Grupo de pesquisa como espaço de aprendizagem em/sobre educação interprofissional (EIP): narrativas em foco

Grupo de investigación como espacio de aprendizaje en/sobre educación interprofesional (EIP): narrativas en enfoque

Rosana Aparecida Salvador Rossit Carlos Francisco dos Santos Junior Nara Maria Holanda de Medeiros Lucilene Martorelli Ortiz Petin Medeiros Cristiano Gil Regis Sylvia Helena Souza da Silva Batista Sobre os autores

Resumos

Este trabalho se propôs a analisar as contribuições do grupo como um espaço de estudo, pesquisa e desenvolvimento de competências em/sobre a Educação Interprofissional. Apresenta nuanças do estudo de caso e ancorou-se na abordagem qualitativa. As 14 narrativas conduziram ao campo das experiências e representações, objeto de compreensão, análise e interpretação da pesquisa. Da análise temática emergiram três eixos de categoria: motivações, expressando os movimentos de busca, ingresso e permanência; grupo como espaço de aprendizagem compartilhada e prática colaborativa, com dimensões intersubjetiva, pessoal, institucional; e grupo como processo de consolidação e reconstrução permanentes, com desafios na construção das aprendizagens, no processo grupal e na publicização. O grupo caracteriza-se como locus privilegiado para o compartilhamento de saberes, produção de conhecimentos e construção de aprendizagens.

Educação interprofissional; Prática colaborativa; Relações interprofissionais; Comportamento cooperativo


La investigación tuvo el objetivo de analizar las contribuciones del grupo como un espacio de estudio, investigación y desarrollo de competencias en/sobre la Educación Interprofesional. Presenta aspectos del estudio de caso y se basó en el abordaje cualitativo. Las 14 narraciones llevaron al campo de las experiencias y representaciones, objeto de comprensión, análisis e interpretación de la investigación. Del análisis temático surgieron tres ejes de categoría: motivaciones, expresando los movimientos de búsqueda, ingreso y permanencia; grupo como espacio de aprendizaje compartido y práctica colaborativa con dimensiones intersubjetiva, personal e institucional; y grupo como proceso de consolidación y de reconstrucción permanentes, con desafíos en la construcción de los aprendizajes, en el proceso grupal y en la difusión al público. El grupo se caracteriza como locus privilegiado para la compartición de saberes, producción de conocimientos y construcción de aprendizajes.

Educación interprofesional; Práctica colaborativa; Relaciones interprofesionales; Comportamiento cooperativo


Introdução

Na perspectiva de “grupos”, entende-se que o trabalho coletivo deriva da união, em um mesmo espaço físico ou virtual, de diferentes pessoas com interesses comuns. A oportunidade da convivência, de estar junto, aprender junto e de fazer junto, da aprendizagem compartilhada, do conhecimento de uns com os outros, das interações e das intenções de cada integrante do grupo, quando liderada com princípios norteadores e ancorada em conhecimento científico sólido, tem o potencial de se transformar em um espaço de desenvolvimento pessoal e profissional.

Maximino e Liberman 11. Maximino V, Liberman F. Grupos e terapia ocupacional: formação, pesquisa e ações. São Paulo: Summus Editorial; 2015. destacam que o grupo é um espaço privilegiado de aprendizagem e que aprender neste contexto significa “abrir-se para a construção coletiva e a leitura crítica da realidade – o grupo cria uma interdependência no compartilhamento de tarefas e passa a aprender a planejar e colaborar” (p. 44).

Samea 22. Samea M. O dispositivo grupal como intervenção em reabilitação: reflexões a partir da prática em terapia ocupacional. Rev Ter Ocup. 2008; 19(2):85-90. descreve o grupo como um “espaço potencializador de encontros e contato com o outro, de questionamentos e indagações, de elaboração e trocas, de identificações e de confrontos” (p. 86). Um espaço com essas características torna-se um convite ao exercício do trabalho em equipe e da prática colaborativa, na perspectiva da Educação Interprofissional.

A EIP 33. Centre for the Advancement of Interprofessional Education. Interprofessional education guidelines 2016 [Internet]. Fareham: CAIPE; 2016 [citado 15 Set 2017]. Disponível em: https://www.caipe.org/resources/publications/caipe-publications/barr-h-gray-r-helme-m-low-h-reeves-s-2016-interprofessional-education-guidelines.
https://www.caipe.org/resources/publicat...
é definida como “duas ou mais profissões que aprendem com, de e sobre si, para melhorar a prática colaborativa e a qualidade do cuidado” (p. 5) 44. Organização Mundial da Saúde. Marco para ação em educação interprofissional e prática colaborativa [Internet]. Genebra: OMS; 2010 [citado 30 Set 2017]. Disponível em: http://www.sbfa.org.br/fnepas/oms_traduzido_2010.pdf.
http://www.sbfa.org.br/fnepas/oms_traduz...
.

Barr et al. 55. Barr H, Koppel I, Reeves S, Hammick M, Freeth D. Effective interprofessional education: arguments, assumption & evidence. Oxford: Blackwell; 2005. defendem que oportunidades de EIP contribuem para a formação de profissionais de saúde melhor preparados para uma atuação integrada em equipe, na qual a colaboração e o reconhecimento da interdependência das áreas predominam frente à competição e à fragmentação.

Nesse contexto, equipes interprofissionais são constituídas por duas ou mais categorias profissionais que compartilham conhecimentos e experiências para o planejamento e execução de projetos e atividades no seu contexto de trabalho 66. D’Amour D, Oandasan I. Interprofessionality as the field of interprofessional practice and interprofessional education: an emerging concept. J Interprof Care. 2005; 19(1):8-20. .

Reeves et al. 77. Reeves S, Zwarenstein M, Goldman J, Barr H, Freeth D, Koppel I, et al. The effectiveness of interprofessional education: key findings from a new systematic review. J Interprof Care. 2010; 24(3):230-41. definem o trabalho em equipe interprofissional como uma intervenção que envolve diferentes profissões de saúde e/ou sociais que compartilham uma identidade de equipe e trabalham em conjunto de maneira integrada e interdependente para resolver problemas e prestar serviços.

A EIP em Saúde e as práticas interprofissionais colaborativas (PIC) se configuram em grandes desafios tanto para as instituições do ensino superior (IES) quanto para os espaços formativos, pois para o profissional de saúde se tornar um bom profissional “não basta mais ser profissional. No atual contexto global, o profissional de saúde também precisa ser interprofissional” (p. 36) 44. Organização Mundial da Saúde. Marco para ação em educação interprofissional e prática colaborativa [Internet]. Genebra: OMS; 2010 [citado 30 Set 2017]. Disponível em: http://www.sbfa.org.br/fnepas/oms_traduzido_2010.pdf.
http://www.sbfa.org.br/fnepas/oms_traduz...
.

