Esfera de reprodução em uma visão masculina: considerações sobre a articulação da produção e da reprodução, de classe e de gênero

 

The sphere of reproduction from a male viewpoint: considerations on the interrelationships between production and reproduction, class, and gender

 

Une vision masculine de la sphère de reproduction: considérations sur I'articulation entre production et reproduction, classe et genre

 

 

Karen Giffin

Socióloga, professora visitante do Departamento de Ciências Sociais e Coordenadora da área temática "Gênero e Saúde" no Doutorado e Mestrado em Saúde Pública, ENSP/Fiocruz.

 

 


RESUMO

Este artigo aborda as transformações atuais na articulação entre as esferas de produção e de reprodução, e seu reflexo sobre a construção de gênero, considerando a família como instância mediadora. A partir da constatação de mudanças nas práticas sociais femininas, expressas no aumento das taxas de participação da mulher no mercado de trabalho e na queda brusca das taxas de fecundidade, o estudo propõe investigar o significado destas questões para um grupo de homens de baixa renda. O levantamento de dados foi baseado em uma metodologia participativa, que incorporou quatro homens das favelas de Man-guinhos, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, no processo de desenvolvimento do questionário e na aplicação do mesmo a 130 homens de três gerações nas suas comunidades. Concluímos que tanto o controle da fecundidade como a participação da mulher no mercado de trabalho são requerimentos para a sobrevivência familiar, já aceitas pelos homens como obrigações sociais da mulher — ou seja, estamos diante de um movimento histórico de "transição de gênero". Entretanto, essas práticas da população de baixa renda não podem ser interpretadas como avanços na igualdade social dos gêneros. Ao contrário, revelam uma relação entre a reelaboração da desigualdade de classe e de gênero.


ABSTRACT

The article addresses the question of current transformatiòns in the interrelationships between the spheres of production and reproduction and their effects on the construction of gender, with the family considered a mediating factor. Female social practices have changed, as reflected in increased rates of female participation in the labor market and a sharp drop in the birth rate. This study investigates how one group of low-income men feels about these questions. Data collection was based on a participative methodology in which four men from the Manguinhos slums, on Rio's north side, took part in developing a survey and applying it to one hundred and thirty men from three generations within their community. It was concluded that both the control of fertility and female participation in the labor market are necessary to family survival and now accepted by men as a female social obligation — in other words, we are witnessing a historical movement of "gender transition". Nonetheless, these practices displayed by the low-income population cannot be interpreted as advances in the social equality of the sexes. On the contrary, they reveal a relation between the re-elaboration of class inequalities and gender inequalities.


RÉSUMÉ

Cet article aborde la question des transformations récentes de l'articulation entre les sphères de production et reproduction, et de ses effets sur la construction de genre, en considérant la famille comme instance médiatrice. A partir de la constatation des changements survenus dans les pratiques sociales féminines, exprimées dans Paugmentation des taux de participation des femmes au marché du travail et de la brusque cute du taux de fécondité, l'auteur propose de rechercher la signification de ces questions pour un groupe d'hommes de bas revenus. L'enquête de données fut réalisée suivant une méthodologie participante, incluant quatre hommes des favelles de Manguinhos, Zone Nord de la ville de Rio de Janeiro. Ils participèrent au processus d'élaboration de Pinstrument d'enquête et à son application à 130 hommes de 3 générations, de leurs quartiers. Nous concluons qu'aussi bien le controle de la fécondité que la participation de la femme au marché du travail, sont des exigences pour la survie familiale, déjà reconnue par les hommes comme des obligations sociales de la femme — c'est-à-dire que nous sommes en présence d'une évolution historique de "transition de genre". Cependant, ces pratiques de la population de bas revenu, ne peuvent être interprétées comme des pogrès en matière d'égalité sociale des genres. Au contraire, elles révèlent une relation entre la ré-élaboration de l'inégalité de classe et celle de genre.


 

Texto completo disponível apenas em PDF.

Full text available only in PDF format.

