Entrelaçamento voz e emoção na percepção docente sob a ótica da fenomenologia de Merleau-Ponty

Entrelazado de voz y emoción en la percepción docente bajo la óptica de la fenomenología de Merleau-Ponty

Christina César Praça Brasil Raimunda Magalhães da Silva Aline Veras Morais Brilhante Anna Karynne Melo Maxmiria Holanda Batista Sobre os autores

Resumos

A voz é uma ferramenta de trabalho do professor, refletindo suas condições de saúde e emoções. Este estudo objetiva compreender a percepção de professoras sobre o entrelaçamento de voz e emoções. Trata-se de um estudo qualitativo realizado a partir de grupos focais com 26 professoras do ensino fundamental. Utilizou-se a fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty para análise dos dados, conduzindo- se pela noção de corpo e de entrelaçamento homem e mundo. As categorias identificadas foram: “desdobramentos do trabalho na voz, no corpo e nas emoções” e “emoções no corpo expressos pela voz”. As discussões mostram a não separabilidade corpo e mente e a percepção da voz como um modo de vivenciar o corpo e as emoções. A noção de corpo próprio, complexo e sistémico extrapola o entendimento de corpo orgânico-biológico e contribui com a ampliação dos debates sobre a saúde vocal do professor.

Palavras-chave:
Voz; Emoção expressa; Professores de ensino fundamental e médio; Pesquisa qualitativa


La voz es una herramienta de trabajo del profesor, reflejando sus condiciones de salud y emociones. El objetivo de este estudio es comprender la percepción de las profesoras sobre el entrelazado de la voz y las emociones. Se trata de un estudio cualitativo realizado a partir de grupos focales con 26 profesoras de la Enseñanza Fundamental. Se utilizó la fenomenología de la percepción de Merleau-Ponty para análisis de los datos, conduciéndose por la noción de cuerpo y de entrelazado hombre y mundo. Las categorías identificadas fueron: “desdoblamientos del trabajo en la voz, en el cuerpo y en las emociones” y “emociones en el cuerpo expresadas por la voz”. Las discusiones muestran la inseparabilidad cuerpo y mente y la percepción de la voz como un modo de vivir el cuerpo y las emociones. La noción de cuerpo propio, complejo, sistémico, extrapola el entendimiento del cuerpo orgánico-biológico y contribuye a la ampliación de los debates sobre la salud vocal del profesor.

Palabras clave:
Voz; Emoción expresada; Profesores de la enseñanza fundamental y media; Encuesta cualitativa


Introdução

A fenomenologia de Merleau-Ponty aponta um conceito central da sua proposta filosófica: a noção de entrelaçamento entre homem e mundo 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006.,22. Merleau-Ponty M. O olho e o espírito. 3a ed. Belo horizonte: Veja; 2009. . O homem e o mundo estão justapostos, e aquilo que “percebo como eu e mundo” é um deslizamento de um sobre o outro - homem e mundo são um e outro em uma reversibilidade. É uma imbricação que impossibilita a separação ou mesmo a fusão de um no outro, permitindo a redescoberta de um e do outro. Trata-se da mútua constituição homem e mundo. Com isso, a fenomenologia de Merleau-Ponty renuncia a qualquer posição dicotômica entre consciência e mundo e entre corpo e objeto. O corpo é o meio que possibilita o juntar-se ao mundo e esse entrelaçamento se realiza a cada instante da existência 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006. .

Para Merleau-Ponty 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006. , a fenomenologia é uma filosofia que se constrói em um movimento de se refazer e de se repensar; mostra que o homem não resulta de causas ou determinantes psíquicos, mas defende a ideia de que ele só pode saber de si e do mundo a partir daquilo que vê e experiência.

Desse modo, a voz não pode ser reduzida às estruturas anatômicas e fisiológicas que habitam o físico, embora as componha. Ela também atua como “um termômetro do estado emocional” 33. Silva EF A voz dentro da relação psíquico-orgânica: estudo sobre a influência das emoções na voz do ator. Rev Cient /FAP 2009; 4(1):1-19. (p. 16), uma vez que varia em intensidade, frequência e ritmo, de acordo com as emoções. É na expressão emocional dos gestos - e da voz - que se encontram os primeiros indícios da linguagem como um fenômeno autêntico, já que “a emoção […] é uma variação de nosso ser no mundo […], e manifesta aquele mesmo poder de ordenar os estímulos e situações que estão no seu auge no plano da linguagem “ 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006. (p. 256).

Outro aspecto importante a ser ressaltado em Merleau-Ponty é a noção de percepção, que é uma maneira de acessar o mundo, é um modo de ver o mundo sob uma perspectiva; é o que posiciona o sujeito no mundo como sujeito histórico, estando em um tempo e em um espaço. Portanto, “[…] não é preciso perguntar-se se nós percebemos verdadeiramente um mundo, é preciso dizer, ao contrário: o mundo é aquilo que nós percebemos” 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006. (p. 14).

O corpo está para além da interioridade e da exterioridade que reage aos estímulos do mundo 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006. . Ele é fisiológico e psicológico, ao mesmo tempo, na medida em que o sujeito é seu corpo. Nesse entendimento do homem enquanto corpo, é preciso compreender como as condições fisiológicas e os determinantes psicológicos entrecruzam-se. É nessa perspectiva que este artigo entende que a voz pode ser percebida como entrelaçada com as emoções.

