Fábrica da nutrição neoliberal: elementos para uma discussão sobre as novas abordagens comportamentais** Este trabalho apresenta resultados preliminares da pesquisa “Obesidade e Transtornos Alimentares: interfaces entre o campo da Alimentação e Nutrição e as abordagens psicológicas e psicanalíticas”, financiada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro por meio dos programas Prociência e PIBIC e pela FAPERJ (APQ1 e TCT).

Neoliberal nutrition factory: elements to discuss new behavioral approaches

Cristiane Marques Seixas Juliana Pereira Casemiro Carolina de Oliveira Coutinho Thais Nascimento Conde Ana Laura Brandão Sobre os autores

Resumo

A aplicação de teorias do comportamento em diversas áreas tem despertado o interesse em investigar como essas teorias são incorporadas pelo campo da Alimentação e Nutrição, problematizando sua interdisciplinaridade. Este artigo busca contextualizar a Nutrição como ciência e seu desenvolvimento num contexto social em que o neoliberalismo opera como sistema de gestão da vida política, econômica e social. Visam-se reunir elementos teóricos relativos à noção de comportamento extraídos do campo da psicologia a fim de contribuir para o aprofundamento das reflexões acerca da emergência de técnicas baseadas em teorias do comportamento, tais como a Nutrição Comportamental, o Mindful Eating e o Comer Intuitivo, além de apresentar ponderações sobre os limites relacionados à aplicação dessas abordagens na formação e na prática dos profissionais de saúde.

Palavras-chave:
Nutrição Comportamental; Mindful Eating; Comer Intuitivo; neoliberalismo; interdisciplinaridade

Abstract

The application of behavioral theories in several areas has aroused the interest in investigating how these theories are incorporated by the field of Food and Nutrition, problematizing its interdisciplinarity. This paper aims to contextualize Nutrition as a science and its development in a social context in which neoliberalism operates as a system for managing political, economic, and social life. The aim is to gather theoretical elements related to the notion of behavior extracted from the field of Psychology in order to contribute to the deepening of reflections on the emergence of techniques based on theories of behavior, such as Behavioral Nutrition, Mindful Eating and Intuitive Eating, in addition to presenting considerations on the limits related to the application of these approaches in the training and practice of health professionals.

Keywords:
Behavioral Nutrition; Mindful Eating; Intuitive Eating; neoliberalism; interdisciplinarity

Introdução

Muitos são os caminhos possíveis para a mudança do comportamento e inúmeras são as teorias que tentam explicar como e por que comportamentos mudam. Nas últimas décadas, o interesse na aplicação dessas teorias nas áreas da saúde, educação, criminologia, economia, energia, clima, entre outras, aumentou consideravelmente, na esperança de que a compreensão da mudança comportamental melhore os serviços oferecidos. Esse desafio vem ganhando espaço nas pesquisas, conformando também um campo científico, o que por si só implica uma disputa entre diferentes modelos e formas de entendimento da problemática em pauta.

No que diz respeito à alimentação não é diferente. Assistimos atônitos à proliferação de abordagens comportamentais no campo da Alimentação e Nutrição como resposta à busca por uma fórmula mágica que permita aos nutricionistas - e outros profissionais de saúde - construir estratégias ditas eficazes e alcançar resultados aparentemente satisfatórios frente aos agravos associados aos chamados maus hábitos alimentares. Para compreender esse fenômeno, é preciso contextualizar a emergência da nutrição como ciência, política social e/ou profissão e seu desenvolvimento ao longo dos últimos anos num contexto social em que o neoliberalismo opera como sistema de gestão da vida econômica e social.

Nesse sentido, o presente ensaio visa reunir elementos teóricos relativos à noção de comportamento extraídos do campo da psicologia, a fim de contribuir para o aprofundamento das reflexões acerca da emergência de abordagens baseadas em teorias do comportamento e sua relação com o jogo de fabricação do sujeito neoliberal (DARDOT; LAVAL, 2016DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Editora Boitempo, 2016.). Ainda que no campo da Alimentação e Nutrição a ideia de comportamento esteja sendo gradativamente incorporada como um conceito unívoco, na psicologia o mesmo possui contornos polissêmicos fomentando uma densa discussão a partir de diferentes enfoques. Vale destacar que, neste trabalho, faremos um breve recorte dessa discussão tão cara à psicologia sem pretender esgotá-la, apresentando, porém, ponderações sobre os limites relacionados à sua aplicação nas práticas relacionadas à nutrição.

Nutrição, Ciência e Política

Compreender o momento atual do campo da Alimentação e Nutrição em seu caráter interdisciplinar demanda a contextualização sócio-histórica. Vale situar que sua emergência se deu no período entre a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, no âmbito da consolidação de uma sociedade capitalista urbano-industrial. É nesse contexto que surgem a Food and Agriculture Organization (FAO), o United Nations International Children’s Emergency Fund (UNICEF) e os primeiros centros de pesquisa voltados para a questão da alimentação da população. No Brasil, na esteira de tais acontecimentos e num cenário de consolidação da ciência da Nutrição, surgem os primeiros cursos de graduação em nutrição (VASCONCELOS, 2002) e, na sequência, os primeiros técnicos deste campo e especialistas neste tema.

Com o desenvolvimento científico e as novas demandas de saúde da população, observou-se um desvio do foco da Nutrição inicialmente voltado para os problemas relacionados à fome e à desnutrição para as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), que passam a configurar um grave problema de saúde pública. Posteriormente, a obesidade aparece no cenário mundial como importante desafio a ser enfrentado. Destaca Poulain (2013) que a obesidade foi declarada epidemia mundial pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2000 e desde então o quadro vem se agravando. Esse autor sustenta que a obesidade é um problema social e um novo fator de desigualdade em saúde. Por isso mesmo, chama atenção para os limites da perspectiva científica e para a necessidade de posicionamento também na escala político-administrativa.

