Revisitando as “duas culturas”: novas perspectivas para as humanidadesDefining ScienceHumanities: Special Issue

Everardo Duarte Nunes Sobre o autor
Defining ScienceHumanities: Special Issue. Journal of Literature & Science. v.10. n. 2. 2017. 149 p

Há pouco mais de sessenta anos, no dia 7 de maio de 1959, Charles Percy Snow (1905-1980), cientista (físico e químico) e literato, cavaleiro do Reino Unido, proferiu na Senate House da Cambridge University a Rede Lecture “The Two Cultures”. A história dessa palestra desdobra-se no livro The Two Cultures and the Scientific Revolution (SNOW, 1959SNOW, C. P. The Two Cultures and the Scientific Revolution. New York: Cambridge University Press, 1959.), mas seus antecedentes estão no ensaio publicado na revista britânica New Statesman (SNOW, 1956). A história é retomada por Snow (1963), revendo o tema após ter sofrido uma contundente e demolidora crítica de F.R. Leavis (1895-1978), em 1962: “Não só ele não é um gênio; ele é intelectualmente tão medíocre quanto seja possível ser”; quanto à conferência, como sendo “de uma constrangedora vulgaridade de estilo” (LEAVIS, 2013LEAVIS, F. R. The Two Cultures? The Significance of C.P. Snow. Cambridge: Cambridge University Press, 2013, p 53-88., p. 54-56). Mas qual o motivo para tanta indignação? O que teria dito Snow?

Dois momentos marcam suas ideias: a divisão da vida intelectual em dois grupos polares -“intelectuais literários em um polo e, como mais representativos, os cientistas físicos. Entre os dois, um abismo de incompreensão mútua - às vezes (principalmente entre os jovens) hostilidade e aversão, mas acima de tudo falta de entendimento” (SNOW, 1998______. The Two Cultures. New York: Cambridge University Press, 1998., p. 4 - tradução livre).11 Todas as citações foram traduzidas pelo autor da resenha. O segundo momento situa o desafio de Snow para literatos e cientistas:

[…] Estive presente muitas vezes em reuniões de pessoas que, segundo os padrões da cultura tradicional, são consideradas altamente educadas e que com considerável entusiasmo expressam sua incredulidade pelo analfabetismo dos cientistas. Uma ou duas vezes fui provocado e perguntei quantos deles poderiam descrever a Segunda Lei da Termodinâmica. A resposta foi fria: também negativa. No entanto, eu estava perguntando algo sobre o equivalente científico de: Você leu uma obra de Shakespeare? (SNOW, 1998______. The Two Cultures. New York: Cambridge University Press, 1998., p. 14-15).

Snow atribuiu o problema das “duas culturas” às falhas da educação, ao antagonismo entre as ciências e as humanidades no Reino Unido, predominando as humanidades, em detrimento da formação científica. Em uma segunda edição, Snow apresentou o ensaio "The Two Cultures: A Second Look". Justifica a expressão “as duas culturas” como sendo

[...] apropriada para o propósito que eu tinha em mente. Agora penso, no entanto, que eu deveria ter enfatizado mais fortemente que eu estava falando como inglês, a partir da experiência principalmente da sociedade inglesa [...] e eu também disse que essa divisão cultural parece ser mais acentuada na Inglaterra. [...] Provavelmente é muito cedo para falar da existência de uma terceira cultura. Mas agora estou convencido de que isso está chegando. Quando chegar, algumas das dificuldades da comunicação serão finalmente atenuadas: para tal, a cultura tem apenas que fazer seu trabalho, estar em condições de falar com a [cultura] científica (SNOW, 1998______. The Two Cultures. New York: Cambridge University Press, 1998., p. 70-71).

