CRIAÇÃO

 

Uma desmontagem humanizada através de fotografias em Saúde Coletiva*

 

Humanized disassembly through photographs within public health

 

Un desmontaje humanizado por medio de fotografías en Salud Colectiva

 

 

Carlos Alberto Severo Garcia JúniorI; Radilson Carlos GomesII

IConsultor, Política Nacional de Humanização, Ministério da Saúde. Setor Administrativo Federal Sul (SAF Sul), Trecho 2, Bloco F, sala 19, Ed. Premium, Torre II. Brasília, DF, Brasil. 70070-600. carlosgarciajunior@hotmail.com
IIFotógrafo de Saúde Pública, Ministério da Saúde

 

 

Margem
Margem: contorno externo e imediato de algo.
Margear: situar-se em uma relação.
Marginal: sujeito que beira a vida.
Marginalista: adepto à criação de anotações em imagens.
(Garcia, 2013, p.44)

Kossoy (2007) considera a noção de desmontagem como algo implicado na ideia de decifração. Na busca, através das imagens fotográficas, de suas realidades e seus códigos. Através de uma análise iconográfica e de interpretação iconográfica, detecta seus elementos constitutivos (fotógrafo, assunto, tecnologia) e suas coordenadas de situação (espaço, tempo). Propondo, assim, a reconstituição do processo que originou a representação. Nesse sentido, tratamos de um território-imagem3 vivo e em movimento, como se pode ver a seguir.

 


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Vida-família. Cozinha, ponta de alimento, porta de entrada. Cozinha-família, entrada da vida. Domicílio, meio de vida, meio da vida. Visita, todos entram. Visita domiciliar, aquela em busca (se ativa). Tempo de conversas, barriga cheia e calor. Tempo de silêncio, panela vazia e desânimo. A imagem além de compor contrastes de luzes e momentos, apresenta uma abertura para enxergarmos a partir de um lugar de "dentro", ao mesmo tempo, um lugar de "fora", e perder-se naquilo que não se vê. Tem-se a proteção de paredes entre a vida pública e a vida privada. A saúde (ora pública) tenta entrar na casa (ora privada) pela porta aberta. Vida e família, bem público-privado, porta de entrada de tudo.

 


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"Dona de divinas tetas, derrama o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas", diria Caetano Veloso na música "Vaca Profana". Leite, alimento sagrado e acalentador. Seios e bustos, imagem divina da vida. Vida fértil, vida pulsante. História revelada na transmissão e na passagem do líquido. Hoje, mãe. Ontem, jovem. Amanhã, senhora. Entre rios, sinuosas margens que revelam a mãe natureza resguardada pela vida ainda humana. Um olhar feminino. Mulheres, mães, meninas e avós de um povo que carrega uma herança. Uma cultura com seus respeitos e seus rituais. Entre redes, entre pontos, entre vidas. A naturalização de vidas em redes. Num primeiro plano: olhos abertos-acima, atentos ao fora. No segundo plano: olhos fechados-abaixo, atentos ao cuidado (dentro).

 


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Uma mesa em distâncias. Entre histórias de distâncias e distâncias de histórias, mulheres e crianças numa ciranda. Uma família viva, uma passagem de tempo, em busca de cuidado. Perguntas: quem quer atenção quer encontrar solução? Quem escuta visa qual saída? Quem olha, diz o quê? Com licença, doutora, entramos aqui para saber o que temos, mas acho que só sabemos o que não temos.

 


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Tem fogo? Indagaria parado. Como se o caminho já não revelasse nenhuma surpresa. Um caminho que há muito se caminha sabendo para onde se vai. Já foram deixados pelo percurso alguns restos de cinzas. Fogo? Claro! Prazeres e paixões não se esvaem em si mesmas, elas conduzem caminhos, avisam aos menos atentos. Sinais e alertas que advertem, dizem de sua saúde. Caminhar parado e rodar em rodas. No escuro, num corredor solitário, vive restos e fumaças. Se já lhe amputaram as pernas, do que lhe servem, se o corpo segue a andar?

 

 

Planos em três porções, divididos entre pequenos objetos humanos. Conversas e condições. Mulheres postas a dialogar sobre a vida, banalidade em forma de uma tela. Um emaranhado de semicoisas entre a vida. Vale a pena ver de novo. Quem não vê perde a chance de chegar, e quem chega é porque quis ver. Uma visita abre o impulso de organizar a casa. O estranho que entra sempre pode estranhar aquela casa. Como se tentássemos mostrar um pouco daquele outro que não somos. Um visitante impõe um reajuste. O relógio, a mobília, a bagunça habitual da vida passa a ser um possível desconforto.

 

 

Pressões e marcas, impressões de expressões. Pressões e contrastes, menção de tensão. Se o olhar e o vento não conseguem revelar um tempo ou, mesmo, um lugar, ao menos, pode-se ter um instante já-mais (Garcia, 2013) o mesmo. Instante já-mais o mesmo é incapacidade de prender, escolha de extrair o medo e o fim. Entre medidas capazes de relevar a normalidade, temos sujeitos comuns, vida legítima, base sólida de um território. Medidas e médias. Normalização que varre extremos que jamais se tocam. Minha amiga, como vai você? Ainda que não nos conhecemos, mas sei quem é você. Você entrou em minha casa e esqueceu-se de dizer seu nome. Pediu uma xícara de açúcar, um pedaço de pão e nunca mais voltou. Deixou de aparecer. Por favor, apareça minha amiga, e diga quem realmente é você.

 

Colaboradores

Os autores trabalharam juntos na concepção desta publicação. Carlos Garcia Jr. produziu o texto e Radilson Carlos Gomes fotografou as imagens.

 

Referências

GARCIA, S. Marginais. Rio de Janeiro: Multifoco, 2013.         

KOSSOY, B. Os tempos da fotografia: o efêmero e o perpétuo. Cotia: Ateliê Editorial, 2007.         

 

 

Recebido em 14/06/13. Aprovado em 31/10/13.

 

 

* Texto sem conflitos de interesses nem financiamento. Seu resultado é o encontro entre fotografias e produções textuais na publicização de um modo de pensar "saúde coletiva: imagem coletiva".
3 Usamos o acervo "foto-saúde": um dispositivo virtual com fotografias distribuídas gratuitamente pelo fotógrafo documentarista Radilson Carlos Gomes, sobre diversos segmentos da saúde pública no país, como: universidades (faculdades de saúde), secretarias estaduais e municipais de saúde, entidades e associações voltadas para o fortalecimento do SUS. Disponível em: <http://www.radilsongomes.com.br/fotosaude.php>

 

 

 

 


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