Nesse contexto, entende-se que os grupos de pesquisa são espaços de construção de conhecimentos que contribuem com a qualificação do ensino em saúde, sob o ponto de vista da interprofissionalidade, bem como possibilitam a reflexão quanto ao papel e importância da EIP na formação e na educação permanente em saúde para o estabelecimento das PIC.

As práticas colaborativas ocorrem quando “[...] profissionais de saúde de diferentes áreas prestam serviços com base na integralidade da saúde, envolvendo os pacientes e suas famílias, cuidadores e comunidades para atenção à saúde da mais alta qualidade em todos os níveis da rede de serviços4” (p. 13).

A EIP é um passo importante da força de trabalho em saúde colaborativa e preparada para a prática, para que esteja pronta para agir e responder às demandas de saúde 44. Organização Mundial da Saúde. Marco para ação em educação interprofissional e prática colaborativa [Internet]. Genebra: OMS; 2010 [citado 30 Set 2017]. Disponível em: http://www.sbfa.org.br/fnepas/oms_traduzido_2010.pdf.
http://www.sbfa.org.br/fnepas/oms_traduz...
. Para Batista 88. Batista NA. Educação interprofissional em saúde: concepções e práticas. Cad Fnepas [Internet]. 2012 [citado 15 Set 2017]; 2(1):25-8. Disponível em: http://www.fnepas.org.br/artigos_caderno/v2/educacao_interprofissional.pdf.
http://www.fnepas.org.br/artigos_caderno...
, a: “EIP apresenta-se como a principal estratégia para formar profissionais aptos para o trabalho em equipe, prática essencial para a integralidade no cuidado em saúde” (p. 26).

Em estudos sobre o desenvolvimento da EIP, Reeves 77. Reeves S, Zwarenstein M, Goldman J, Barr H, Freeth D, Koppel I, et al. The effectiveness of interprofessional education: key findings from a new systematic review. J Interprof Care. 2010; 24(3):230-41.,99. Reeves S. Ideas for the development of the interprofessional education and practice field: an update. J Interprof Care. 2016; 30(4):405-7. argumenta que há uma série de lacunas empíricas e teóricas fundamentais sobre a EIP e a PIC que precisam ser preenchidas, a fim de avançar nos estudos desses dois campos.

Apesar de reconhecer e indicar os avanços referentes à EIP e a PIC, Reeves 99. Reeves S. Ideas for the development of the interprofessional education and practice field: an update. J Interprof Care. 2016; 30(4):405-7. afirma a necessidade de novas investigações a partir de pontos essenciais: os processos interativos vivenciados pelos estudantes durante as atividades de EIP; as atividades de EIP e a aprendizagem da prática colaborativa e da atenção ao paciente; e as atividades de EIP e PIC, analisando evidências e potencialidades.

Nesse contexto, emerge como relevante a necessidade de compreender como os processos de aprendizagem compartilhada, trabalho em equipe e prática colaborativa são engendrados em um grupo de pesquisa que se constitui como espaço de estudo, investigação e produção de saberes, a partir de objetos relacionados à temática da EIP.

A formação e consolidação de grupos de pesquisa têm sido uma das diretrizes das políticas das IES que tem se constituído como espaço formativo de construção de conhecimento que, ao longo do tempo, transformam-se em núcleos de excelência tanto para a IES quanto para a própria sociedade. As atividades desenvolvidas em equipe são essenciais e propiciam a troca de experiências entre os envolvidos 1010. Valentim MLP, Garcia CLS, Jorge CFP, Silva E. Grupos de pesquisa como espaço de construção e compartilhamento de conhecimento. In: Anais do 12o Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação; 2011; Brasília. Brasília: Enancib; 2011 [citado 10 Out 2017]. p. 1545-61. Disponível em: http://repositorios.questoesemrede.uff.br/repositorios/bitstream/handle/123456789/1658/Grupos%20-%20Valentim.pdf?sequence=1.
http://repositorios.questoesemrede.uff.b...
.

Farias e Antunes 1111. Farias GF, Antunes HS. A constituição de grupos de pesquisa e a figura feminina: a trajetória do grupo de estudos e pesquisa sobre formação inicial, continuada e alfabetização (GEPFICA) no cenário social. Travessia. 2009; 3(3):1-19. destacam que os grupos de pesquisa: “[...] possuem, em sua essência, o objetivo de colocar em convívio pessoas diferentes, pensamentos divergentes, realidades distintas, histórias de vida singulares, no sentido de que estas diferenças resultem no crescimento dos indivíduos enquanto grupo” (p. 5).

De acordo com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) 1212. Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (BR). Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. Grupos de pesquisa [Internet]. Brasília; 2011 [citado 15 Set 2017]. Disponível em: http://plsql1.cnpq.br/diretorioc/html/faq.html#g1.
http://plsql1.cnpq.br/diretorioc/html/fa...
, o grupo de pesquisa envolve pesquisadores, estudantes e pessoal de apoio técnico que está organizado em torno à execução de linhas de pesquisa, segundo uma regra hierárquica fundada na experiência e na competência técnico-científica de lideres.

O Grupo de Pesquisa Educação Interprofissional em Saúde é constituído por pesquisadores, coordenadores, educadores, estudantes de graduação e de pós-graduação, profissionais com afinidade na área, oriundos de oito profissões ligadas ao binômio Saúde e Educação.

O objetivo deste artigo é analisar as contribuições do grupo como um espaço de estudo, pesquisa e desenvolvimento de competências para a aprendizagem compartilhada, trabalho em equipe e prática colaborativa.

Percurso metodológico

A investigação realizada ancorou-se na abordagem qualitativa, valorizando o campo das vivências, percepções dos participantes e a potência dos saberes em diálogo.

Nesse contexto, apresenta nuanças do estudo de caso, compreendendo-o como um delineamento de pesquisa que permite a descrição e o aprofundamento sobre uma dada realidade social. De acordo com Gil 1313. Gil AC. Como elaborar projetos de pesquisa. 5a ed. São Paulo: Atlas; 2010. , o estudo de caso é caracterizado pelo estudo de um ou de poucos objetos, de maneira a permitir o seu conhecimento amplo e detalhado. O caso em foco abrange o Grupo de Pesquisa Educação Interprofissional em Saúde (GPEIS) de uma universidade pública federal(gg()Na seção Resultados, será descrito o Grupo de Pesquisa Educação Interprofissional em Saúde (GPEIS), em seus objetivos, dinâmica e constituição.).

