativas em relação ao comportamento.

Segundo a autora1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980., espera-se que o “pai” providencie a comida necessária: a carne, através da caça, nos tempos anteriores; mandioca, batata e milho, atualmente, através de plantações. O pai deve ensinar a fazer arcos e flechas e a caçar, bem como os mitos e lendas e rituais Maxakali.

A mulher que é chamada de “mãe” deve cozinhar os alimentos básicos para sua família. Ela tece também os artesanatos, lava as roupas; sua filha, aprende a ser uma verdadeira mulher Maxakali, observando-a e a imitando. A díade mãe-filha é provavelmente a mais íntima das relações nessa sociedade1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980..

Um estudo sobre as consequências do uso de álcool com índios Venezuelanos3636 Seale JP, Shellenberger S, Rodriguez SC, Seale JD, Alvarado M. Alcohol use and cultural change in an indigenous population: a case study from Venezuela. Alcohol Alcohol 2002; 37(6):603-608. mostrou que a falta de dinheiro para necessidades familiares essenciais como alimentação, compra de medicamentos e pagamentos, bem como, a negligência das responsabilidades familiares foram os problemas relatados mais mencionados. Esposas relataram que seus maridos chegam a gastar todo o seu dinheiro numa noite ou nos dias de bebedeira na cidade, voltando para casa com pouco ou nada do dinheiro que recebeu3636 Seale JP, Shellenberger S, Rodriguez SC, Seale JD, Alvarado M. Alcohol use and cultural change in an indigenous population: a case study from Venezuela. Alcohol Alcohol 2002; 37(6):603-608.. Situação semelhante relatada pelos Maxakali: “Eu vou na cidade fazer feira. Minha família tá com fome. Fica lá direto e criança fica esperando a noite toda; dorme e o pai não aparece. O que aconteceu: o pai bebeu e caiu lá na calçada, ficou dormindo. Só chegou no outro dia e não trouxe nada”.

Dois outros Maxakali descreveram com mais detalhes: “E tem outra coisa, quando tihik não tem dinheiro, ele vai para a rua, troca o alimento do filho”, completa o outro: “oh isso não é bom, você foi fazer compra” comprou feijão, óleo, açúcar, arroz, mas foi trocando. Deu as coisas pro branco em troca de cachaça. Por isso que hoje o cartão chama Bolsa Cachaça”.

As trocas realizadas pelos índios nos centros comerciais da região são frequentes1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.

12 Rubinger MM, Amorim MS, Marcato AS, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980.

13 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980.
-1414 Álvares MM. Yãmiy, os espíritos do canto: a construção da pessoa na sociedade Maxakali [tese]. Campinas: Unicamp; 1992. e constitui um dos aspectos mais interessantes e muito pouco estudado do chamado contato interétnico11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64.. É do comércio das cidades do entorno das aldeias que dependem diretamente os Maxakali quando procuram adquirir bens indispensáveis à vida1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.,1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980., entre eles, a cachaça99 Pena JL. Os índios Maxakali: a propósito do consumo de bebidas de alto teor alcoólico. Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI 2005; 2(2):99-121.

10 Brasil. Decreto nº 6.871, de 04 de junho de 2009. Dispõe sobre a padronização, a classificação, o registro, a inspeção, a produção e a comercialização de bebidas. Diário Oficial da União 2009; 05 jun.

11 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.

12 Rubinger MM, Amorim MS, Marcato AS, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980.
-1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980.: “A bebida você toma e gasta muito. Quando ela acaba, você tem coisa mais cara (TV, DVD, Som), pega isso e vai negociar com o outro; acaba vendendo mais barato e perdendo as coisas boas. Isto não é certo, você tá prejudicando você e sua família”.

