CRIAÇÃO

 

Teremos um título?

 

 

Adriana Ferreira SousaI; Andréa Zemp Santana do NascimentoII; Juliana Araújo SilvaIII

IArquiteta, MPA Pedreira de Freitas Arquitetos Associados. Rua Fiação da Saúde, 128, Bloco C1, apto. 38. Jardim da Saúde, São Paulo, SP, Brasil. 04.144-020. afsous16@yahoo.com.br
IIPós-graduanda em Arte-educação, Universidade de Artes de Zurique
IIIMestranda em Psicologia Clínica, Universidade Estadual Paulista, Unesp, campus de Assis

 

 

MOVIMENTO 0 -S0 (posição inicial)-

O MST convidou a Faculdade de Arquitetura da USP a pensar/estruturar conjuntamente com os moradores do assentamento Dom Pedro Casaldáliga o Sistema de Espaços Livres, atividade que constitui disciplina optativa. Fez parte desse encontro a interação entre algumas arquitetas, ou quase, e as crianças do assentamento, para que estas também se envolvessem na ação de transformação de seus ambientes. Objetivos-prazos da disciplina e a escolha "do que interessava" nessa interação se distanciaram... e aumentaram a abrangência do plano e o prazo para sua realização.

 

ENCONTRAM-SE

- Estudantes de Arquitetura, Pedagogia e Terapia Ocupacional da USP

- Moradores, sobretudo as crianças e os membros do setor de Educação, de um assentamento do MST.

Objetivo: Construir? Constituir? de forma conjunta um brinquedo-espaço, ou seja, uma estrutura espacial que abrigasse diversas possibilidades de apropriação, e que tivesse efeito potencial de intensificar relações sociais no espaço coletivo em geral, introduzindo o lúdico como um aspecto do cotidiano.

 

 

"Movimento é a ação dos bailarinos quando usam o corpo para criar formas ordenadas; a energia fornece a força necessária para executar o movimento; ritmo é o padrão de tempo em torno do qual se realiza o movimento e a criação está relacionada com a forma visual apresentada pelo movimento do corpo do bailarino."

(http://www.edukbr.com.br/artemanhas/tiposdedanca.asp)

O projeto em debate com os adultos se estendia para uma escala mais ampla - os espaços de produção e moradia do assentamento todo - e se tornava abstrato demais para as crianças, temporal e espacialmente. Com as crianças, o que seria executado não se sabe quanto tempo depois, era vago e não permitia ligações entre este abstrato e o concreto, inibindo uma possível experiência de conquista de autonomia. Sem possibilidade técnica para intervir em tal plano, estas teriam sempre uma posição coadjuvante em sua elaboração, quase como uma presença supérflua, por conta das variáveis que afligiam os adultos. Era latente a tomada de poder pelo efêmero, pelo fazer, pelo aqui-agora no processo com as crianças. Era preciso criar um outro espaço-tempo em sintonia com elas. Esta forma de conduzir o processo - forçando uma relação entre os processos com adultos e crianças e colocando as últimas em uma falsa posição de protagonistas - estava sendo prejudicial politicamente para as crianças, e, de certa forma, traduzia-se em submissão delas aos adultos. Nesse momento, também, percebíamos já a tensão: como nos posicionarmos em pensamento e em ação com relação às formas de infância produzidas socialmente?

 

MOVIMENTO 1

A quase composição...

Deixamo-nos levar por aqueles pequenos, para que nos mostrassem o espaço. Fazer "nada" como possibilidade de fazer muitas coisas... improvisar, escorregar, abrir caminhos... Corpos agindo x projeto no papel... imaterialidade do brinquedo e do espaço. Momentos livres, que foram a determinado tempo e por referências sociais entendidos como "caóticos" e "soltos". Tateamentos iniciais. Todos juntos no mesmo espaço, de formas diferentes.

 

 

MOVIMENTO 2

A sede de "ordem" e "foco", em resposta ao sentimento anterior de "caos".