O acesso ao campo das experiências e representações dos participantes desta investigação configurou-se a partir de narrativas: possibilidade de tomar a experiência humana como objeto de conhecimento, análise e interpretação. A pesquisa com narrativas tem como propósito dar vez e voz aos participantes da investigação, oportunizando aprender, crescer e se desenvolver a partir de suas experiências pessoais, profissionais e formativas 1414. Muylaerta CJ, Júnior VS, Gallo PR, Neto MLR, Reis AOA. Entrevistas narrativas: um importante recurso em pesquisa qualitativa. Rev Esc Enferm USP. 2014; 48(Esp 2):193-9. . É uma estratégia que permite ao indivíduo tornar-se ator de seu processo de formação, por meio da apropriação retrospectiva e refletida daquilo que foi realmente formador em seu percurso de vida 1414. Muylaerta CJ, Júnior VS, Gallo PR, Neto MLR, Reis AOA. Entrevistas narrativas: um importante recurso em pesquisa qualitativa. Rev Esc Enferm USP. 2014; 48(Esp 2):193-9.

15. Oliveria IBO, Filho AV, Collares C, Souza EC, Geraldi JW, Cortesão L, et al. Narrativas: outros conhecimentos, outras formas de expressão. Petrópolis: DP ET Alii, Rio de Janeiro: FAPERJ; 2010.
-1616. Nóvoa A. Vidas de professores. Porto: Porto; 2000. .

A investigação aqui apresentada faz parte de um projeto de pesquisa contemplado no Edital Universal CNPq-2017 e aprovado pelo CEP-UNIFESP (Parecer nº 2179358/2017) e foi desenvolvida por meio de narrativas produzidas sobre a vivência no Grupo como um espaço de estudo, pesquisa e desenvolvimento de competências relacionadas à interprofissionalidade. O estudo foi realizado no período de julho a outubro de 2017.

O material empírico foi constituído por 14 narrativas produzidas por integrantes do GPEIS. Oito profissões relacionadas ao binômio Saúde e Educação integram o grupo, mas somente sete foram representadas por narrativas: Educação Física, Enfermagem, Fisioterapia, Medicina, Psicologia, Serviço Social e Terapia Ocupacional.

Os procedimentos metodológicos envolveram a elaboração de um formulário eletrônico contendo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, dados de caracterização dos participantes, instruções para a produção das narrativas e espaço para inserir o texto elaborado.

Os integrantes do GPEIS foram convidados a produzir uma narrativa escrita a partir da instrução: “Considerando que o GPEIS é constituído por integrantes de oito profissões ligadas ao binômio Saúde e Educação, e que se propõe a ser um espaço de estudo, pesquisa e desenvolvimento de competências/habilidades relacionadas à interprofissionalidade (aprendizagem compartilhada, trabalho em equipe e prática colaborativa), você está sendo convidado a elaborar uma narrativa (máximo de duas páginas) sobre a vivência neste espaço, tomando como direcionadores as dimensões em destaque”. Um banco de dados foi automaticamente construído.

As narrativas postadas foram analisadas por um pesquisador para verificar as contribuições e clareza do texto, com possibilidade de fornecer feedback ao narrador, no sentido de solicitar complementações e/ou aprofundamento de aspectos que não estavam claros.

As 14 produções foram organizadas em um conjunto de narrativas não identificadas, tratadas com a técnica da análise de conteúdo, na modalidade temática. Essa técnica permite descobrir o que está por trás dos conteúdos manifestos, indo além das aparências do que está sendo comunicado. Na análise temática, o tema é o juízo central, que pode ser representado por uma palavra, uma frase ou um resumo 1717. Minayo MC, Deslandes R, Gomes SF. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 29a ed. Petrópolis: Vozes; 2010.,1818. Franco ML. Análise de conteúdo. 4a ed. Brasília: Liber Livro; 2012. .

As narrativas foram lidas na perspectiva de uma compreensão de totalidade, buscando empreender possível seleção de quais materiais fariam parte da análise e identificação dos primeiros sentidos. Nenhuma narrativa foi excluída do escopo após essa fase. Na trajetória analítica, realizou-se uma leitura aprofundada das narrativas, itinerário que permitiu categorizar, compreender e interpretar.

Resultados e discussão

O grupo de Pesquisa Educação Interprofissional em Saúde (GPEIS): uma descrição

Este é um grupo composto por pesquisadores, educadores, estudantes de graduação e de pós-graduação e profissionais com afinidade na área, dispostos a incentivar, realizar e divulgar estudos e pesquisas, aglutinados em torno da EIP em Saúde. A partir de 2007, o GPEIS se constituiu como um grupo de pesquisa que se debruçou em estudos avaliativos de um projeto pedagógico inovador em saúde, na perspectiva da EIP. Houve um período de transitoriedade dos integrantes e em 2008 o grupo foi cadastrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq e certificado pela instituição de origem. Tem uma linha de pesquisa “Avaliação, Currículo, Docência e Formação em Saúde”, que agrega atualmente 11 pesquisadores, nove estudantes em diferentes níveis de formação e tem parceria com três IES.

O grupo tem por objetivos desenvolver estudos e pesquisas na área de EIP em saúde; incentivar a produção e divulgação científica; desenvolver atividades de caráter didático-pedagógico, cultural, técnico-científico e de interação com a comunidade acadêmica e com a sociedade; e estimular e estabelecer a cooperação mútua com centros nacionais e internacionais, tendo como princípios a ética em todas as suas atividades e o compromisso social.

O grupo se organiza em torno da realização de projetos temáticos, matriciais, grupais e individuais. As atividades são desenvolvidas em uma dinâmica de interdependência e complementariedade, buscando qualidade na produção do conhecimento na área de EIP e PIC em Saúde.

Entre as principais atividades deste grupo, destacam-se o aprofundamento dos estudos relacionados à temática da EIP, proporcionando o conhecimento das principais correntes teóricas; a organização e execução de trabalhos em campo; a aprendizagem compartilhada a partir das trocas de saberes por meio de apresentações de resultados das pesquisas; estímulo à responsabilidade com os projetos de pesquisa individuais e coletivos; interlocução com outros grupos de pesquisadores e estudiosos da EIP (nacional e internacional); organização de eventos científicos; e estímulo à criação e fortalecimento de redes colaborativas para avanços na perspectiva da EIP.