Resultados deste estudo corroboram com os achados de uma pesquisa realizada com os índios Tenharim88 Pereira PPS, Ott AMT. O processo de alcoolização entre os Tenharim das aldeias do rio Marmelos, AM, Brasil. Interface Comunicação Saúde Educação 2012; 16(43):957-966. quanto ao gasto do dinheiro com bebidas, deixando assim, de prover à família o necessário para subsistência. Para os Thenharim, isso não quer dizer que o índio não pode beber, para alguns entrevistados, se o Tenharim consome álcool, mas não deixa faltar nada para sua família, os parentes não interferem com seu modo de beber88 Pereira PPS, Ott AMT. O processo de alcoolização entre os Tenharim das aldeias do rio Marmelos, AM, Brasil. Interface Comunicação Saúde Educação 2012; 16(43):957-966.. Situação contrária, foi relatada no estudo com os índios venezuelanos, alguns quando vão à cidade receber o dinheiro, eles bebem, e não trazem nada para casa, nem para as crianças, estas ficam com fome3636 Seale JP, Shellenberger S, Rodriguez SC, Seale JD, Alvarado M. Alcohol use and cultural change in an indigenous population: a case study from Venezuela. Alcohol Alcohol 2002; 37(6):603-608.. Mesma situação relatada por um entrevistado: “A desnutrição parte da questão da bebida alcoólica, porque o pai bebe e às vezes não lembra das crianças”.

Agora, se ambos os pais são alcoolistas, a família pode ter chegado a um ponto em que a complicação social torna a vida ainda menos previsível3131 Woititz JG. Adult children of alcoholics. Deerfield Beach: Health Communications, Inc; 1990.. “Ele tem um irmão que bebe muito, junto com a mulher. Eles vão para cidade direto e levam o filho. Não é muito bom quando os dois bebem, porque quando eles levam o filho, eles ficam caídos com a criança lá no jardim. O pessoal da SESAI (profissionais da saúde indígena) passa, pega a criança e leva para aldeia e entrega para ele (que é o tio)”.

A despeito de estudos do uso de álcool em alguns povos indígenas no Brasil destacarem que desnutrição proteico-calórica em crianças, esteja, em parte, vinculada ao consumo de álcool por parte dos pais66 Souza JA, Oliveira M, Kohatsu M. O uso de bebidas alcoólicas nas sociedades indígenas: algumas reflexões sobre os Kaingang da bacia do rio Tibagi. Paraná. In: Coimbra C, Santos R, Escobar AL, organizadores. Epidemiologia e Saúde dos Povos Indígenas do Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2003., precisamos reconhecer que há vários tipos de famílias e que os papeis maternos e paternos são multidimensionais e complexos e acima de tudo que, pais e mães desempenham papeis diferentes em contextos culturais diferentes3737 Kreppner K. Developing in a developing context: Rethinking the family's role for children's development. In Winegar LT, Valsiner J. Children's development within social context. New Jersey: 1992. p. 161-182.. Isto posto, traz à tona a necessidade de estudos mais aprofundados sobre uso de álcool com ênfase no contexto familiar e seu impacto sobre o desenvolvimento individual da criança. Tais estudos ajudariam a compreender como os diferentes modos de realizar as tarefas parentais podem afetar o desenvolvimento da criança Maxakali.

No que se refere aos comportamentos violentos e a perda do elo familiar, observou-se que, assim como o onceiro, em “Meu tio o Iauaretê”3838 Rosa JG. "Meu tio o Iauaretê". Estas estórias. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1985., os Maxakali quando bebem podem estar sujeitos a uma espécie de transe semelhante1515 Vieira MG. Virando Inmõxã: uma análise integrada da cosmologia e do parentesco Maxakali a partir dos processos de transformação corporal. Amazônica 2009; 1(2):308-329.. Eles sentem-se transmudados em onça e matam pessoas ou animais, depois voltam ao estado da normalidade e não conseguem lembrar-se exatamente do que aconteceu1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.,1515 Vieira MG. Virando Inmõxã: uma análise integrada da cosmologia e do parentesco Maxakali a partir dos processos de transformação corporal. Amazônica 2009; 1(2):308-329..

