O efeito do contexto sobre a incidência de homicídios: existem evidências suficientes?

The effect of the context on the incidence of homicides: is there enough evidence?

El efecto del contexto sobre la incidencia de homicidios: ¿existen evidencias suficientes?

Carlos Augusto Moreira de Sousa Cosme Marcelo Furtado Passos da Silva Edinilsa Ramos de Souza Sobre os autores

Resumos

Ao buscar evidências de associações entre óbitos por homicídios e indicadores sociais, os estudos apresentam achados divergentes. O objetivo deste estudo foi realizar uma revisão bibliográfica crítica acerca das associações entre homicídios e indicadores sociais. Métodos: Revisão bibliográfica. Foram efetuadas consultas na BVS, Scielo, Lilacs, Medline e Scopus. Os descritores utilizados foram: “violência”, “homicídios”, “agressões”, acrescidos dos termos “fatores socioeconômicos”, “desigualdade”, “desorganização social”, “fatores epidemiológicos”, somados a “análise estatística”, “análise espacial”, “estudos ecológicos”. Foram utilizados 49 indicadores diferentes. 12 indicadores apresentaram concordância dos achados e nove indicadores apresentaram discordância, ora estando associados diretamente, ora associados inversamente aos desfechos.Devido à complexidade do tema dos homicídios, alguns estudos esbarram em uma série de limitações metodológicas e conceituais e também são prejudicados pela falta de informações de livre acesso disponíveis nas bases de dados secundárias.

Violência; Homicídios; Indicadores sociais; Revisão; Análise estatística


Studies have shown divergent findings on the evidence of associations between deaths by homicide and social indicators. The objective of this study was to conduct a bibliographic critical review regarding the associations between homicides and social indicators. The databases VHL, Scielo, Lilacs, Medline, and Scopus were searched. The descriptors used were: “violence”, “homicides”, “assaults”, added to the terms “socioeconomic factors”, “inequality”, “social disorganization”, “epidemiological factors”, “statistical analysis”, “spatial analysis”, and “ecological studies”. 49 different indicators were used. 12 indicators presented agreement as for the findings and nine indicators showed disagreement, sometimes being directly associated and other times inversely associated with the outcomes. Given the complexity of the homicides subject, some studies face a series of methodological and conceptual limitations, being also hampered by the lack of free access information available in secondary databases.

Violence; Homicides; Social indicators; Review; Statistical analysis


Al buscar evidencias de asociaciones entre los fallecimientos por homicidios e indicadores sociales, los estudios presentan hallazgos divergentes. El objetivo fue realizar una revisión bibliográfica crítica sobre las asociaciones entre homicidios e indicadores sociales. Se efectuaron consultas en BVS, Scielo, Lilacs, Medline y Scopus. Los descriptores utilizados fueron: “violencia”, “homicidios”, “agresiones”, añadiéndose los términos “factores socioeconómicos”, “desigualdad”, “desorganización social”, “factores epidemiológicos”, sumados a “análisis estadístico”, “análisis espacial”, “estudios ecológicos”. Se utilizaron 49 indicadores diferentes. 12 indicadores presentaron concordancia de los hallazgos y nueve indicadores presentaron discordancia, tanto asociados directamente o indirectamente a los desenlaces. Debido a la complejidad del tema de los homicidios, algunos estudios tropiezan en una serie de limitaciones metodológicas y conceptuales y también se ven afectados por la falta de informaciones de libre acceso disponibles en las bases de datos secundarias.

Violencia; Homicidios; Indicadores sociales; Revisión; Análisis estadístico


Introdução

De acordo com a Organização Mundial de Saúde 11. . Global Study on Homicide 2013. Trends, contexts, data. Genebra: United Nations Office on Drugs and Crime; 2013. , em 2012, quase meio bilhão de pessoas morreram vítimas de homicídios no mundo, o que representa 10% de todas as mortes por lesão. Além da importância deste dado, vale destacar que países das Américas Central e do Sul têm taxas de homicídio de cinco a oito vezes maiores que os da Europa ou Ásia.

No Brasil, em 2012, os óbitos por causas externas situaram-se na terceira posição na mortalidade geral, sendo as mortes por homicídio responsáveis por 37% dos óbitos por causas externas 22. Reichenhein ME, Souza ER, Moraes CL, Mello Jorge MHP, Silva CMFP, Minayo MCS. Violência e lesões no Brasil: efeitos, avanços alcançados e desafios futuros. Lancet. 2011; 6736(11):75-89. .

