O Instituto Pasteur de São Paulo: uma contribuição a história das instituições biomédicas no Brasil

 

São Paulo's Pasteur Institute: a contribution for the hystory of Brazilian biomedical institutions

 

L'Institut Pasteur à São Paulo: une contrihuition à l'histoire des instituitions hiomédicales du Brésil

 

 

Luiz Antonio Teixeira

Pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz e meslrando do Instituto de Medicina Social da UERJ

 

 


RESUMO

O texto procura analisar a trajetória do Instituto Pasteur de São Paulo, instituição científica filantrópica, criada em 1903 por médicos paulistas, nos moldes do Instituto Pasteur de Paris. A história científica e administrativa dessa instituição é abordada no contexto do desenvolviento dos institutos bacteriológicos oficiais fundados na capita! paulista a partir da última década do século passado. Devido à semelhança entre o instituto paulista e o instituto Pasteur de Paris, procuramos fazer um contraponto entre o modelo organizacional dessas duas instituições, tentando depreender daí as possibilidades e as limitações advindas da tentativa de recriação de um modelo institucional numa formação social diferenciada da que o originou.


ABSTRACT

The text tries to analyse São Paulo's Pasteur Institute: a philanthropic scientific institution, founded in 1903 by psysicians from São Paulo, following the pallerns of Paris' Pasteur Institute. The institution's scientific and administrative hystory is focused within the context of the development of offjcial bacteriológicaI institutes founded in São Paulo's capital sincc the last decade of lhe 19a ccnlury. Because of lhe simifarity belween São Paulo's and Paris' insliíutes, we tried to make a counterpoint bctwcen lheórganizationalmodels of both instilutions, trying to infer from it what are lhe possibilities and limitations arising from lhe attempl lo rccreate an inslitutional paltern, wilhin a social formation which is diffe-rent from the one that originated it.


RESUME

Ce texte a comme bul analyser !'histoirc de 1'Inslilut Pasteur à São Paulo. Celte instituition seientifique et philanthropique a étè crée en 1903 par des médicins locales selon le modèle de 1'Institut Pasteur à Paris. Son histoire seientifique et administrative a étè analysé comparativement face au modèle parisien original avec le propos de vérifier les limites et ies possibifités poses par le processus de création d'un nouveau modèle d'organisation pour !'institution brésilienne.


 

 