Sendo componente da comunicação oral, das relações interpessoais e do próprio corpo, a voz pode apresentar comprometimentos orgânicos, funcionais e/ou psicogênicos, que geram prejuízos à qualidade de vida 44. Putnoki DS, Hara F, Oliveira G, Behlau M. Qualidade de vida em voz: o impacto de uma disfonia de acordo com gênero, idade e uso vocal profissional. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2010; 15(4):485-90. ou são reflexos destes. A voz, portanto, pode impactar positiva ou negativamente na vida dos sujeitos, especialmente daqueles que fazem seu uso profissionalmente 55. Gampel D, Karsch UM, Ferreira LP Percepção de voz e qualidade de vida em idosos professores e não professores. Cienc Saude Colet. 2010; 15(6):2907-16. .

Para Dejours 66. Dejours C. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. Paraguay AI, Ferreira LL, tradutores. 5a ed. São Paulo: Cortez-Oboré; 1992. , o trabalho deveria integrar a própria definição do conceito de saúde, pois ele “nunca é neutro em relação à saúde e favorece, seja a doença, seja a saúde” (p. 164). Desse modo, pertencendo ao corpo, a voz não se esquiva dos riscos ocupacionais específicos que afetam, entre outros profissionais, os professores 77. Ferracciu C, Almeida MS. Distúrbio de voz relacionado ao trabalho do professor e a legislação atual. Rev CEFAC. 2014; 16(2):628-33.,88. Dragone M. Programa de saúde vocal para educadores: ações e resultados. Rev CEFAC. 2011; 13(6):1133-43. .

Os distúrbios psíquicos e vocais são as principais causas de afastamento do trabalho docente. Em São Paulo, respondem por 97% das readaptações e 62% das licenças por problemas vocais centrados nos educadores 99. Mestre LR, Ferreira LP. O impacto da disfonia em professores: queixas vocais, procura por tratamento, comportamento, conhecimento sobre cuidados com a voz, e absenteísmo. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2011; 16(2):140-1. .

A voz é um componente da identidade do professor como trabalhador, impactando no processo de ensino-aprendizagem 1010. Choi-Cardin K, Behlau M, Zambon F Sintomas vocais e perfil de professores em um programa de saúde vocal. Rev CEFAC. 2010; 12(5):811-9. . Funciona como instrumento para sua atuação em sala de aula, de modo que as alterações vocais e os seus efeitos interferem no desempenho ocupacional 1111. Zambon F, Behlau M. A voz do professor: aspectos do sofrimento vocal profissional [Internet]. São Paulo: Sinpro; 2010 [acesso 4 Abr 2016]. Disponível em: http://www.sinprosp.org.br/arquivos/voz/bem_estar_vocal2016.pdf.
http://www.sinprosp.org.br/arquivos/voz/...
.

Tais pressupostos coadunam com os princípios da Psicodinâmica do Trabalho sob a perspectiva dejouriana. Essa teoria abrange a mobilização subjetiva no trabalho e busca compreender o sofrimento como o afeto que mobiliza os investimentos do indivíduo para transformar a organização do trabalho 1212. Mendes AM, Araújo KR. Clínica da psicodinâmica do trabalho: o sujeito em ação. Curitiba: Juruá; 2012. .

Uma busca por trabalhos publicados entre 2005 e 2016, nas bases de dados BVS, Medline, Web of Science e Scopus, em português, inglês e espanhol, utilizando as palavras-chave “voz“, “emoção” e “professores”, em português; “voice”, “emotion” e “teachers”, em inglês; e “voz”, “emoción ”, “professor” e “maestro ”, em espanhol, revelou 22 artigos sobre o tema. Destes, 16 permaneceram na seleção, visto que associavam diretamente as questões relacionadas à voz e às emoções no contexto da docência. Os seis artigos excluídos não abordavam de forma integrada os assuntos em pauta.

A relevância desta pesquisa encontra-se na carência de estudos acerca das relações entre voz e emoção no contexto da docência e na importância desse conteúdo para a ampliação das ações voltadas ao autocuidado e à promoção da saúde vocal dos docentes.

O autocuidado com a voz do professor deve ser incentivado 1313. Brasil CCP A voz da professora não pode calar: sentidos, ações e interpretações no contexto da integralidade em saúde [tese]. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, Universidade Federal do Ceará e Universidade de Fortaleza - Associação Ampla; 2015. , uma vez que a voz é corpo e esta é impactada pela relação entre os mundos interior e exterior, e é uma estratégia de promoção da saúde eficaz entre os profissionais da voz. Saber lidar com a voz; conhecer suas potencialidades e limitações; e interpretar seus sentidos são cuidados fundamentais para a preservação da saúde vocal.

A escassez de ações que incentivam o autocuidado com a voz reflete a falta de políticas públicas e legislação voltadas à saúde do professor 1414. Ferreira LP, Servilha EAM, Masson MLV, Reinaldi MBFM. Políticas públicas e voz do professor: caracterização das leis brasileiras. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2009; 14(1):1-7. . O estabelecimento de políticas efetivas e sustentáveis voltadas à saúde dos docentes demandam seu empoderamento e o estímulo ao autocuidado 1313. Brasil CCP A voz da professora não pode calar: sentidos, ações e interpretações no contexto da integralidade em saúde [tese]. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, Universidade Federal do Ceará e Universidade de Fortaleza - Associação Ampla; 2015. . Esse processo, contudo, requer a escuta sobre a percepção dos professores sobre si - seu corpo, sua voz e suas emoções - como partes de um todo integrado.