Estudos apontam como as principais vítimas e agressores, nos eventos que resultam em homicídios no Brasil, e no mundo, homens jovens, com baixo ou nenhum grau de escolaridade, e moradores das periferias das grandes cidades. Esse perfil, tanto das vítimas quanto dos agressores, é corroborado por pesquisadores locais 33. Barata RB, Ribeiro MCSA, Sordi M. Desigualdades sociais e homicídios na cidade de São Paulo. Rev Bras Epidemiol. 2008; 11(1):3-13.,44. Gawryszewski VP, Costa LS. Homicídios e desigualdades sociais no Município de São Paulo. Rev Saude Publica. 2005; 39(2):191-7. e internacionais 55. Zavala-Zegarra DE, López-Charneco M, Garcia-Rivera EJ, Concha-Eastman A, Rodriguez JF, Conte-Miller M. Geographic distribution of risk of death due to homicide in Puerto Rico, 2001–2010. Rev Panam Salud Publica. 2012; 32(5):321-9. .

Entretanto, ao se buscarem evidências de associações entre as mortes por homicídios e indicadores sociais, os resultados nem sempre são consistentes. Em razão da complexidade do tema, decisões sobre a metodologia utilizada nos estudos podem interferir nos achados, e esses indicadores podem ora estar associados diretamente, ora inversamente, ou ainda sequer estarem associados às taxas de violência criminal 66. Land KC, MCCall PL, Conhen LE. Structural covariates of homicide rates: are there any invariances across time and social space? Am J Rev. 1990; 95(4):922-63. .

Logo, o presente estudo tem como objetivo realizar uma revisão bibliográfica crítica acerca das associações entre homicídios e indicadores sociais, buscando identificar as lacunas existentes nessas relações, além de propor alternativas que minimizem a ocorrência de resultados inadequados.

Método

Realizou-se, nas principais bases bibliográficas da área de Saúde, uma revisão bibliográfica dos estudos de associação entre homicídio e indicadores sociais. Foram feitas consultas no Portal de pesquisa BVS, Scielo, Lilacs, Medline e Scopus. Tais bases de dados foram escolhidas por sua importância na temática da violência e saúde.

A estratégia de busca consistiu no seguinte processo para coleta das informações:

Foram usadas, como palavras-chave, os descritores em Ciências da Saúde (DECS) e o Medical Subject Headings (MESH), em português e em inglês, considerando-se os termos equivalentes pertencentes ao MESH. Os descritores utilizados nas buscas foram divididos em três grupos: o primeiro abarcou os termos “violência”, “homicídios”, “agressões”; o segundo continha os termos “fatores socioeconômicos”, “desigualdade”, “desorganização social”, “fatores epidemiológicos”, e o terceiro grupo incluiu os termos “análise estatística”, “análise espacial”, “estudos ecológicos”, e os idiomas dos textos selecionados foram o português e o inglês.

Como estratégia de seleção, os artigos deveriam conter uma das palavras de cada grupo descrito acima, ou seja: violência ou homicídios ou agressão e fatores socioeconômicos ou desigualdade ou desorganização social ou fatores epidemiológicos e análise estatística ou análise espacial ou estudos ecológicos, a fim de que se garantisse que cada trabalho representasse o desfecho em questão, tivesse algum método estatístico de análise e que abordasse, pelo menos, uma exposição contextual que se esperava estar associada ao desfecho.

Em cada base de dados foram buscados artigos referentes ao período de 2005 a 2015, a fim de que o acervo representasse o contexto mais atual das relações entre indicadores e homicídios. O território pesquisado foi o mundo, e os descritores foram buscados no título, no resumo e nas palavras-chave.

Foram lidos todos os resumos dos artigos localizados, com acesso gratuito ou acesso permitido pelo portal do periódico CAPES, com o objetivo de eliminar os trabalhos duplicados e, também, artigos que estivessem fora do escopo da presente revisão. As informações foram tabuladas no Microsoft Excel, contendo as seguintes colunas: N – Identificador do número do artigo, Título do estudo, Métodos e Resultados (principais associações).

