Cuidando da Graduação em Saúde

Vanessa Maia Rangel Sobre o autor
NASCIMENTO, Marilene Cabral do; GUEDES, Carla Ribeiro. (Orgs.).Saúde, Sociedade e Cultura. Ciências Sociais e Humanas para a Graduação em Saúde.São Paulo: Editora Hucitec, 2017.

“O presente volume é precioso”, nas palavras de Madel Luz, que assina o prefácio do livro Ciências Sociais e Humanas para a Graduação em Saúde. Trata-se de um relato de experiências e reflexões sobre o processo de adoecer/cuidar na sociedade atual.

Considerando que a formação em saúde ainda é disciplinar, na qual a episteme (conhecimento) e a prática (técnica) são praticamente “fechadas” em seus modos de aprender e interpretar os fenômenos do viver e do adoecer, o volume surge como uma aposta na interdisciplinaridade, quando se apresentam novas formas de fazer saúde e doença (LUZ, 2009LUZ, M. T. Complexidade do campo da Saúde Coletiva: multidisciplinaridade, interdisciplinaridade, e transdisciplinaridade de saberes e práticas - análise sócio-histórica de uma trajetória paradigmática. Saude soc., v. 18, n. 2, p. 304-311, jun 2009.). Ainda na concepção de Madel Luz, se a formação é ainda concentrada nas ciências biomédicas, estabelece-se um verdadeiro desafio ao futuro profissional, quando este se depara com terapêuticas ligadas a sistemas vitalistas complexos e com os saberes derivados de expressividades artísticas ou subjetiva/individual. Seguindo o pensamento de Madel Luz, Marilene Cabral e Carla Guedes apresentam a problemática da subjetividade no trabalho em saúde.

Carla Guedes, no primeiro capítulo do livro, aponta exemplos da prática em saúde nos quais a clínica ampliada, a partir da escuta, dos afetos, do diálogo e dos vínculos, oferece uma maneira própria de lidar com o adoecer (NOGUEIRA; GUEDES, 2013NOGUEIRA, M. I.; GUEDES, C. R. Da graduação biomédica à Medicina de Família: aprendendo a se tornar um "médico da pessoa". Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 23, n. 2, p. 439-460, jun 2013.). No segundo capítulo, Lenita Claro, Júlio Won Wu e Ivia Maksud analisam, a partir de uma perspectiva antropológica, onde a experiência do adoecimento pode ser vista como um fenômeno cultural, assim tanto coletivo, quanto individual, por modelos ou pela individualidade e autonomia do ser. Em seguida, Anna Alice Amorim Mendes apresenta o paradoxo do cuidar exclusivamente a partir de premissas científicas. Aponta para a dimensão empírica da realidade do cuidar, em que propõe limites para a atuação médica, assim como sugere ampliar as fronteiras do próprio cuidar.

No quarto capítulo, Andréa Neiva, Marcos Senna e colaboradores apresentam a saúde bucal a partir dos sentidos e significados que os diferentes grupos sociais atribuem ao sofrimento localizado na boca. Enfatizam o respeito à pluralidade de crenças para a possibilidade da promoção da saúde bucal da população. Na sequência, Márcio Dias, no quinto capítulo, discute a importância dos mecanismos produtores do estresse e suas consequências para a saúde, tanto de pacientes como de profissionais.

A segunda parte do livro, intitulada “Diferentes concepções e estratégias de cuidado em saúde”, abre com o texto de Jussara Soares. A autora analisa a Biomedicina pelo seu questionamento e sua abertura mais recente, em que caberiam o desenvolvimento de estratégias de promoção da saúde que reforcem a potência dos seres humanos e suas enormes capacidades de autorrecuperação. Seguindo esse enfoque, Marilene Cabral, Madel Luz e Maria Inês Nogueira afirmam a Saúde como ponto de partida das graduações nessa área (NASCIMENTO, 2018NASCIMENTO, M. C. et al. Formação em práticas integrativas e complementares em saúde: desafios para as universidades públicas. Trab. educ. saúde, v. 16, n. 2, p. 751-772, ago 2018.). Apontam para as racionalidades médicas de diferentes culturas e as práticas vitalistas, hoje conhecidas como integrativas e complementares, como fundamentais para o entendimento teórico e prático da categoria Saúde (TESSER et al., 2018TESSER, C. D.; SOUSA, I> M. C.; NASCIMENTO, M. C. Práticas Integrativas e Complementares na Atenção Primária à Saúde brasileira. Saúde em debate, v. 42, n. esp 1, p. 174-188, set 2018.).