Diante deste quadro de crescimento da prevalência da obesidade e das DCNTs, tem se tornado cada vez maior a adesão ao entendimento de que estamos diante de um cenário global que é fruto do intenso processo de expansão do neoliberalismo acompanhado pela propagação das fusões entre grandes corporações do setor agroalimentício e a consolidação de um sistema alimentar global que oferece quantidades excessivas de alimentos calóricos e ricos em sal, açúcar e gordura (MORIN, 2013; MOSS, 2015).

Pressões para homogeneização de hábitos alimentares seguem em curso a partir da conivência entre essas grandes corporações e a grande mídia. Esse processo, contudo, não tem sido linear e especialistas, pequenos agricultores e produtores de alimentos, organizações da sociedade civil e até mesmo pessoas comuns têm sido criativos em apresentar formas de resistências.

Foi neste caminho que se tornou inevitável reconhecer a complexidade da Nutrição, bem como a necessidade de ampliar o olhar sobre as análises das práticas alimentares nas diversas partes do mundo. Problemas complexos exigem um pensar e agir igualmente complexos para analisar e propor saídas (MORIN, 2011). A interdisciplinaridade, a multiprofissionalidade e a valorização de diferentes saberes despontam como estratégias importantes para as ciências e para a proposição de ações mais adequadas e efetivas. Mas de que maneira e em que medida essa conjugação de saberes e disciplinas tem sido exercida? Qual o rigor metodológico e teórico necessário para que esses encontros disciplinares ultrapassem conexões superficiais ou apenas utilitárias?

Ainda sob este ângulo, podemos questionar: por que é justamente neste cenário de reconhecimento da complexidade da Nutrição que assistimos à proliferação de discursos e técnicas no campo da Nutrição que (re)colocam na agenda estratégias centradas na responsabilização do indivíduo, no comportamento e no autocontrole? Diante disto, as técnicas comportamentais (Nutrição Comportamental), meditativas (Mindful Eating) e motivacionais ou de racionalização (Comer Intuitivo) estão sob holofotes da grande mídia e tornam-se objeto de desejo de muitos profissionais de saúde - tanto os recém-formados quanto os mais experientes no bojo do crescente esforço de tornarem-se “empreendedores de si” (DARDOT; LAVAL, 2016DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Editora Boitempo, 2016.).

O debate aqui proposto articula elementos teóricos advindos de diferentes campos de conhecimento que precisam interagir conceitualmente, a fim de precisar limites e possibilidades tanto teóricas como práticas e metodológicas. Nesse sentido, vale considerar a abordagens baseadas em teorias do comportamento que florescem no campo da Alimentação e Nutrição em relação ao novo contexto social e biopolítico das sociedades contemporâneas marcadas por uma lógica neoliberal que ultrapassa os limites da economia e da política para se fazer valer no que há de mais íntimo nos indivíduos.

No campo da saúde, onde a Alimentação e a Nutrição estão inseridas, o nutricionista é o profissional que tem a prerrogativa de prescrever uma alimentação adequada e saudável. Apesar disso, as políticas públicas que se desenvolvem no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) investem na consolidação de uma lógica assistencial que entrelaça especialidades por meio de dispositivos da Estratégia de Saúde da Família, tais como o matriciamento realizado pelas equipes dos Núcleos Ampliados de Saúde da Família (NASFs) e as interconsultas. Além disso, partilha com outros profissionais de saúde a atuação na prevenção de doenças e promoção da qualidade de vida das pessoas, por meio da construção e disseminação de informações sobre a alimentação para a população em geral. Contudo, a divulgação de informações sobre alimentação e nutrição tem sido cada vez mais ampla e difusa, tornando-se assim um dos grandes obstáculos para uma alimentação adequada e saudável (BRASIL, 2014a). Isto porque o excesso de informação tem atuado como promotor de incertezas e estresse que terminam por gerar constante necessidade de que um especialista ajude a decidir o que, quando e quanto se deve comer (POLLAN, 2007).

Nesse cenário, pelo menos duas visões sobre o profissional nutricionista são construídas no senso comum: ou ele é o retrógrado, inflexível e autoritário ou ele é moderno, flexível e popular nas redes sociais. Como bom empreendedor, esse segundo tipo de profissional sabe fazer sua autopromoção e tem em seu currículo a “mais nova super-especialidade” do momento. Respeitando a fluidez e velocidade da atual sociedade (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.), percebe-se que o que é considerada a “mais nova super-especialidade” de hoje certamente será, em breve, substituída por outra “mais nova super-especialidade”. Assim, a cada nova demanda, novos nomes são criados para especificar a própria Nutrição, carregando sempre um aspecto inovador - como por exemplo, a Nutrição Funcional, a Nutrição Estética, a Nutrição Fitoterápica, a Nutrição Esportiva, a Nutrição Ortomolecular e mais recentemente a Nutrição Comportamental.

Esse processo de “hiperespecialização” (MORIN, 2014, p. 13) que se fecha sobre si mesmo não representa uma novidade. Com a “mais nova super-especialidade”, o nutricionista ganha novas conotações profissionais (não necessariamente habilidades ou competências) no mercado de trabalho (e no mercado das dietas) que advêm supostamente de uma ampliação de saberes e de sua integração com outras áreas do conhecimento que trariam à clínica a flexibilidade e variedade de ferramentas que fariam sua prática menos técnica, mais profissional e, consequentemente, mais eficaz. O que é novo, portanto, são as formas de produzir, divulgar e vender esses títulos de especialistas.