Diante desses aspectos, emerge a questão: Sabendo que as mulheres compõem a maior parte do corpo docente no ensino fundamental brasileiro, como elas percebem o entrelaçamento entre emoção e corpo expresso por meio da voz?

O fato de ser mulher potencializa as alterações vocais, visto que as condições anátomo-fisiológicas e psicológicas desse sexo, além das especificidades da profissão docente, predispõem a instalação desse tipo de problema, sendo este um dos motivos desta pesquisa ser apenas com professoras do sexo feminino 99. Mestre LR, Ferreira LP. O impacto da disfonia em professores: queixas vocais, procura por tratamento, comportamento, conhecimento sobre cuidados com a voz, e absenteísmo. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2011; 16(2):140-1. .

Ante o exposto, objetivou-se compreender a percepção das professoras sobre o entrelaçamento voz e emoções, podendo favorecer a compreensão e o autocuidado com a saúde vocal, além de gerar subsídios para a promoção da saúde e contribuir para o avanço de políticas públicas que auxiliem na melhoria da saúde vocal dos docentes.

Metodologia

Realizou-se um estudo qualitativo com três grupos focais. A metodologia qualitativa foi utilizada por ser capaz de incorporar a questão do significado e da intencionalidade como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais 1515. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 12a ed. São Paulo: Hucitec; 2010. .

Esta foi a segunda etapa de uma pesquisa iniciada a partir da aplicação de um questionário semiestruturado que buscou conhecer o perfil socioeconômico e as condições de saúde das professoras da rede municipal de ensino de Fortaleza (Ceará), cujos dados não compõem este artigo. Aplicou-se o referido instrumento com 351 professoras do ensino fundamental, com idades entre 24 a 66 anos, que fazem parte de sessenta escolas, sendo dez de cada um dos seis distritos de educação. Ressalta-se que foram escolhidas as dez escolas com maior número de alunos e professores em cada um dos distritos e que atendiam aos seguintes critérios de inclusão: ter ensino fundamental I e/ou II, o total de alunos ser igual ou superior a seiscentos e ter número de professores igual ou superior a vinte.

A rede municipal de ensino de Fortaleza alberga 9.191 docentes, sendo 7.653 do sexo feminino. No ensino fundamental, as professoras apresentam faixa etária predominante de 46 a 49 anos. Os níveis de formação mais frequentes são graduação (3.773) e especialização (3.625) e os tempos de admissão que incluem mais professoras são de zero a cinco anos (3.347) e de dez a 15 anos (2.840). Outra característica desse público diz respeito à carga horária em sala de aula, visto que 4.314 professoras cumprem oito horas de trabalho diárias.

Para o cálculo amostral, considerou-se o total de 3.689 professoras ativas em sala de aula e lotadas nas 280 escolas de ensino fundamental I e II de Fortaleza, considerando um erro de 5% e um intervalo de confiança de 95%, resultando em uma quantidade mínima de 346 professoras, com distribuição proporcional em cada um dos distritos de educação.

Os critérios de inclusão das professoras foram: lecionar no ensino fundamental I e/ou II; idade igual ou superior a 20 anos; e estar em exercício na sala de aula, podendo ter ou não histórico de alteração vocal. Foram excluídas as professoras que estavam de licença das atividades em sala de aula e que não se dispuseram a participar integralmente da pesquisa.

Na segunda etapa, realizaram-se três grupos focais (GF) 1616. Gondim SMG. Grupos focais como técnica de investigação qualitativa: desafios metodológicos. Paidéia. 2002; 12(24):149-61.,1717. Trad LAB. Grupos focais: conceitos, procedimentos e reflexões baseadas em experiências com o uso da técnica em pesquisas de saúde. Physis. 2009; 19(30):777-96. , com 26 professoras, de 19 escolas. Todas as 351 professoras que preencheram o questionário socioeconômico na primeira etapa foram convidadas. A maioria, porém, por motivos diversos, não atendeu ao convite. Do primeiro GF, participaram 12 professoras, dos Distritos de Educação II e VI; do segundo, participaram sete professoras, dos Distritos I e III; e do terceiro, outras sete, dos Distritos IV e V

A saturação 1818. Salgado CM. El muestro em investigación cualitativa: principios básicos y algunas controvérsias. Cienc Saude Colet. 2012; 17(3):613-9. dos dados foi usada como critério para a definição final da amostra, uma vez que esta é atingida, em investigação qualitativa, quando o pesquisador já tiver coletado certa diversidade de ideias e, com a continuidade das entrevistas ou de observação adicional, não mais identificar novos dados.

Utilizou-se o mesmo roteiro para os três GF, permitindo debate participativo sobre a relação entre voz e emoções, cujas questões disparadoras foram: “O que significa voz para você?”; “Qual a importância da voz para a sua vida pessoal, social e profissional?”; e “Você considera que as emoções interferem na sua voz e na sua saúde física? Como?”.

Os GF foram filmados, contando com a participação de uma facilitadora e três moderadoras. A primeira conduziu o debate, apresentando cada uma das questões e deixando que as professoras se expressassem livremente. Cada grupo teve duração média de duas horas e trinta minutos e foi conduzido em maio e junho de 2014.