Narrativas e saberes: o grupo de pesquisa pelos seus participantes

Os participantes do estudo são oriundos de sete profissões vinculadas ao binômio Saúde e Educação: quatro terapeutas ocupacionais, três enfermeiros, dois fisioterapeutas, dois psicólogos, um médico, um educador físico e um assistente social. Com diferentes trajetórias, são sujeitos com histórias na universidade (sete participantes têm entre 23 e 44 anos de idade e sete têm entre cinquenta e setenta anos) e de estudo da EIP (enquanto seis participantes têm mais de dez anos de estudo e experiência de pesquisa, os demais têm de dois a cinco anos, no campo da investigação em EIP).

Com esses percursos, os participantes produziram narrativas que expressaram saberes, desejos e questionamentos: a análise temática das narrativas permitiu identificar 186 unidades de contexto, contendo 253 unidades de registro, das quais emergiram três categorias: Motivações de busca, ingresso e permanência; Grupo de pesquisa: espaço de aprendizagem compartilhada e prática colaborativa; e Grupo de pesquisa: processos permanentes de consolidação e de reconstrução.

A categoria “Motivações de busca, ingresso e permanência” expressa os movimentos que levaram os participantes a buscarem, ingressarem e permanecerem no grupo. O aprofundamento no estudo sobre EIP foi o motivo mais apontado para ingresso:

Esta busca foi para saciar minhas inquietações pessoais sobre o que era a educação interprofissional. Além disso, o trabalho em equipe e as práticas colaborativas sempre se apresentaram como desafios para mim, no meu dia a dia enquanto profissional de saúde. (S1)

Minha aproximação e ingresso no grupo se deu pelo fato de ter me interessado por estudar e conhecer em maior profundidade formas de efetivar a educação interprofissional. (S6)

Apreendeu-se, também, a busca por troca de saberes e de experiências com outros pesquisadores:

[...] participei da primeira composição do grupo, que ainda não se constituía formalmente como grupo de pesquisa sobre EIP, com alunos de pós-graduação e diversas pesquisas acontecendo como é hoje. (S2)

Faço parte do grupo desde a sua origem, tendo participado dos diferentes momentos de criação, planejamento e realização de inúmeras atividades de estudo, elaboração de projetos, organização de eventos, reflexões aprofundadas sobre diferentes demandas. (S4)

Alguns integrantes ingressaram no grupo com o objetivo de desenvolver pesquisas e produzir conhecimento na área, e outros têm o grupo como uma atividade formativa da pós-graduação:

Meu ingresso no grupo se deu pelo convite de meu orientador a participar de um grupo que tem como objeto de estudo a educação interprofissional. (S3)

A melhoria do desenvolvimento das atividades profissionais, seja como docente ou trabalhador da rede de serviços de saúde, foi uma das motivações apontada.

Esta aprendizagem ancora-se, para mim, em um percurso de constituição do próprio grupo: a desafiadora construção da identidade de um grupo de pesquisa que nasce “junto” com o campus Baixada Santista da Unifesp. (S14)

Nesta categoria, apreende-se entrelaçamentos de motivações e desejos, parecendo configurar o grupo de pesquisa como um espaço indutor de redes colaborativas no processo de produção de conhecimento e comunicação científica 1919. Pereira GRM, Andrade MCL. Aprendizagem científica: experiência com grupo de pesquisa. In: Bianchetti L, Meksenas P, organizadores. A trama do conhecimento: teoria, método e escrita em ciência e pesquisa. São Paulo: Papirus; 2008. p. 153-68.

20. Perucchi V, Garcia JCR. Indicadores de produção dos grupos de pesquisa do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba. Rev Bras Bibl Doc [Internet]. 2012 [citado 13 Out 2017]; 8(1):50-64. Disponível em: http://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/193/221.
http://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/vi...
-2121. Bauer MW, Gaskell G, Allum NC. Qualidade, quantidade e interesses do conhecimento. Evitando confusões. In: Bauer MW, Gaskell G, editores. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som. Petrópolis: Vozes; 2002. p. 17-36. .

No GPEIS foram apreendidos, a partir das motivações, dois movimentos singulares: educação permanente e formação pós-graduada. Ao assumir educação como prática social 2222. Freie P. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 1998. e formação como processo dialético e historicamente construído na intersubjetividade 2323. Batista SH, Rossit RA. Aprendizagem, ensino e formação em saúde: das experiências às teorias em construção. In: Batista NA, Batista SH, organizadores. Docência em saúde: temas e experiências. São Paulo: Editora Senac; 2014. p. 51-68. , delineia-se a potência deste grupo como locus de troca, de reflexão e transformação das próprias práticas na convivência e construção de relações interprofissionais e interdisciplinares 2424. Medeiros NMH. Educação permanente em saúde gestão e ensino na concepção dos trabalhadores. São Paulo: Editora FAP-Unifesp; 2015.,2525. Miccas FL, Batista SHSS. Educação permanente em saúde: metassíntese. Rev Saude Publica. 2014; 48(1):170-85. .

A categoria “Grupo de Pesquisa: espaço de aprendizagem compartilhada e prática colaborativa” revela os lugares deste grupo no olhar de seus participantes. Esses lugares remetem a três dimensões: a “dimensão intersubjetiva” que abrange as possibilidades de: (1) compartilhamento de experiências; (2) troca de saberes sobre a EIP; (3) colaboração em projetos coletivos de pesquisa; (4) aprendizagem do trabalho em equipe no desempenho de atividades acadêmicas; e (5) transformação das práticas profissionais.

