Aspectos e intervenções psicossociais nas pandemias na contemporaneidade

Psychosocial aspects and interventions in contemporary pandemics

Aspectos e intervenciones psicosociales en las pandemias en tiempos actuales

Mário César Rezende Andrade Marco Antônio Silva Alvarenga Sobre os autores
THE PSYCHOLOGY OF PANDEMICS: PREPARING FOR THE NEXT GLOBAL OUTBREAK OF INFECTIOUS DISEASE. Taylor, S. Newcastle: Cambridge Scholars Publishing, 2019. 161. 978-1-5275-3959-4

A recente pandemia de COVID-19 tornou evidente a necessidade de compreender os aspectos psicossociais envolvidos nessas situações, seus principais impactos e moderadores das ações e reações ao contexto pandêmico. Alguns meses antes do início da pandemia, em Wuhan, na China, quase ninguém imaginava a crise de saúde pública, econômica e social que seria enfrentada em escala global 11. Bavel JJV, Baicker K, Boggio PS, Capraro V, Cichocka A, Cikara M, et al. Using social and behavioural science to support COVID-19 pandemic response. Nat Hum Behav 2020; 4:460-71.. Entretanto, ainda no final de 2019, como se fosse um presságio, o psicólogo canadense Steven Taylor já esperava a ocorrência de uma pandemia em um futuro próximo, com o lançamento do livro The Psychology of Pandemics: Preparing for the Next Global Outbreak of Infectious Disease22. Taylor S. The psychology of pandemics: preparing for the next global outbreak of infectious disease. Newcastle: Cambridge Scholars Publishing; 2019.. Baseando-se em estudos na área e em dados de outras pandemias anteriores, principalmente aquelas causadas pelo vírus influenza, o autor nos oferece um amplo panorama das principais questões psicológicas e sociais que deveriam ser consideradas no caso de uma próxima crise pandêmica. Os 12 capítulos que compõem a obra apresentam a história, origem, formas de dispersão, impactos sociais e subjetivos causados pelas pandemias, e possíveis intervenções individuais e sociais/comunitárias.

O autor inicia o livro com a definição do conceito de pandemia, as nomenclaturas utilizadas e oferece um panorama sobre as maiores crises desse tipo na história da humanidade e suas características. Além disso, são apresentados os principais estressores psicossociais, socioecômicos e efeitos imediatos das pandemias no cotidiano das pessoas, além de uma análise acerca dos efeitos nos sistemas de saúde, na economia e sobre como as infecções podem se espalhar, sobretudo no mundo globalizado contemporâneo. Nos capítulos seguintes, são discutidos os principais métodos contemporâneos para o manejo das pandemias, por parte dos estados e dos cidadãos, com destaque para a comunicação de riscos, tratamentos farmacológicos, práticas de higiene e distanciamento social.

As manifestações psicológicas frequentes durante e após uma pandemia são também contempladas na obra. A ansiedade é um dos sentimentos mais comuns nessa situação e conduz ao estresse e desgaste emocional e, consequentemente, afeta o sistema neuroimunológico e torna as pessoas ainda mais vulneráveis ao contágio, especialmente pessoas já em situação de vulnerabilidade econômica e social. A economia e a organização social também são prejudicadas, o que pode levar ao pânico massivo e à agitação civil, em função da perda de pessoas significativas e empregos, crise financeira, isolamento e falta de recursos básicos para a sobrevivência. Tais eventos confirmam a necessidade de haver políticas de saúde para a prevenção de situações de crise psicológica e intervenções emergenciais acessíveis à população para minimizar o desgaste, sentimentos de vulnerabilidade e desamparo percebido, evitando o colapso social. Para embasar as intervenções com enfoque subjetivo, o quinto capítulo apresenta modelos cognitivos-comportamentais de como a ansiedade pela saúde pode produzir atitudes prejudiciais durante a pandemia. Esse modelo possibilita a identificação de sinais físicos, a redução de experiências emocionais negativas e readaptação comportamental, sendo, portanto, de grande auxílio em intervenções antes, durante e após a pandemia. Essa forma de intervenção pode ser feita de forma on-line ou presencial. No caso da população brasileira, que apresenta, em sua maioria, um aparelho telefônico com a acesso à Internet, poderia se beneficiar da prática remota de acolhimento, pelo menos durante o distanciamento social. Desse modo, mesmo considerando a exclusão digital que ainda existe em nosso contexto, uma parcela significativa da população pode se beneficiar dessa modalidade de intervenção.

Outro tópico explorado em um dos capítulos é o papel e influência da personalidade na forma como as pessoas são afetadas durante a pandemia. A expressão acentuada de determinados traços tende ao negacionismo ou à maior percepção de ameaça e, deste modo, leva a estratégias de enfrentamento, como o monitoramento ou o embotamento, nem sempre adaptativas. Portanto, políticas de cuidado à saúde devem desenvolver estratégias de comunicação mais detalhadas (relatos longos de monitoramento e cuidados) ou de conteúdo breve (tópicos curtos de esclarecimentos sobre a pandemia e ações profiláticas), considerando diferentes perspectivas pessoais na compreensão e busca por informações. Outra temática retratada é a adequada divulgação de informações, no caso, a comunicação dos riscos, que é de grande importância para os cuidados pessoais e sociais. Trata-se de umas das intervenções psicossociais mais eficazes por atingir uma ampla parcela da população. As informações devem ser percebidas como críveis e apresentadas de forma a facilitar maior aderência da população às práticas de manutenção da saúde 33. Kanadiya MK, Sallar AM. Preventive behaviors, beliefs, and anxieties in relation to the swine flu outbreak among college students aged 18-24 years. J Public Health 2011; 19:139-45.. O autor ressalta que a efetividade dessas práticas ocorre por meio do apelo racional e do afetivo para que seja possível auxiliar as pessoas a diferenciarem rumores de fatos, evitar a divulgação de ideias equivocadas e atitudes negligentes.

