Um século de cólera: itinerário do medo

 

A century of cholera: an itinerary of fear

 

Un siècle de choléra: itínéraíre de la peur

 

 

Luiz Antonio de Castro Santos

Professor adjunto do Departamento de Ciências Humanas e Saúde do IMS/UERJ e pesquisador licenciado do Cebrap.

 

 


RESUMO

A sociologia histórica tem no método comparativo uma de suas ferramentas de trabalho imprescindíveis. Ao focalizar um século de epidemias de cólera em alguns países, o autor procurou demonstrar como um mesmo fenômeno histórico-social, estudado comparativamente, revela contrastes marcantes em seu impacto sobre a cultura, a sociedade e a política, em distintos lugares e através do tempo. Por exemplo, os diferentes processos de formação do Estado nacional marcaram profundamente a natureza dos aparelhos administrativos em países diversos, levando cada nação a desenvolver organizações sanitárias diferenciadas e modos diferenciados de combate às epidemias de cólera. Por outro lado, a análise histórico-comparativa permite entrever, no interior de cenários dissimilares, alguns padrões regulares de relacionamento entre doença e sociedade. Assim é que, apesar das diferenças que afetaram, em diversas comunidades nacionais, os valores éticos, as crenças e os comportamentos das classes sociais, da profissão médica, dos grupos religiosos e dos governos diante da cólera, houve alguns padrões simbólicos praticamente invariáveis: a análise comparativa permitiu detectar, por exemplo, que, fosse no Rio de Janeiro ou em Nova Iorque de meados do século passado, a cólera era considerada por todos um castigo divino, que atingia primeiramente as pessoas de comportamento social "reprovável". Neste artigo, o relato da tragédia humana vivida por Nova Iorque diante da cólera atende a um duplo objetivo: revelar como uma sociologia do cotidiano pode demonstrar a complexa interação doença, indivíduo e sociedade em uma metrópole do século XIX; e como, na análise de outra experiência histórica — a norte-americana —, pode-se descobrir fortes contrastes e semelhanças com o Brasil, fazendo do estudo de outra realidade um desafio para o conhecimento dos modos de enfrentamento da doença epidêmica pela população brasileira. Considerando-se seus efeitos macro-históricos, o aumento dos níveis de mortalidade foi bem menos brutal que seu impacto social e psicológico — o terror gerado pela cólera no cotidiano das famílias. Do ponto de vista epidemiológico, viu-se neste artigo que as epidemias foram geradas na Ásia por uma grande ruptura no equilíbrio entre micropa-rasita e hospedeiro humano — ruptura resultante, por sua vez, dos movimentos populacionais intensificados pelo imperialismo europeu. Partindo da índia, as ondas epidêmicas propagaram-se velozmente pela Europa e Américas, afetando sobretudo as populações mais pobres e residentes em áreas insalubres. Este é o quadro geral discutido no presente artigo, em que a sociologia histórica toma de empréstimo à epidemiologia histórica de William McNeill algumas de suas análises mais esclarecedoras.


ABSTRACT

The comparative method is one of hístorical sociology's indispensable tools. Focusing on a century of cholera epidemics in a numbcr of countries, the present comparative study endeavors to show how one same historical-social phenomenon displays sharp contrasts across time and space in the impacts il has on culture, society, and poliíics. For example, dissimilar state-building processes have left deep marks on lhe nature of administra-tive apparatuses in different countries, leading each nation to develop its own distinct forms of sanitary organizations and its own ways of combaling cholera cpidemics. At the same lime, historical comparative analysis makes it possiblc to pick out patterns of rclationship between illness and society within thcse differentiated contexts. Despite their differences, in various national communities the ethical values, beliefs, and behavior patterns that social classes, the medicai profession, religious groups, and government administrations have displayed towards cholera reveal certain practically invariable symbolic patterns. Comparative analysis' madc it possible, for example, to detect that in the mid-nineteenth century everyone in Rio de Janeiro as well as in New York saw cholera as a punishment from God, a disease which struck First at those whose social behavior was "censurabie". There is a twofold purpose in this arlicle's narration of the human tragedy of the New York experience with cholera: (1) to show how a sociology of evereyday life can reveal complex interactions between illness, individual, and society in a nineteenth-century metropolis and (2) to show how the analysis of a different historical experience — in this case, the United States — can uncover strong contrasts and similarities with Brazil. Such knowledge of another reality is a challenge in learning how the Brazilian population has faced this epidemic disease. In terms of the disease's macro-historical effects, rising death rates had a less brutal impact than social and psychological factors, that is, the terror sparked by cholera within the day-to-day lives of families. From an epidemiological viewpoint, the article tells how these epidemics were products of a major hreakdown in the balance between microparasite and human host in Asia, a brcakdow that can be traced to intensified population migration prompted by European im-perialism. Starting out from índia, these cpidemic waves swept swiftly across Europc and the Américas, affecting above ali poor populations and those residing in unhealthy areas. This is the general picture discussed in the present article, in which historical sociology borrows some of William McNeill's more enlightening analyses in historical epidcmiology.