Dessa maneira, podemos identificar a redução gradativa da prática do nutricionista a uma atuação que utiliza o conhecimento científico (e até mesmo do senso comum) de modo instrumental, em detrimento dos fundamentos de uma atuação interdisciplinar. A afirmação dessa perspectiva, contudo, capitaliza profissionais e pesquisadores que se mostram afeitos à possibilidade de participação de outros campos de saberes na Nutrição, sem que haja de fato um entrelaçamento epistêmico que afirme a pluralidade do campo e a complexidade do objeto nutrição-alimentação (PRADO; MARTINS; CARVALHO, 2018). Podemos considerar, assim que o caráter ainda embrionário da perspectiva interdisciplinar no campo da Alimentação e Nutrição deixa brechas para a emergência de propostas falaciosas que fragilizam ainda mais a consolidação de uma abordagem baseada no cuidado e na valorização dos sujeitos, suas histórias, cultura, memória e afetos.

Nessa brecha inscrevem-se as novas abordagens teóricas que, baseadas em supostas evidências, propõem a incorporação de técnicas comportamentais (Nutrição Comportamental), técnicas meditativas (Mindful Eating) e técnicas motivacionais ou de racionalização (Comer Intuitivo). Essas propostas são o principal foco de interesse da presente reflexão, pois se mostram, ao fim e ao cabo, como arremedos de teoria, em que os desenvolvimentos conceituais são descontextualizados dos campos teóricos de origem, limitados em sua aplicação prática e visam, em última análise, dar um caráter teórico para experimentações que se baseiam não em evidências científicas, mas em evidências da prática de uma psicologia selvagem (FREUD, 2006).

Mas enfim, como mudar o comportamento?

Como resultado da busca por novas formas de lidar com os impasses e dificuldades colocadas pelos fracassos na mudança de comportamentos e hábitos, e da disputa de saberes sobre essas mudanças, observa-se, nas últimas décadas, a consolidação de uma distinção nas ciências comportamentais entre os modelos de comportamento e as teorias de mudança comportamental (DARNTON, 2008DARNTON, A. Reference Report: an overview of behavioural change models and their uses. Government Social Research Unit: London, July 2008. Disponível em: <https://research.fit.edu/media/site-specific/researchfitedu/coast-climate-adaptation-library/climate-communications/messaging-climate-change/Darnton.-2008.-Behaviour-Change-Models--Uses.pdf>. Acesso em: 27 mar. 2020.
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; VAN DER LINDEN, 2013). Nessa perspectiva, os modelos de comportamento são constructos teóricos mais voltados para a compreensão dos fatores psicológicos que explicam ou preveem um comportamento específico, enquanto as teorias da mudança comportamental são elementos mais pragmáticos que visam apoiar intervenções e geralmente objetivam alterar um determinado comportamento. Assim, entender e mudar o comportamento são dois aspectos teóricos distintos, mas que se complementam.

Sabe-se também que para promover uma mudança comportamental bem-sucedida é preciso uma compreensão completa dos fatores que influenciam o comportamento, o que implica distinguir os inúmeros fatores que o determinam. Para Dolan et al. (2012DOLAN, P. et al. Influencing behaviour: the mindspace way. Journal of Economic Psychology, v. 33, n. 1, p. 264-77, 2012. doi: https://doi.org/10.1016/j.joep.2011.10.009.
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), destacam-se sobretudo características ambientais e pessoais. Ainda que não sejam de fato separáveis, as pessoas e o ambiente em que vivem compõem um conjunto que é influenciado diretamente pela subjetividade, pela história e pela cultura de determinada sociedade.

Vale lembrar que hábitos e comportamentos se formam e se sustentam pelos contextos sociais em que se inscrevem e se desenvolvem, não podendo ser totalmente separados. Uma tentativa de diferenciá-los é feita por Klotz-Silva et al. (2016) a propósito da distinção entre comportamentos e hábitos alimentares. Para as autoras, se os hábitos alimentares podem ser entendidos como uma repetição no tempo de ações, por outro lado, eles não se confundem com os comportamentos, pois a ideia do hábito não pode ser restrita ao domínio individual, uma vez que o indivíduo, ao ser inserido na cultura, é atravessado por disposições que deixam marcas indeléveis. Essa diferenciação não é simples, nem dispensável. No campo da Alimentação e Nutrição, entretanto, parece haver, segundo as autoras, um uso indistinto desses termos, o que acarreta importantes imprecisões teóricas e dificuldades práticas.

