Cecilio L. O corpo recusado. São Paulo: HUCITEC; 2020.

Salvador Pereira Campos Corrêa Junior Marcos Nascimento Sobre os autores
Cecilio, L. O corpo recusado. São Paulo: HUCITEC, 2020

O livro O corpo recusado de Luiz Cecilio11 Cecilio L. O corpo recusado. São Paulo: HUCITEC; 2020. é um convite a várias possibilidades de reflexão. O autor, renomado sanitarista, se propôs a empreitada de construir uma narrativa literária acerca de sua trajetória afetivo-sexual, descortinando os processos vivenciados de ser tornar publicamente um homem-gay-soropositivo para o HIV. Elaborou um relato potente e instigante sobre desafios contemporâneos relacionados à masculinidade, sexualidade e homossexualidade. A partir de registros entremeados por memória e afetos, revela-se não somente as vicissitudes da trajetória afetivo-sexual do autor, mas também de outros tantos homens de sua geração e, ousaríamos dizer, de gerações mais recentes. Além disso, há um testemunho vivo das experiências de quem enfrentou no corpo e na vida, as várias etapas da epidemia de HIV e Aids no Brasil nos últimos trinta anos.

Recorremos nessa resenha a três momentos de reflexão. O primeiro se refere à masculinidade encarnada nesse corpo - um importante personagem na sua narrativa e que será produto e produtor de sua história. É por meio desse “corpo-texto”(p.272) que se constrói a narrativa do corpo-menino que precisa ser disciplinado e instruído a “falar firme com jeito de homem”(p.31) atendendo a padrões de gênero heteronormativos e sujeito a um esquema de patrulhamento que pretende fazê-lo refutar qualquer traço considerado como feminino e de torná-lo um corpo-rapaz-heterossexual22 Matta R. Tem pente aí?: reflexões sobre a identidade masculina. In: Caldas D, organizador. Homens. São Paulo: Editora SENAC; 1997. p. 31-49..

Esse patrulhamento, realizado por instituições como a família e a escola, buscava, em alguma medida, produzir a afirmação de sua masculinidade. A ida a um prostíbulo, ainda na adolescência, para sua iniciação sexual - algo bastante comum para homens de sua geração -, marcava um rito de passagem importante na aquisição de credenciais masculinas33 Parker R. Corpos, prazeres e paixões. São Paulo: Best-Seller; 1991.. Além da iniciação sexual, estava em jogo a comprovação pública do seu corpo-heterossexual.

Tornar-se um corpo-homem-aceito nos padrões socialmente impostos implicava ser hétero, bem-sucedido profissional e financeiramente e ter uma família, atendendo aos preceitos da masculinidade hegemônica, nas palavras de Raewyn Connell44 Connell R. Masculinities. Berkeley: University of California Press; 1995.. Nessa trajetória, vale destacar como a posição desse corpo-homem negocia a todo o momento com as expectativas sociais acerca do que significa ser “homem de verdade” e da constante necessidade de validação homossocial da sua masculinidade. Afinal, serão os outros homens que irão conferir (ou não) a ele o estatuto de homem.

No entanto, as negociações com o corpo-desejo de relações afetivas, eróticas e sexuais com outros homens implicou reconhecer a existência do dispositivo do armário55 Sedgwick EK. A epistemologia do armário. Cad Pagu 2007; 28:19-54. e aprender os códigos para manuseá-lo com suas portas fechadas e/ou entreabertas. Passava a encontrar outro território, o chamado “mundo gay”, com seus códigos e valores.

Como para a maioria dos corpos-gays da sua geração, a homossexualidade colocava os homens em uma situação inferioridade social66 Eribon D. Reflexões sobre a questão gay. Rio de Janeiro: Companhia de Freud; 2008., por meio de uma masculinidade que será reconhecida como subordinada e marginalizada44 Connell R. Masculinities. Berkeley: University of California Press; 1995.. Esse sentimento de inferioridade forja uma subjetividade que, na expressão do autor, aparece em diferentes momentos como o corpo “recusado”, “esquecido”, “abusado”, “abandonado”. Sair do registro da “vergonha” para o do “orgulho” de afirmar pública e socialmente seu desejo é um processo contínuo de negociações com seus próprios afetos e fantasmas e com o mundo social, muitas vezes hostil.