O grupo focal 1010. Choi-Cardin K, Behlau M, Zambon F Sintomas vocais e perfil de professores em um programa de saúde vocal. Rev CEFAC. 2010; 12(5):811-9.,1717. Trad LAB. Grupos focais: conceitos, procedimentos e reflexões baseadas em experiências com o uso da técnica em pesquisas de saúde. Physis. 2009; 19(30):777-96. constitui uma ferramenta para abordar as questões de saúde sob o ângulo social. Por meio dele, consegue-se captar opiniões, relevâncias e valores dos entrevistados, permitindo que as professoras - identificadas em seus relatos pela letra P e pelos números de um a 26, visando à preservação das suas identidades - pudessem expressar como percebem o entrelaçamento voz, emoções e corpo. Dessa forma, P1 significa “professora 1”, e assim sucessivamente.

Os dados foram transcritos com base nas filmagens e anotações da facilitadora e das moderadoras. Em seguida, perfilhou-se o método de Análise de Conteúdo na modalidade temática, seguidas das seguintes etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados (inferência e interpretação) 1919. Minayo MCS, Deslandes SF, Gomes R. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 33a ed. Petrópolis: Vozes; 2013. . Os dados foram organizados em núcleos de sentido (NS) e, depois, alinhados em categorias, conforme convergência semântica dos depoimentos, no intuito de responder à questão norteadora. Assim, emergiram as categorias “Desdobramentos do trabalho na voz, no corpo e nas emoções” e “Emoções no corpo expressas pela voz”.

A categoria “Desdobramentos do trabalho na voz” emergiu a partir do posicionamento das respondentes acerca de aspectos do trabalho imbricados sobre voz, corpo e emoções. Já a categoria “Emoções no corpo expressas pela voz” emergiu dos relatos que remetiam a uma compreensão do seu corpo como uma complexidade, um corpo para além dos limites do orgânico.

A interpretação das categorias partiu da fenomenologia de Merleau-Ponty, de sua noção de corpo; e da literatura que versa sobre a relação entre voz, emoção e corpo.

Esta pesquisa atende à Resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS) n° 466/12, cujo projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade de Fortaleza sob o parecer n° 899.798.

Resultados e discussão

A partir da participação das 26 professoras nos GFs, com representantes de todos os seis Distritos de Educação de Fortaleza, foi possível perceber como o corpo das docentes sofre influências e influencia a intersubjetividade. Muitas vezes, há diversas formas de somatização das emoções, entre as quais estão as alterações vocais.

Os relatos apresentados nesta seção, oriundos dos grupos focais, ilustram as categorias, sendo representativos das falas e sentimentos expressos pela maioria das participantes. Na técnica do GF, as discussões do coletivo são valorizadas além das opiniões individuais, visto que objetiva identificar aspectos comuns de um grupo-alvo. O grupo focal possibilita a compreensão das crenças, sentimentos e comportamentos, o que possibilita descobrir projeções, identificações, vieses e resistências à persuasão 1313. Brasil CCP A voz da professora não pode calar: sentidos, ações e interpretações no contexto da integralidade em saúde [tese]. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, Universidade Federal do Ceará e Universidade de Fortaleza - Associação Ampla; 2015.,1717. Trad LAB. Grupos focais: conceitos, procedimentos e reflexões baseadas em experiências com o uso da técnica em pesquisas de saúde. Physis. 2009; 19(30):777-96. .

A maioria das participantes apontou responsabilidades cotidianas, tensões familiares e institucionais, necessidade de chorar e conflitos interpessoais como dificuldades de ordem emocional que afetam o corpo e se refletem na voz. As mudanças na qualidade vocal e a perda da voz foram identificadas como aspectos relacionados às emoções e ao corpo. Para Merleau-Ponty 22. Merleau-Ponty M. O olho e o espírito. 3a ed. Belo horizonte: Veja; 2009. , a vida humana é constituída pelo pessoal, social, cultural, biológico e histórico pleno de elementos considerados como seus múltiplos contornos. Com isso, é preciso compreender o entrelaçamento desses elementos como constituintes da intersubjetividade.

Para Dejours 2020. Dejours C. Subjetividade, trabalho e ação. Rev Prod. 2004; 14(3):27-34. , o ato de trabalhar atrela a subjetividade a um universo “(…) hierarquizado, ordenado e coercitivo, perpassado pela luta para a dominação” (p. 31). Na relação da materialidade do trabalho com o mundo social do trabalhador, emergem fenômenos psíquicos intrínsecos à organização do trabalho, que incluem a construção de mecanismos coletivos de defesa e a psicopatologização.

Desdobramentos do trabalho na voz, no corpo e nas emoções

Nesta categoria, identificaram-se os desdobramentos da relação do trabalho sobre a voz, o corpo e as emoções, sendo que as últimas foram motivadas por uma série de fatores apresentados na literatura 77. Ferracciu C, Almeida MS. Distúrbio de voz relacionado ao trabalho do professor e a legislação atual. Rev CEFAC. 2014; 16(2):628-33.,2121. Provenzano LCFA, Sampaio TMM. Prevalência de disfonia em professores do ensino público estadual afastados de sala de aula. Rev CEFAC. 2010; 12(1):97-108. e nos relatos.

A experiência de responsabilidade das professoras na sua vivência profissional estabelece uma interseção com o que lhes acontece dentro e fora das atividades cotidianas. Essa condição leva a atitudes e sentimentos que podem ser expressos pela voz.