Assim, no campo da saúde assistimos ao crescimento do interesse por abordagens que tenham em seu fundamento a mudança de comportamento, já que um dos grandes problemas enfrentados pelos nutricionistas e outros profissionais de saúde é a baixa adesão à modificação de hábitos alimentares relacionados ao desenvolvimento de DCNTs (ESTRELA et al., 2017ESTRELA, K. C. A. et al. Adesão às orientações nutricionais: uma revisão de literatura. Demetra, v. 12, n. 1, p. 249-274, 2017. doi: https://doi.org/10.12957/demetra.2017.22407.
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). No Brasil, seguindo recomendações de entidades internacionais como a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2018) e a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS, 2018), têm se tornado um imperativo para prevenção e tratamento das DCNTs o investimento em medidas que têm como alvo a promoção de mudanças ambientais que dificultem o consumo de alimentos ultraprocessados11 Segundo Monteiro (2009), os alimentos ultraprocessados são formulações industriais prontas para consumo e feitas inteira ou majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos (óleos, gorduras, açúcar, proteínas), derivadas de constituintes de alimentos (gorduras hidrogenadas, amido modificado) ou sintetizadas em laboratório com base em matérias orgânicas (corantes, aromatizantes, realçadores de sabor e outros aditivos usados para alterar propriedades sensoriais). pobres em nutrientes e recheados de aditivos químicos. A publicação em 2014 da nova versão do Guia Alimentar para a População Brasileira (BRASIL, 2014a) possui papel importante nesse processo por considerar a promoção da alimentação adequada e saudável como parte da construção de um sistema alimentar social e ambientalmente sustentável e por ressaltar condicionantes da alimentação, desde a produção do alimento até seu consumo. Suas recomendações baseiam-se em uma classificação de alimentos segundo o grau de processamento, indicando que seja limitado o consumo de alimentos processados e evitado o consumo de ultraprocessados. Há, entretanto, o reconhecimento de que a ampliação e consolidação de tais medidas só são possíveis com a implementação de políticas públicas que tenham como intuito transformar os ambientes obesogênicos, como a regulamentação da publicidade de alimentos e taxação de alimentos ultraprocessados (MONTEIRO et al., 2010; BRASIL, 2014a). Essas iniciativas têm como alvo não somente a indústria de alimentos, mas também a mídia e seu potencial de influência nas escolhas e hábitos da população (BRASIL, 2014b).

Essas iniciativas seguem o que Dolan et al. (2012DOLAN, P. et al. Influencing behaviour: the mindspace way. Journal of Economic Psychology, v. 33, n. 1, p. 264-77, 2012. doi: https://doi.org/10.1016/j.joep.2011.10.009.
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) nomeiam como estratégias que visam mudar contextos e acompanham uma tendência internacional das políticas públicas em Alimentação e Nutrição, em detrimento de mudar ideias, que seria mais usual na busca da mudança comportamental. Os autores argumentam que enquanto esta última abordagem se baseia em informações conscientes e fundamenta-se em processos, a primeira lida predominantemente com o sistema automatizado subconsciente do cérebro, tentando facilitar a mudança ao alterar o contexto ambiental no qual as pessoas tomam decisões. De qualquer modo, o que fica patente nesse e em outros artigos mais recentes é a grande dificuldade que se coloca aos estudiosos do comportamento quando é preciso efetuar mudanças (TEIXEIRA, 2016; BULL et al., 2014BULL, E. R. et al. Are interventions for low-income groups effective in changing healthy eating, physical activity and smoking behaviours? A systematic review and meta-analysis. BMJ Open, v. 4, n. 11, e006046, 2014. Doi: http://dx.doi.org/10.1136/bmjopen-2014-006046.
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). Kelly e Barker (2016) apontam que todo problema reside no fato de que se buscam respostas simples e não científicas para problemas complexos.

Nesse sentido, saindo da simplicidade com que costumamos tratar as questões comportamentais no campo da Alimentação e Nutrição, podemos considerar que a própria definição de comportamento é por si só problemática, pois se a afirmação corrente de que “o comportamento é a interação entre o organismo e o ambiente” (TORODOV, 2012, p. 33) for tratada de forma mais rigorosa, veremos que a ampliação de sua definição expõe sua limitação a ponto de torná-la indefinida. Isto quer dizer que à medida que o comportamento é um tipo de interação dentre vários outros tipos de interações que se dão entre organismo e ambiente, causando alterações em ambos, depreende-se daí que qualquer interação que o organismo realiza com seu meio ambiente são interações que envolvem alguma alteração no organismo com alguma alteração no ambiente. Essas interações, contudo, não são necessariamente comportamentos (TODOROV, 2012). Nesse sentido, não seria demasiado simples identificar comportamento com interação? E ainda, dada a complexidade da definição do comportamento, como isolá-lo dos demais fatores e conhecê-lo de modo exaustivo?

Numa perspectiva médica ou neurocientífica, outra definição igualmente problemática é apresentada por Michie et al. (2014), segundo a qual o comportamento é entendido como “qualquer ação de um indivíduo que responda a eventos internos ou externos” (p. 36). Apesar da conceituação demasiado abrangente, os autores propõem uma subdivisão dessas ações que engloba por um lado as ações explícitas que podem ser motoras ou verbais e de outro as ações implícitas que corresponderiam a atividades não visíveis envolvendo musculatura voluntária. Em suma, para os autores, os “comportamentos são eventos físicos que ocorrem no corpo e são controlados pelo cérebro” (p. 36). Nesse sentido, os comportamentos ficam atrelados à sua dimensão mensurável, localizável e controlável ancorados na concretude cerebral, livres em sua definição de qualquer interação com o contexto em que se dão. Ora, uma ação é sempre dependente de vários elementos corporais, assim como do ambiente em que se desenrola, onde promove seus efeitos e consequências. Depreende-se daí um primeiro questionamento acerca da necessidade extrema de isolar os comportamentos, restringindo-os a uma mecânica biologicista: a que serve esse ideal científico exacerbado que priva o entendimento de toda complexidade que lhe é própria?

