Mulheres na ciência

Claudia Torres Codeço Claudia Mazza Dias Sobre os autores

Em 2018, as mulheres ainda representam apenas um terço do conjunto dos estudantes universitários em carreiras de Ciências, Matemática e Tecnologia no mundo 11. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. Women and girls’ education - facts and figures. http://www.unesco.org/new/en/unesco/events/prizes-and-celebrations/celebrations/international-days/international-womens-day-2014/women-ed-facts-and-figure/ (acessado em 03/Set/2018).
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. Essa diferença tende a ser ainda mais marcante dentre as posições acadêmicas mais avançadas. Desincentivos começam na infância e se estendem pela vida profissional, muitas vezes de forma tão sutil que seus efeitos só são percebidos posteriormente 22. Maxmen A. Why it’s hard to prove gender discrimination in science. Lack of transparency and unconscious biases make it hard to spot inequality. Nature 2018; 15 mai. https://www.nature.com/articles/d41586-018-05109-w.
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. A desigualdade de gênero nas ciências no Brasil, em particular na Matemática, foi o tema do 1º Encontro Fluminense de Mulheres em Biomatemática, realizado dos dias 15 a 17 de agosto, 2018 (http://dippg.cefet-rj.br/efmb). Além do debate, o objetivo também foi a divulgação do trabalho realizado por importantes pesquisadoras fluminenses em Biomatemática, área interdisciplinar em ascensão no Brasil, na qual a Matemática é aplicada a problemas oriundos da Biologia, da Medicina, da Saúde Pública, entre outros. Observou-se ótima repercussão de público, reunindo participantes de 33 instituições de ensino e pesquisa, sendo três do exterior, distribuídos entre professores, pesquisadores e estudantes do nível fundamental até doutorado. O tema concentrou-se na Epidemiologia Matemática, um campo que visa a utilizar a Matemática para estudar a dinâmica de doenças transmissíveis e seu controle. Foram apresentados trabalhos sobre dinâmica de dengue, intervenção vacinal para varicela, modelagem de febre amarela e da influenza, e distribuição espacial da leptospirose, dentre outros. As metodologias diversificadas demonstram a inserção das pesquisadoras brasileiras em campos como a modelagem estocástica e determinística, a modelagem computacional, big data etc.

A discussão sobre o desequilíbrio de gênero em ciências foi tratada por especialistas que apresentaram um vasto panorama sobre a situação no país. A Professora Carolina Araújo, do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), ressaltou que a discussão sobre gênero na Matemática chega atrasada ao Brasil em relação ao resto do mundo. Ela relata números preocupantes: enquanto a representação feminina entre os discentes de licenciatura em Matemática se equipara à masculina, ela cai para 20-30% entre os mestrandos e doutorandos. E a situação não está melhorando, diz ela ao citar os dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Na ciência em geral, as mulheres são 49%; na Matemática, são 25%. Dentre os bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), 36% são mulheres considerando-se todas as áreas. A sub-representação das mulheres não só entre autores, mas principalmente entre revisores e editores foi tema do Editorial de março de 2018 de CSP 33. Carvalho MS, Coeli CM, Lima LD. Mulheres no mundo da ciência e da publicação científica. Cad Saúde Pública 2018; 34:e00025018., que cita que “na área de matemática as mulheres são somente 15% dos pesquisadores, sendo ainda menos representadas na editoria, apenas 10%”.

Como reverter esse quadro? Em todas as discussões surge um ponto coincidente e que parece ser a melhor medida imediata de combate ao problema, o incentivo à participação de mulheres cientistas e professoras como modelos que possam inspirar nossas meninas em eventos e iniciativas variadas, mostrando que a participação de mulheres nas ciências é fato, apesar da ameaça de estereótipo e outros fenômenos, como o chamado viés implícito, que leva nossas moças precocemente à falsa impressão de que são menos brilhantes e capazes para os estudos que envolvem conhecimentos matemáticos. Assim, eventos dessa natureza além de promover a visibilidade do trabalho feminino em ciências, são também importantes no fortalecimento dos grupos de pesquisa do Rio de Janeiro em Biomatemática e grandes incentivadores da participação feminina junto a estes grupos; atraindo mulheres a atuar não só em Biomatemática, mas na Matemática e nas ciências em geral.

Outro fato interessante que o evento trouxe à tona é o surgimento de grupos temáticos que incentivam a participação feminina em campos que são reconhecidos pela maioria como de atuação predominantemente masculina. É o caso do Meninas na Robótica, iniciativa das estudantes do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ - campus de Nova Iguaçu; http://www.cefet-rj.br/), do Tem Menina no Circuito (https://temmeninanocircuito.wordpress.com/), coordenado por professoras do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Projeto Mulheres na Matemática (http://mulheresnamatematica.sites.uff.br/), ação extensionista que mantém em seu site informações atualizadas sobre eventos e a divulgação do trabalho acadêmico-científico realizado por matemáticas brasileiras. Esperamos que outras iniciativas venham a se somar às que foram aqui citadas, contribuindo para a difusão do trabalho feminino nas ciências.

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: cadernos@ensp.fiocruz.br