A aritmética da saúde na encyclopédie de Diderot e d'Alembert: um esboço de política de saúde

 

The arithmetic of healthy in the Diderofs and d'Alembert's encyclopédie: a sketch of healphy's policy.

 

L'arithmétique de la san té dans VEncyclopédie de Diderot et d'Alembert: un esquisse de politique de la santé

 

 

Regina Coeli Franco Ferraz

Médica, endocrinologista.

 

 


RESUMO

Encyclopédie, principal obra de difusão do Iluminismo, contou com a participação de vários médicos, evidenciando preocupações com a saúde do indivíduo e da população. No século XVIII, afirma-se a primazia da ciência, novo critério de verdade. Ao criticarem a sociedade setecentista, visando produzir mudanças no mundo, filósofos e médicos tinham em mente a infância, o menor abandonado, o aleitamento materno, o comportamento da mãe e o combate às nutrizes — questões relevantes enquanto concernentes à população, que passa a ser valorizada como fonte de riqueza da nação. Ainda na segunda metade do século XVIII, o hospital é medicalizado e como local de cura será disciplinarizado, apresentando uma nova distribuição espacial. A medicina classificatória, em voga desde o século anterior, priorizando a observação dos sintomas e a experiência do médico, acaba por ultrapassar a doutrina das crises, apesar da permanência de alguns preceitos hipocráticos. Em síntese, está se afirmando uma nova administração da vida, da reprodução e da morte.


ABSTRACT

The Encyclopédie, work of greater importance in the diffusion of Enlightnment, was develloped with the contribution of several physicians, which emphasize their concerns about individuais and populations healthy. In the eighteenth century, primacy of science is stated as a new truth criterion. On criticizing eighteenth century's society, as to provoke changes in the world, physicians and phylosophers show their concerns" about childhood, parentless children, motherly milk-feeding, mother's behavior and nourishers restraint — ali relevant subjects, as well as of population's interest. As a matter of fact, population starts then to be considered as nation's richness source. Yet in the second half of the eighteenth century, hospital is medicalized. As a place of healing, it will pass through disciplinary changes, thus showing a new spatial distribution. The previously present "crisis doctrine" is then exceeded by last century's arisen classificatory medicai science — in spide of some remaining hypocratic precepts. Therefore, one coult undoubtedly say that a new management concerning life, death and reproduction is being asserted.


RÉSUMÉ

L'Encyclopédie, principal instrument de diffusion de la Philosophie des Lumières, compte de nombreux médecins parmi se collaborateurs, ce qui prouve que l'on s'intéresse aux problèmes de la santé de 1'individu et de la population. Au XVIIIème siècle s'affirme la primauté de la science comme nouveau critère de vérité. Critiquant la société du XVIIIème siècle et visant à produire des changements dans le monde, les philosophes et les médecins s'intéressent à Penfance, à 1'enfant exposé, à 1'allaitement maternel, au comportement de la mère et au combat contre les nourrices — toutes questions importantes en ce qui concerne la population. Celle-ci est valorisée en tant que source de richesse de la nation. Déjà dans la deuxième moitié du XVIIIème siècle, 1'hôpital est médicalisé. Comme lieu de soin, il sera organisé et présentera une nouvelle distribution de Pespace. La médecine des espèces, en vogue depuis le siècle précedant, et qui accorde la priorité à Pobservation des symptômes et à Pexpérience des médecins, finit par dépasser la doctrine des crises en dépit du maintién de certains préceptes d'Hippocrate. En conclusion une nouvelle administration de la vie, de la reproduction et de la mort, est en train de s'affirmer.


 

 