Motivação e mudança: duas faces de uma moeda

Para dar conta de entender as necessidades conceituais das teorias comportamentais inscritas no campo da Psicologia da Saúde, Ogden (2016) interroga se há um limite para a sistematização de teorias e técnicas ligadas às mudanças comportamentais e, consequentemente, dos modelos de comportamento. Destaca que nesse campo teórico a variabilidade deve ser festejada e não removida como se fosse algo reprovável e indesejável. Para chegar a essa polêmica afirmação, Ogden faz um instigante percurso no qual destaca as diversas nuances dessa variabilidade: para a Medicina ela assume a forma do comportamento do profissional de saúde, para a Educação é o estilo e o conteúdo dado em sala de aula que é sempre muito variável, enquanto para a Psicologia da Saúde a variabilidade pode ser encontrada tanto no comportamento do paciente, quanto nas teorias usadas e até mesmo na própria prática clínica.

Segundo Ogden (2016), as soluções relacionadas à educação em saúde adotadas até recentemente para problemas relacionados diretamente ao aumento das DCNTs - tais como a persistência de grande parte dos pacientes em manter dietas precárias, o contínuo aumento do número de casos de obesidade em todo o mundo, o tabagismo, o sedentarismo e a baixa adesão aos tratamentos - indicam que o conhecimento por si só não se traduz em ações efetivas (DEBUSSCHE, 2014DEBUSSCHE, X. Is adherence a relevant issue in the self-management education of diabetes? A mixed narrative review. Diabetes Metab Syndr Obes, v. 7, p. 357-67, 2014. doi: 10.2147/DMSO.S36369.
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). Além disso, estudos indicam que há grande dificuldade em efetuar e manter as mudanças de comportamentos inadequados, ressaltando as dificuldades teóricas e práticas enfrentadas pelos profissionais de saúde na promoção de hábitos saudáveis (PRESTWICH et al., 2014; CONNER; NORMAN, 2015CONNER, M. T.; NORMAN, P. Predicting health behaviour: research and practice with social cognition models. London: Open University Press, 2015.; KWASNICKA et al., 2016).

Para preencher essa lacuna, foram desenvolvidas estratégias apoiadas em teorias motivacionais propondo-se tarefas de autoafirmação, planejamento e implementação de metas de mudança que funcionam até certo ponto. Entretanto, o problema da variabilidade dos pacientes mostrou-se complicado, o que fica explícito na subsequente publicação de artigos, demonstrando que o comportamento só pode ser alterado para algumas pessoas durante algum tempo e não por muito tempo, muito menos definitivamente (HARTMANN-BOYCE et al., 2013; BULL et al., 2014BULL, E. R. et al. Are interventions for low-income groups effective in changing healthy eating, physical activity and smoking behaviours? A systematic review and meta-analysis. BMJ Open, v. 4, n. 11, e006046, 2014. Doi: http://dx.doi.org/10.1136/bmjopen-2014-006046.
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). Estudos ressaltam ainda que o contexto tem influência direta na mudança de comportamentos e em sua manutenção, assim como um contexto estável tende a ser favorável para o início de um processo de mudança (KWASNICKA et al., 2016).

Foi em 2008, porém, que a Behaviour Change Technique Taxonomy22 Taxonomia das Técnicas de Mudança de Comportamento (tradução nossa). foi proposta por um grupo de pesquisadores (ABRAHAM; MICHIE, 2008ABRAHAM, C.; MICHIE, S. A taxonomy of behavior change techniques used in interventions. Health Psychol, v. 27, n. 3, p. 379-87, 2008. doi: 10.1037/0278-6133.27.3.379.
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; MICHIE et al., 2011; 2013; MICHIE; WOOD, 2015) e se tornou um empreendimento multidisciplinar de enorme sucesso. Esta proposta tinha como objetivos: 1) codificar protocolos como meio de descrever e sistematizar técnicas de mudança comportamental, para que os protocolos pudessem ser mais claros e os estudos pudessem ser replicados e 2) usar esse exercício de codificação para produzir uma taxonomia que, por sua vez, poderia ser usada para identificar quais técnicas são mais eficazes. Em tese esse esforço maximizaria a eficácia das intervenções, os pacientes mudariam seu comportamento e o problema da variabilidade dos pacientes seria definitivamente resolvido.

Contudo, Ogden (2016) identificou que entre aquilo que um protocolo pode realmente prever e codificar e o que as pessoas de fato fazem existem muitas lacunas: primeira e fundamentalmente há uma lacuna entre as crenças do paciente e seu comportamento, mas também entre o comportamento do paciente e o do profissional de saúde, entre o comportamento do profissional de saúde e suas próprias crenças sobre como agir com o paciente, entre essas crenças e o treinamento que receberam para executar determinada intervenção, entre o protocolo e o treinamento feito com base nele e, por fim, entre o protocolo em si e aquele que o codificou. O que há na verdade é um imenso abismo entre o protocolo e o comportamento do paciente propriamente dito.

No que diz respeito à variabilidade da teoria, Ogden (2016) ressalta que nos últimos 50 anos, foram desenvolvidas, testadas e aplicadas uma série de teorias que incluem tanto perspectivas amplas quanto modelos mais específicos, e dá destaque para um modelo integrado que transformou a pesquisa nos últimos anos: o COM-B. Com foco na Capacidade, Oportunidade e Motivação e na Roda de Mudança de Comportamento apresentados em pesquisas capitaneadas por Michie, esse modelo visa reduzir a variabilidade da teoria e identificar uma abordagem sistematizada integrada que transcenda as perspectivas individuais e possa ser aplicada a todos os comportamentos. Ao mesmo tempo que Ogden reconhece que essa admirável tentativa reflete a necessidade de apresentar uma visão simplificada e precisa dos processos que sustentam o comportamento em saúde (HAGGER, 2009 apud OGDEN, 2016), ela interroga em que medida essa simplificação promove e facilita a criatividade dos que pensam nesses desafios.