Resultados

Conforme mostra o esquema abaixo, foram encontrados 203 artigos, segundo os descritores predefinidos na metodologia. Após a leitura completa de cada artigo, foram mantidos, no presente trabalho, 35 deles. Foram excluídos 168 artigos, 31 artigos por duplicidade e 137 porque não abordavam a temática em questão nos moldes predefinidos; ou seja, não tratavam estatisticamente as associações entre indicadores e violência.

Organograma 1
Esquema de seleção dos artigos avaliados no estudo.

Seguem, abaixo, dois quadros descritivos dos estudos contemplados nesta análise. O primeiro contendo os estudos internacionais, e o segundo contendo os estudos nacionais, organizados por ano de publicação do artigo.

Quadro 1
Artigos de origem internacional contemplados na revisão, ordenados por data de publicação.

Quadro 2
Artigos de origem nacional contemplados na revisão, ordenados por data de publicação.

Dos 35 artigos que permaneceram na análise, 18 foram conduzidos fora do Brasil e 17 são de origem nacional. Entre os estudos internacionais, nove foram conduzidos nos Estados Unidos, um no Canadá, um na Argentina, um na Colômbia, um no México, um na África do Sul e quatro estudos foram multinacionais.

Foram usados 49 tipos de indicadores diferentes como exposição para o desfecho homicídio ou crime violento. Dentre os indicadores que foram utilizados nos estudos, nove deles – a saber, Percentual de divórcio ou separação por mil habitantes, Percentual de Homens Jovens, Densidade de lojas que comercializam bebidas alcoólicas, Percentual de pessoas com assistência social, Percentual de negros, Índice de GINI, Heterogeneidade Étnica ou Linguística, Índice de impunidade e Número de Matrículas no Ensino Médio – tiveram concordância em seus achados, apresentando associação direta com os desfechos de violência. Outros dois indicadores – Produto Interno Bruto (PIB) e Taxa de Analfabetismo – tiveram concordância dos achados nos estudos, mas com associação inversa às taxas de violência. A renda per capta não esteve associada ao desfecho em dois estudos.

Ao passo que nove indicadores que foram incluídos em, pelo menos, dois estudos, não apresentaram concordância nos achados, pois ora apresentaram associação direta, ora inversa, ou, ainda, não evidenciaram associação. São eles: Percentual de mulher como responsável pela família, Taxa de desemprego, Percentual de Imigrantes, Densidade Populacional ou demográfica, Baixa Renda / Percentual de pobres, Baixa Escolaridade, Percentual de Urbanização, Percentual da população jovem e Média de moradores por domicílio. Vale ressaltar que vinte e oito indicadores foram utilizados em um único estudo, não havendo como comparar a associação desses indicadores.

O percentual de mulheres como chefe de família foi utilizado para explicar eventos criminosos em estudos na África do Sul 1515. Breetzke GD. A socio-structural analysis of crime in the city of Tshwane, South Africa. S Afr J Sci [Internet]. 2012; 106(11/12):1-7 [citado 17 Maio 2013]. Disponível em: http://www.scielo.org.za/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0038-23532010000600014.
http://www.scielo.org.za/scielo.php?scri...
e nos Estados Unidos 1212. Wang FH, Arnold MT. Localized income inequality, concentrated disadvantage and homicide. Appl Geogr. 2008; 28(4):259-70. . No primeiro desses países não foi encontrada associação estatística; nos Estados Unidos, observou-se associação direta. Entretanto, tais estudos adotaram unidades de análise diferentes: no primeiro foi usado o Geocódigo da incidência do crime e, no segundo, a taxa do setor censitário. Vale ressaltar também que diferentes covariáveis foram utilizadas conjuntamente na análise multivariada em cada caso.

A densidade demográfica apareceu em quatro estudos realizados no Brasil 11. . Global Study on Homicide 2013. Trends, contexts, data. Genebra: United Nations Office on Drugs and Crime; 2013.,2525. Lima MLC, Ximenes RAA, Souza ER, Luna CF, Albuquerque MFPM. Análise espacial dos determinantes socioeconômicos dos homicídios no Estado de Pernambuco. Rev Saude Publica. 2005; 39(2):176-82.,2929. Araújo EM, Costa MCN, Oliveira NF, Santana FS, Barreto ML, Hogan V, et al. Spatial distribution of mortality by homicide and social inequalities according to race/skin color in an intra-urban Brazilian space. Rev Bras Epidemiol. 2010; 13(4):549-60.,3030. Ramão FP, Wadi YM. Espaço urbano e criminalidade violenta: análise da distribuição espacial dos homicídios no município de Cascavel/PR. Rev Sociol Polit. 2010; 18(35):207-30. , tendo o município como unidade de análise. Contudo, as distintas metodologias dos estudos parecem afetar os resultados: os que realizaram análise estatística multivariada, com modelagem espacial, não apresentaram associação significativa; e os que utilizaram modelagem simples bivariada, apresentaram associação significativa direta.

