Tornar-se terapeuta corporal: a trajetória social como processo de "autoconstrução"

 

Becoming a body therapist: social history as a process of "self-construction"

 

Devenir thérapeute corporel: la trajectoire sociale en tant que processus of "autoconstruction"

 

 

Jane A. Russo

Professora do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Saúde Mental do Instituto de Psiquiatria/UFRJ

 

 


RESUMO

Este artigo trata do surgimento e do florescimento das terapias corporais enquanto possibilidade ocupacional no campo das práticas psicológicas, focalizando especificamente a cidade do Rio de Janeiro. Tem como objetivo demonstrar que existe uma relação entre o surgimento da terapia corporal enquanto ocupação e a trajetória de vida dos pioneiros responsáveis por sua implantação no meio 'psi' carioca.


ABSTRACT

The article examines the appearance and growth of body therapies as an occupational alternative in the field of psycholagical practice in the city of Rio de Janeiro. It intends to show that there is a relation between the appearance of body therapy as an occupation and the life histories of those who pioneered the technique within Rio's psychology community.


RESUME

Cet article est consacré au surgissement et à Fépanouissement des théra-pies corporelles en tant que possibilité professionelle dans le domaine des pratiques psychologiques. II se concentre tout particulièrement sur la situation de la ville de Rio de Janeiro et a pour but de démontrer qu'il existe une relation entre le surgissement de la thérapie corporelle professionnelle et la trajectoire existentielle des pionniers reponsables de sonimplantation dans le milieu "psy" de Rio de Janeiro.


 

 

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1 De Wilhelm Reich, psicanalista excluído da Sociedade Psicanalítica Internacional em 1934 por divergir da teoria e da prática freudianas. A partir de seus achados, cria um novo tipo de terapia: a' vegetoterapia', que posteriormente, com a descoberta de 'energia orgônica', passa a denominar 'orgonoterapia'
2 A designação 'neo-reichiano' refere-se a técnicas terapêuticas que se baseiam de alguma forma na teoria reichiana, mas não seguem estritamente os preceitos da orgonoterapia.
3 As duas sociedades de formação fundadas em 1955 e 1957, filiadas à (e patrocinadas pela) International Psychoanalytical Association, conhecidapelasigla 'IPA'. As outras instituições de formação até então existentes eram o Instituto de Medicina Psicológica (criado ainda na década de 1950), o Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro (criado em 1969) e a Sociedade de Psicologia Clínica do Rio de Janeiro (fundada em 1971). Todas aceitavam não-médicos para formação, mas não rivalizavam com o prestígio das duas sociedades 'oficiais'.
4 Estou resumindo aqui um processo bem mais complexo, exemplarmente analisado por Ana Cristina Figueiredo (ver FIGUEIREDO A.C., "A difusão do movimento psicanalítico no Rio de Janeiro e seus efeitos sobre a formação profissional", em Psicologia Clínica, Pós-Graduação e Pesquisa, vol. 1, n. 1, Rio de Janeiro, PUC/RJ, 1986;          e FIGUEIREDO A.C., "O movimento psicanalítico no Rio de Janeiro na década de 70", em BIRMAN J. (org.). Percursos na história da psicanálise. Rio de Janeiro, Taurus, 1988).         
5 Desenvolvi esse argumento em dois trabalhos anteriores: RUSSO J.A., "A reorientação do campo psicanalítico nos anos 80", in Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 39(6), 1990;          e RUSSO J.A., "O lacanismo e o campo psicanalítico no Rio de Janeiro", in ROPA D. (org.), Anuário Brasileiro de Psicanálise. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1991.         
6 CASTEL R., La gestion des risques. Paris, Minuit, 1981, p. 155.         
7 CASTEL R., ibidem, p. 161.
8 Face aos herdeiros legítimos da psicanálise, as novas terapias, apesar de transmistirem uma parte da herança psicanalítica, teriam sua filiação negada por seus 'pais', e, ao mesmo tempo, tenderiam a recusá-la (ver CASTEL R., ibidem, p. 164).
9 Dos oito restantes, três são fundadores de instituições de formação em diferentes modalidades de terapia corporal e outros dois lideram o treinamento em dois tipos de práticas corporais não terapêuticas. Portanto, embora não façamparte do núcleo pioneiro, participaram de forma decisiva na implantação e na difusão das terapias corporais no meio 'psi'.
10 Quatro vieram de pequenas cidades do interior; dois de cidades da periferia do Rio; dois de São Paulo e dois são naturais de outros estados, mas vieram para o Rio ainda pequenos.
11 VELHO G., "Prestígio e ascensão social, dos limites do individualismo na sociedade brasileira", in Individualismo e cultura. Rio de Janeiro, Zahar, 1981, pp. 47-48.         
12 VELHO G., ibidem, p. 48.
13 BOURDIEU P„ La distinction. Paris, Minuit, 1979, p. 387.         
14 A profissão de psicólogo só foi regulamentada no Brasil em 1962.
15 Lembrando nosso argumento inicial, é importante frisar que a maior parte dos cursos de psicologia hoje existentes foi criada no rastro da difusão psicanalítica dos anos 70. A atração exercida pela psicologia não deixava, portanto, de fazer parte dessa difusão, que sem dúvida se distanciava cada vez mais de seu centro.
16 REICH W., "Análise do caráter", citado in HIGGINS M. e RAPHAEL M. (orgs.), Reich parle de Freud. Paris, Payot, 1972, p. 43.         

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