Para Snow, isso seria “mais lucrativo para todos nós” e já estaria ocorrendo entre “alguns historiadores sociais [que] além de falar com cientistas. sentiram-se obrigados a desviar sua atenção para os intelectuais literários [...]” (SNOW, 1998______. The Two Cultures. New York: Cambridge University Press, 1998., p. 71). Com propriedade, Rutten, Stefaan e Ronald (2018RUTTEN, K.; STEFAAN, B.; RONALD, S. Introduction: Perspectives on Science and Culture. In: ______. (eds.) Perspectives on Science and Culture. West Lafayette, Indiana: Purdue University Press, 2018, p. ix-xxiii., p. xii) assinalam: “Até hoje, o conceito sobreviveu como um tropo para enquadrar o debate entre humanidades e ciência”.

A revisão do número especial do Journal of Literature & Science em 2017, “Defining ScienceHumanities”, oferece a oportunidade de reler Snow e de ampliar a discussão sobre as humanidades. Foi elaborado pelo grupo da Cardiff University em 2016, e de um colóquio realizado em dezembro de 2016, para pesquisar de forma colaborativa os desafios, funções e os bons resultados entre as ciências e as humanidades de forma crítica, e as interações entre diferentes campos de conhecimento, denominando-o ScienceHumanities. O número foi organizado por James Castell (lecturer em Literatura Inglesa), Keir Waddington (professor de História) e Martins Willis (professor de Literatura Inglesa).

Inicialmente, Castell, Waddington, Willis (2017WILLIS, M.; WADDINGTON, K.; CASTELL, J. ScienceHumanities: Theory, Politics, Practice. Journal of Literature and Science, v. 10, n. 2, 2017, p. 6-18., p. 1) esclarecem:

ScienceHumanities é uma tentativa ambiciosa de pensar e repensar as relações e as fronteiras entre as humanidades e as ciências. Em vez de repetir os debates familiares entre duas culturas, acreditamos que os desafios globais que enfrentamos agora e no futuro exigem uma reavaliação urgente e rigorosa de como conceituar as fronteiras disciplinares e a produção de conhecimento.

Acrescentam:

É por essa razão que nosso termo - ScienceHumanities - passa a ser usado como uma versão combinada de um binário disciplinar anterior. Isto envolve: abordagens teóricas, políticas e práticas pluralistas das humanidades, aproximação das diferentes disciplinas das ciências e humanidades, trabalho colaborativo, eliminação de espaço entre “ciência” e “humanidades”, em direção à transdisciplinaridade. [...] encontrar novos conhecimentos nos interstícios da sua união em vez de em suas esferas separadas.

Esses objetivos são atingidos na apresentação dos artigos dividida em três seções: triangulações, especulações e práticas.

Antes dos artigos, Willis, Waddington, Castell (2017WILLIS, M.; WADDINGTON, K.; CASTELL, J. ScienceHumanities: Theory, Politics, Practice. Journal of Literature and Science, v. 10, n. 2, 2017, p. 6-18., p. 6) escrevem um Prelúdio no qual apresentam os desafios das “ScienceHumanities”:

[...] existem dois conjuntos de desafios a serem enfrentados: os próprios desafios e o desafio dos novos modos de colaboração necessários para enfrentá-los. Muitas vezes, como sugerimos aqui, esses desafios solidificam as fronteiras disciplinares em vez de possibilitar novas maneiras. de trabalhar juntos.

Retomando a nomenclatura ScienceHumanities afirmam “a necessidade do pluralismo [ser] incorporado na transdisciplinaridade como um modo de pensar sobre a emergência e desenvolvimento de modos de pensamento altamente diversos” (p. 10). Sobre as suas origens:

O uso de um termo único - ScienceHumanities - e sua adoção nasceu da nossa experiência de sermos incapazes de encontrar colaborações úteis em buscas na web ao usar os termos ciência e humanidades em suas estruturas linguísticas familiares - palavras individuais. Isso gera muitos milhões de acessos impossibilitando a busca e criação de conhecimento. A união das duas palavras, ao contrário, permite que as colaborações sejam descobertas no ambiente digital e reformuladas (p. 10).