O indicador demográfico médio de moradores por domicílio apresentou divergência nos resultados das associações ao usar unidades de análise diferentes: município no primeiro estudo e unidade administrativa no segundo. Observou-se ainda que o estudo 4040. Sousa CAM, Silva CMFP, Souza ER. Determinantes dos homicídios no Estado da Bahia, Brasil, em 2009. Rev Bras Epidemiol. 2014; 17(1):135-46. com associação significativa inversa lançou mão de análise multivariada, modelo espacial; e o estudo 3030. Ramão FP, Wadi YM. Espaço urbano e criminalidade violenta: análise da distribuição espacial dos homicídios no município de Cascavel/PR. Rev Sociol Polit. 2010; 18(35):207-30. com associação significativa direta adotou análise exploratória de dados espaciais; ou seja, analisou a densidade demográfica isoladamente em relação ao desfecho estudado.

O percentual de urbanização mostrou-se estatisticamente não significativo no estudo de Chon 2020. Chon DS. The impact of population heterogeneity and income inequality on homicide rates: a cross-national assessment. Int J Offender Ther Comp Criminol. 2012; 56(5):730-48. em que as unidades de análise foram países e a metodologia adotada foi a análise multivariada de dados, controlando pelo Índice de GINI e pelo GDP (indicador de produção equivalente ao PIB). Por outro lado, Andrade et al. 3131. Andrade SM, Soares DA, Souza RKT, Matsuo T, Souza HD. Homicídios de homens de quinze a 29 anos e fatores relacionados no estado do Paraná, de 2002 a 2004. Cienc Saude Colet. 2011; 16 Supl 1:1281-8. analisaram 399 municípios brasileiros a partir da correlação de Spearman, e encontraram associação direta estatisticamente significativa entre o percentual de urbanização e homicídio.

Um indicador bastante utilizado para predizer homicídio foi a taxa ou percentual de desempregados, tanto em estudos internacionais (Breetzke 1515. Breetzke GD. A socio-structural analysis of crime in the city of Tshwane, South Africa. S Afr J Sci [Internet]. 2012; 106(11/12):1-7 [citado 17 Maio 2013]. Disponível em: http://www.scielo.org.za/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0038-23532010000600014.
http://www.scielo.org.za/scielo.php?scri...
, Poveda 1616. Poveda AC. Estimating effectiveness of the control of violence and socioeconomic development in Colombia: an application of dynamic data envelopment analysis and data panel approach. Soc Indic Res. 2012; 105(3):343-66. , Strom & Mcdonald 88. Strom KJ, MacDonald JM. The influence of social and economic disadvantage on racial patterns in youth homicide over time. Homicide Stud. 2007; 11(1):50-69. , Wang & Arnold 1212. Wang FH, Arnold MT. Localized income inequality, concentrated disadvantage and homicide. Appl Geogr. 2008; 28(4):259-70. , McCall et al. 99. McCall PL, Parker KF, MacDonald JM. The dynamic relationship between homicide rates and social, economic, and political factors from 1970 to 2000. Soc Sci Res. 2008; 37(3):721-35. ), quanto em nacionais (Tourinho Peres et al. 3636. Tourinho Perez MF. Evolução dos homicídios e indicadores de segurança pública no Município de São Paulo entre 1996 a 2008: um estudo ecológico de séries temporais. Cienc Saude Colet. 2012; 17(12):3249-57. ). Esses artigos apresentaram, em seu escopo, uma ampla gama de metodologias. Breetzke 1515. Breetzke GD. A socio-structural analysis of crime in the city of Tshwane, South Africa. S Afr J Sci [Internet]. 2012; 106(11/12):1-7 [citado 17 Maio 2013]. Disponível em: http://www.scielo.org.za/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0038-23532010000600014.
http://www.scielo.org.za/scielo.php?scri...
utilizou modelagem espacial para a predição de homicídio, na qual o local de ocorrência constituiu as coordenadas geográficas do evento; mas não encontrou associação significativa ao controlar por percentual de divórcios, percentual de indivíduos órfãos por parte de pai, percentual de cidadãos não Sul-Africanos e percentual de homens jovens. McCall et al. 99. McCall PL, Parker KF, MacDonald JM. The dynamic relationship between homicide rates and social, economic, and political factors from 1970 to 2000. Soc Sci Res. 2008; 37(3):721-35. , usando metodologia de séries temporais, também não verificaram associação significativa entre homicídio e a taxa de desemprego em cidades americanas com mais de cem mil habitantes, ajustando como covariáveis de controle: o percentual de famílias abaixo da linha da pobreza, a desigualdade, o percentual de crianças que não vivem com ambos os pais, e o percentual de negros.