No princípio tudo era muito novo, o que exigia sair de uma postura advinda de uma formação disciplinar para partilhar e aprender juntos, com diferentes profissionais, saberes comuns e específicos, buscando o real trabalho em equipe interprofissional. (S2)

O que se enriquece no grupo de estudo é a possibilidade de vivenciar no coletivo discussões relevantes a partir do olhar de outras profissões, o compartilhamento de experiências exitosas de profissionais, professores e pesquisadores que concretizam a prática interprofissional em seus processos de trabalho. (S8)

No grupo temos espaço para estas trocas, estas discussões, fazendo paralelo entre o campo teórico e o campo prático, e com isso, caminharmos em busca de uma educação interprofissional centrada na realidade e nas possibilidades de fazermos a diferença. (S9)

[...] vejo o grupo como um espaço que tem proporcionado uma importante formação de pesquisadores e ajuda mútua entre eles [...] eu não teria conseguido realizar algumas etapas da minha pesquisa se não tivesse a ajuda de vários membros do grupo. (S3)

Este achado demonstra a relevância destas experiências no que tange à atividade acadêmica, tanto na graduação quanto na pós-graduação, e na sua prática profissional em diferentes cenários. Maximino e Liberman 11. Maximino V, Liberman F. Grupos e terapia ocupacional: formação, pesquisa e ações. São Paulo: Summus Editorial; 2015. afirmam que o espaço do grupo possibilita que os integrantes:

[...] se expressem, troquem impressões, considerem a opinião do outro e posicionem-se de modo mais articulado e argumentativo, exercitando a reflexão sobre as próprias atitudes e as relações dialógicas. (p. 243)

Aprender a trabalhar em equipe emergiu como uma possibilidade efetiva para os participantes do grupo de pesquisa e, nesse sentido, implica reconhecer o valor profissional, a importância dos próprios conhecimentos e o lugar do campo de atuação; e compreender como fundamental que o profissional se reconheça dentro de uma equipe para compreender seus limites e potencialidades 2626. Peduzzi M, Norman IJ, Germani AC, Silva JA, Souza GC. Educação interprofissional: formação de profissionais de saúde para o trabalho em equipe com foco nos usuários. Rev Esc Enferm USP. 2013; 47(4):977-83. .

Como indicam Batista e Batista 2727. Batista NA, Batista SHSS. Educação interprofissional na formação em saúde: tecendo redes de práticas e saberes. Interface (Botucatu). 2016; 20(56):202-4.: “[...] aprende-se a ensinar na perspectiva da EIP, ensinando e refletindo sobre as experiências, construindo saberes, estratégias e projetos coletivos” (p. 203).

A segunda dimensão que compõe essa categoria – “dimensão pessoal” – compreende processos de ressignificação da própria trajetória: participação e colaboração no sentido de ampliar conhecimentos e experiências nos trabalhos, aprofundamento e novo olhar sobre o campo teórico da EIP, e traçar trajetórias singulares que englobam práticas profissionais, teorias, pesquisas e publicações:

[...] participar do grupo de pesquisa me fortalece no desenvolvimento crescente das competências e habilidades necessárias para o trabalho em equipe, coletivo e colaborativo [...] dá respaldo teórico, oportunidade de aprendizagem constante e de compartilhar, com os colegas do grupo, experiências diferentes que nos retroalimentam no cotidiano acadêmico. (S2)

Estar com profissionais que faziam parte desse modelo de educação levou-me a uma compreensão melhor do que é a EIP [...] a partir de estudos e discussões com base em diversos textos referentes ao assunto, fui moldando a minha forma de interagir com os alunos, preparar as aulas e me encantando com o mundo da pesquisa. (S11)

O espaço de convivência com os demais colegas do Grupo expandiu a minha visão sobre o trabalho coletivo, tendo como pano de fundo a literatura que permitiu maior aprofundamento e compreensão do papel de cada um em espaços colaborativos. (S4)

Maximino e Liberman 11. Maximino V, Liberman F. Grupos e terapia ocupacional: formação, pesquisa e ações. São Paulo: Summus Editorial; 2015. relatam a importância das mudanças de atitudes dos integrantes a partir do seu engajamento em tarefas implícitas e explícitas e explicam que as tarefas demandadas, na lógica de grupos, não se resume à realização das atividades em si ou na concretização de um produto final palpável, mas, sobretudo, à aprendizagem e ao crescimento pessoal que esse “fazer junto” e esse “fazer com” possibilitam aos integrantes (p. 270).

As experiências de ensino e aprendizagem na perspectiva da EIP indicam que esse tipo de formação favorece mudanças no perfil dos profissionais e possibilitam o preparo de profissionais de saúde, de forma que se tornem críticos, reflexivos, proativos e prontos para atuar em equipe e no mundo do trabalho 2828. Barreto IC, Loiola FA, Andrade LO, Moreira AE, Cavalcanti CG, Arruda CA. Development of interprofessional collaborative practices within undergraduate programs on healthcare: case study on the Family Health Alliance in Fortaleza (Ceará, Brazil). Interface (Botucatu). 2011; 15(36):199-212.,2929. Flores LM, Trindade AL, Loreto DR, Unfer B, Dall’Agnol MM. Avaliação do Programa de Educação pelo Trabalho para Saúde - PET-Saúde/Vigilância em Saúde pelos seus atores. Interface (Botucatu). 2015; 19 Supl 1:923-30. .

A “dimensão institucional” completa a tríade constituinte dessa categoria e sinaliza as imbricações da educação interprofissional com o campo das instituições e políticas:

Foi pelo grupo que pude conhecer o Centre for the Advancement of Interprofessional Education (Caipe) e me aprofundar nos meus estudos sobre o desenvolvimento de competências relacionadas à interprofissionalidade [...] a experiência como representante do Caipe tem feito eu refletir sobre organização e fidelidade ao cronograma proposto. (S1)

Hoje, participamos oficialmente da Rede Brasileira de Educação e Trabalho Interprofissional em Saúde (ReBETIS). Três membros do grupo têm atividades organizativas definidas e importantes na rede e o grupo como um todo é um grupo de notoriedade nacional. (S3)

Essa leitura das narrativas permitiu sublinhar que, na perspectiva dos participantes, durante o processo de desenvolvimento das atividades, um avanço relevante foi a participação do GPEIS em organizações de eventos interinstitucional, resultando em participações em organizações nacionais e internacionais. Essa participação fortaleceu o grupo no sentido de compreender os estudos que estão sendo desenvolvidos em várias partes do país e na Europa.