No segundo momento, a descoberta do diagnóstico de HIV dá ao autor a dimensão da “transitoriedade da vida”(p.17), marcando uma ruptura biográfica77 Bury M. Doença crônica como ruptura biográfica. Tempus Actas Saude Colet 2011; 5(2):41-55.. Ser gay e viver com HIV aciona novamente o mecanismo do “segredo” para poder lidar com as relações sociais, os afetos e sua sexualidade. Constitui-se uma nova forma de estar no mundo com aquilo que Abreu88 Abreu GS. O segundo armário: diário de um jovem soropositivo. Rio de Janeiro: Index Ebooks; 2014. chama de o “segundo armário”.

A vivência do segundo armário é descrita pelo autor em muitas passagens do livro. Em alguns desses momentos ele revela como esse processo pode produzir medos e anseios evocando algumas daquelas registradas por Abreu88 Abreu GS. O segundo armário: diário de um jovem soropositivo. Rio de Janeiro: Index Ebooks; 2014.: a revelação para o parceiro sexual; preocupação de como o diagnóstico será recebido por familiares e amigos; sentimentos diversos com relação à percepção da morte; desafio por parte dos profissionais de saúde na abordagem de questões que envolvem sexualidade; a rejeição de parceiros sexuais em função do vírus e também a aceitação de parceiros sexuais com relação ao diagnóstico. Esse “novo armário” também envolve outras facetas do segredo que afetam questões práticas do cuidado, como a administração de medicamento e a necessidade de escondê-los, como Cecílio11 Cecilio L. O corpo recusado. São Paulo: HUCITEC; 2020. nos apresenta.

A escolha de seguir a vida, dentro ou fora do “segundo armário”, possui um componente de vitalidade - decisão pela vida - que produz vida99 Rachid M. Sentença de Vida - Histórias e lembranças: a jornada de uma médica contra o vírus que mudou o mundo. Rio de Janeiro: Máquina de livros; 2020. como o doutorado de Cecílio11 Cecilio L. O corpo recusado. São Paulo: HUCITEC; 2020. e o mestrado de Abreu88 Abreu GS. O segundo armário: diário de um jovem soropositivo. Rio de Janeiro: Index Ebooks; 2014.. A consciência da vida parece ser um caminho para lidar com o diagnóstico, pela via do rompimento com a vertente de doença-guerra1010 Daniel H, Parker R. Aids, a terceira epidemia: ensaios e tentativas. 2ª ed. Rio de Janeiro: ABIA; 2018.. Contudo, o armário também produz solidão, tanto para os autores que de alguma forma conseguem um trânsito de vida11 Cecilio L. O corpo recusado. São Paulo: HUCITEC; 2020.,88 Abreu GS. O segundo armário: diário de um jovem soropositivo. Rio de Janeiro: Index Ebooks; 2014.,1010 Daniel H, Parker R. Aids, a terceira epidemia: ensaios e tentativas. 2ª ed. Rio de Janeiro: ABIA; 2018. como para seus amigos descritos nos livros que não suportaram a dor do armário, desistindo dela. O peso do estigma - uma das vertentes do vírus ideológico1010 Daniel H, Parker R. Aids, a terceira epidemia: ensaios e tentativas. 2ª ed. Rio de Janeiro: ABIA; 2018. - acaba por ser produtor de morte.

Entre a “gestão da morte”, a “gestão da vida” e a “gestão do silêncio”1111 Simoes JA. Gerações, mudanças e continuidades na experiência social da homossexualidade masculina e da epidemia de HIV-Aids. Sex Salud Soc (Rio J) 2018; 29:313-339., Cecilio11 Cecilio L. O corpo recusado. São Paulo: HUCITEC; 2020. nos oferece além do seu testemunho-vida, um panorama do que foi e do que é a aids no Brasil nesses últimos trinta anos.