RÉSUMÉ

La méthode comparative est l'un des outils de travaiI essentiels de Ia sociologie historique. En concentrant 1'attention sur un siècle d'épidémies dc choléra dans quelques pays, on s'est attaché ici à démontrer comment Pétude comparée d?un même phénomène historique-social révèle des constrastes marquês selon les endroits et les époques, en matière d'impact sur la culturc, la société et la politique. Par exemple, les divers processus de formation de 1'Etat National ont marqué profondément la nature des appareils administratifs dans divers pays, entrainant chaque nation à organiser des services sanitaires différenciés et des modcs différents de combat'contre les épidémies de choléra. D'un autre cote, 1'analyse historique comparée permet d*entrevoir à Tintérieur de scénarios différenciés, quelques modeles constants dans la relation entre maladie et société. Malgré les différences qui ont affecté dans diverses communautés natíonales, les valcurs ethiques, les croyances et les comportements des classes sócia les, des professionneis de la médecine, des groupes religicux et des gouvernements face au choléra, il y a eu 1'analyse comparative a permis de détecter par exemple qu"aussi bien à Rio dc Janeiro qu'a New York au milicu du siècle passé, le choléra était considéré par tout le monde comme une punition divine, qui frappait en premier lieu les personnes dont le comportement social n'était pas "irréprochable". Dans cet article, le récit de la tragédie humaine provoquée par le choléra à New York a deux buts: celui de révéler comment une sociologie du quotidien peut montrer la relation complexe entre maladie, individu et société dans une métropole du 19è siècle; et comment 1'analyse d'une autre expérience historique — nord amcricaine —, permet de découvrir de grandes diffcrences et similitudes avec 1c Brésil, la connaissance d'une autre réalité devenant ainsi un défi pour découvrir commcnt les populations brésiliennes ont affronté la maladie épidémique. Sur le plan des eftets macro-historiques du choléra, 1'augmentation des niveaux dc mortalité a élé bicn moins brutaie que son impact social et psychologique — la terreur provoquée par le choléra dans la vie quotidienne des familles. Du point de vue épidémiologiquc, cet arlicle montre que les épidémies ont été cngendrées en Asie par une grande rupture de réquilíbre entre microparasite et hòte humain — rupture elle-même due aux mouvemenls de populations intensifiés par rimpérialisme européen. Partant de l'lnde, les vagues épidémique se sont propagées rapidement en Europe et aux Amériques oü elies ont atteint surloul les populations appauvries et habitant des zônes insalubres. Tel est le cadre général de discussion de cet article, oü la sociologie historique emprunte à 1'épidémiologie historique de William Mc Neill quelques unes de ses analyses les plus éclairantes.


 

 

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1 Veja-se o clássico de W. H, McNeill, Plagues and Peoptes, Garden City, Nova Iorque, Anchor Books, 1976, cap. IV.
2 Idem, "Imroduction". Quando um organismo infeccioso, como o Vibrio comma, mata seu hospedeiro, cria de certo modo uma crise para si próprio, pois um novo hospedeiro terá de ser encontrado para que a cadeia geracional do microorganismo prossiga. Em termos bem simples, esse desajuste é um exemplo de ruptura ecológica, que, quando atinge e elimina grande numero de hospedeiros, passa a configurar uma ruptura cpidemiológica. Este foi o fenômeno que se verificou com a cólera no século XIX.