[…] a sobrecarga de trabalho traz muita responsabilidade e afeta [a voz] porque você fica mais elétrica, mais nervosa, mais agitada e você grita com mais facilidade… […] Se eu também estou sobrecarregada em casa e vou ao trabalho, levo toda essa energia para lá e vou gritar mais com o aluno, me irritar mais… você vai soltar mais a sua voz, você vai gritar mais… você pode perder [temporariamente] essa voz. E isso te prejudica profissionalmente… (P24)

Em seus estudos sobre a psicodinâmica do trabalho, Dejours 2020. Dejours C. Subjetividade, trabalho e ação. Rev Prod. 2004; 14(3):27-34. provoca a pensar sobre como os aspectos do vivido no trabalho influenciam na estruturação da subjetividade das pessoas. Para o autor, “é numa relação primordial de sofrimento no trabalho que o corpo faz, simultaneamente, a experiência do mundo e de si mesmo.” (p.28).

À luz de Merleau-Ponty 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006. , o que nos acontece na relação com o mundo é a nossa experiência vivida do e no mundo, não havendo uma separação entre mim, o outro e o mundo. A problematização assinalada sobre o corpo e não mais sobre a consciência faz uma ruptura definitiva com as dicotomias “corpo e mente”, “externo e interno” e “sujeito e mundo”. O mundo não é algo que se descobre, mas, sim, o que “[…] redescubro em mim, enquanto horizonte permanente e como uma dimensão em relação a qual eu não deixo de me situar” 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006. (p. 9).

Observa-se na fala de P24 sua não separabilidade com o mundo, apontando o enredamento do sujeito no mundo. Assim, nada é por acaso, tudo diz respeito a um posicionamento diante das situações e do mundo, “porque estamos no mundo, estamos condenados ao sentido E…]” 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006. (p. 18). Compreende-se que a voz pode ser entendida como um dos múltiplos contornos da relação sujeito e mundo, pois, quando algo acontece ao sujeito, ocorre em seu todo, e não em partes isoladamente. Nem mesmo um é causa ou efeito do outro, mas mútua constituição.

Esse corpo de mulher e professora não se separa das suas emoções. Pelo contrário, ele é as emoções e seus diversos, sendo, ao mesmo tempo, ação e reação desse mundo a esse e nesse corpo. O peso da responsabilidade pelos papéis que ocupa a mulher professora foi evidenciado nos estudos de Merighi et al. 2222. Merighi MAB, Jesus MCP Domingos SRF, Oliveira DM, Baptista PCP. Ser docente de enfermagem, mulher e mãe: desvelando a vivência sob a luz da fenomenologia social. Rev Lat Am Enferm. 2011; 19(1):164-70. . Os autores afirmam que a rotina intensa de atividades que é imposta às mulheres para a conciliação dos seus papéis sociais traz exigências difíceis de serem harmonizadas, provocando uma sensação de estresse e desgaste pelo ideário de superação constante, que está fortemente relacionado ao desejo de realizações em todos os âmbitos da vida.

A voz é percebida como um fenômeno que está interseccionado das partes com o todo, do corpo e da mente, do objetivo e do subjetivo, do interno e do externo, em um entrelaçamento profundo, o que corrobora com a seguinte fala:

E eu me pergunto o quanto esse choro também afeta a nossa voz… Porque o choro vai mudar o teu tom de voz, ele vai mexer com toda a tua respiração… Quando a gente está realmente cansada, estressada, ansiosa e, muitas vezes, sem motivo nenhum, qualquer coisinha te deixa alterada e você chora… (P14)

Segundo Codo 2323. Codo W. Educação: carinho e trabalho. 2a ed. Petrópolis: Vozes; 1999. , 70% dos profissionais da educação brasileira denotam indicativos de alterações emocionais. Muitos, porém, desconhecem as dimensões desse fato. O conhecimento e o desconhecimento sobre o uso da voz, o que faz bem e o que a prejudica, influenciam na vida dos profissionais da voz, uma vez que determinam um bom ou mau uso. Morais et al. 2424. Morais EPG, Azevedo RR, Chiari BM. Correlação entre voz, autoavaliação vocal e qualidade de vida em voz de professoras. Rev CEFAC. 2010; 14(5):892-900. mostraram desvio do comportamento vocal e impacto da voz na qualidade de vida.

Nesse contexto, os estados de ansiedade, que podem ser expressos de diversas formas, são compostos de elementos fisiológicos e comportamentais, que podem causar incapacidade no trabalho 2525. Ravindran LN, Stein MB. The pharmacologic treatment of anxiety disorders: a review of progress. J Clin Psychiatr. 2010; 71(7):839-54. , como as dificuldades de comunicação oral, que desencadeiam o absenteísmo docente e a desmotivação ocupacional. No caso das professoras, se por um lado o ato de chorar auxilia na redução do estresse vivenciado, por outro, contribui para a instalação de alterações no aparelho fonador, levando a dificuldades temporárias na produção vocal, conforme evidencia P14, ao relatar as alterações no “tom de voz” e na “dinâmica respiratória”.

