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A psiquiatrização da existência: dos manicômios à neuroquímica da subjetividade

 

La psiquiatrización de la existencia: de los manicomios a la neuroquímica de la subjetividad

 

 

O presente trabalho tem como objetivo elaborar uma crítica da psiquiatrização da existência focalizando, particularmente, as relações entre a racionalidade biológica e as estratégias de ampliação da intervenção psiquiátrica em contingentes populacionais cada vez maiores e nas mais variadas esferas da vida. Inspirada na genealogia foucaultiana, a pesquisa inicia seu exame histórico pelo alienismo pineliano, compreendido como o modo disciplinar pelo qual se deu a apropriação inaugural da loucura pela medicina. A seguir, são analisados os diferentes formatos historicamente apresentados pelo organicismo psiquiátrico, desde sua introdução pela teoria da degenerescência moreliana do século XIX até as reformas preventivistas do pós-guerra. Desenvolve-se, então, à luz da análise histórica encetada, um exame do conjunto de fatores envolvidos na atual ênfase psicofarmacológica pela qual a psiquiatria contemporânea vai estender seu reducionismo biológico agora apoiado na química da neurotransmissão às mais diversas circunstâncias da existência humana. No percurso da análise, são abordados o conluio entre a psiquiatria e a indústria farmacêutica, e o correlato papel desempenhado pelas sucessivas edições dos DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) na extraordinária multiplicação das possibilidades diagnósticas pela qual a psiquiatria vem dispondo a sua psicofarmacologia como recurso explicativo e regulador da pluralidade das manifestações da subjetividade contemporânea. Sob essa base, são criticamente problematizadas as perspectivas atuais de uma psiquiatria que, na busca de realizar o sonho de integrar-se à medicina científica que a embala desde o século XIX, teria aceitado a sobredeterminação da identidade de seu domínio de saber e de sua prática clínica por uma psicofarmacologia promovida pelos grandes fabricantes de psicofármacos. Por fim, à guisa de conclusão, sugere-se que a psiquiatria, reduzida ao desempenho de mera intermediação prescritora entre o paciente e os laboratórios farmacêuticos, corra o risco de ser gradativamente descartada pelo dominante e global desenvolvimento de uma racionalidade de mercado que privilegia as relações mais diretas entre as instâncias de produção e as de consumo.

Daniele de Andrade Ferrazza
Tese (Doutorado), 2013 Programa de Pós-Graduação, Faculdade de Ciências e Letras, UNESP - Univ Estadual Paulista, danieleferrazza@yahoo.com.br

 

 

Recebido em 06/09/13. Aprovado em 14/09/13.

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