A riqueza desse avanço mostra-se de forma evidente nas discussões internas no que tange aos novos olhares sobre a EIP:

A organização do 3º Colóquio foi a atividade que mais mobilizou o grupo em prol da interprofissionalidade. Apesar de estarmos desempenhando uma função mais voltada para organização local como inscrições, logística, infraestrutura, divulgação, entre outras, sinto que foi um momento ímpar para que todos se envolvessem com a temática e percebessem a relação do GPEIS com os demais grupos e pesquisadores da área, em nível nacional e internacional. (S3)

A terceira categoria analítica – “Grupo de pesquisa: processos permanentes de consolidação e de reconstrução” – remete aos movimentos e arranjos da constituição grupal: dispositivos e analisadores estão sendo apropriados ainda pelos participantes, com uma ênfase em atividades de planejamento e desenvolvimento de pesquisas:

Ainda temos muito a aprender para nos unirmos como grupo de pesquisa, para ampliar nossos estudos sobre o objeto que escolhemos e assim desenvolver pesquisas que ajudem na transformação da educação e da saúde em nosso país. (S6)

De maneira geral, somos um grupo amigável e com ótimas intenções, mas na minha visão falta organização dos papéis de cada membro e definição de atribuições para longo prazo. (S1)

Não realizamos, por exemplo, o estudo coletivo, estruturado e sequencial de um tema ou de um referencial teórico. Isso não permite que tenhamos produções do grupo, apenas de membros do grupo. (S3)

Quando em 2017 compreendemos que o grupo (alguns membros dialogando sobre isso) carecia de uma organização mais eficiente, começamos a elaboração e discussão de um regimento interno, sendo possível perceber que não temos tirado todo o potencial possível deste grupo. (S6)

É importante discutir as percepções que desvelam uma queixa/desejo: viver e estudar a interprofissionalidade de maneira mais permanente:

Gostaria que o grupo pudesse estudar mais as teorias e que pudéssemos publicar juntos sobre nossos trabalhos. (S1)

Nesse sentido, sinto que o grupo assume uma postura mais passiva quanto à discussão sobre a interprofissionalidade, ao invés de uma postura mais colaborativa. (S3)

Um grupo de pesquisa renova-se com o ingresso de novos integrantes, mas esta circulação exige dinamicidade e uma liderança sensível, que observe os movimentos e intencionalidades do grupo, para que todos possam se sentir aprendendo e crescendo e que estejam em sintonia nas reflexões, no conhecimento e nas participações, de modo a falarem a mesma linguagem.

[...] vejo com otimismo que podemos melhorar para que cada reunião seja produtiva para os membros e para quem quiser participar de atividades com o grupo. (S1)

Em pouco tempo de vivência no grupo, vejo que este tem um papel importante para fomentar pesquisas e discussões sobre a educação interprofissional, demonstrando ser exemplo para a formação em saúde. (S13)

Reconhecer as limitações de seu campo de atuação, ser respeitoso e identificar no outro as possibilidades para novas aprendizagens são aspectos fundamentais “no” e “para” o trabalho em equipe, reforçando a identidade profissional no ambiente interdisciplinar 3030. Souto TS, Batista SH, Batista NA. A educação interprofissional na formação em psicologia: olhares de estudantes. Psicol Cienc Prof. 2014; 34(1):32-45.:

Neste grupo, composto por profissionais de diferentes profissões, mas com pelo menos um ponto em comum, o interesse pela educação, pesquisa e prática da educação interprofissional, há espaço para compartilhamento de experiências, de estudos, de levantamento de hipóteses e de tentativas de respondê-las. (S9)

Tivemos alguns momentos em que parecia que não conseguiríamos caminhar, mas então o grupo reunia forças e conseguia superar aqueles desafios e encontrava outras formas de seguir adiante, definindo metas e ações compartilhadas. (S14)

Os participantes identificam fluxos múltiplos no tocante à produção e publicação de pesquisas e relatos de práticas. As narrativas evidenciaram uma preocupação dos integrantes quanto à produção coletiva e publicação das pesquisas realizadas e experiências vivenciadas. Pesquisas e publicações são realizadas em âmbito individual como fruto dos processos formativos e atividades profissionais dos integrantes; porém, há baixa produção coletiva do grupo.

Em relação à pesquisa, percebo que este é a maior demanda do grupo e o que mais tem sido desenvolvido. Porém, podemos ainda melhorar do ponto de vista de organização e visibilidade de nossas pesquisas. (S6)

A abertura do Edital Universal do CNPq engajou alguns membros do grupo na escrita de um projeto guarda-chuva que permitisse realizar pesquisas coletivas. (S3)

Nos últimos 18 meses, eu percebi que nosso foco tinha mudado. Várias publicações foram feitas neste período sobre o assunto e não sentamos para discuti-las. (S1)

A teia dos processos grupais desvelam nuanças estruturantes da Educação Inteprofissional e os desafios “para” e “na” sua aprendizagem, vivência e efetivação: trabalho em equipe e prática colaborativa demandam o enfrentamento de modos de funcionamento que ainda rimam com individualismo, disputa e rígida hierarquização:

Essas experiências trouxeram o desafio de compreender o outro e trabalhar de modo respeitoso as diferenças de cada profissão. (S2)

Ora parece haver trajetórias de complementação de uns com os outros e ora parece haver uma necessidade de se destacar, de se sobressair, o que dificulta as relações, criando momentos de desconforto pessoal e para o grupo. (S4)

Temos tido alguns episódios de disputa de poder, algumas situações de/com pouca atuação colaborativa, que me levam a questionar se temos adotado a maneira mais adequada de funcionamento como um grupo que se propõe a estudar e pesquisar a EIP, mas que pouco tem se olhado e praticado ela entre seus membros. (S6)

Agreli et al. 3131. Agreli HF, Peduzzi M, Bailey C. Contributions of team climate in the study of interprofessional collaboration: a conceptual analysis. J Interprof Care. 2017; 31(6):679-84. indicam categorias que sugerem características comuns que poderiam fornecer elementos de uma estrutura que contribua para o clima organizacional da equipe para o trabalho colaborativo, tanto na perspectiva conceitual quanto em termos operacionais: interação e comunicação entre os membros da equipe; objetivos comuns em torno dos quais o trabalho coletivo é organizado; responsabilidade de realizar o trabalho com um alto padrão; e promoção da inovação nas práticas de trabalho.

Dialeticamente, a análise das narrativas permite inferir que mesmo sendo desafiador realizar um trabalho em equipe com profissionais tão diferentes, é, sim, possível implementá-lo 99. Reeves S. Ideas for the development of the interprofessional education and practice field: an update. J Interprof Care. 2016; 30(4):405-7.,3131. Agreli HF, Peduzzi M, Bailey C. Contributions of team climate in the study of interprofessional collaboration: a conceptual analysis. J Interprof Care. 2017; 31(6):679-84. e o GPEIS situa-se como uma experiência/evidência singular: a interprofissionalidade não se configura como um produto acabado, mas, antes, desvela um lado processual que demanda dispositivos, arranjos grupais e institucionais, modos de funcionamento de grupos e equipes que se fundamentam na troca, no respeito e na negociação de saberes e fazeres, o que são fundamentais para a vivência da EIP 99. Reeves S. Ideas for the development of the interprofessional education and practice field: an update. J Interprof Care. 2016; 30(4):405-7.,3232. Barr H. Interprofessional education: the genesis of a global movement. London: Centre for Advancement of Interprofessional Education; 2015. .