Almeida et al. 2626. Almeida LNA, Lopes LW, Costa DB, Silva EG, Cunha GMS, Almeida AAF. Características vocais e emocionais de professores e não professores com baixa e alta ansiedade. Audiol Commun Res. 2014; 19(2):179-85. relatam que as pessoas com níveis de ansiedade mais elevados apresentam comprometimentos mais significativos em termos emocionais, vocais e na qualidade de vida. Esse fato é potencializado naqueles que utilizam a voz profissionalmente, a exemplo dos professores. Merleau-Ponty 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006. aponta que a compreensão da objetividade e da subjetividade está no mundo vivido, na experiência do corpo. Cremasco 2727. Cremasco MVF. Algumas contribuições de Merleau-Ponty para a psicologia em “fenomenologia da percepção”. Rev Abordagem Gestal. 2009; 15(1):51-4. (p. 53) acrescenta que essa experiência se efetua no “[…] corposujeito em situação […]”.

A percepção do que nos acontece é uma entre as diversas maneiras de se conhecer. O que importa é que mergulhemos em profundidade no que buscamos conhecer e encontremos o significado que se mostra em cada perspectiva. Vê-se isso como uma questão nodal para as professoras e o seu cuidado com a voz, pois, em vez de explicar o que lhes acontece, concentram-se na experiência com a voz, já que, dessa forma, podem compreender a vivência do corpo e suas implicações no mundo:

Eu precisei me ausentar da escola… Num momento delicado de reposição de aula, minha voz sumiu de repente por causa da minha tensão e de precisar faltar. A diretora olhou para mim e disse: “é ótimo essa rouquidão porque todo mundo já sabe que você está rouca e você faltou por isso”… Isso é muito desagradável e a voz some com a tensão emocional… (P6)

Isso [agressões no trabalho] mexe demais com a minha saúde, porque eu fico sem voz quando eu estou muito triste ou muito irritada… Eu já cheguei a ficar afônica. Na escola, uma vez, eu discutindo com a diretora da escola eu fiquei totalmente sem voz… (P21).

As professoras apontam que as pressões institucionais e os conflitos interpessoais no mundo do trabalho causam tensão, desagradam e desestabilizam o bem-estar, comprometendo o corpo e a voz. Além disso, as docentes denotam o modo como experienciam a voz, apontando para um posicionamento existencial, ou seja, aquele que se refere à sua existência e sua condição de ser no mundo como mais amplo e complexo do que simplesmente os efeitos das emoções na voz.

Silverio et al. 2828. Silverio MR, Patricio ZM, Brodback IM, Grosseman S. O ensino na área da saúde e sua repercussão na qualidade de vida docente. Rev Bras Educ Med. 2010; 34(1):65-73. detectaram que professores consideram desgastante trabalhar com pessoas, devido ao estresse advindo das interações interpessoais com os alunos, colegas, gestores e demais pessoas no contexto institucional, principalmente quando relacionadas a atitudes contrárias aos seus princípios e disponibilidades.

Nesse contexto, Amorim 2929. Amorim SNMC. Distúrbio vocal e estresse: os efeitos do trabalho na saúde - de professores/as do ensino fundamental de Goiânia [dissertação]. Goiás: Universidade Católica de Goiás; 2006. evidencia a relação entre os distúrbios vocais e o estresse com as condições precárias do trabalho dos professores. Em tal situação, identifica elevada incidência de distúrbios vocais e de estresse e constata esses sintomas como um problema de saúde do trabalhador. A pesquisadora chama atenção sobre a necessidade de programas que considerem os desdobramentos do trabalho sobre a saúde, incluindo a saúde vocal e mental.

Ressalta-se que as mudanças físicas causadas pelas reações de estresse podem resultar em sintomas vocais (tosse, tensão na garganta, dificuldade de ser ouvido, rouquidão, cansaço vocal e falhas na voz), materializando, manifestando e consumando a tensão sentida. Isso evidencia o corpo enquanto emoção, pois, na perspectiva merleau-pontyana, tudo se refere ao corpo, tudo é corpo, seja na sua fisicalidade com os sintomas ou na sua significação. Deve-se considerar que as alterações vocais são causadas, também, pelo estresse, pela ansiedade e nervosismo diante da exposição a situações de violência ocupacional que levam ao mal-estar físico e mental 3030. Holmqvist S, Santtila P, Lindström E, Sala E, Simberg S. The association between possible stress markers and vocal symptoms. J Voice. 2013; 27(6):787.,3131. Costa DB, Lopes LW, Silva EG, Cunha GMS, Almeida LNA, Almeida AAF. Fatores de risco e emocionais na voz de professores com e sem queixas vocais. Rev CEFAC. 2013; 15(4):1001-10. .

Emoções no corpo expressas pela voz

Algumas professoras relatam experiências de perda da voz diante da vivência de algumas emoções. O fato de quererem falar e não conseguirem denota uma situação traumática, muitas vezes inesperada.

… depois que eu fiquei viúva, meu filho começou a querer que eu fizesse o inventário para dar a parte dele… Eu fiquei com tanta raiva que, de repente, eu fiquei rouca, comecei a chorar e fiquei sem voz… eu fiquei aflita porque eu não conseguia mais falar. Eu comecei a ficar rouca de acordo com a emoção… […] com a ajuda dos antidepressivos, dos ansiolíticos, a voz vai tomando um novo rumo [melhorando]… (P13)

Esses depoimentos remetem à discussão proposta por Merleau-Ponty 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006. sobre a experiência do corpo e sua relação com o fisiológico e o psicológico. O autor apresenta a ideia do fenômeno do membro fantasma para sublinhar a não dicotomia “corpo e mente”, ou seja, a dicotomia fisiológico e psicológico ou objetivo e subjetivo e, principalmente, a noção de percepção como modo de conhecer o objeto. Para ele, corpo está para além de uma interioridade, com seus receptores, e de uma exterioridade, que apenas reage aos estímulos do mundo. Portanto, a experiência de corpo é fisiológica e psicológica ao mesmo tempo.