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1 "Fazemos votos para que este grande laboratório (...) não se limite simplesmente ao fim humanitário; (...) esperamos que efe sirva para investigações científicas e aprendizagem dos que quiserem cooperar parao engrandecimento da medicina brasileira. Já que não se poupou despesas para montar conjuntamente um moderno laboratório de bacteriologia. parece-nos lógico, não ser intenção sua (da Sta. Casa) acastelar-se no estreito círculo de uma caridade egoísta, oferecendo apenas à aprendizagem e as investigações especulativas. Nesse particular ainda fazemos votos para que o Instituto Pasteur do Rio de Janeiro tenha uma vida mais próspera e mais fecunda que a do laboratório de bacteriologia da Faculdade de Medicina." (O Brazil Médico, 1888:65).
2 SANTA CASA DA MlSERICÓRDIADO RIO DE JANEIRO. Notícias dos diversos estabelecimentos mantidos pela Santa Casa da Misericórida. Rio deJaneiro, Typografia doJornal doCommercio, 1909.
3 LIMA, Agostinho José de Souza. "Das ciências médicas e farmacêuticas desde o ano dc ] 808 alé fim dc 1899". \n: Livro de Centenário. Rio dc Janeiro. Imprensa Nacional, 1900, vol. 2, p. 122.
4. INSTITUTO PASTEUR DE JUIZ DE FORA. Regulamento do Instituto Pasteur de Juiz de Fora: anti-rábico e vacinogênico. Juiz de Fora: Typografia Brasil, 1808, p. 5.
5 Ver a esse respeito: BENCHIMOL, Jaime (coord.). Manguinhos do sonho o vida: a ciência na Belie Êpoque. Rio de Janeiro, Fiocruz/COC, 1990.
6 LIMA A., op. cit, p. 120,
7 Em relação as conjunções políticas que culminaram com a decisão de importação massiva, de imigrantes para as lavouras de café ver: REIS, Eliza Pereira. "Elites agrárias, state-building e autoritarismo". Dados: revista de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, vol. 25, n2253,1982 pp. 331-348.
8 COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo, Brasiliense, 1985, p. 211.
9 Os dados sobre as condições sanitárias do estado de Sao Paulo, nesse período, encontram-se em: MORSE, Richard M. Formação histórica de São Paulo. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1970, p. 247.
10 CASTRO SANTOS, Luiz Antônio de. "Power ideology and public health 1889-1930". Cambridge, Harvard Univesity, 1987, p.164, mimeo.         
11 MASCARENHAS, R. S. "Contribuição para o estudo da administração sanitária em São Paulo". Tese de livre docência da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP. São Paulo, 1949, p. 42, mimeo.         
12 Idem.
13 Em relação à história do Instituto Bacteriológico de São Paulo, ver: BENCHIMOL, J. (op. cify, CASTRO SANTOS, (op. cify, CAMARGO, Ana Maria Faccioli de. "Os impasses da pesquisa micro biológica e as políticas de saúde pública em São Paulo (1892 a 1934)". Dissertação de mestrado, Campinas, Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação 1984, mimeo e STEPAN, Nancy. Gênese e evolução da ciência brasileira: Oswaldo Cruz e a política de investigação científica e médica. Rio de Janeiro, Ed. Artenova, 1976.
14 Os dados sobre o Instituto Butantan encontram-se nas obras citadas na nota anterior e, mais especificamente, em: OLIVEIRA, Jandira de. "Cronologia do Instituto Butantan." Memórias do Instituto Butantan. São Paulo, 44/45:11-79, 1980-81.
15 STEPAN N„ op. cit., p. 132.
16 CASTRO SANTOS, op. cit„ p. 159-160 e BLOUNT J„ "The puhlic healih movemem in São Paulo: a history of the sanitary scrvice: 1892-1918. Tu lane University, J.971, p. 14, mimeo.
17. Exemplo da discordância manifestada pelos clínicos se não aosconhecimentos microbiológicos em si, com certeza à interpretação e aplicação destes, é a forte oposição suscitada pelas práticas de desin fecção e vacinação levadas a cabo, nesse período, por Oswaldo Cruz. no Rio de Janeiro. As experiências de Emílio Ribas sobre a forma de disseminação da febre amarela também sofreram violentas críticas dos médicos paulistas.
18 Cf. MASCAREN1 IAS R. S„ op. ca.. p. 54.
19 As informações que se seguem constam dos estatutos do Instituto Pasteur de São Paulo, publicados pelo jornal O Estado de S. Paulo, em 13 de outubro de 1903.
20. Ignácio Wallace da Gama Cochraneera descendente do 10rdeCochrane-conhecido em nossa história por sua atuação nos episódios relativos à independência. Enteado de Thomas Cochrane, criador da primeira linha de bondes do Rio de Janeiro e reputado médico homeopata, Ignácio Cochrane trabalhou como engenheiro ferroviário na implantação das primeiras ferrovias do interior do país, foi empresário exportador de café e parlamentar durante o Império. Ocupou os cargos de vereador pela cidade de Santos (1864-1867), deputado da província de São Paulo (1870-1879) e deputado à Assembléia Geral, indicado por São Paulo (1885-1890), atuando sempre nO Partido Conservador. Afastou-se da política com a Proclamação da República, por defender radicalmente regime monarquista. (Cf. AZEVEDO, 1965).
21. Além dos trabalhos rotineiros executados no Instituto Bacteriológico, Ivo Bandi destacou-se como colaborador de Emílio Ribas e Adolpho Lutz nas pesquisas sobre a febre amarela, executadas entre 1902 e o início de 1903 pelo Serviç{) Sanitário em colaboração com o Instituto Bacteriológico, para comprovar a teoria culicidiana da doença.
22. A Revisla Médica de Sáo Pau/o foi o primeiro periódico médico do estado. Criada em 1898, pelos Drs. Victor Godinho e Arthur Mendonça, com o objetivo de difundir as novas conquistas da medicina que de alguma maneira estivessem relacionadas à aplicação prática. (REVISTA MÉDICA DE SÃO PAULO, 1898: 1 -editorial). Nos anos que se seguiram, a revista começou a dar grande espaço aos estudos microbiológicos, abrigando as polémicas sobre os trabalhos relativos à febre amarela, os relatórios dos institutos microbiológicos e bacteriologia" escritas pelo Dr. Bonilha de Toledo.