Num ensaio etnográfico, Vieira1515 Vieira MG. Virando Inmõxã: uma análise integrada da cosmologia e do parentesco Maxakali a partir dos processos de transformação corporal. Amazônica 2009; 1(2):308-329. realizou uma análise integrada da cosmologia e do parentesco Maxakali e observou que o consumo da Kaxmuk é um dos vetores de transformação corporal que implica na perda da condição humana. Segundo a autora, o Maxakali se torna capaz de agredir e até mesmo matar um parente1515 Vieira MG. Virando Inmõxã: uma análise integrada da cosmologia e do parentesco Maxakali a partir dos processos de transformação corporal. Amazônica 2009; 1(2):308-329., transformação relatada por um entrevistado: “Oh meu Deus, aquela pessoa faz isso, mas não é a pessoa que está fazendo é o demônio que tá fazendo. Aí você fica lá, aguenta tudo, você tem que aguentar tudo! Até que melhora;” reforçado por outra liderança: “Cachaça não respeita outra pessoa, ela mata pai, irmão, mulher. Tem tihik que tá matando até mulher com bebida”.

Pessoas com problemas com bebida às vezes parecem ter perdido todos os elos com a família. Ainda assim, podem nutrir fortes emoções no tocante aos relacionamentos, prejudicados por morte, desarmonia ou negligência, sendo provável que os parentes tenham sentimentos semelhantes3131 Woititz JG. Adult children of alcoholics. Deerfield Beach: Health Communications, Inc; 1990.: “Hoje, quando ele bebe, ele fica quietinho, ele não mexe comigo; porque se a mulher abaixar para homem, ele faz isso! Agora se a mulher não abaixar ele não faz! Porque o homem, ele quer se mostrar, é muito machista, eles querem bater, sabe?” Compreender a capacidade desta esposa de lidar com os estresses e sentimentos provocados por uma relação íntima com um alcoolista, por certo viabiliza o processo de ajuda e tratamento de toda a família3030 Edwards G, Marshall EJ, Cook CCH. O tratamento para o alcoolismo: um guia para profissionais de saúde. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2005.,3131 Woititz JG. Adult children of alcoholics. Deerfield Beach: Health Communications, Inc; 1990..

Dimensão comunitária

A ingesta da Kaxmuk, historicamente incentivada e altamente explorada pelos comércios locais, impacta diretamente na organização social das aldeias Maxakali, causando fragmentações entre famílias que as compõem1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.

12 Rubinger MM, Amorim MS, Marcato AS, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980.
-1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980.. As estórias narradas retratam essa fragmentação: “Eu saí lá da aldeia onde eu morava, agora estou morando somente com minha família e meu irmão por causa de problema de cachaça. Tihik lá da aldeia estava bebendo, ficando doido. Eu fiquei com medo, saí de lá para cuidar da minha família, das crianças.”

Outro relato confirma a citação acima, quando demonstra seu comportamento de beber na sua aldeia ou não chegar noutras aldeias embriagado: “Quando eu tomo uma dose, eu não vou visitar outra aldeia, eu fico quietinho, se eu beber muito é perigoso ir para outra aldeia porque lá você pode morrer”. Participantes descreveram também que alguns membros preferiam consumir álcool sozinhos e escondiam seu consumo de outros para evitar complicações sociais: “Quando eu compro Kaxmuk, eu bebo sozinho”.

Às vezes, o consumo de álcool em casa não significa que os indivíduos estavam bebendo sozinhos. Participantes descreveram bebedeiras, nas quais adultos bebiam e iam de uma casa para outra, geralmente terminando em briga: “A pessoa não tem mulher, o outro tem. O solteiro bebe cachaça, fica querendo mexer com mulher casada. Vai na casa dela, o esposo dela fica com ciúmes e manda ir embora. O bêbado xinga os dois e dá confusão. O casal fica com raiva. Por isso que é muito perigoso”.

A despeito da multiplicidade viva e pulsante da socialização Maxakali ser regida, historicamente, pela busca da aliança1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008., o confronto guerreiro sempre predominou nas relações de contato dos povos que constituem os atuais Maxakali com seus territórios, aldeias e residências1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.,1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980.. Sob os efeitos do álcool manifestam situações latentes de revolta por causa de conflitos e mortes de seus antepassados, antes e depois da formação dos Tikmu'un1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.

12 Rubinger MM, Amorim MS, Marcato AS, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980.
-1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980..

Dessa multiplicidade, Ribeiro1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008. e Popovich1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980. atentam que a formação dos Maxakali atuais só é indicada para explicar uma possível fonte de desequilíbrio interno à sua estrutura social, gerando assim fragmentações muitas das vezes acompanhadas de violências com vinculações peculiares ao uso da Kaxmuk.