O oitavo capítulo aborda o cuidado do cuidador através da arte. Denise Vianna oferece a experiência do Programa TECI-HUAP como veículo de cuidado para estudantes, docentes, técnicos, usuários e funcionários do Hospital Universitário Antônio Pedro. A autora mostra como, na arte do cuidar, se reúnem diversas áreas do conhecimento: Saúde, Educação, Letras, Comunicação, Ciências Sociais, Cinema, Arte, etc.

Marilene Cabral, Valéria Romano e Gabriela Mosegui, no nono capítulo, analisam a problemática da medicalização da vida como uma contradição para os serviços de saúde, onde o enfoque deveria ser a preservação e a ampliação do nível de saúde da população.

A terceira parte do volume, intitulada “Educação popular, internet e controle social”, abre algumas reflexões de Jussara Calmon sobre as dimensões educativas das práticas em saúde, enfatizando a autonomia do sujeito a partir do empoderamento pelo saber. Segue-se o texto de Helena Garbin e Maria Cristina Guilam, que discorrem sobre a transformação da relação médico-paciente sob o impacto da Era Google. As autoras enfatizam que essas relações podem se moldar em diferentes possibilidades desde um modelo de conflito, de negociação ou consensual, na medida da interferência do conhecimento/saber/poder no tipo de relação estabelecida.

O capítulo 12 é elaborado por Sônia Leitão e Moema Motta, que fazem reflexões sobre a importância do processo de construção do SUS para a formação em saúde, valorizando o controle social. Para as autoras, o profissional de saúde é o elo entre o direito reivindicado pelo usuário e a oferta de serviços. Assim, existe uma tensão, que pode ser produtiva, entre alunos/profissionais e a população que demanda os cuidados.

Na sequência do volume encontramos o capítulo treze, em que Luiza Santos Moreira da Costa analisa a importância da inclusão de conteúdos de atenção à saúde para pessoas com deficiência, na perspectiva da diversidade. A autora observa a grande lacuna existente nessa demanda, que é entendida como especial nos serviços de saúde. O capítulo seguinte fala do processo de envelhecimento e como manter a qualidade de vida. Elizabeth Clarkson aborda a importância de se manter o foco na promoção da saúde, como um cuidado que não pode deixar de ser dispensado à população idosa.

O livro finaliza com os capítulos 15 e 16, onde Anna Alice Amorim Mendes elabora sobre o cuidado na terminalidade da vida e a “boa morte”. Na perspectiva de valorização da autonomia do sujeito, na medida do possível, a autora propõe o “cuidado adequado”, que, de maneira exemplar, dialoga com o que foi anteriormente discutido por todos os autores do livro: um cuidado que inclui o alívio dos sintomas físicos, assim como o atendimento às demandas emocionais, existenciais, espirituais e sociais dos sujeitos em condição de sofrimento.

O livro percorre, portanto, as múltiplas experiências do ensino na graduação em saúde, pelos docentes do Departamento de Saúde e Sociedade e do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal Fluminense. O foco principal é estimular o aluno/profissional a ampliar seu arcabouço de conhecimento biológico a partir dos diferentes referenciais teórico-práticos da Saúde Coletiva (CAMARGO JR., 2010CAMARGO JR, K. R. et al. Produção intelectual em saúde coletiva: epistemologia e evidências de diferentes tradições. Rev. Saúde Pública, v. 44, n. 3, p. 394-398, jun 2010.) na intenção e no objetivo de fazer do cuidado em saúde o melhor cuidado possível.

Referências

  • CAMARGO JR, K. R. et al. Produção intelectual em saúde coletiva: epistemologia e evidências de diferentes tradições. Rev. Saúde Pública, v. 44, n. 3, p. 394-398, jun 2010.
  • LUZ, M. T. Complexidade do campo da Saúde Coletiva: multidisciplinaridade, interdisciplinaridade, e transdisciplinaridade de saberes e práticas - análise sócio-histórica de uma trajetória paradigmática. Saude soc., v. 18, n. 2, p. 304-311, jun 2009.
  • NASCIMENTO, M. C. et al. Formação em práticas integrativas e complementares em saúde: desafios para as universidades públicas. Trab. educ. saúde, v. 16, n. 2, p. 751-772, ago 2018.
  • NOGUEIRA, M. I.; GUEDES, C. R. Da graduação biomédica à Medicina de Família: aprendendo a se tornar um "médico da pessoa". Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 23, n. 2, p. 439-460, jun 2013.
  • TESSER, C. D.; SOUSA, I> M. C.; NASCIMENTO, M. C. Práticas Integrativas e Complementares na Atenção Primária à Saúde brasileira. Saúde em debate, v. 42, n. esp 1, p. 174-188, set 2018.

Histórico

  • Recebido
    16 Fev 2018
  • Revisado
    18 Nov 2018
  • Aceito
    15 Fev 2019
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