23. Seus estudos explicitam essa influência ao afirmarem que: "O Instituto Pasteur de São Paulo quanto a seus fins e organização científica, procurará quanto possível, modelar-se pelo tipo de outros institutos congêneres existentes no estrangeiro e com os quais se esforçará para manter as mais estreitas relações" (ESTATUTOS DO INSTITUTO PASTEUR DE SÃO PAULO, 1903). As declarações de seus diretores, veiculadas pela imprensa paulista, são ainda mais específicas, assegurando que o Instituto tinha como objetivo seguir os passos da instituição dirigida por Pasteur (Cf. O Estado de São Paulo, 1903).
24. Para um melhor conhecimento da história do Instituto Pasteur de Paris ver: BA YET, Claire Salomon (org.) Pasteur et la revolution pastoriene. Paris, Payot, 1986. Algumas comparações entre esta instituição e os institutos biomédicos nacionais encontram-se em: BENCHIMOL, J. (op. cit.) e STEPAN, N. (op. cit.).
25 Estas informações se encontram na brochura Instituí Pasteur 1887, 1987, 2087; un nouveau siècle. Documento produzido para a exposição comemorativa do centenário do Instituto Pasteur, Paris, 1987.
26. STEPAN N., op. cit., p. 78.
27. O ESTADO DE S. PAULO, 30 de setembro de 1903.
28. SANTA CASA DA MISERICÓRDIA, 1909, op. cito
29. o detalhamento das instalações do Instituto encontram-se num artigo sobre a sua fundação publicado na Revista Médica de São Paulo (4;84, 1904).
30. Giovanni Sanarell~ diretor do Instituto de Higiene de Montevidéu entre 1895 e 1898, através de experiências efetuadas nessa capital, isolou o bacilo icteróide, imaginando ser este o causador da febre amarela. A partir da apresentação de sua teoria à comunidade científica internacional, cientistas de vários países passaram a elaborar pesquisas neste campo, com a intenção de testar a veracidade de sua descoberta. Ein 1900, os trabalhos de Adolpho Lutz, Terni e de pesquisadores americanos que estudavam a doença em Cuba, concluíram que o bacilo apresentado por Sanarelli era apenas um elemento acidentaI na doença. Entretanto, as controvérsias sobre o papel do bacilo icteróide na febre amarela permadeceram até adécada de 1920, quando foram confirmadas as teorias sobre a causação virótica da doença (BENCHIMOL, 1990:20).
31. INS1l11JTO PAS1EUR DE SÃO PAULO. Relatório anual de 1906. São Paulo: Augusto Siqueira e Comp.,1907.
32. INSTITlfTO PASTEUR DE SÃO PAULO. Relatório anual de 1904. São Paulo, Augusto Siqueira e Comp., 1905, p. 22.
33. Em 1907 a Seção de Química passa a preparar a morfina, cocaína, sparteína, cafeína, óleo canfordo, estricnina, cacodilato de sódio e de ferro, éter sulfúrico, No ano seguinte, a produção desta seção já atingia 40 preparações,
34, Movimento dos doentes submetidos ao tratamento anti-rábico no Instituto Pasteur de São Paulo,
1904 1905 1906 1907 1908 1909 1910 1911 1912 1913 467 453 281 309 616 627 420 583 919 1060
35. Esta declaração do Dr. Carini encontra-se no Relatório do Serviço Anti-rábico do Instit\lto Pasteur, publicado na Revista Médica de São paulo de maio de 1914.
36. Cf. REIS, op. cit., p. 6.
37. A importância dos trabalhos no Instituto Pasteur no desenvolvimento de pesquisas posteriores em outras instituições foi observado através da leitura da obra de FONSECA FILHO, Olympio da "A Escola de Manguinhos: contribuição para o estudo do desenvolvimento da medicina experimental no Brasil", separata do tomo II de OswaldoCruz -Monumenta Histórica. São Paulo, 1974. [FONSECA Filho, 1974:70]
38. GAMBETTA, Wilson Roberto; CAMELET, Esther Luiza Bocato; SOUZA, Luiza T. Nadia; AZEVEDO, Murilo Pacca. Instituto Pasteur de São Paulo, 75 anos de atividade: 1903-1978. São Paulo, 1mprensa Oficial do Estado, 1979.
39. Pelo decreto-lei 1525, de 13 de agosto de 1916 o Instituto Pasteur passa a fazer parte do organograma do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo. "As finalidades deste novo órgão fixadas pela lei eram: a) 'Tratamento preventivo das pessoas mordidas por animais raivosos ou suspeitos' ; b) 'Conselhos que deverá dar o Instituto às autoridades e aos particulares sobre as medidas preventivas aplicáveis à raiva '; c) 'Fixação de diagnósticos de animais vivos ou mortos suspeitos de raiva e enviados ao Instituto para esse fim' ." (MASCARENHAS, op. cit., p. 68).
40. Os socorros públicos eram verbas previstas no orçamento do estado de São Paulo para a utilização em casos de epidemia. Entretanto seu uso se relacionou muito maisa interesses políticos que sociais. "Cada deputado tinha uma certa proporção dessa verba a ser distribuída pelos hospitais de sua zona eleitoral, sem controle algum por parte das autoridades sanitárias. (00') Em vésperas de eleições, essas verbas eram muito aumentadas, quer diretamente, quer indiretamente, através de suplementações, o que mostra o cunho político das mesmas." (MASCARENHAS, op. cit., p. 18).
41. Ao explicar a situação financeira do Instituto, em 1909, seu presidente observava: "A diminuição da receita se explica, primeiramente, pelo fato de figurarem no ano anterior o valioso e excepcional donativo do sócio Benemérito e Benfeitor Sr. Inácio Penteado e a subvenção do Governo Federal ( ...)". (RELATÓRIO DO INSTITIJTO PASTEUR DE SÃO PAULO, 1910:18). No ano seguinte, ao se referir à melhoria da situação financeira da instituição, afirma: "Para a consecução de tão lisongeiros resultados, muito contribuíram avultados donativos de alguns de seus sócios beneméritos, bem como o fato de terem sido recebidas no ano passado as subvenções do Governo Federal; circunstâncias estas que, excepcionalmente, se podem repetir." (idem, 1912:4).

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