Apesar de toda a riqueza que é o trabalho com grupos, operar com eles não significa ausência de conflitos, tampouco que o percurso metodológico descrito não tenha limitações aos objetivos estabelecidos e traçados. Para Maximino e Liberman 11. Maximino V, Liberman F. Grupos e terapia ocupacional: formação, pesquisa e ações. São Paulo: Summus Editorial; 2015. “seria ingênuo negá-los [...] o fato é que as limitações existem.” (p. 44).

Considerações finais

A análise dos resultados permitiu identificar a potência do grupo de pesquisa como um espaço de aprendizagem em/sobre EIP que contribui para a discussão do espaço grupal como um locus profícuo para estudo, pesquisa e desenvolvimento de competências para o trabalho em equipe e a prática colaborativa. Esse espaço, representado neste estudo por sete diferentes profissões do binômio Saúde e Educação, revelou três eixos de categoria: “Motivações de busca, ingresso e permanência”, o “Grupo como espaço de aprendizagem compartilhada e prática colaborativa”, com dimensões intersubjetiva, pessoal e institucional, e o “Grupo como processo permanente de consolidação e de reconstrução”, com desafios na construção das aprendizagens, no processo grupal e na publicização.

Os motivos que conduziram os integrantes a buscar, ingressar e permanecer no grupo foram: o aprofundamento no estudo sobre EIP; a busca por troca de saberes e de experiências com outros pesquisadores; o desenvolvimento de pesquisas e a produção de conhecimentos na área; e o ato de ter o grupo como uma atividade formativa da pós-graduação e para a melhoria do desenvolvimento das atividades profissionais, seja como docente ou como trabalhador da rede de serviços de saúde.

Na categoria “Grupo como espaço de aprendizagem compartilhada e prática colaborativa”, destacam-se o impacto das aprendizagens vivenciadas no grupo como disparadores de transformação das práticas profissionais; a oportunidade de compreender e aprofundar o referencial teórico-conceitual da EIP, compartilhando saberes e fazeres para os avanços na área em estudo; a importância do caráter interdisciplinar e interprofissional na confluência das ações, envolvendo diferentes profissões na construção coletiva rumo à consolidação do trabalho em equipe e da prática colaborativa; e a possibilidade de ampliar os conhecimentos sobre o outro e sobre o trabalho em equipe no desempenho de atividades acadêmicas, na elaboração coletiva de projetos de pesquisa, na construção do clima organizacional da equipe e na inserção progressiva do grupo no cenário nacional e internacional da EIP.

A categoria “Grupo como processo permanente de consolidação e de reconstrução” remete aos movimentos e arranjos de constituição grupal: dispositivos e analisadores estão sendo apropriados ainda pelos participantes, com ênfase em atividades de planejamento e desenvolvimento de pesquisas. As percepções desvelam uma queixa/desejo de viver e estudar a interprofissionalidade de maneira mais permanente e uma renovação com o ingresso de novos integrantes, sendo que essa transitoriedade exige dinamicidade para que todos possam se sentir aprendendo e crescendo; os participantes reconhecem-se no percurso de criação/ampliação/consolidação do grupo e expectativas quanto à produção coletiva e publicação das pesquisas realizadas e experiências vivenciadas.

Os participantes relatam que dificuldades vivenciadas por equipes interprofissionais na prática cotidiana dos serviços de saúde surgem de modo similar dentro do grupo. Algumas dessas dificuldades são hierarquização e obstáculos na construção dos relacionamentos interpessoais; carência de oportunidades para o desenvolvimento de competências para o efetivo trabalho em equipe e prática colaborativa interprofissional no contexto da atenção à saúde; e organização interna, planejamento e implementação de ações.

Os aspectos sinalizados como dificuldades enfrentadas no espaço do grupo de pesquisa são similares àquelas enfrentadas em outros espaços de convívio coletivo e que a EIP pode se configurar como principal estratégia para formar profissionais, desde a graduação até a educação permanente, aptos para o trabalho em equipe e a prática colaborativa. Destaca-se que muitas são as potencialidades apontadas e que o grupo, ao empreender olhares autoavaliativos, possa direcionar ações no sentido de consolidar princípios, objetivos, modos de funcionamento e a própria estrutura organizacional.

A análise das narrativas permitiu desvelar a metáfora do grupo de pesquisa como incubadora: criação de ambiências favoráveis ao desenvolvimento de competências colaborativas e ao pensamento crítico e reflexivo, envolvendo os integrantes em movimento permanente de ação-reflexão-ação. O grupo de pesquisa como incubadora caracteriza-se como locus privilegiado para o compartilhamento de saberes, produção de conhecimentos e construção de aprendizagens, ancorando-se na interprofissionalidade como disparadora de modos de funcionamento colaborativos, relações horizontais e autorias em rede.