Este desequilíbrio interno à sua estrutura social, vinculado ao uso da Kaxmuk, provoca tanto uma grande mobilidade de família(s) mudando entre as várias aldeias de seus três territórios, quanto a implicação na configuração de uma nova aldeia1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980.. Os relatos das lideranças vão ao encontro dos achados de estudos antropológicos1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.,1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980., segundo os quais, quando se trata de aliados, a vingança deixa de ser o mote dos deslocamentos e o conflito torna-se o elemento direto que leva à mobilidade, ao afastamento de cada parte envolvida.

Já no que tange as mortes violentas e a sua reparação, existem conflitos que golpeiam ainda mais fortemente a organização tribal criando sérios problemas sociais. Estudos1212 Rubinger MM, Amorim MS, Marcato AS, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980.,1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980. realizados nas décadas de 60, 70 e 80 registraram homicídios cometidos por pessoas sob o efeito da Kaxmuk contra seus próprios parentes, conforme relato: “Você briga com sua mulher, depois você machuca seus filhos, sua mulher, e se não tiver ninguém para apartar ali, aquela pessoa pode matar a mulher dentro de casa”.

Para os Maxakali, toda a família que teve um de seus membros acometidos por morte violenta tem o direito e o dever da reparação através da morte do assassino, pelas mãos dos parentes do morto1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.,1313 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980., ou seja, por causa da Kaxmuk, no caso da mulher acima, o álcool torna-se o preditor de dois desfechos, um duplo homicídio. Segundo Álvares1414 Álvares MM. Yãmiy, os espíritos do canto: a construção da pessoa na sociedade Maxakali [tese]. Campinas: Unicamp; 1992., “os conflitos geram uma cadeia de vingança entre os membros dos grupos envolvidos que se prolongam por vários anos, até que estes se afastem espacialmente de forma radical1414 Álvares MM. Yãmiy, os espíritos do canto: a construção da pessoa na sociedade Maxakali [tese]. Campinas: Unicamp; 1992.: “A bebida passa por sua cabeça você nem sabe o que está acontecendo. Quando você acorda fala assim: “Oh meu pai do céu olha o que eu fiz! Matei minha esposa. E agora para os meus filhos comer? Agora estou daquele jeito”.

Outra semelhança dos achados de estudos etnográficos1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.

12 Rubinger MM, Amorim MS, Marcato AS, organizadores. Índios Maxakali: resistência ou morte. Belo Horizonte: Interlivros; 1980.

13 Popovich FB. A organização social dos Maxakali [tese]. Arlington: Universidade do Texas; 1980.

14 Álvares MM. Yãmiy, os espíritos do canto: a construção da pessoa na sociedade Maxakali [tese]. Campinas: Unicamp; 1992.
-1515 Vieira MG. Virando Inmõxã: uma análise integrada da cosmologia e do parentesco Maxakali a partir dos processos de transformação corporal. Amazônica 2009; 1(2):308-329. que relatam sobre a reparação de mortes violentas entre os Maxakali colaboram com os achados deste estudo ao afirmarem que antigamente não haviam brigas prolongadas, pois caso uma pessoa matasse alguém, seus parentes o entregaria para os parentes do morto e o “sangue teria voltado”, encerrando-se os problemas1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.. Tal situação é ainda hoje vivenciada no imaginário dos Maxakali: “Uma vez aconteceu um problema lá na minha aldeia; perdi meu genro e meu sobrinho no mesmo dia. Meu outro genro que matou meu sobrinho. Quando eu olho assim isso me ataca, também fico assim pensando de cá no que que aconteceu. Quando meus filhos bebem, eu falo: vocês não viram o exemplo? Vocês querem mais problema? Eu falo desse jeito porque já aconteceu de chegar dois caixões na minha aldeia. Não é mole”!

Contemporaneamente, os Maxakali apreenderam ao uso da Kaxmuk a luta pela resistência, como fruto de permanência e mudanças simbólicas e materiais de suas formas autóctones de devir1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008.. Nos cenários sociohistórico e cultural do contato interétnico estudado, as percepções sociais Maxakali apontam para a exclusão total da bebida fermentada tradicional.