3 Ibidcm, Ver, também, P. Bordelais, "Le Choléra: Présentation", in J.P. Bardei et alli, Peurs et Terreurs faceà la Contagion, Paris, Fayard, 1988.
4 A discussão sobre as doutrinas epidemiológicas está em W. H. McNeill, Plagues and.., op. cit., cap. VI.
5 Confrontar a ótima matéria de C, Csillag, "Médico-Detetive Desvendou Transmissão do Cólera", Folha de S.Paulo, Caderno 7. 15/3/1991, p. 2.
6 Veja-se a descrição pioneira de suas teorias —divulgadas em 1849, antes portanto de suas descobertas em Londres — no livro clássico de Snow, traduzido recentemente para o português: J. Snow, Sobre a Maneira de Transmissão do Cólera (Tradução realizada pela USAJD, revisada), São Paulo, Hucitec, 1991.
7 Esta discussão se baseia em W. H, McNeill, Plagues and..., op. cil., pp,23I-3.
8 Para uma análise das crenças sobre a ausência de padecimentos físioos e a longevidade dos habitantes do Novo Mundo, ver S. B. de Holanda, Visão do Paraíso (4l ed.), São Paulo, Ed. Nacional, 1985. "A certeza, alcançada já quase ao início dos grandes descobrimentos marítimos, se não antes, de que as pestilências de bordo prontamente desapareciam ao contato de certas terras privilegiadas" (p. 269).
9 Os primeiros casos foram diagnosticados em Belém do Pará, era maio dc 1855. Não há dados deFinitivossobreafontetransmissora.masachegada de um navio de Portugal com prováveis vítimas de cólera, em maio, teria causado a primeira irrupção do flagelo asiático em território brasileiro. Ver D. R. Cooper, "The New 'Black Death": Cholera in Brazil, 1855-1856", Social Science History, vol. 10,n°4, 1986,p. 239.
10 W. H. McNeill, Plagues and..., op. cil., pp. 240 ess.
11 Ao norte, a Província do Amazonas chegou a contar alguns casos da doença, com baixa letal idade, no ano de 1856. O pequeno foco íoi causado, em Manaus e em algumas localidades à beirado Amazonas, por tripulantes doentes trazidos por vapores de Belém. Ver R. Braga, "Cólera no Amazonas', Leitura, vol. 10, n° 119, São Paulo, Imprensa Oficial do Arquivo do Estado, abril de 1992, p. 10.
12 Esses dados sobre a cólera no Brasil constam do importante artigo de D. B, Cooper, "The New 'Black...", op. cit.
13 Veja-se L, Santos Filho, História Geral da Medicina Brasileira, vol. 2, São Paulo, Hud-tec/Edusp, 1991, pp. 208-14,         
14 Note-se que na capital paulista a Companhia Cantareira de Águas e Esgotos (também inglesa) só completou um sistema modesto, que atendia a uma pequena parte da população, em 1885. É difícil associara impiantaçio tardia do saneamento em Sâo Paulo—emrdaçio às cidades portuárias — apenas à ausência de epidemias do cólera-morbo naquela cidade. Entretanto, um sinal importante do impacto sempre considerável causado pelo flagelo asiático é que, finalmente atingida pela cólera na década de 1890, seguiu-se a expansão da rede de esgotos e de abastecimento d'agua em São Paulo durante a curta administração de Rodrigues Alves à frente do governo paulista (1900/1902). Ver J. L. Lave,São Paulo in tke Brazilian Federation, 1889-1937, Stanford, Stanford University Press, 1980, p. 22; G. M. Greenfield, The Challenge of Growth: The Growth of Urban Public Services in Sâo Paulo, Tese de Doutorado, Universidade de Indiana, 1975, p. 248; R, Grabaw,fíritain A theOnset of Modernization in Brazil, Londres, Cambridge University Press, 1972, pp. 116-8.
15 Note-se que a partir de 18S0 já se instalava no Rio de Janeiro uma pequena rede domiciliar "com tubos de ferro e aparelhos hidráulicos importados da Inglaterra™. Jaime L. Benchitnol
demonstra, no entanto, que a inovação se deveu antes à redução crescente da mão-de-obra escrava que fazia a distribuição da água das antigas bicas, poços públicos e chafarizes, do que à ocorrência de epidemias. Ver J. L. Benchimol, Pereira Passos: Um Haussmann Tropical Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, 1990, esp. pp. 65-72.
16 L. Santos Filho, História Geral da., op. cit., pp. 208-11.
17 Cf. D. B. Cooper,"The New 'Black...", op. cit., pp. 253-4.