Para a autora, esse percurso denuncia que aspectos teóricos e técnicos privilegiados por saberes hegemônicos acabam por construir verdadeiras caixas-pretas cujo grau de verdade é inquestionável (LATOUR, 1987) e que, no limite, impossibilitam o próprio avanço científico. Trata-se na verdade de uma impossibilidade característica dos paradigmas científicos que tendem a marginalizar ideias que desafiam visões dominantes ou grupos de pesquisa que tentam apresentar perspectivas opostas (OGDEN, 2002). Nesse sentido, promover a variabilidade da teoria é o que permite que os cientistas permaneçam livres, independentes e criativos, e não a mensuração e o controle extremo que vem sendo exigido e valorizado no campo científico. Da mesma maneira, a autora defende que a variabilidade das ferramentas utilizadas na prática pelos profissionais de saúde garante a aliança terapêutica onde a flexibilidade, variabilidade e mudança de acordo com o tipo de comportamento, o tipo de intervenção ou mesmo o tipo de paciente podem ser exercitadas. Para Ogden, se removermos essa variabilidade e sistematizarmos uma polegada de nossas vidas, não seremos mais profissionais, mas sim técnicos.

A Nutrição neoliberal: aprisionamento travestido em discurso libertador

Os argumentos e elementos teóricos percorridos desafiam a (re)conhecer e aprofundar aspectos relevantes que têm sido resumidos ou omitidos na apresentação de abordagens comportamentais no campo na Alimentação e Nutrição. Dentre as reflexões necessárias, duas se colocam como primordiais: a que servem tais abordagens e para onde elas nos levam?

Essas perguntas localizam elementos que vinculam processos e práticas em curso no campo da Alimentação e Nutrição ao contexto histórico atual no qual os efeitos socioculturais relacionados à consolidação das sociedades capitalistas não nos permitem ver com clareza as estratégias de poder e controle que impactam inevitavelmente no discurso científico. O título do presente artigo faz alusão direta à expressão “fábrica do sujeito neoliberal” proposta por Dardot e Laval (2016DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Editora Boitempo, 2016.), que busca nomear o modo de produção das subjetividades que não escapam aos efeitos deletérios do neoliberalismo e que se pulverizam em diversos dispositivos de controle e autocontrole. Da mesma maneira, buscamos indicar aqui como esses efeitos impactam a nutrição promovendo novas e perigosas abordagens que vêm sendo amplamente propagadas no campo da saúde.

De acordo com Purser, em seu livro McMindfulness: How the mindfulness became the new capitalist spirituality (2019), o Mindfulness (ou Atenção Plena, como é chamado no Brasil) é somente um treinamento básico de concentração, mas que tem sido vendido como um produto que tem o potencial de desencadear uma revolução global. Entretanto, essa ferramenta de autodisciplina disfarçada de autoajuda, ao invés de dar ao praticante a desejada liberdade, fornece na verdade as condições que o levam ao seu aprisionamento dentro de um sistema estruturado. Relacionando essa estratégia ao contexto do trabalho onde a prática de Mindfulness vem sendo amplamente usada no manejo do estresse dos trabalhadores, Purser (2019), sustenta a ideia de que o propalado potencial revolucionário do Mindfulness, ofusca a lógica capitalista implícita nessa prática: a meditação fast-food acaba por colaborar para a efetivação das formas mais graves de exploração dos trabalhadores, dizendo-lhes que o estresse é algo que cada um deve lidar individualmente, esvaziando as esferas coletivas de resistência à alienação do trabalho e subjetiva. Tais práticas - que vêm sendo implementadas nas empresas, mas também em diversos âmbitos da vida cotidiana e que se inserem na chamada “Mindfulness Revolution” (p. 7) - nada mais são do que meros instrumentos do mercado que visam, com seu ethos terapêutico, aprimorar a resiliência dos indivíduos, endossando ao mesmo tempo os pressupostos neoliberais de que todos são livres para escolher seus caminhos, gerenciar emoções negativas e florescer utilizando várias formas de cuidar de si.

Assim como qualquer nova dieta que aparece no verão, essas abordagens se vendem com uma aparência de cientificidade para ganhar credibilidade, mas as evidências científicas de sua eficácia deixam muito a desejar. Vale ressaltar que o Mindfulness já movimentou uma indústria de quatro bilhões de dólares nos Estados Unidos (PURSER, 2019), abrangendo venda de livros e cursos presenciais e à distância que englobam variedades que vão desde o Mindful Parenting, Mindful Teaching, Mindful Leadership, Mindful Finance, Mindful Dog Owners até o Mindful Eating, que se tornou, curiosamente, popular entre os nutricionistas brasileiros sob o nome “Comer com Atenção Plena”.

Considerada uma das técnicas da Nutrição Comportamental® (ALVARENGA et al., 2019ALVARENGA, M. S. et al. (Orgs.). Nutrição Comportamental. 2. ed. Barueri: Manole, 2019.), o Mindful Eating se propagou rapidamente entre os nutricionistas, pois despontou como um recurso inovador para lidar com a ansiedade no contexto da dita epidemia global de obesidade. Segundo Bays (2009BAYS, J. C. Mindful eating: a guide to discovering a healthy and joyful relationship with food. London: Shambala, 2009. apud ALVARENGA, 2019, p. 260), trata-se de uma:

[...] experiência que engaja todas as partes do nosso ser - corpo, mente e coração - na escolha e preparo da comida, bem como no ato de comê-la em si. Envolve todos os sentidos. O comer com atenção plena nos imerge nas cores, texturas, aromas, sabores e até mesmo sons do comer e beber. Permite que sejamos curiosos e até lúdicos enquanto investigamos nossas respostas à comida e nossos sinais internos de fome e saciedade.