E por fim, o inevitável processo de envelhecimento que traz à cena questionamentos sobre o vivido e experienciado, iluminando detalhes do seu cotidiano - o lugar cedido no transporte público para esse corpo-idoso; a necessidade de medicalizar seu corpo-sexual-erótico; ou ainda, a relação com os profissionais de saúde que reduzem sua história a um marcador sorológico, desconsiderando sua sexualidade ao cuidar desse corpo-farmacológico-medicalizado. Nessa direção, o livro nos desafia a pensar as especificidades do envelhecimento dos homens1212 Brigeiro M. Vejez y sexualidad masculina: ¿Reír o llorar? Rev Lat-Am Psicol 2002; 34(1-2):83-93., tema pouco presente no campo de estudos sobre masculinidades. E nos dá pistas para pensar o envelhecimento gay, com suas escolhas e possibilidades, perdas e ganhos1313 Mota M. Ao sair do armário, entrei na velhice: homossexualidade masculina e o curso da vida. Rio de Janeiro: Mobile; 2014., além da sociabilidade sexual em tempos de desejos digitais1414 Miskolci R. Desejos digitais: uma análise sociológica da busca por parceiros on-line. Belo Horizonte: Autentica; 2017..

Por fim, é preciso ressaltar que o livro do Cecílio11 Cecilio L. O corpo recusado. São Paulo: HUCITEC; 2020. vem se somar a outras autobiografias sobre a experiência de viver com HIV88 Abreu GS. O segundo armário: diário de um jovem soropositivo. Rio de Janeiro: Index Ebooks; 2014. e nas vicissitudes que o vírus ideológico segue produzindo99 Rachid M. Sentença de Vida - Histórias e lembranças: a jornada de uma médica contra o vírus que mudou o mundo. Rio de Janeiro: Máquina de livros; 2020.,1010 Daniel H, Parker R. Aids, a terceira epidemia: ensaios e tentativas. 2ª ed. Rio de Janeiro: ABIA; 2018.. Esperamos que a popularização das informações sobre a prevenção combinada, e tudo que a compõe, ajude a desmistificar - pelo menos para a geração mais jovem recém infectada - o significado de viver com HIV.

Referências

  • 1
    Cecilio L. O corpo recusado. São Paulo: HUCITEC; 2020.
  • 2
    Matta R. Tem pente aí?: reflexões sobre a identidade masculina. In: Caldas D, organizador. Homens. São Paulo: Editora SENAC; 1997. p. 31-49.
  • 3
    Parker R. Corpos, prazeres e paixões. São Paulo: Best-Seller; 1991.
  • 4
    Connell R. Masculinities. Berkeley: University of California Press; 1995.
  • 5
    Sedgwick EK. A epistemologia do armário. Cad Pagu 2007; 28:19-54.
  • 6
    Eribon D. Reflexões sobre a questão gay. Rio de Janeiro: Companhia de Freud; 2008.
  • 7
    Bury M. Doença crônica como ruptura biográfica. Tempus Actas Saude Colet 2011; 5(2):41-55.
  • 8
    Abreu GS. O segundo armário: diário de um jovem soropositivo. Rio de Janeiro: Index Ebooks; 2014.
  • 9
    Rachid M. Sentença de Vida - Histórias e lembranças: a jornada de uma médica contra o vírus que mudou o mundo. Rio de Janeiro: Máquina de livros; 2020.
  • 10
    Daniel H, Parker R. Aids, a terceira epidemia: ensaios e tentativas. 2ª ed. Rio de Janeiro: ABIA; 2018.
  • 11
    Simoes JA. Gerações, mudanças e continuidades na experiência social da homossexualidade masculina e da epidemia de HIV-Aids. Sex Salud Soc (Rio J) 2018; 29:313-339.
  • 12
    Brigeiro M. Vejez y sexualidad masculina: ¿Reír o llorar? Rev Lat-Am Psicol 2002; 34(1-2):83-93.
  • 13
    Mota M. Ao sair do armário, entrei na velhice: homossexualidade masculina e o curso da vida. Rio de Janeiro: Mobile; 2014.
  • 14
    Miskolci R. Desejos digitais: uma análise sociológica da busca por parceiros on-line. Belo Horizonte: Autentica; 2017.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Maio 2022
  • Data do Fascículo
    Maio 2022
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