Planejamento de atividades, com previsão de crescimento linear da interação com as crianças e de sua intervenção sobre seu espaço. Ritual fixo a cada dia, com controle de tempo e agrupamento de todas as crianças, a mesma atividade para todos (naquela igualdade homogeneizante), roda pra começar, roda pra fechar...

Oops! Escorregando para o modelo escolar... andando em linha reta.

Momentos gostosos? Sim!

Mas...

 

 

Areia, terra, argila, água... objetos, bichos, frutas,máscaras, personagens surgindo de paredes coloridas e do fundo do rio... crianças sumindo na areia e ressurgindo em malabarismos e saltos...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MOVIMENTO 3

Uma certa ruptura ao perceber as contradições do movimento anterior.

Potencializou-se o diálogo criativo que já estava ali. Voltamos à exploração livre junto às crianças, mas agora pretendendo assumir a plenitude disto: parceiros descobrindo e criando brincadeiras, relações, espaços, conflitos e soluções, porque vivendo.

Exploração de nossas próprias singularidades... cada um com seus conflitos, questões, ideias. De [animadoras/coordenadoras de atividades] + [crianças que seguiam nossas propostas] + [jovens e adultos do Setor de Educação], fomos passando a brincantes. E então, identificando afinidades e diferenças, mais e mais conexões entre pessoas e atividades se construíam, como desejos, e se desconstruíam, e tornavam a dar lugar a novas construções. Esparramamo-nos por mais espaços e diferentes tempos, mas uma certa sintonia permitia que compartilhássemos os diferentes experimentos. Contagiamo-nos e instigamo-nos uns aos outros; ou não - há que se ter resistências e dissonâncias.

E tudo cabia.

 

MOVIMENTO 4

Meses depois... as vivências e brincadeiras começam a se repetir... E agora? Será que estamos nos colocando de menos? Vamos brincar só de esconde-esconde? Sempre? Entendíamos como latente nossa interferência com materiais e propostas, que aglutinasse as experiências vividas até ali, potencializando caminhos e também assumindo vontades nossas. Agora sim, e assim: tínhamos construída uma outra relação, com poderes revistos.

Planejamentos rígidos tinham perdido qualquer sentido. Desta interferência, surgiria uma multiplicidade de experimentações com vários graus de efemeridade. Pneus rodando ladeira abaixo, cordas e mais cordas, tecidos, tubos de papel... Corda-bamba, cipó de Tarzan, balanços, túneis, crianças entubadas, escadas, tirolesa, redes, piruetas e cambalhotas, circo, cabanas, crianças perdidas na floresta, mamães e filhinhas, homens da floresta, casinhas de pano quase suportando uma chuva de granizo!!!!, tubos destruídos por outrem, noivas, modelos e bandidos, cordas roubadas do assentamento...

 

 

-"Não era assim que eu tinha imaginado não!"...
- "ela poderia estar presa no chão"...
- "ela poderia ser deitada!"...
- "e se ela fosse uma escada para uma casinha lá em cima?"

 


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MOVIMENTOS QUE FICARAM POR VIR

Existia uma sinergia que foi se construindo entre nós aos poucos para a materialização de um marco físico de nossas vivências. Esta sinergia se potencializou num passeio que fizemos juntos ao SESC Itaquera, onde encontramos consolidadas algumas idéias esboçadas no imaginário, ainda sem forma, e outras que já tínhamos começado a materializar no assentamento. Uma casinha na árvore, com escadinhas, uma rede horizontal, pneus e outros elementos começavam a procurar lugar para instalação no nosso habitat comum. Uma plantação de bambu existia próximo ao assentamento. Unindo-se a tudo isso a versatilidade deste material e relativa facilidade de sua manipulação, tomou força no grupo a realização de uma oficina para todos do assentamento, que fosse uma ferramenta para futuras construções, lúdicas ou não. Agenciamos o arquiteto que poderia ensinar técnicas e organizamos o dia juntamente com o assentamento.

Fez-se assim uma finalização neste processo, que poderia ter desdobramentos imprevisíveis.

 

 

 

* Projeto financiado pelo Fundo de Cultura e Extensão Universitária da USP (FCEx), bolsas e recursos materiais, ago/2007 a abr/2008.

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