Destaca-se dessa definição o tom pacificador que faz com que se acalmem sentimentos individuais gerados pela vida cotidiana por meio do resgate de aspectos da comida e do comer que não se encaixam na correria e urgência característicos da sociedade contemporânea. Esse caráter conciliador que a prática do Mindfulness promoveria, entretanto, desvia o olhar das desigualdades sociais, políticas e econômicas que inevitavelmente causam o estresse e a ansiedade a grande parte da população brasileira e que se relacionam, em última análise, com o crescimento dos casos de sobrepeso e obesidade, mas também da fome e da desnutrição. Essas causas que se vinculam diretamente ao modo de produção capitalista ficam minimizadas e toda responsabilidade recai sobre o indivíduo que deve encontrar formas de realizar as orientações, tornando-se uma pessoa com ampla capacidade de autocontrole.

Essa estratégia de psicologização e de privatização da religiosidade (CARRETTE; KING, 2005CARRETTE, J.; KING, R. Selling spirituality: The silent takeover of religion. London: Routledge, 2005.apud PURSER, 2019) atreladas ao Mindfulness é política. Melhor dizendo, essa estratégia, como muitas outras, equivale ao que Han (2018) nomeia como Psicopolítica. Ou seja, trata-se de novos dispositivos de poder próprios ao neoliberalismo que exploram o indivíduo a tal ponto que o submete a si mesmo e a seu desempenho. Nessa linha, Dardot e Laval (2016DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Editora Boitempo, 2016.) consideram que o empreendedorismo de si é alimentado por um regime concorrencial que exige a todo momento que o indivíduo seja o melhor, ou ainda, que ultrapasse até mesmo seus próprios limites, impondo uma nova norma subjetiva. Desse modo, o sistema neoliberal teria enfraquecido as tradicionais formas de ação coletiva à medida que os indivíduos estão submetidos a um regime de concorrência que opera em todos os níveis.

Vale destacar que os dispositivos em jogo na fabricação desse sujeito neoliberal ultrapassam as disciplinas clássicas que operavam pela coerção, pelo adestramento e docilização dos corpos (FOUCAULT, 1988______. História da Sexualidade 1: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.; 2000), e levam o indivíduo a envolver-se completamente com a tarefa que lhe é exigida. Esse sujeito neoliberal é o sujeito do envolvimento total de si mesmo, da racionalização do desejo que passa a ser cooptado pelos dispositivos de poder que se tornam parte do próprio sujeito.

Desse modo, injunge-se o sujeito a conformar-se intimamente, por um trabalho interior constante, à seguinte imagem: ele deve cuidar constantemente para ser o mais eficaz possível, mostrar-se inteiramente envolvido no trabalho, aperfeiçoar-se por uma aprendizagem contínua, aceitar a grande flexibilidade exigida pelas mudanças incessantes impostas pelo mercado. Especialista em si mesmo, empregador de si mesmo, inventor de si mesmo, empreendedor de si mesmo: a racionalidade neoliberal impele o eu a agir sobre si mesmo para fortalecer-se e, assim, sobreviver na competição (DARDOT; LAVAL, 2016DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Editora Boitempo, 2016., p. 330).

Essa mesma lógica em curso no campo do trabalho pode ser a chave de entendimento dessas novas abordagens na Alimentação e Nutrição. Pois, assim como o Mindful Eating exige o engajamento de todas as partes do nosso ser e a total concentração no que se come, onde se come e como se come, a Nutrição Comportamental® (ALVARENGA et al, 2019ALVARENGA, M. S. et al. (Orgs.). Nutrição Comportamental. 2. ed. Barueri: Manole, 2019.) propõe a mudança real e consistente do comportamento alimentar por meio de técnicas de automonitoramento e autocontrole. Da mesma maneira, o Comer Intuitivo propõe-se a ensinar o indivíduo a diferenciar a fome física da fome emocional e sugere que o comer deve acontecer de acordo com as sensações de fome, apetite e saciedade.

Ora, essa é uma antiga discussão filosófica que não cabe retomar aqui neste ensaio, mas vale lembrar que a distinção segura e garantida entre o físico e o emocional nunca foi delimitada, restando tão somente o esforço hercúleo de racionalizar cada passo, cada desejo e cada mordida para poder restringir aquilo que é determinado pela norma vigente como o que se deve ou não se deve comer. Assim, alimentar-se por razões físicas garantiria o prazer associado que não estaria presente na alimentação por razões emocionais. A estratégia de resgate da intuição, tão valorizada por povos ancestrais, é capturada por meio de uma espécie de sabedoria corporal que, com devido treinamento, torna os praticantes “experts do próprio corpo” (ALVARENGA; FIGUEIREDO, 2019ALVARENGA, M. S. et al. (Orgs.). Nutrição Comportamental. 2. ed. Barueri: Manole, 2019., p. 228). Se por um lado a proposta atende aos apelos neoliberais de conformação do indivíduo à norma, a mesma não proporciona um prazer nem liberta os indivíduos da propagada mentalidade da dieta.

