Entre os muitos partos no Brasil, conhecer aqueles na luz do Daime

Among the many births in Brazil, meet those in the light of the Daime

Entre los muchos partos en Brasil, conocer aquellos a la luz del Daime

Andreza Pereira Rodrigues Sobre o autor
2022

O parto e o nascimento são eventos que interessam, e muito, à sociedade, como já nos disse Maria Lúcia Mott 11. Mott ML. Parto. Revista Estudos Feministas 2002; 10:399-401.. E, para serem compreendidos, precisam de múltiplos olhares. Diferentes disciplinas produzem aproximações distintas, que, somadas, ampliam a noção da complexidade desses eventos. Em que pese essa complexidade, nem sempre nos atentamos ao modo como ela se traduz nas práticas de atenção à saúde. O parto e o nascimento têm sido alvo de políticas públicas que buscam incidir em mudanças relevantes nas suas práticas, entre elas a realização excessiva de cirurgias cesáreas, em um contexto mais ampliado de medicalização 22. Nicida LRA, Teixeira LAS, Rodrigues AP, Bonan C. Medicalização do parto: os sentidos atribuídos pela literatura de assistência ao parto no Brasil. Ciênc Saúde Colet 2020; 25:4531-46.. O cenário do parto no Brasil pôde ser melhor conhecido a partir do inquérito nacional sobre parto e nascimento (2011-2012) 33. Grupo de Pesquisa Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente. Nascer no Brasil: inquérito nacional sobre parto e nascimento (2011 a 2012). https://nascernobrasil.ensp.fiocruz.br/?us_portfolio=nascer-no-brasil (acessado em Jun/2023).
https://nascernobrasil.ensp.fiocruz.br/?...
, mas cada nova abordagem nos apoia no percurso de desvendar especificidades desses eventos, de modo a garantir uma atenção pautada nos direitos (não só reprodutivos), na equidade e na humanização.

É nesse sentido de contribuição para a compreensão da diversidade e complexidade do parto que o livro O Parto na Luz do Daime: Corpo e Reprodução entre Mulheres na Vila Irineu Serra44 . Barreto JNR . O parto na luz do Daime: corpo e reprodução entre mulheres na Vila Irineu Serra. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2022.é aqui apresentado. Fruto da tese de doutorado da autora Juliana Nicolle Rebelo Barretto, a etnografia de oito meses junto à comunidade hoasqueira da Vila Irineu Serra - localizada no Município de Rio Branco, Estado do Acre, Brasil - provoca reflexões sobre relações de poder e hierarquias de gênero, fronteiras entre remédio e drogas (discussão muito bem situada e argumentada, por sinal) e, o ponto chave, sobre corpo e reprodução entre mulheres que interseccionam os rituais de parto e os rituais religiosos.

Essa intersecção talvez seja uma grande novidade para os pesquisadores e leitores sobre gestação e parto no Brasil. Com riqueza de detalhes, é possível mergulhar com a autora na compreensão de como gestações, partos e pós-partos foram vivenciados na cultura do Daime no Acre por mulheres “hoasqueiras” - em referência a hoasca, ou ayahuasca, uma bebida feita geralmente a partir da infusão vegetal.

O livro, desde a apresentação, instiga a problematizar a convivência de saberes e os percursos de cuidados empreendidos por diferentes mulheres, a forma como “o sistema de saúde” lida com mulheres que conjugam esses saberes e o traduzem em seus rituais de parto e, sobretudo, como hierarquias de gênero são preservadas (ou subvertidas) pelo feminino reconhecido como força e potência na reprodução.

Os três primeiros capítulos situam o leitor de modo contundente no tema. O capítulo 1 - Hoasca e as Políticas no Brasil - é base fundamental, em especial para quem não tem proximidade com a discussão sobre ayahuasca e as disputas narrativas entre uso religioso e consumo nocivo de drogas alucinógenas, principalmente entre gestantes. Os capítulos 2 - Pesquisa de Campo - e 3 - A Vila Irineu Serra -, além do texto, são enriquecidos por desenhos e fotos, que permitem ao leitor conhecer como e onde a pesquisa foi realizada. Neles, a autora registra os passos da incursão etnográfica, o acolhimento na vila, sua participação nos encontros, além de mostrar como os desenhos podem ser ricos em registros de campo na pesquisa. A Vila Irineu Serra ganhou vida com texto e imagens, assim como com a descrição dos rituais, hinos e o detalhamento da relação da comunidade com Nossa Senhora da Conceição.

Os capítulos 4 - Partos, Daime e Feminização da Hoasca - e 5 - Corpo e Percepção - são o ponto alto do livro. Neles, vemos as relações de gênero no ritual religioso, que, com o parto - evento de mulheres -, ganha novos contornos, bem como a convivência entre religião e biomedicina, que ora são complementares e ora a primeira é soberana e exclui a outra. Apoiada de modo consistente em literatura específica da antropologia, a autora guia o leitor por um universo em que o parto desafia a lógica dos saberes biomédicos. Desse modo, conhecimentos da medicina e da religião transitam e não determinam uma forma única, nem de lugar - casa ou hospital -, nem de práticas - força do parto e força do Daime -, mas se interseccionam e produzem modos próprios de sentir, viver e compreender os eventos reprodutivos no corpo feminino.

O “Daime que protege” e “a bebida que ajuda” são a tônica do capítulo 5, em que vemos em minúcias como os eventos do corpo feminino são percebidos como canais abertos à potencialização pela bebida, assim como o ritual de recepção do filho na crença, com o nascimento à luz do Daime. Desses capítulos, fica a síntese de que a vivência na comunidade de Vila Irineu Serra no contexto atual e as transformações nas práticas de parto (internas e externas à comunidade) ressignificam as compreensões do que é um corpo feminino entre as mulheres hoasqueiras.

Fechando o livro, as considerações finais da autora são um convite a relembrar os pontos centrais e a sair dessa imersão no parto na luz do Daime levando boas reflexões.

O livro é interessante para quem gosta de literatura sobre parto, mas destaco também como necessário para os que apreciam o estudo de rituais. Para aqueles que acompanham discussões sobre o uso da “beberagem”, a leitura pode ser uma incursão relevante, considerando que o consumo da bebida nos rituais religiosos ainda é um dilema, por vezes incluído no contexto das políticas relacionadas às drogas. A presença da hoasca nos eventos de gestação e parto pode ser ainda mais desafiadora à compreensão, mas de certo subsidiará a compreensão do sagrado (feminino) proporcionado por ela.

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  • 1
    Mott ML. Parto. Revista Estudos Feministas 2002; 10:399-401.
  • 2
    Nicida LRA, Teixeira LAS, Rodrigues AP, Bonan C. Medicalização do parto: os sentidos atribuídos pela literatura de assistência ao parto no Brasil. Ciênc Saúde Colet 2020; 25:4531-46.
  • 3
    Grupo de Pesquisa Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente. Nascer no Brasil: inquérito nacional sobre parto e nascimento (2011 a 2012). https://nascernobrasil.ensp.fiocruz.br/?us_portfolio=nascer-no-brasil (acessado em Jun/2023).
    » https://nascernobrasil.ensp.fiocruz.br/?us_portfolio=nascer-no-brasil
  • 4
    Barreto JNR . O parto na luz do Daime: corpo e reprodução entre mulheres na Vila Irineu Serra. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2022.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Set 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    05 Jun 2023
  • Aceito
    16 Jun 2023
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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