 

 

1 Trabalho realizado com o apoio do PARES/ENSP, submetido para publicação em outubro de 1991. Lúcia Baptista foi responsável pela dinâmica de grupo; Gilson Alves de Jesus, Carlos Correia de Meireles, Genaro da Silva Virgílio e Marcos Salvador Malaquias Pinheiro formaram a equipe de entrevistadores.
2 Ver o clássico L. A. de Lomnitz, Como Sobreviven los Marginados, México, Siglo Veintitino, 1975         
3 A. Flisfisch, "Estructura Social: Particularidades Contextuales y Comportamiento Repro-ductivo Urbano y Rural", in PISPAL, Urbanización, Estructura Urbana y Dinâmica de Población, Santiago, PISPAL, 1977.
4 M. Giminez, "Population and Capitalism ",Latin American Perspectives, vol. 4, 1977, p. 4; Z. Machado Neto, Mulher, Dimensão de Existência/Dimensão de Sobrevivência: Um Estudo de Caso com Mulheres Faveladas, Io Simpósio Mexicano-Centroamericano de In vestigaciones sobre Ia Mujer, México, 1977; K. Woortmann, Family Planning among Peasants and the Urban Poor, s.d., mimeo.
5 P. Hass, "Maternal Role Incompatibility and Fertility in Urban Latin AmericaJournal of SocialIssues, vol. 28, n° 2, 1972, pp. 111-27.         
6 B. Hutchinson, "Induced Abortion in Brazilian Married WomenAmérica Latina, vol. 7, n° 4,1964, p. 21.         
7 S. Iutaka, "A Estratificação Social e o Uso Diferencial de Métodos Anticoncepcionais no Brasil Urbano", América Latina, nº8, 1965, pp. 101-19.         
8 P. Hass, "Maternal Role...", op. cit.
9 S. Iutaka, "Factores Relacionados con Ia Fecundidad de Ias Mujeres en Rio de Janeiro", Anais de la Conferencia Regional Latinoamericana de Población, Santiago, 1972, pp. 329-33.
10 B. Hutchinson, "Induced Abortion...", op. cit.
11 C. Simões, "As Características Demográficas do Recente Declínio da Fecundidade e o Papel da Auto-Regulação e do Planejamento Familiar", in IBGE/Unicef, Perfil Estatístico de Crianças eMães no Brasil: A Situação da Fecundidade, Rio de Janeiro, IBGE/Unicef, 1988.
12 R. R. Lima e F. Burger, "O Menor e o Mercado de Trabalho no Brasil: Da Crise ao Cruzado", in J. P. Chahad e R. Cervini, eds., Crise e Infância no Brasil, São Paulo, Unicef, 1988.
13 Fiocruz,"A Mulher Brasileira: Estatísticas de Saúde", Dados 10, Fiocruz, 1986.
14 K. M. Giffin, "A Mulher, a Cidade e os Programas Sociais", in Mulher e Políticas Públicas, Rio de Janeiro, IBAM/Unicef, 1991.         
15 D. Valladares, S. Sanchez e K. Giffin, Mulheres, Participação e Saúde: Uma Experiência, Rio de Janeiro, Flacso/Unicef, 1987.         
16 N. Aguiar, "Mulheres na Força de Trabalho na América Latina: Um Ensaio Bibliográfico", BIB, n° 16, 1983, pp. 25-43.         
17 T. Salem, "Mulheres Faveladas: Com a Venda nos Olhos", Perspectivas Antropológicas da Mulher, Rio de Janeiro, Zahar, 1980.         
18 J. R. Prandi, "A Mulher e o Papel de Dona de Casa: Representações e Estereótipos",Revista de Antropologia, vol. 24, 1981, pp. 109-21; Z. A. Farias, Domesticidade: "Cativeiro" Feminino?, Rio de Janeiro, Achiamé, 1983.
19 M. T. Luz, "Identidade Masculino-Feminino na Sociedade Urbana Brasileira Atual: Cjise nas Representações", in C. de Poián, org., Homem-Mulher: Abordagens Sociais e Psicana-líticas, Rio de Janeiro, Taurus, 1987.
20 E. Durham, "A Família Operária: Consciência e Ideologia", Revista de Ciências Sociais, vol. 23, nº2,1980, pp. 201-13.         
21 A. M. Rodrigues, Operário, Operária, São Paulo, Símbolo, 1978;          C. C. Macedo, A Reprodução da Desigualdade, São Paulo, Hucitec, 1979.         
22 C. C. Macedo, A Reprodução da..., op. cit.
23 Idem.
24 K. M. Giffin, "Nosso Corpo nos Pertence: A Dialética do Biológico e do Social", Cadernos de Saúde Pública, vol. VII, n° 2, 1991, pp. 190-200; M. V. J. Pena, "Política e População: Dados sobre um Estado de Duas Caras",Physis, vol. 1, na 1, 1991, pp. 97-116.         
25 D. Combes e M. Haicault, "Produção e Reprodução, Relações Sociais de Sexos e de Classes", in A. Kartchevsky-Bulport et a 11 i, O Sexo do Trabalho, Rio de Janei ro, Paz e Terra, 1987.

IMS-UERJ RJ - Brazil
E-mail: publicacoes@ims.uerj.br