Por outro lado, Poveda 1616. Poveda AC. Estimating effectiveness of the control of violence and socioeconomic development in Colombia: an application of dynamic data envelopment analysis and data panel approach. Soc Indic Res. 2012; 105(3):343-66. investigou homicídio em estados da Colômbia por meio de análise multivariada de dados, e observou significância estatística direta entre esses eventos e a taxa de desemprego, quando controlado por PIB (Produto Interno Bruto), hectares de coca cultivados e índice de GINI.

Outros dois estudos, conduzidos por Strom & MacDonald 88. Strom KJ, MacDonald JM. The influence of social and economic disadvantage on racial patterns in youth homicide over time. Homicide Stud. 2007; 11(1):50-69. e Wang & Arnold 1212. Wang FH, Arnold MT. Localized income inequality, concentrated disadvantage and homicide. Appl Geogr. 2008; 28(4):259-70. em estados e cidades americanas, respectivamente, corroboraram os achados de Poveda 1616. Poveda AC. Estimating effectiveness of the control of violence and socioeconomic development in Colombia: an application of dynamic data envelopment analysis and data panel approach. Soc Indic Res. 2012; 105(3):343-66. ao observar associação significativa entre desemprego e homicídio. O primeiro utilizou a regressão linear multivariada, com função Binomial negativa, controlando por agregação familiar; o segundo analisou os dados com a metodologia de componentes principais e encontrou associação entre um fator composto por vários indicadores sociais e homicídio.

No Brasil, Tourinho Peres et al. 3636. Tourinho Perez MF. Evolução dos homicídios e indicadores de segurança pública no Município de São Paulo entre 1996 a 2008: um estudo ecológico de séries temporais. Cienc Saude Colet. 2012; 17(12):3249-57. averiguaram significância estatística para a taxa de desemprego ao analisarem os homicídios no município de São Paulo. Esses autores usaram análise de série temporal e controlaram o confundimento utilizando os seguintes indicadores, taxa de encarceramento, acesso a armas de fogo e atividade policial, como covariáveis.

Por fim, entre os indicadores que apresentaram divergências nas associações dos artigos analisados, destaca-se o indicador baixa renda, que ora esteve associado diretamente aos homicídios, ora esteve associado inversamente.

Discussão

A abordagem do tema violência, em particular do homicídio, e de suas relações com fatores estruturais e sociais é multifatorial e de causalidade complexa 4141. Minayo MCS. Violência e saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2006. (Coleção temas em saúde). . Em razão desta complexidade, diversos estudos almejam contribuir para um melhor entendimento dos processos causadores da violência e de seus impactos na saúde. Contudo, tais estudos esbarram em uma série de limitações metodológicas e conceituais, e também são prejudicados pela falta de informações de livre acesso disponíveis nas bases de dados secundárias, a partir das quais extraem os dados para suas análises.

As limitações metodológicas podem impactar diretamente nos resultados dos estudos, inferindo associações estatisticamente significativas entre os indicadores estudados e os homicídios, invertendo associações ou ainda resultando na falta delas. No âmbito metodológico deve-se considerar explicitamente a possível importância do arranjo espacial das localidades estudadas na análise 4242. Bailey TC, Gatrell AC. Interactive spatial data analysis. Essex: Longman Scientific; 1995. , pois a falta de método que contemple a distribuição espacial dos homicídios, que não necessariamente é aleatória, pode levar a erros de inferência.

