Risco e saúde nos locais de trabalho

 

Work-place risks and Health

 

Risque de santé dans les locaux de travail

 

 

Maria Lígia Rangel

Médica Sanitarista da Secretaria Municipal de Saúde de Campinas, São Paulo

 

 


RESUMO

O artigo apresenta uma exploração crítica do conceito de risco no campo da medicina social, em especial o chamado risco ocupacional, mediante uma aproximação com a etnometodologia. O estudo do risco como fenômeno sociocultural revela relações de natureza diversa que o cercam, nem sempre passíveis de serem compreendidas por abordagens matemáticas, tradicionalmente estabelecidas pelos enfoques da epidemiologia e engenharia de segurança. São relações do tipo econômico, político, ideológico ou mágico-religioso que são vividas em situações particulares e cenários definidos, onde práticas e representações sociais se estruturam, conferindo realidade aos riscos.


ABSTRACT

The article explores the concept of risk within the field of social medicine, particularly in relation to the work place. The concept is examined in terms of the imprecision with which it has been employed in the scientific field as well as in terms of its phenomenal characteristics of virtuality and threshold. With these characteristics in mind, the text also explores how health risks can have distinct meanings within the dynamics of the work process, in ali its multiple dimensions.


RÉSUMÉ

L'article explore sous un angle critique, au moyen d'une approche ethno-méthodologique, le concept de risque dans le domaine de la médecine sociale, spécialement ce qu'on appelle le risque du travail. L'étude du risque comme phénomène socio-culturel, révèle des relations de nature diverse qui 1'entourent, pas toujours compréhensibles par des approches mathé-matiques traditionnellement mises en évidence par l'épidémiologie et l'ingénierie de la sécurité. Ce sont des relations de type économique, politique, idéologique ou macro-religieux, qui sont vécues dans des situations particulieres et des scénarios bien définis où les pratiques et les relations sociales se structurent, donnant aux risques leur caractère réel.


 

 