Além dos aspectos psicológicos, também são explorados fatores e fenômenos sociais específicos que podem ocorrer durante as pandemias. Como exemplo, um capítulo inteiro é dedicado às teorias da conspiração, que comumente surgem em casos de doenças novas e ainda pouco conhecidas. O autor apresenta as principais características, causas e correlatos desse tipo de pensamento, tecendo também algumas explorações acerca de possíveis estratégias para reduzir seus impactos e influências. Outros fatores sociais importantes são também abordados. Em particular, são exploradas as principais formas pelas quais o medo e crenças acerca da doença podem se espalhar e influenciar o próprio curso da pandemia. Uma delas são as mídias e as redes sociais, juntamente com os rumores, os quais podem ser responsáveis pela distorção e disseminação de fake news, que constituem um fenômeno complexo e relevante no mundo contemporâneo. Outro ponto abordado é a influência que as mídias sociais podem exercer nas atitudes a favor e contra a vacinação. Além disso, essa própria atitude quanto à vacina e os fatores que podem ajudar em sua adesão recebem também dedicação exclusiva em outro capítulo, incluindo reflexões sobre a vacinação compulsória. Desse modo, ações para combater - localizando-as e evitando sua propagação - fake news devem ser implementadas.

Sobre outras possíveis intervenções, o penúltimo capítulo apresenta o método Sondagem-e-Tratamento (Screen-and-Treat) de acompanhamento remoto, que pode colaborar de forma efetiva no suporte de pessoas de diversas camadas sociais angustiadas com a situação. Essa metodologia mostra-se efetiva no levantamento das necessidades apresentadas (triagem) e encaminhamento. A abordagem remota tem sido adotada por vários profissionais de saúde e se mostrado eficaz no contexto atual 44. Bäuerle A, Graf J, Jansen C, Dörrie N, Junne F, Teufel M et al. An e-mental health intervention to support burdened people in times of the COVID-19 pandemic: CoPE It. J Public Health 2020; 42:647-8.. Ademais, é de suma importância cuidar também dos profissionais de saúde que trabalham expostos durante esse período. Essa ação é muitas vezes negligenciada em períodos críticos e pode comprometer, de maneira global, esses profissionais.

Por fim, o décimo segundo e último capítulo apresenta algumas considerações e atitudes a serem adotadas no caso de possíveis futuras pandemias. Inicialmente, as principais instituições públicas e sociais deveriam se preparar para o problema, orientar as pessoas sobre como poderiam enfrentar a pandemia e preservar atividades econômicas e educacionais, com o cuidado contínuo da saúde. Prosseguir com pesquisas em diferentes áreas será de suma importância para compreender as novas dinâmicas sociais, formas de comunicação adequadas, redução de fake news e enfoque no autocuidado e cuidado social.

De modo geral, ao longo da obra, é dada uma grande ênfase aos determinantes psicológicos em cada temática, dada a explícita influência cognitivista do autor. Entretanto, deve-se ponderar o risco de cair em uma psicologização e patologização da vida e das emoções, já que muitos dos fenômenos abordados fazem parte de reações intrínsecas ao processo histórico vivenciado em uma pandemia. Isso não significa também que a atenção aos efeitos negativos de uma pandemia e do isolamento social na saúde mental da população deva ser negligenciada. Por outro lado, alguns aspectos políticos e sociais de extrema importância são também abordados, apesar do nível superficial e da complexidade devida, como o papel determinante dos governantes e de seus comportamentos, além da forma como a pandemia afeta de forma desigual as diferentes camadas sociais. Além disso, a atual pandemia de COVID-19 provocou diversos impactos subjetivos, sociais e econômicos e está confirmando vários preceitos presentes no livro. A obra nos fornece, deste modo, várias bases para se refletir e manejar diversos problemas associados a uma pandemia. Trata-se, portanto, de uma obra extremamente relevante e necessária para ajudar no entendimento e atendimento às demandas contemporâneas.

Referências

  • 1
    Bavel JJV, Baicker K, Boggio PS, Capraro V, Cichocka A, Cikara M, et al. Using social and behavioural science to support COVID-19 pandemic response. Nat Hum Behav 2020; 4:460-71.
  • 2
    Taylor S. The psychology of pandemics: preparing for the next global outbreak of infectious disease. Newcastle: Cambridge Scholars Publishing; 2019.
  • 3
    Kanadiya MK, Sallar AM. Preventive behaviors, beliefs, and anxieties in relation to the swine flu outbreak among college students aged 18-24 years. J Public Health 2011; 19:139-45.
  • 4
    Bäuerle A, Graf J, Jansen C, Dörrie N, Junne F, Teufel M et al. An e-mental health intervention to support burdened people in times of the COVID-19 pandemic: CoPE It. J Public Health 2020; 42:647-8.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Out 2020
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    26 Ago 2020
  • Revisado
    13 Out 2020
  • Aceito
    19 Out 2020
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