Outro aspecto metodológico a ser considerado nos estudos aqui incluídos consiste em observar que nem sempre são aplicadas análises multivariadas para avaliar associação entre indicadores sociais e homicídio. Ao contrário, são frequentes as análises bivariadas nas quais se avalia a ocorrência de homicídio em relação a cada variável, uma a uma, impossibilitando a identificação de fatores de confusão que podem modificar as associações, pois não existem variáveis de controle na análise que possibilitem tratar esse problema 4343. Gordis L. Epidemiologia. 4a ed. Rio de Janeiro: Revinter; 2010.,4444. Rothman KJ, Greenland S, Lash TL, editores. Epidemiologia moderna. Porto Alegre: Artmed; 2011. Tipos de estudos epidemiológicos. p. 107-22. .

Mesmo quando o método é aplicado correta e adequadamente, aspectos conceituais raramente são observados – visto que a literatura sobre violência lança mão de diversos modelos teóricos 4545. Minayo MCS. Bibliografia comentada da produção científica brasileira sobre violência e saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz; 1990. (Panorama/ENSP).,4646. Briceño-Leon R. Urban violence and public health in Latin America: a sociological explanatory framework. Cad Saude Publica. 2005; 21(6):1629-64. na tentativa de estabelecer conceitualmente as relações entre violência e as diversas questões macrossociais estruturantes que envolvem essa relação –, mas essas teorias não são claramente utilizadas à luz dos indicadores socioeconômicos disponíveis.

Tais modelos teóricos não são adaptados em função dos indicadores existentes nas bases de dados, relacionando cada indicador com o respectivo conceito estabelecido em tais modelos; por outro lado, tampouco são propostos novos modelos teóricos e epidemiológicos que permitam ajustar modelos estatísticos baseados em aspectos conceituais.

Uma questão recorrente nos estudos analisados diz respeito aos indicadores utilizados, pois, de acordo com Jannuzzi 4747. Jannuzzi PM. Indicadores sociais no Brasil: conceitos, fontes de dados e aplicações. 5a ed. Campinas: Alínea; 2012. , um indicador social deve ser uma medida quantitativa dotada de significado social substantivo e, além disso, tais indicadores devem apresentar propriedades básicas, como validade e confiabilidade, ou seja, devem refletir, de fato, o conceito abstrato a que o indicador se propõe.

Quando se utiliza, como indicador, o Número de Matrículas no Ensino Médio em uma dada região, tal medida não reflete de forma clara um conceito que se deseja avaliar em se tratando de dados educacionais, uma vez que não relativiza esse quantitativo pelo número de crianças em idade escolar do Ensino Médio.

Existe ainda uma importante limitação nos estudos nacionais no que diz respeito à análise quantitativa de dados epidemiológicos, visto que não se dispõe, no país, de sistemas informatizados de acesso público com informações do judiciário e da polícia por município ou por menor área de agregação – como setores censitários, por exemplo – relativas à apreensão de drogas e armas de fogo, taxa de encarceramento, dentre outras 4040. Sousa CAM, Silva CMFP, Souza ER. Determinantes dos homicídios no Estado da Bahia, Brasil, em 2009. Rev Bras Epidemiol. 2014; 17(1):135-46. . Também inexistem dados que contemplem as questões sociais e culturais, como indicadores de equipamentos culturais por habitantes nos municípios.

Diante do aspecto multifatorial em que está inserida a dinâmica de ocorrência dos óbitos por homicídio, observa-se que a complexidade conceitual do tema em foco aponta para a necessidade da articulação dos diversos campos que compõem o objeto em estudo, buscando a compreensão mais aprofundada das condições que cooperam para o aumento ou para a redução das mortes por esse tipo de causa.

Considera-se que, embora este estudo contribua para diminuir a lacuna de artigos de revisão que objetivem caracterizar as relações das variáveis macroestruturais com os homicídios, faz-se necessário informar ao leitor sobre as suas limitações, notadamente aquela advinda da não inclusão de artigos não gratuitos e de dissertações e teses, o que leva à relativização dos presentes achados.

Todavia pode-se concluir que a pergunta supracitada no título deste artigo está longe de ser respondida, pois, embora seja notório o avanço quanto à produção científica sobre o tema e o conhecimento produzido, ainda faltam lacunas do conhecimento acerca do tema a serem preenchidas nas relações entre as forças sociais que interagem com a violência.

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Histórico

  • Recebido
    02 Ago 2016
  • Aceito
    30 Maio 2017
  • Publicação
    Jul-Sep 2018
UNESP Botucatu - SP - Brazil
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