Com isso, o autor 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006. pretende enfatizar que só a explicação fisiológica não é suficiente para se compreender a experiência de corpo; tampouco é uma explicação puramente psicológica, sendo necessário compreender que há um entrelaçamento de uns com os outros. O fato de um indivíduo não mais dispor de uma parte do seu corpo real não significa que ele não mais o sentirá, pois o seu corpo e a sua mente são inseparáveis. Desse modo, o sujeito continuará sentindo o membro paralisado ou ausente, apontando a impossibilidade da ideia de causalidade linear.

As professoras, ao significarem a ausência da voz, remetem aos sentimentos de raiva, aflição, estresse e tristeza, mostrando como seus corpos são, ao mesmo tempo, o seu mundo vivido e as emoções experienciadas.

Uma coisa que afeta a minha voz é o fator emocional… Eu sei que a minha voz tem muito a ver com o meu emocional. Quando eu estou bem, dificilmente eu fico rouca; mas se eu estiver com raiva, se eu passar por uma aflição, um susto, um momento de estresse em sala de aula eu sinto que me prejudica. (P25)

Salientamos que o professor, ao dar voz às suas emoções e ao falar do seu corpo, possibilita a produção de mudança na percepção, ao ver, nas suas experiências sensíveis do corpo, novos mundos e horizontes pela produção de novos significados 3232. Borges H. Corpo e intensidade: a saúde como capacidade de experimentar a vida em sua constante mutabilidade e desvio. In: André M, organizador. O futuro do Corpo e da Saúde. São Paulo: Andreato Comunicação e Cultura; 2014. p. 58-91. .

A vida inteira eu fui rouca… Quando eu era mais nova, além de rouca ainda era fanhosa… Uma coisa é você ser rouca e outra coisa é ficar com a voz rachada [doente]… A minha voz fica doente e até desaparece quando eu estou emocionalmente abalada. Eu fico muito rouca, até afônica, e muito triste! Desse jeito, eu não consigo trabalhar bem, não consigo me expressar bem. Sempre disseram que voz rouca é sensual… Tem gente que gosta, mas essa sensualidade eu dispenso, principalmente porque prejudica o meu trabalho… (P8)

Ao falar do seu corpo, é possível para as professoras compreenderem o mecanismo psíquico descrito por Guimarães et al. 3333. Guimarães VC, Siqueira PH, Castro VLS, Barbosa MA, Porto CC. Aphonia with unknown etiology: a case report. Int Arch Otorhinolaryngol. 2010; 14(2):247-50. (p. 248), que ocasiona a perda da voz para além da apresentação clínica; já que esta perda traduz no exterior um “estado interior”. A voz, a articulação e a fluência da fala estão, portanto, imbricadas a oscilações psicológicas e, consequentemente, os fatores emocionais não podem ser dissociados da saúde vocal 3434. Deary V, Miller T. Reconsidering the role of psychosocial factors in functional dysphonia. Curr Opin Otolaryngol Head Neck Surg. 2011; 19:150-4. .

Behlau et al. 3535. Behlau M, Madazio G, Feijó D, Pontes P Avaliação de voz. In: Behlau M, organizador. Voz: o livro do especialista. Rio de Janeiro: Revinter; 2001. v. 1, p. 85-180. defendem que a disfonia funcional psicogênica corresponde à somatização dos distúrbios emocionais por meio da voz. Nesse contexto, Martins et al. 3636. Martins RHG, Tavares ELM, Ranalli PF, Branco A, Pessin ABB. Disfonia psicogênica: diversidade de apresentações clínicas e vocais de uma série de casos. Braz J Otorhinolaryngol. 2014; 80(6):497-502. realizaram um estudo com 28 pacientes com o diagnóstico de disfonia psicogênica e verificaram que a forma de apresentação clínica mais frequente foi a afonia de conversão seguida pela tensão musculoesquelética e sonoridade intermitente. A afonia de conversão caracteriza-se pela perda da voz decorrente de algum mecanismo psíquico, sem que haja alterações estruturais na laringe 3333. Guimarães VC, Siqueira PH, Castro VLS, Barbosa MA, Porto CC. Aphonia with unknown etiology: a case report. Int Arch Otorhinolaryngol. 2010; 14(2):247-50. .