O consumo da bebida tradicional faz parte de um passado mítico. Álvares1414 Álvares MM. Yãmiy, os espíritos do canto: a construção da pessoa na sociedade Maxakali [tese]. Campinas: Unicamp; 1992. e Ribeiro1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008. relatam que os espíritos têm sua vida no além, bem próxima à dos humanos. Lá, eles caçam, pescam, coletam e plantam suas pequenas roças e fazem seus artesanatos.

Quando se reúnem no ritual do Papagaio para cantarem na Kukex, as mulheres fazem panelas de barro onde cozinham seus alimentos e fabricam suas bebidas fermentadas. Antes do ritual, os espíritos do Papagaio trazem o milho para as mulheres, as quais mastigam-no e o jogam dentro de uma panela grande de barro. No outro dia, os espíritos do Papagaio levam a panela de milho para a Kukex1111 Ribeiro RB. Guerra e paz entre os Maxakali: devir histórico e violência como substrato da pertença [tese]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2008..

Assim como para as populações indígenas Rionegrinas/AM33 Souza MLP. Alcoolização e violência no Alto Rio Negro [tese]. Manaus: Universidade Federal do Amazonas; 2004., Bororos/MT11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64.,22 Fernandes JA. Selvagens Bebedeiras: Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil Colonial [tese]. Niterói: Universidade Federal Fluminense; 2004., Mbyá Guarani/RS55 Ferreira LO. O "fazer antropológico" em ações voltadas para a redução do uso abusivo de bebidas alcoólicas entre os Mbyá-Guarani, no Rio Grande do Sul. In: Langdon EJ, Garnelo L, organizadores. Saúde dos Povos Indígenas: Reflexões sobre antropologia participativa. Rio de Janeiro: Contra Capa; 2004., Kaingang/PR66 Souza JA, Oliveira M, Kohatsu M. O uso de bebidas alcoólicas nas sociedades indígenas: algumas reflexões sobre os Kaingang da bacia do rio Tibagi. Paraná. In: Coimbra C, Santos R, Escobar AL, organizadores. Epidemiologia e Saúde dos Povos Indígenas do Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2003.,77 Ghiggi Junior A, Langdon EJ. Reflexões sobre estratégias de intervenção a partir do processo de alcoolização e das práticas de autoatenção entre os índios Kaingang, Santa Catarina, Brasil. Cad Saude Publica 2014; 30(6):1-10., Tenharim88 Pereira PPS, Ott AMT. O processo de alcoolização entre os Tenharim das aldeias do rio Marmelos, AM, Brasil. Interface Comunicação Saúde Educação 2012; 16(43):957-966. a trama de símbolos e de significados que expressam as consequências negativas relacionadas ao uso da Kaxmuk na cultura Maxakali, foram enredando essa população, como sugere Geertz2020 Geertz C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora; 1989.,2121 Geertz C. O saber local. 5ª ed. Petrópolis: Vozes; 2002., em uma teia de significados que vem sendo tecida de geração em geração. Teia esta que cabe, com justeza, o adjetivo perversa, pois a oferta de uma atenção integral e integralizada à saúde com cuidados culturalmente humanizados a indivíduos, famílias e comunidades Maxakali - cujo perfil de morbi-mortalidade é representado por altos coeficientes de mortalidade e índices de desnutrição infantis, além de parasitoses intestinais, doenças diarreicas agudas, respiratórias e escabiose3939 Assis EM, Oliveira RC, Moreira LE, Pena, JL, Rodrigues, LC, Machado-Coelho GLL. Prevalência de parasitos intestinais na comunidade indígena Maxakali, Minas Gerais, Brasil, 2009. Cad Saude Publica, 2013; 29(4):681-690.- é historicamente negada, silenciada e naturalizada.

Considerações finais

A fim de compreender o motivo da total substituição da bebida fermentada, demanda entender não só porque os Maxakali abandonaram a bebida tradicional fermentada, conforme relatado por uma liderança; “tem a bebida da batata, tem a bebida do milho verde. Que sempre faz para religião e que eu enxerguei. Tem a água do coco que pisa ele para tomar no outro dia. Eu falo assim porque eu já tomei. Meu pai fazia garapa e colocava junto com a garapa, e ai a gente tomava também, essa bebida era a que usava. Fazia um vasilhão assim, dessa altura”; mas também porque eles querem continuar usando a Kaxmuk?