Vigiar-se a si mesmo, controlar-se a si mesmo, entender-se a si mesmo e meditar, essa é a ética do nosso tempo. Essa ética neoliberal que alicia as subjetividades não permite nenhuma liberdade: o domínio exacerbado de si aparece como a contrapartida de uma situação global incontrolável (DARDOT; LAVAL, 2016DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Editora Boitempo, 2016.). A liberdade é a moeda de troca, o tesouro perdido, o santo Graal almejado e desejado por todos. É ela que, mesmo elidida das relações sociais, captura corações e mentes. Onde ela está? Certamente a lógica comportamental que circula no campo da Alimentação e Nutrição promete uma liberdade para aquele que se livra dos problemas relacionados à alimentação, à tortura das dietas e do desconforto com o corpo, mas o que ela entrega é, na verdade, uma outra prisão. A lógica do controle extremo não favorece a emergência da liberdade. Pelo contrário. A estratégia de responsabilização do indivíduo por si mesmo obriga cada um a responder por seu comportamento a partir de padronizações que são externas ao sujeito.

Ao responsabilizar sobremaneira o indivíduo, decerto estamos desresponsabilizando outros como o Estado e as políticas públicas. A liberdade, nesse contexto, está conjugada com o poder, ele se serve dela uma vez que é ela quem entrega os sujeitos na bandeja para a máquina capitalista. O sujeito, em nome da liberdade, se entrega de corpo, mente e alma ao que se quer fazer dele, exigindo de si mesmo que produza sempre mais, deseje sempre mais e atinja sempre o máximo, mais além do equilíbrio outrora desejado.

Últimas considerações

E assim, mais uma vez, estamos diante de refinados mecanismos de controle que têm como foco o comportamento. Mas o sujeito em sua essência é rebelde e não se deixa dominar facilmente. A variabilidade com que cada indivíduo se apresenta nos consultórios nas clínicas de família, nos hospitais, nos locais de trabalho é o testemunho da resistência que se desdobra a cada nova tentativa de dominação e padronização. Apostar como tiro certeiro que essas abordagens são a salvação para os desafios e impasses ligados à nutrição é colocar a perder todo esforço e investimento que vem sendo feito pelo campo científico da Alimentação e Nutrição em sua abertura polifônica a outros discursos e saberes. Se há inovação neste campo, ela não é simples e não depende da incorporação simplista de uma nova técnica que não conhecemos com uma oratória bem trabalhada por marqueteiros reconhecidos. Conhecemos as dificuldades cotidianas dos profissionais de saúde no cuidado a pessoas com sobrepeso e obesidade, por exemplo, mas também em tantos outros agravos à saúde. Reconhecemos os limites e dificuldades da nossa atuação. Só nos falta criar algo que não esteja a serviço da servidão voluntária dos indivíduos.

A crítica aqui delineada em relação às novas abordagens no campo da Alimentação e Nutrição nos remete ao que propõe Agamben em seu “Elogio da profanação” (2007AGAMBEN, G. Elogio da profanação. In: ______. Profanações. São Paulo, Boitempo, 2007. p. 65-79.). Assim como uma religião que subtrai coisas, lugares ou pessoas ao uso comum transferindo-as a outra esfera, o dispositivo biomédico desloca o corpo e a alimentação para a esfera do sagrado, subtraindo aí o uso que se pode fazer deles e delegando aos experts (cada vez mais espertos) a tarefa de criar, publicizar e vender as normas e regras a que os sujeitos devem se identificar e, partir daí, desejar.

As teorias comportamentais, as religiões orientais e as técnicas motivacionais, ao serem incorporadas pelas práticas e teorias nutricionais de forma simplificada reiteram, de modo velado e ingênuo, mecanismos de dominação social que se expressam nessa busca desenfreada por uma saúde plena que aponta uma supernormalidade (NEVES et al., 2015). A restituição da possibilidade de criar regras para si que comportem alguma liberdade ou alguma separação em relação à sujeição neoliberal passa necessariamente por certa negligência, onde se pode desejar algo que não seja mais além do máximo. Nas palavras de Agamben, “é importante arrancar dos dispositivos - de todo dispositivo - a possibilidade de uso que os mesmos capturam. A profanação do Improfanável é a tarefa da geração que vem” (2007, p. 79). Se há alguma liberdade, ela está no resgate do desejo com todos os riscos de perdas e falhas que o constituem.33 C. M. Seixas: concepção e coordenação da pesquisa, redação do artigo e revisão final do artigo. J. P. Casemiro, C. O. Coutinho e T. N. Conde: concepção da pesquisa e redação do artigo. A. L. Brandão: revisão crítica do conteúdo intelectual.

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  • *
    Este trabalho apresenta resultados preliminares da pesquisa “Obesidade e Transtornos Alimentares: interfaces entre o campo da Alimentação e Nutrição e as abordagens psicológicas e psicanalíticas”, financiada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro por meio dos programas Prociência e PIBIC e pela FAPERJ (APQ1 e TCT).

  • 1
    Segundo Monteiro (2009), os alimentos ultraprocessados são formulações industriais prontas para consumo e feitas inteira ou majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos (óleos, gorduras, açúcar, proteínas), derivadas de constituintes de alimentos (gorduras hidrogenadas, amido modificado) ou sintetizadas em laboratório com base em matérias orgânicas (corantes, aromatizantes, realçadores de sabor e outros aditivos usados para alterar propriedades sensoriais).
  • 2
    Taxonomia das Técnicas de Mudança de Comportamento (tradução nossa).

  • Errata

    No artigo “Fábrica da nutrição neoliberal: elementos para uma discussão sobre as novas abordagens comportamentais”, com número de DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73312020300411 publicado no periódico Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 30, n. 4, e300411, na página 1, erro de nome de autor:
    ONDE SE LÊ:
    Cristiane Marques Seixa
    LEIA-SE:
    Cristiane Marques Seixas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Dez 2020
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    02 Abr 2020
  • Aceito
    31 Jul 2020
  • Revisado
    07 Out 2020
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