A internacionalização da ciência

Marilia Sá Carvalho Claudia Travassos Cláudia Medina Coeli

A internacionalização da ciência vem sendo objeto de grandes debates no Brasil, e mais do que isto, de grande investimento, por meio do programa Ciência sem Fronteiras. Entretanto, internacionalizar para quê? Ou talvez, para quem? Em que direção?

Dados apresentados em artigo publicado na Nature indicam grande ampliação da colaboração internacional na última década, principalmente em alguns países desenvolvidos. No Reino Unido, a proporção de artigos com participação de autores de mais de um país aumentou de 20% para 50% entre 1981 e 2012 (Nature 2013; 497:557). No Brasil, essa proporção oscilou em torno de 25% em todo o período, com o máximo na década de 90, quando alcançou pouco mais de 30%.

Esse padrão de colaboração científica liderada pelos países ocidentais desenvolvidos impacta positivamente os índices de citação de suas publicações. No Reino Unido, a ci- tação média dos artigos com pelo menos um autor estrangeiro é de 1,72 quando comparada com 1,48 para artigos cujos autores são todos de um mesmo país (dados de 2011). A cooperação internacional sul-sul não necessariamente refletiria em aumento desses índices.

Em Cadernos de Saúde Pública, continuamos aprofundando nossa política de internacionalização ampla, apresentada no Editorial de dezembro/2012 (Cad Saúde Pública 2012; 28:2220-1). Além de aceitar artigos em três idiomas, no nosso quadro de editores temos agora a colaboração de dois editores associados portugueses, os professores Jorge Mota, da Universidade do Porto, Faculdade de Desporto, e João Arriscado Nunes, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; e do Dr. Carlos Eduardo Siqueira, brasileiro, professor na University of Massachusetts Boston.

Apoiamos a internacionalização, tal como é pensada no Brasil, também voltada para os países do mundo em desenvolvimento. Em 2013, publicamos 33 artigos de autores latino- americanos, e em 2014, até o fascículo 6 (junho), 44 artigos. Nos últimos 12 meses recebemos 97 submissões de dez diferentes países latino-americanos, entre os quais 37 estão em avaliação ou já aprovados. Mas dentre todos esses, somente cinco tinham coautorias com brasileiros. O que nos traz de volta ao ponto inicial: a importância de se incentivar a cooperação internacional por meio da criação de redes de pesquisa, para que aumente a produção de artigos internacionalizados. É nossa intenção que Cadernos Saúde Pública seja não apenas um veículo de estímulo à publicação científica, com espaço substancial para autores não oriundos dos países centrais, mas que seja uma porta aberta aos cientistas de todo o mundo na geração de conhecimentos novos e relevantes.

Marilia Sá Carvalho
Claudia Travassos
Cláudia Medina Coeli
Editoras

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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