Na perspectiva espacial e temporal de Schütz1818 Schutz A. Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar; 1979., é importante considerar as razões pelas quais os representantes contemporâneos dos Makoni, Monoxó, Kapoxó, Malali, Maxakali, Cumanaxó e Panhame usam a Kaxmuk, principalmente suas funções positivas e funcionais que integram a fábrica social dos povos indígenas e fazem parte das manifestações de sociabilidade inter e intragrupal (facilitador dos transes xamanísticos, “lubrificante” social e regulador das expressões de violência e inimizade) conforme descrevem pesquisadores brasileiros neste campo11 Fernandes JA. Cauinagens e bebedeiras: os índios e o álcool na história do Brasil. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 47-64.

2 Fernandes JA. Selvagens Bebedeiras: Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil Colonial [tese]. Niterói: Universidade Federal Fluminense; 2004.

3 Souza MLP. Alcoolização e violência no Alto Rio Negro [tese]. Manaus: Universidade Federal do Amazonas; 2004.

4 Souza MLP, Garnelo L. Quando, como e o que se bebe: o processo de alcoolização entre populações indígenas do alto Rio Negro, Brasil. Cad Saude Publica 2007; 23(7):1640-1648.

5 Ferreira LO. O "fazer antropológico" em ações voltadas para a redução do uso abusivo de bebidas alcoólicas entre os Mbyá-Guarani, no Rio Grande do Sul. In: Langdon EJ, Garnelo L, organizadores. Saúde dos Povos Indígenas: Reflexões sobre antropologia participativa. Rio de Janeiro: Contra Capa; 2004.

6 Souza JA, Oliveira M, Kohatsu M. O uso de bebidas alcoólicas nas sociedades indígenas: algumas reflexões sobre os Kaingang da bacia do rio Tibagi. Paraná. In: Coimbra C, Santos R, Escobar AL, organizadores. Epidemiologia e Saúde dos Povos Indígenas do Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2003.

7 Ghiggi Junior A, Langdon EJ. Reflexões sobre estratégias de intervenção a partir do processo de alcoolização e das práticas de autoatenção entre os índios Kaingang, Santa Catarina, Brasil. Cad Saude Publica 2014; 30(6):1-10.
-88 Pereira PPS, Ott AMT. O processo de alcoolização entre os Tenharim das aldeias do rio Marmelos, AM, Brasil. Interface Comunicação Saúde Educação 2012; 16(43):957-966.,2323 Souza MLP, Schweickard JC, Garnelo L. O processo de alcoolização em populações indígenas do Alto Rio Negro e as limitações do CAGE como instrumento de screening para dependência ao álcool. Rev. Psiq. Clín. 2007; 34(2):90-96.. Estas são as dimensões que receberam pouca atenção e demandam pesquisas antropológicas, todavia, já estudada com outros povos indígenas.

Continuando na perspectiva fenomenológica1818 Schutz A. Fenomenologia e relações sociais. Rio de Janeiro: Zahar; 1979., se historicamente o uso de bebidas alcoólicas contribuiu como lubrificante social para os povos indígenas2222 Langdon EJM. O abuso de álcool entre os povos indígenas no Brasil: uma avaliação comparativa. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 27-46., hoje, para muitos dos Maxakali, os contextos e os estilos do consumo mudaram, corroborando com a dinâmica da cultura33 Souza MLP. Alcoolização e violência no Alto Rio Negro [tese]. Manaus: Universidade Federal do Amazonas; 2004.,2020 Geertz C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora; 1989.,2121 Geertz C. O saber local. 5ª ed. Petrópolis: Vozes; 2002., cujas consequências atuais deste uso, em grande parte, não se explicam pelas especificidades culturais, já que o controle e os limites socioculturais deixaram de existir33 Souza MLP. Alcoolização e violência no Alto Rio Negro [tese]. Manaus: Universidade Federal do Amazonas; 2004.,44 Souza MLP, Garnelo L. Quando, como e o que se bebe: o processo de alcoolização entre populações indígenas do alto Rio Negro, Brasil. Cad Saude Publica 2007; 23(7):1640-1648.,88 Pereira PPS, Ott AMT. O processo de alcoolização entre os Tenharim das aldeias do rio Marmelos, AM, Brasil. Interface Comunicação Saúde Educação 2012; 16(43):957-966.,2929 Souza MLP. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013.,3636 Seale JP, Shellenberger S, Rodriguez SC, Seale JD, Alvarado M. Alcohol use and cultural change in an indigenous population: a case study from Venezuela. Alcohol Alcohol 2002; 37(6):603-608..