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1 N. Almeida Filho,A Clínica e a Epidemiologia, Salvador, APCE/Abrasco, 1992.
2 A. C. Laurell e M. Marquez, El Desgaste Obrero en México. Proceso de Producçióny Salud, Colección Problemas de México, México, Ediciones Era, 1983;          e A. C. Laurell e M. Noriega, Processo de Produção e Saúde, São Paulo, Hucitec, 1989.
3G. Berlinguer,Medicina e Política, São Paulo, Cebes-Hucitec, 1978; G. Berlinguer,A Saúde nas Fábricas, São Paulo, Cebes-HucitecjOboré, 1983; e I. Oddone et alli, Ambiente de Trabalho -A Luta dos Trabalhadores pela Saúde, São Paulo, Hucitec, 1986.
4. A. C. Laurell e M. Marquez, El Desgaste Obrero..., op. cit.
5 I. Oddone et alli, Ambiente de Trabalho..., op. cit.', e A. C. Laurell e M. Noriega, Processo de Produção..., op. cit.
6 P. Berger e T. Luckmann, A Construção Social da Realidade, Petrópolis, Vozes, 1976;          e E. Goffman, A Representação do Eu na Vida Cotidiana, Petrópolis, Vozes, 1975.         
7 M. C. L. Braga, Conceitos Fundamentais da Etnometodologia, Salvador, 1977, mimeo.
8 E. Goffman, A Representação do..., op. cit., p. 12.
9 M. C. L. Braga, Conceitos Fundamentais..., op. cit., p. 6.
10 Idem.
11 De Cicco e Fantazzini, Introdução à Engenharia de Segurança de Sistemas, São Paulo, Fundacentro, 1979.         
12 D. Duelos, I.a Construction Sociale du Risque: Le Cas des Ouvriers de la Chimie Face aux DangersIndustrieis, Paris, Conservatoire National des Arts et Métiers, 1986.         
13 N. Almeida Filho e E. Rouqueyrol, Introdução à Epidemiologia Moderna, Rio de Janeiro, Abrasco, 1990, p. 3.         
14 N. Almeida Filho,/! Clínica e a..., op. cit., p. 124.
15 De Cicco e Fantazzini, Introdução à Engenharia..., op. cit., p. 61.
16 M. Douglas, Risk Acceptability Âccording to the Social Sciences, Londres, Routledge & Kegan Paul, 1985.         
17 D. Duelos, La Construction Sociale..., op. cit.; P. Lagadec, La Civilization du Risque — Catastrophes Technologiques et ResponsabilitéSociale, Paris, Éditions du Seuil, 1981; A. O. Sevá Filho, No Limite dos Riscos e da Dominação: A Politização dos Investimentos Industriais de Grande Porte, Tese de Livre Docência, Instituto de Geociências/Unicamp, 1988; e A. Wisner, Le Travailleur Face aux Systèmes Complexes et Dangereux, Collogne de Chantilly, s/e, 1986.
18 D. Duelos, ia Construction Sociale..., op. cit.
19 C. Dejours, A Loucura do Trabalho: Estudo de Psicopatologia do Trabalho (Trad. A. I. Paraguay e L. L. Ferreira), São Paulo, Cortez-Oboré, 1987.
20 M. Foucault, Microfísica do Poder, Rio de Janeiro, Graal, 1979.         
21 R. Castel, La Gestion des Risques, Paris, Editions de Minuit, 1981.         
22 A. O. Sevá Filho, No Limite dos Riscos..., op. cit., p. 101.
23 V. W. Turner, O Processo Ritual —Estrutura e Antiestrutura, Petrópolis, Vozes, 1974, p. 117.         
24 A. Van Gennep, Os Ritos de Passagem, Petrópolis, Vozes, 1978.
25 G. Canguilhem, O Normal e o Patológico, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1978, p. 113.         
26 Idem, p. 244.
27 G. Berlinguer,A Doença, São Paulo, Cebes/Hucitec, 1988.
28 S. Sontag, A Doença como Metáfora (Trad. M. Ramalho), Rio de Janeiro, Graal, Coleção Tendências, vol. 6, 1984.         
29 A. C. Laurell e M. Marquez, El Desgaste Obrero..., op. cit.
30 J. Beattie,Introdução àAntropologiaSocial,São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1977, p. 241.         
31 Idem, p. 245.
32 J. Ziegler,Les Vivants et la Mort, Paris, Éditions du Seuil, 1975, p. 65.         
33 D. Duelos, La Construction Sociale..., op. cit.
34 E. R. Service, Os Caçadores, Rio de Janeiro, Zahar, 1975;          e G. Clark, A Pré-História, Rio de Janeiro, Zahar, 1975.         
35 M. J. B. Moran,"Enfermidades Profesionales", in A. T. 3imenez,coorà.,Enfermidady Clase Obrera, México, D.F., Unidad Profesional Sto. Tomas, junho de 1982; Diesat — H. P. Ribeiro e F. A. C. Lacaz, orgs.,De que Adoecem e Morrem os Trabalhadores, São Paulo, Diesat, 1984; Diesat — A. J. A. Rebouças et alli, Insalubridade: Morte Lenta no Trabalho. A Insalubridade no Brasil, São Paulo, Oboré Editorial, 1989.
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37 M. Leite, A Vivência Operária da Automação Microeletrônica, Tese de Doutorado em Sociologia, USP, 1990; M. T. Fleury, "A Produção Simbólica das Organizações", in Padrões Tecnológicos e Políticas de Gestão, s/l, s/d; M.T. Fleury, "Estórias, Mitos, Heróis — Cultura Organizacional em Relação de Trabalho", Revista de Administração de Empresas, vol. 27, n° 4, outubro/dezembro de 1987, pp. 7-18; e R. Valle, Automação Comparada: A Indústria na França, na Alemanha e no Brasil, Trabalho apresentado no XII Encontro Anual da Anpocs, Caxambu, MG, 22-26 de outubro de 1990.

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