Resposta ao artigo “O que a medicina social latino-americana pode contribuir para os debates globais sobre as políticas da Covid-19: lições do Brasil”

Kamila Honorato da Silva Nicolas Oliveira Potrich Aline Oenning Baggio Chaiana Esmeraldino Mendes Marcon Sobre os autores

Lemos o artigo ''O que a medicina social latino-americana pode contribuir para os debates globais sobre as políticas da Covid-19: lições do Brasil'' (http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73312020300205) com grande interesse e admiração; o estudo aborda aspectos relacionados a pandemia e suas desigualdades. Assim, gostaríamos de complementar a ideia central do texto e discutir acerca do contraste sociocultural presente no Brasil.

O acesso ao abastecimento de água potável é essencial para garantir avanços em diversos âmbitos sociais, sendo que melhoria na saúde, redução da mortalidade, implantação de hábitos de higiene são alguns destes aspectos (RIBEIRO; ROOKE, 2010RIBEIRO, J. W.; ROOKE, J. M. S. Saneamento básico e sua relação com o meio ambiente e a saúde pública. 2010. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Análise Ambiental) - Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2010. Disponível em: https://www.ufjf.br/analiseambiental/files/2009/11/TCC-SaneamentoeSa%C3%BAde.pdf. Acesso em: 1º out. 2020.
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). Desta forma, a Organização Mundial da Saúde (OMS) vem orientando desde o início desta nova doença sobre maneiras para o enfrentamento à pandemia, por meio da internet, as quais há necessidade do saneamento básico. A principal recomendação a ser seguida refere-se à higienização das mãos com água e sabão, a qual, por muitos brasileiros é considerada uma prática simples (OMS, 2020). Infelizmente, isso não se faz possível em cerca de 30 milhões de brasileiros que não têm acesso ao abastecimento de água por rede geral. A partir do exposto, pode-se traçar variáveis sociodemográficas que mais são vinculadas a essa falta de saneamento básico e os mais discrepantes foram: pretos ou pardos, sem instrução ou fundamental incompleto, área rural, sem acesso à internet (IBGE, 2018).

A desigualdade na distribuição de serviços de saneamento básico é um ponto fundamental, sobretudo em áreas menos favorecidas, periferias e áreas rurais e suas variáveis descritas anteriormente não se encontram isoladas umas das outras. A população preta e parda - que segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) representa, respectivamente, 9,4% e 46,8% da população brasileira - muitas vezes reside nesses locais e sofre com as poucas condições sanitárias, as quais prejudicam os cuidados básicos essenciais para a prevenção da Covid-19 (IBGE, 2020). Somado a essas complicações, o nível de escolaridade - ensino fundamental incompleto - e a baixa renda dificultam o acesso à informação, bem como a serviços de saúde.

Além disso, a área rural também pode ser um entrave quando tais complicações, ou seja, um indivíduo residente da área rural encontra-se desfavorecido em relação aos centros urbanos por estar distante do acesso ao saneamento básico, eletricidade, coleta de lixo (DELGADO; BERGAMASCO, 2017DELGADO, G. C.; BERGAMASCO, S. M. P. P. (Orgs.). Agricultura Familiar Brasileira: desafios e perspectivas de futuro. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Agrário, 2017. Disponível em: http://www.contag.org.br/imagens/ctg_file_1545382720_30072019083023.pdf. Acesso em: 1º out. 2020.
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). Assim, pode haver consequências em relação ao conhecimento da doença e sua prevenção, pois a promoção de saúde em meio ao isolamento social se faz majoritariamente por meio da internet, portanto, um obstáculo para zonas rurais e vilas, visto que o mesmo é mais acessível nos centros (VIERO; SILVEIRA, 2011VIERO, V. C.; SILVEIRA, A. C. M. da. Apropriação de tecnologias de informação e comunicação no meio rural brasileiro. Cadernos de Ciência & Tecnologia, Brasília, v. 28, n. 1, p. 257-277, jan./abr. 2011. Disponível em: file:///C:/Users/Usuario/Downloads/12042-49186-1-PB.pdf. Acesso em: 1º out. 2020.). Para que a promoção de saúde seja efetiva na comunidade rural, deve-se adotar novos meios de conscientização, para que haja maior cobertura de informações acerca da Covid-19.

Como também citado no estudo, podemos observar como as favelas necessitam de uma estratégia diferenciada ao combate à pandemia, visto que as superlotações em uma mesma moradia, condições econômicas diminuídas e acesso à água muitas vezes prejudicado podem atrapalhar a prevenção e acelerar a disseminação entre os indivíduos (GUIMARãES, 2020GUIMARãES, L. Favelas serão as grandes vítimas do coronavírus no Brasil, diz líder de Paraisópolis. BBC News Brasil. 18 mar. 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2020/03/18/favelas-serao-grandes-vitimas-do-coronavirus-no-brasil-diz-lider-de-paraisopolis.htm??cmpid=copiaecola. Acesso em: 1º out. 2020.
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). No entanto, a adoção de medidas sanitárias para minimizar os problemas de saúde implica um comprometimento mútuo entre os setores econômicos, políticos e sociais.11 K. H. A Silva, N. O. Potrich, A. O. Baggio e C. E. M. Marcon participaram igualmente de todas as etapas de elaboração deste texto.

Referências

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Abr 2021
  • Data do Fascículo
    2021

Histórico

  • Recebido
    23 Out 2020
  • Aceito
    18 Nov 2020
  • Revisado
    05 Jan 2021
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