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1 Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, par une société de gens de lettres, Briasson, Le Breton, Durand, eds., Paris, 1751-1765.
2 G. Rosen, Da Polícia Médica à Medicina Social; Ensaios sobre a História da Assistência Médica, Rio de Janeiro, Graal, 1979.         
3 J. C. Sournia, La MédecineRevolutionnaire 1798-1799, Paris, Payot, 1989.         
4 Encyclopédie..., op. cit., "Histoire Naturelle", vol. VIII, p. 229.
5 R. Lenoble, História da Idéia de Natureza, Lisboa, Edições 70, 1990, p. 31.         
6 Encyclopédie..., op. cit., "Encyclopédie", vol. V, p. 635.
7 J. Proust, Diderot et 1'Encyclopédie, Genebra, Slatkine, 1982, p. 6.
8 P. Goujard, L'Encyclopédie ou dictionnaire des sciences, des arts et des métiers; textes choisis, Paris, Sociales, 1984, p. 35.         
9 J. Proust,Diderot et 1'Encyclopédie..., op. cit., pp. 515-29.
10 Encyclopédie..., op. cit., vol. III, p. iv.
11 Idem, vol. I, pp. i-li.
12 J. Proust, Diderot et 1'Encyclopédie..., op. cit., pp. 515-29.
13 Encyclopédie..., op. cit., "Chirurgic", vol. III, pp. 350-2.
14 Idem, vol. IV, pp. 471-89.
15 A palavra crise deriva do grego "crysis" que significa "momento de decisão".
16 A importância da observação dos sintomas já pode ser encontrada no século XVII. Syde-nham já havia elaborado uma classificação das doenças tomando por base os sintomas. Mesmo assim, a medicina das crises ainda estava em voga na Europa do século XVIII.
17 Encyclopédie..., op. cit., "Crise (Médecine)", vol. IV, p. 488.
18 M. Foucault, O Nascimento da Clínica, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1977, p. 2.
19 Encyclopédie..., op. cit., vol. VIII, pp. 755-71.
20 E. Cassirer, La Philosophie des lumières, Paris, Fayard, p. 88.
21 Idem, p. 38.
22 Encyclopédie..., op. cit., "Égalité naturelle", vol. V, p. 415.
23 Idem, "Homme (Hist. nat.)", vol. VIII, p. 260.
24 Idem, "Oeconomie Politique", vol. XI, pp. 366-7.
25 Idem, "Vie, durée de la vie (Arithm. polit.)", vol. XVII, pp. 249-54.
26 Idem, vol. VIII, p. 278.
27 Idem, "Population", vol. XIII, p. 102.
28 Idem, "Homme (Politique)", vol. VIII, p. 278.
29 Idem, "Charlatan", vol. III, p. 208.
30 Idem, vol. XIII, pp. 88-103.
31 Idem, "Homme (Hist. nat.)", vol. VIII, p. 261.
32 Idem, "Homm.e (Politique)", vol. VIII, p. 178.
33 Idem, vol. V, pp. 651-2.
34 M. Foucault, História da Sexualidade I: A Vontade de Saber, Rio de Janeiro, Graal, 1980, p. 131.         
35 M. Foucault, "O Nascimento da Medicina Social", in Microfísica do Poder (2a ed.), Rio de Janeiro, Graal, 1981, p. 80.         
36 Encyclopédie..., op. cit., "Enfance (Médecine)", vol. V, p. 652.
37 Ver M. Foucault, História da Sexualidade I..., op. cit.
38 D. Teysseire, Pédiatrie des lumières, Paris, Vrin, p. 29.
39 Encyclopédie..., op. cit., "Enfance (Médecine)", vol. V., p. 652.
40 Ibidem.
41 J. Locke, Sur l'éducation des enfants, 1695, p. 34 apud D. Teysseire, Pédiatrie des..., op. cit., p. 31.
42 M. Foucault, História da Sexualidade I..., op. cit., p. 99.
43 Encyclopédie..., op. cit., vol. VIII, pp. 385-8.
44 Idem, vol. V, pp. 657-63.
45 Ver M. Foucault, O Nascimento da Clínica..., op. cit., pp. 59-70. De acordo com Michel Foucault, trata-se de uma "protoclínica".
46 Encyclopédie..., op. cit., "Enfants (Maladies des)", vol. V, p. 662.
47 Idem, pp. 657-63.
48 Idem, p. 659.
49 Ibidem.
50 Daniel Teysseire salienta tratar-se de uma atenuação do tabou tenace, a interdição sexual da grávida, de origem religiosa. A explicação médica atenuaria o rigor da interdição sexual religiosa. D. Teysseire, Pédiatrie des..., op. cit., p. 55.
51 M. Foucault, História da SexualidadeI..., op. cit., p. 99.
52 D. Teysseire, Pédiatrie des..., op. cit., p. 56.
53 Encyclopédie..., op. cit., "Enfants (Maladies des)", vol. V, p. 660.
54 Y. Sai nt-Geours et alli, Musée de l'assistancepublique de Paris, Paris, s/e, 1987, p. 125.         
55 J. J. Rousseau,Emile ou de 1'education, Paris, Garnier-Flammarion, 1966, p. 44.         
56 Idem, p. 47.
57 Idem, p. 49.
58 Encyclopédie..., op. cit., vol. XI, p. 260.
59 Idem, vol. V, p. 655.
60 J. Tenon, Mémoires sur les Ilôpitaux de Paris, Paris, Royes, p. 91.
61 Y. Saint-Geours et alli, Musée de l'assistance..., op. cit., pp. 41-2.
62 O "Musée de l'assistance publique de Paris" dedica uma seção aos menores abandonados e ., à história de sua assistência. Ver idem, pp. 39-59.
63 R. Vial, Moeurs, santé et maladies en 1789, Paris, Londreys, 1989, p. 161.         
64 Encyclopédie..., op. cit., vol. VIII, pp. 293-4.
65 Idem, vol. VIII, pp. 319-20.
66 Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, par une société de gens de lettres, Briasson, Le Breton, Durand, eds., Paris, 1751-1765.
67 G. Rosen, Da Polícia Médica à Medicina Social; Ensaios sobre a História da Assistência Médica, Rio de Janeiro, Graal, 1979.         
68 M. Foucault, "O Nascimento do Hospital...", op. cit., p. 111.

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