18 Uma discussão excelente dos anos da cólera nos Estados Unidos encontra-se em C. E. Rosenberg, The Cholera Years: The United States in 1832, 1849 and 1866, Chicago, The University of Chicago Press, 1962.
19 W. H. McNeill.P/agues and..., op. cit., pp. 245 ess.
20 Veja-se H. F. Dowl ing, FightingInfection: Conquests ofíhe Twentieth Century, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1977, p. 15.
21 Cf. L. Doyal e I. Pznnd\,The Political Economyof Health, Boston, Soulli End Press, 1979, p. 132.
22 W. H. McNeill, Pingues and..., op. cit., p. 257.
23 A obra clássica sobre o tema é de autoria de C. E. Rosenberg, The Cholera Years.., op. cit.
24 ídem, p. 5.
25 Consulte-se o livro magistral de Paul Starr sobre as transformações da medicina na sociedade norte-americana do século XVIII aos nossos dias. P. Starr, The Social Transformation of American Medicine, Nova Iorque, Basic Books, 1982.
26 C, E. Rosenberg, The Cholera Years..., op. c/7., parte 1.
27 Idem, p. 127.
28 Idem, p, 199. A discussão mais ampla sobre este ponto está em todo o capítulo XI.
29. Idem, p. 215.
30 Apud idem, p. 217,
31 Idem, p. 220.
32 Idem, pp, 214,228 e 232.
33 Uma análise da evolução da saúde pública no Brasil, no quadro mais amplo da formação do Estado nacional, encontra-se em L. A. de Castro Santos, Power, Ideology and Public Health in Brazil, 1889-1930, Tese de Doutorado em Sociologia, Universidade de Harvard, 1987.
34 Idem, pp. 228-9.
35 L. Santos Filho, História Geral da..., op. cit., p. 210.
36 Cf. Di B. Cooper, "The New 'Black'...'*, op. cit., p. 248.
37 C. E. Rosenberg, The Cholera Years ... , op. cit., p. 155. Veja-se, também, sobre o "antiprofissionalismo" que vigorou durante o período jacksoniano, P. Starr, The Social Transformation..., op, cit.,cap, 1.
38 Os homeopatas baseiam-se na lei dos efeitos similares, segundo a qual o medicamento correto, se aplicado a pessoas sãs, produziria nestas os sintomas do doente. Consultar L. Santos Filho, História Geral da..., op. cit., pp. 388-402; e A. Porto, A Participação dos Homeopatas na Epidemia de Cholera-Morbus de 1855, Casa de Rui Barbosa, 1991, mimeo.
39 C. E. Rosenberg, The Cholera Years ... , op. cit., pp. 223-4.
40 Consulte-se o cuidadoso trabalho de A. Porto, A Participação dos..., op. cit., p. 4.
41 Idem, pp. 5-6.
42 R. J. Evans, "Épidemies et Révolutions: LeCholéra dans 1'EuropeduXIXe. Siècle", in J. P. Bardet et alli, Peurs et Terreurs..., op. cit., p. 117. (Tradução de "Epidemias and Revolu-tions: Cholera in Nineteenth-Century Eurnpe", Past and Present, vol. 120, agosto de 1188, pp. 123-46.)
43 Idem, p. 124.
44 A exemplo do que ocorreu em Konigsberg, na Prússia Oriental, em 1831. Idem, pp. 125 e 127.
45 Do mesmo modo, a Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro, em 1904, não foi causada pela policia sanitária de Oswaldo Cruz, mas decorreu dc um conjunío de fatores de ordem social e política, aos quais se somou a questão da vacina como um elemento detonador da Revolta. Veja-se L. A. dc Castro Santos, Power, Ideology..., op. cit., pp. 108-18, esp. p. 111.
46 No Brasil, como já nos referimos, estima-se em mais de 200 mil o número de mortes causadas pelo cholera-morbusem todas as províncias entre 1855 e 1894. Cf. L. Santos Filho,
História Geral da... , op. cit., pp. 208-11; e D. B. Cooper, "The New 'Black... ", op. cit., p. 251. Na Inglaterra, a maior devastação se deu por ocasião da segunda e terceira epidemias, entre 1848 e 1854-cerca de 250 mil mortes devidas à cólera. Consulte-se R. Hodgkinson, ed., Public Health in the Victorian Age, vol. 1, Londres, Gregg Intemational Publishers, 1973, esp. "Introduction", p. 3.
47 Consulte-se L. Doyal e I. Penne", The Politicai Economy ..., op. cit., p. 54.
48 Esta ação violenta e rapidíssima da cólera sobre a população....., particularmente sobre a população mais pobre e subnutrida -, assinalada por Donald B. Cooper, ainda se observa em nossos dias em países do Terceiro Mundo. (O Brasil, entretanto, tem revelado poucos casos de morte, devido à rápida hospitalização das vítimas. A India apresenta a situação mais trágica deste ponto de vista.)

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