Martins et al. 3636. Martins RHG, Tavares ELM, Ranalli PF, Branco A, Pessin ABB. Disfonia psicogênica: diversidade de apresentações clínicas e vocais de uma série de casos. Braz J Otorhinolaryngol. 2014; 80(6):497-502. alertam que a experiência de descontrole e a dificuldade em lidar com os afetos suscitados pela interação com o meio e com pessoas são justificadas pela ficção de que essa dificuldade se deve ao corpo. Isso se dá a partir do embasamento da dicotomia corpo e mente. É importante considerar o modo como a voz e sua ausência tornam-se referência de sentido e significado da vida, do corpo e das emoções para as professoras. A voz para elas é, ao mesmo tempo, uma ferramenta de trabalho, identidade, um meio de comunicação e um modo de vivenciar o corpo e as emoções em um processo contínuo inter-relacional que evidencia os múltiplos contornos:

Não só na profissão, como em todo setor da nossa vida, do nosso dia a dia, a voz é importante… principalmente em casa com os filhos, com o marido, com a sociedade como um todo… A voz, além da questão profissional, além de ser nosso meio de comunicação, é também um condutor das nossas emoções… Porque através da voz você pode perceber se a pessoa está alegre, doente, triste, cansada… Então, as pessoas tendem a nos conhecer também pelo nosso tom de voz… (P3)

Portanto, compreender a mútua constituição entre professoras e seu mundo possibilita uma percepção do seu corpo para além dos limites do orgânico e, para isso, é preciso permitir que se fale de uma intimidade do corpo, percebendo-o como unidade relacional 3232. Borges H. Corpo e intensidade: a saúde como capacidade de experimentar a vida em sua constante mutabilidade e desvio. In: André M, organizador. O futuro do Corpo e da Saúde. São Paulo: Andreato Comunicação e Cultura; 2014. p. 58-91.:

… não sei se por estar sempre sendo exposta a situações como essa [indisciplina na escola]… você vai deixando de gritar, vai deixando de reagir, vai deixando de tomar uma atitude. Antes, eu chorava, ficava na sala de aula e sabia que logo ia passar… eu inventava logo uma coisa diferente e… dava a volta por cima… Agora, eu não consigo mais controlar essa emoção. Eu saio, peço ajuda a alguém da escola para ficar um pouco na minha sala, eu vou ao banheiro. (P13)

A vivência de descontrole das emoções diante da incapacidade de lidar com as situações de trabalho compõe um processo de adoecimento. Para Canguilhem 3737. Canguilhem G. O normal e o patológico. 6a ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 2006. , a saúde só pode ser considerada na experiência de vida das pessoas por meio da medida de sua maior ou menor capacidade de criar maneiras de adaptação à vida.

Pedir ajuda para conduzir a sala de aula remete a um entendimento da docente ao olhar e falar sobre esse corpo e as emoções não exclusivamente em seu sentido fisiológico, o que acarreta a ressignificação da utilização de estratégias para lidar com os desafios do seu ofício. Sato e Ayres 3838. Sato M, Ayres JRCM. Arte e humanização das práticas de saúde em uma unidade básica. Interface (Botucatu). 2015; 19(55):1027-38. criticam as práticas reducionistas de cuidado pautadas, exclusivamente, pela lógica tecnocientífica, que resultam na desqualificação das relações entre os sujeitos.

É preciso empoderar as pessoas para a compreensão da própria saúde para que possam definir com autonomia estratégias de cuidado. Em Merleau-Ponty, temos que o sujeito percebe seu adoecimento quando ignora a sua perda “[…] e ele a ignora justamente enquanto a conhece…” 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006. (p. 122). O autor assinala que a doença é uma forma de existência e suas maneiras de substituir as funções normais podem ser compreendidas como fenômenos a serem apreendidos e significados. Para tal, é necessário que se reconheça o núcleo do adoecer, sua potência e seu modo de existir. “É ali que reside a doença” 11. Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. 4a ed. São Paulo: Fontes; 2006. (p. 188). Portanto, compreender o adoecimento é pensar todo o campo de possibilidades que está desabando, fazendo o homem afastar-se da significação e da sua comunicação.

Nesse contexto, a compreensão do entrelaçamento da voz e emoções pelos professores cria condições de reconhecimento de si como sujeitos ativos e protagonistas da sua saúde como totalidade, e situado no mundo, oportunizando o autocuidado. Para a saúde, é preciso suscitar o despertar do sujeito para a sua experiência de corpo próprio ser a própria experiência, deixando as “portas entreabertas” na relação com o mundo.

Considerações finais

A percepção das docentes sobre o entrelaçamento voz e emoção a partir da fenomenologia de Merleau-Ponty permite-nos parafrasear o dito popular “a voz é o espelho da alma”.

Essa concepção abre discussões sobre o modo de compreender o processo saúde e doença vocal do professor para além de um entendimento de corpo orgânico-biológico. Nesse âmbito, a voz em sua dimensão subjetiva, como sentido e no contexto da saúde, pode ser evidenciada, uma vez que a abordagem fenomenológica, com sua perspectiva de homem e de ciência não dicotômica e que busca a experiência vivida do mundo, possibilita a criação de estratégias de promoção e educação em saúde vocal que permitem a apropriação de sentidos e ações encarnados no mundo para a minimização das intercorrências que, muitas vezes, comprometem o exercício profissional.

A ideia de corpo próprio, relacional, ambíguo, complexo e sistêmico, ao ser falado e expresso pelos sujeitos, possibilita a compreensão de si mesmos, de suas experiências vividas e do modo como essas experiências fomentam saúde, qualidade de vida e prevenção do adoecimento. Essas considerações podem contribuir com a ampliação e o aprofundamento dos debates sobre as políticas públicas voltadas à saúde geral e vocal dos professores, uma vez que a voz é corpo e o corpo é situado no mundo.

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Histórico

  • Recebido
    21 Jun 2017
  • Aceito
    17 Nov 2017
  • Publicação Online
    14 Maio 2018
  • Publicação em número
    Jul-Sept 2018
UNESP Botucatu - SP - Brazil
E-mail: intface@fmb.unesp.br