EDITORIAL

 

As ciências sociais e humanas e a saúde coletiva

 

 

Nesta edição optamos por manter um número reduzido de artigos relativos àquilo que seria o tema da presente edição de Physis, as Ciências Sociais e Humanas e a Saúde Coletiva, representado por dois artigos, produtos das duas conferências internacionais do III Congresso de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, organizado pela ABRASCO, e que teve lugar em Florianópolis, Santa Catarina, em julho de 2005.

No primeiro artigo, Claudine Herzlich, um dos nomes fundadores desse campo e que honra nossa revista fazendo parte de seu comitê editorial, analisa as aproximações e enfrentamentos entre as ciências sociais e a saúde ao longo do último século, ressaltando as possibilidades que se reafirmam no presente para uma cooperação entre estas duas vertentes, tanto no plano político-social quanto no teórico-acadêmico.

No segundo, Margaret Lock, um dos nomes mais relevantes da antropologia médica, apresenta uma revisão crítica dos excessos do "geneticismo" na biomedicina do presente, trazendo na seqüência dados de uma pesquisa, por ela coordenada, que evidencia as repercussões subjetivas, e bastante dramáticas, de propostas de testagem genética para marcadores de valor incerto (no caso, relativos à doença de Alzheimer).

Ambos os textos, para além do que trazem de reflexão erudita e aprofundada, funcionam como meta-exemplos da fecundidade da interação das ciências socias e humanas no interior da própria saúde coletiva. Lembrando o artigo de Everardo Duarte Nunes na edição anterior de Physis, este tem sido com efeito um traço constitutivo do próprio campo da saúde coletiva no Brasil desde sua origem, na década de setenta do século passado.

Mesmo sem terem sido estruturados a partir de uma proposta temática comum, os artigos de submissão livre também apontam, por suas temáticas ou referenciais teóricos, ou ainda pelas técnicas de pesquisa empregadas, para o campo de possibilidades aberto à exploração pelas ciências sociais e humanas. No primeiro artigo desta seção, Ortega propõe uma reflexão sobre diferentes modos de perceber o corpo, da experiência fenomenológica de cada indivíduo à panóplia de imagens produzidas pela tecnologia médica.

Os dois artigos seguintes abordam temas ligados à sexualidade: Giami aponta convergências e semelhanças entre as abordagens de Lantéri-Laura e Foucault, mostrando o aspecto pivotal do tratamento diferenciado dado por ambos ao papel da psicanálise como eixo central de diferenciação entre as duas abordagens. Henrique, a seguir, debruça-se sobre um documento histórico, o diário de um intelectual e político de relevo do Brasil do século XIX, para discutir o registro documental de temas ligados à sexualidade como tema relevante para as ciências sociais.

Segue-se o artigo de Nascimento e Sayd, que mostram como as estratégias de propaganda da indústria farmacêutica infringem sistematicamente normas vigentes para sua regulação, a partir do exame de material veiculado em vários meios de comunicação. A seção de temas livres se encerra com o artigo de Castro e Vargas, apontando os desafios enfrentados pela estratégia de saúde da família na atenção ao idoso, com base num estudo de caso numa área específica da cidade do Rio de Janeiro.

Fechando esta edição, a seção de resenhas traz as contribuições de Guedes, que apresenta Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, de Zygmunt Bauman; Goldenberg comentando Dois é par: gênero e identidade sexual em contexto igualitário, de Heilborn; e por fim, Castellano e Nunes comentam Sociologia da doença e da medicina, de Adam e Herzlich.

 

 

KENNETH ROCHEL DE CAMARGO JR.

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