Ao desconfiar dos “códigos de decisão pré-estabelecidos”, ScienceHumanities “favorece a resposta a novas configurações disciplinares e a novos objetos de estudo em sua minuciosa particularidade, mas também com vistas a seus significados mais amplos” (p. 10). Nesse sentido, apontam que ScienceHumanities

[...] procura romper com a construção das Two Cultures como um texto fundamental e com uma descaracterização das formas de conhecimento e papéis que as humanidades têm em colaborações com as ciências. O colapso das falsas divisões entre as humanidades e as ciências, como Snow começou a fazer em seu segundo olhar, nos incentiva a pensar ainda mais em outros binários improdutivos que marcam a política de produção, autoridade e experiência do conhecimento (p. 11).

Citam que, além da relação entre países avançados e em desenvolvimento e a natureza do progresso e da modernidade de Snow, há que se considerar a denominada “superioridade ocidental”, o “pós-colonialismo”, os “desafios globais”.

Em relação às práticas decorrentes das novas propostas podem ser “situações compartilhadas (muitas vezes pelos próprios espaços em que ocorrem) que denominam ‘paisagem antropocênica’”. Muitas vezes os projetos podem ser diferentes entre si e exigem espaços específicos dentro do qual conceituam suas interações e desenvolvem novas epistemes e afirmam: “Há muito a aprender com as práticas existentes, e não apenas na maneira como negociam seu próprio local” (p. 13). Concluem, inicialmente, que os projetos compartilhados ainda demandam amadurecimento. Encerram a apresentação com o que denominam “A manifesto for the ScienceHumanities” que deixarei para o encerramento da resenha.

Três artigos fazem parte das triangulações. O primeiro é de Catherine Belling (professora associada de Educação Médica, Universidade de Northwester, Chicago) sobre a triangulação entre artes, ciências, humanidades. Critica as “duas culturas” que

[...] baseou-se, pelo menos, aproximadamente, não em diferenças nos métodos ou objetos de estudo, mas na etnografia amadora, comparando dois grupos: os cientistas com os quais Snow trabalhava durante o dia e com os colegas literários com quem se socializava à noite. Esse desalinhamento gerou para Snow a observação de que os cientistas (trabalham) e os tipos literários (divertem-se) eram mutuamente ininteligíveis [...] (p. 19).

Cita que “[n]a educação médica, por exemplo, às vezes é invocada defensivamente uma versão binária de Snow para apoiar as humanidades da medicina: além da ciência que é considerada como certa, existe o que é chamado de arte da medicina” (p. 19). Segundo essa versão, as humanidades estariam excluídas.

Para Belling, as humanidades podem ser as mediadoras entre arte e ciência. Recupera como o poeta e crítico Matthew Arnold (1822-1888) mostrava-se temeroso da inimizade que poderia ocorrer entre ciência e arte, citando análise de Huxley em "Science and Art" (1883): uma espécie de monstro (ciência) emergindo do mar do pensamento moderno com o objetivo de devorar a Andrômeda da arte [...] Mas sabemos a história; o monstro não consegue matar Andrômeda. Huxley triangula a dicotomia, lembrando-nos a terceira figura (Perseu) [...] Perseu não deve apenas atacar o monstro (pode vencer); a ciência, em vez disso, “respeita a dama (arte) e deseja nada mais do que vê-la feliz em se estabelecer e produzir anualmente um bando de crianças encantadoras” (isto é, obras de arte)”. Para Belling, “[r]einserir Perseu na imagem de Andrômeda e o monstro do mar nos permite ver o desalinhamento que, penso, tornou o uso naturalizante do binário de Snow tão prejudicial” (p. 21). Exemplifica como uma pintora e sua amiga, uma poeta, descobrem que cada uma delas passou recentemente por uma mamografia de rotina e relata suas observações sobre a experiência. O objetivo do estudo foi avaliar a qualidade de vida de um indivíduo, através de um estudo de caso, explorando o significado do conhecimento especializado cujo vocabulário não é necessário, apesar das diferenças no acesso a formas mais ou menos sofisticadas de processar e articular a experiência, mediadas pelas humanidades que dão significado ao conhecimento e às relações.