Os Maxakali bebem outras substâncias e o fazem frequentemente em novos contextos sociais trazendo consequências negativas para o indivíduo que bebe, suas famílias, aldeias e comunidades, na forma de acidentes, traumatismo, doenças e mortes. Observou-se também negligências dos papeis e responsabilidades dos pais para com a família, além de comportamentos violentos, desarmonias conjugais e fragmentações de aldeias.

Outra questão importante, é saber se os Maxakali reconhecem a diferença das consequências negativas do uso exclusivo da Kaxmuk, comparando esses problemas com as possibilidades de usos exclusivos ou misturados de suas bebidas tradicionais fermentadas, consumidas pelos seus antepassados. Por ora, a falta deste conhecimento vem acarretando consequências negativas e muitas vezes devastadoras para o Maxakali, suas famílias, aldeia e comunidade. Acreditamos que a construção conjunta deste conhecimento pode, no futuro, fazer parte de uma agenda da comunidade, bem como das instituições que trabalham com e para os Maxakali visando o fortalecimento da cultura e o resgate da bebida tradicional Maxakali.

Os GRE e o diálogo generoso com os Tikmũ’ũn produziram questionamentos nativos2222 Langdon EJM. O abuso de álcool entre os povos indígenas no Brasil: uma avaliação comparativa. In: Souza MLP, organizador. Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013. p. 27-46.,2424 Oyacer AM, Nanco J. Alcooholismo y etnia: criticas y propuestas. In: Salgado MS, Mella IJ, organizadores. Salud, cultura y território: bases para uma epidemiologia intercultural. Santiago de Chile: Lincanray; 1998. p. 43-58. sobre como organizar ações de intervenção para e com essa população com caráter menos prescritivo55 Ferreira LO. O "fazer antropológico" em ações voltadas para a redução do uso abusivo de bebidas alcoólicas entre os Mbyá-Guarani, no Rio Grande do Sul. In: Langdon EJ, Garnelo L, organizadores. Saúde dos Povos Indígenas: Reflexões sobre antropologia participativa. Rio de Janeiro: Contra Capa; 2004.,3838 Rosa JG. "Meu tio o Iauaretê". Estas estórias. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1985., e que possuem potência para pensar outras sensibilidades, possibilidades de existência fora do registro do uso do álcool33 Souza MLP. Alcoolização e violência no Alto Rio Negro [tese]. Manaus: Universidade Federal do Amazonas; 2004.,2323 Souza MLP, Schweickard JC, Garnelo L. O processo de alcoolização em populações indígenas do Alto Rio Negro e as limitações do CAGE como instrumento de screening para dependência ao álcool. Rev. Psiq. Clín. 2007; 34(2):90-96..

Se, como sustenta Rancière4040 Rancière J. A partilha do sensível: Estética e política. São Paulo: Editora34; 2005., existe uma relação entre política e visibilidade, no sentido de que a política se ocuparia do que se “vê e do que pode ser dito sobre o que é visto” e, consequentemente, designar quem tem competência para “ver e qualidade para dizer”, os achados do presente estudo têm também a potência, no sentido forte do termo, de levantar a voz e dizer sobre os infortúnios e as necessidades dos Tikmũ’ũn. Potência esta capaz de provocar ruídos junto aos órgãos governamentais e academias para a necessidade de desenvolvimento de projetos interdisciplinares visando a ampliação de pesquisas sobre o uso da Kaxmuk.

Referências

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Histórico

  • Recebido
    17 Mar 2017
  • Aceito
    14 Nov 2017
  • Revisado
    16 Nov 2017
ABRASCO - Associação Brasileira de Saúde Coletiva Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: revscol@fiocruz.br