Referências

  • 1
    Maximino V, Liberman F. Grupos e terapia ocupacional: formação, pesquisa e ações. São Paulo: Summus Editorial; 2015.
  • 2
    Samea M. O dispositivo grupal como intervenção em reabilitação: reflexões a partir da prática em terapia ocupacional. Rev Ter Ocup. 2008; 19(2):85-90.
  • 3
    Centre for the Advancement of Interprofessional Education. Interprofessional education guidelines 2016 [Internet]. Fareham: CAIPE; 2016 [citado 15 Set 2017]. Disponível em: https://www.caipe.org/resources/publications/caipe-publications/barr-h-gray-r-helme-m-low-h-reeves-s-2016-interprofessional-education-guidelines
    » https://www.caipe.org/resources/publications/caipe-publications/barr-h-gray-r-helme-m-low-h-reeves-s-2016-interprofessional-education-guidelines
  • 4
    Organização Mundial da Saúde. Marco para ação em educação interprofissional e prática colaborativa [Internet]. Genebra: OMS; 2010 [citado 30 Set 2017]. Disponível em: http://www.sbfa.org.br/fnepas/oms_traduzido_2010.pdf
    » http://www.sbfa.org.br/fnepas/oms_traduzido_2010.pdf
  • 5
    Barr H, Koppel I, Reeves S, Hammick M, Freeth D. Effective interprofessional education: arguments, assumption & evidence. Oxford: Blackwell; 2005.
  • 6
    D’Amour D, Oandasan I. Interprofessionality as the field of interprofessional practice and interprofessional education: an emerging concept. J Interprof Care. 2005; 19(1):8-20.
  • 7
    Reeves S, Zwarenstein M, Goldman J, Barr H, Freeth D, Koppel I, et al. The effectiveness of interprofessional education: key findings from a new systematic review. J Interprof Care. 2010; 24(3):230-41.
  • 8
    Batista NA. Educação interprofissional em saúde: concepções e práticas. Cad Fnepas [Internet]. 2012 [citado 15 Set 2017]; 2(1):25-8. Disponível em: http://www.fnepas.org.br/artigos_caderno/v2/educacao_interprofissional.pdf
    » http://www.fnepas.org.br/artigos_caderno/v2/educacao_interprofissional.pdf
  • 9
    Reeves S. Ideas for the development of the interprofessional education and practice field: an update. J Interprof Care. 2016; 30(4):405-7.
  • 10
    Valentim MLP, Garcia CLS, Jorge CFP, Silva E. Grupos de pesquisa como espaço de construção e compartilhamento de conhecimento. In: Anais do 12o Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação; 2011; Brasília. Brasília: Enancib; 2011 [citado 10 Out 2017]. p. 1545-61. Disponível em: http://repositorios.questoesemrede.uff.br/repositorios/bitstream/handle/123456789/1658/Grupos%20-%20Valentim.pdf?sequence=1
    » http://repositorios.questoesemrede.uff.br/repositorios/bitstream/handle/123456789/1658/Grupos%20-%20Valentim.pdf?sequence=1
  • 11
    Farias GF, Antunes HS. A constituição de grupos de pesquisa e a figura feminina: a trajetória do grupo de estudos e pesquisa sobre formação inicial, continuada e alfabetização (GEPFICA) no cenário social. Travessia. 2009; 3(3):1-19.
  • 12
    Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (BR). Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. Grupos de pesquisa [Internet]. Brasília; 2011 [citado 15 Set 2017]. Disponível em: http://plsql1.cnpq.br/diretorioc/html/faq.html#g1
    » http://plsql1.cnpq.br/diretorioc/html/faq.html#g1
  • 13
    Gil AC. Como elaborar projetos de pesquisa. 5a ed. São Paulo: Atlas; 2010.
  • 14
    Muylaerta CJ, Júnior VS, Gallo PR, Neto MLR, Reis AOA. Entrevistas narrativas: um importante recurso em pesquisa qualitativa. Rev Esc Enferm USP. 2014; 48(Esp 2):193-9.
  • 15
    Oliveria IBO, Filho AV, Collares C, Souza EC, Geraldi JW, Cortesão L, et al. Narrativas: outros conhecimentos, outras formas de expressão. Petrópolis: DP ET Alii, Rio de Janeiro: FAPERJ; 2010.
  • 16
    Nóvoa A. Vidas de professores. Porto: Porto; 2000.
  • 17
    Minayo MC, Deslandes R, Gomes SF. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 29a ed. Petrópolis: Vozes; 2010.
  • 18
    Franco ML. Análise de conteúdo. 4a ed. Brasília: Liber Livro; 2012.
  • 19
    Pereira GRM, Andrade MCL. Aprendizagem científica: experiência com grupo de pesquisa. In: Bianchetti L, Meksenas P, organizadores. A trama do conhecimento: teoria, método e escrita em ciência e pesquisa. São Paulo: Papirus; 2008. p. 153-68.
  • 20
    Perucchi V, Garcia JCR. Indicadores de produção dos grupos de pesquisa do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba. Rev Bras Bibl Doc [Internet]. 2012 [citado 13 Out 2017]; 8(1):50-64. Disponível em: http://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/193/221
    » http://rbbd.febab.org.br/rbbd/article/view/193/221
  • 21
    Bauer MW, Gaskell G, Allum NC. Qualidade, quantidade e interesses do conhecimento. Evitando confusões. In: Bauer MW, Gaskell G, editores. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som. Petrópolis: Vozes; 2002. p. 17-36.
  • 22
    Freie P. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 1998.
  • 23
    Batista SH, Rossit RA. Aprendizagem, ensino e formação em saúde: das experiências às teorias em construção. In: Batista NA, Batista SH, organizadores. Docência em saúde: temas e experiências. São Paulo: Editora Senac; 2014. p. 51-68.
  • 24
    Medeiros NMH. Educação permanente em saúde gestão e ensino na concepção dos trabalhadores. São Paulo: Editora FAP-Unifesp; 2015.
  • 25
    Miccas FL, Batista SHSS. Educação permanente em saúde: metassíntese. Rev Saude Publica. 2014; 48(1):170-85.
  • 26
    Peduzzi M, Norman IJ, Germani AC, Silva JA, Souza GC. Educação interprofissional: formação de profissionais de saúde para o trabalho em equipe com foco nos usuários. Rev Esc Enferm USP. 2013; 47(4):977-83.
  • 27
    Batista NA, Batista SHSS. Educação interprofissional na formação em saúde: tecendo redes de práticas e saberes. Interface (Botucatu). 2016; 20(56):202-4.
  • 28
    Barreto IC, Loiola FA, Andrade LO, Moreira AE, Cavalcanti CG, Arruda CA. Development of interprofessional collaborative practices within undergraduate programs on healthcare: case study on the Family Health Alliance in Fortaleza (Ceará, Brazil). Interface (Botucatu). 2011; 15(36):199-212.
  • 29
    Flores LM, Trindade AL, Loreto DR, Unfer B, Dall’Agnol MM. Avaliação do Programa de Educação pelo Trabalho para Saúde - PET-Saúde/Vigilância em Saúde pelos seus atores. Interface (Botucatu). 2015; 19 Supl 1:923-30.
  • 30
    Souto TS, Batista SH, Batista NA. A educação interprofissional na formação em psicologia: olhares de estudantes. Psicol Cienc Prof. 2014; 34(1):32-45.
  • 31
    Agreli HF, Peduzzi M, Bailey C. Contributions of team climate in the study of interprofessional collaboration: a conceptual analysis. J Interprof Care. 2017; 31(6):679-84.
  • 32
    Barr H. Interprofessional education: the genesis of a global movement. London: Centre for Advancement of Interprofessional Education; 2015.

  • g
    ()Na seção Resultados, será descrito o Grupo de Pesquisa Educação Interprofissional em Saúde (GPEIS), em seus objetivos, dinâmica e constituição.

Histórico

  • Recebido
    14 Out 2017
  • Aceito
    02 Abr 2018
  • Publicação Online
    10 Jul 2018
UNESP Botucatu - SP - Brazil
E-mail: intface@fmb.unesp.br