O segundo artigo, de Anton Kirchhofer (professor de Literatura Inglesa) e Anna Auguscik (pesquisadora da Universidade de Odenburg, Alemanha) examina que “essa relação [ciência e sociedade] pode parecer diferente depois que mudarmos o foco de como as ciências e humanidades são percebidas a partir de ângulos adicionais de observação”, ou seja, “uma discussão das atitudes da esfera pública em relação às ciências e às humanidades” (p. 29). Os autores analisam representações literárias de conceitos e práticas científicas e as respostas variadas e às vezes controversas de leitores em geral, cientistas e literatos.

O projeto faz parte do grupo de pesquisa Fiction Meets Science e examina como os revisores científicos e literários falam, respectivamente, sobre ciência na ficção. Segundo os autores, “[o]s romances que estudamos envolvem vários personagens de cientistas, eles são colocados pelo menos em parte em instituições ou laboratórios científicos e apresentam representações da ciência ao integrar concepções, problemas ou práticas científicas nas estruturas de suas tramas” (p. 26). Os romances são Solar (Ian McEwan) e State of Fear (Michael Crichton) e

[...] podem ajudar, portanto, a esclarecer nossa concepção da relação em evolução entre as ciências e o público, bem como entre as ciências e as humanidades. Tanto a perturbação causada pelo State of Fear quanto a celebração de formas viáveis de diálogo e troca ocasionadas pelo testemunho de Solar revelam o alto significado associado, do ponto de vista de um cientista, à distinção entre comunicação pública e interna (p. 34).

Deixando de lado a discussão na clássica dicotomia de Snow, ampliam o espectro das relações ciênciahumanidades.

O terceiro artigo, de Des Fitzgerald (lecturer em Sociologia, Universidade de Cardiff), visa “entender - o espaço experimental, enquanto fundamentado em uma prática intelectual (literatura, sociologia, geografia humana) que geralmente é excluída (de fato, definida por sua exclusão) precisamente nesse espaço”. Fitzgerald assinala que “o experimento pode oferecer um território surpreendentemente fértil para o pensamento e a prática interdisciplinares” (p. 39). Após rever o paradigma experimento na ciência seu significado para um sociólogo, historiador ou geógrafo cultural. Para ele, deve-se construir uma “lógica de um inter/experimento” e usar

[...] as trajetórias epistemológicas de diferentes disciplinas, não como maneiras de pensar sobre experimentos, mas como métodos para expandir o que pode ser possível dentro de experimentos e não fazê-lo no modo autocongratulatório do jogo experimental, mas como trabalho sério de produzir e reproduzir coisas (things) epistêmicas”, abrindo-se nos trabalhos colaborativos os denominados “experimental futures (p. 42).

O primeiro artigo do conjunto das Especulações é de David Clifford (professor de Inglês no Homerton College, Universidade de Cambridge, Reino Unido). Trata da relação bilateral entre as ciências humanas e os estudos literários “argumentando que eles possam ser pontos de uma teia em vez de disciplinas distintas” em um “ecossistema cultural de interdependência”. Baseado em suas atividades didáticas junto a estudantes que muitas vezes desvalorizam os estudos literários, propõe uma discussão em torno do que Darwin considerou a segunda maior conquista da humanidade - a evolução da linguagem. O proprio autor explica que seu objetivo é examinar “como a linguagem surgiu concomitantemente com as adaptações sociais e tecnológicas”, como também “lançar alguma luz adicional sobre a interdependência entre ciências e humanidades”. Amplia essa questão pra o campo das ScienceHumanities - “que essa interdependência não seja apenas mútua, mas que tenha sido uma história ao longo da história, e que nosso progresso social e tecnológico nunca teria evoluído sem que isso acontecesse” (p. 46) .

O segundo artigo trata do encapsulamento dos seres humanos de Chris Otter (pesquisador de História da Tecnologia, Ambiente, Saúde). O ensaio “[a]rgumenta que a análise multidisciplinar é essencial para evidenciar a complexidade histórica, material, cultural e existencial do processo de encapsulamento”. O material estudado baseia-se na literatura, história e filosofia, biologia evolutiva, geologia, ciência ambiental e arqueologia cognitiva. “Os humanos estão se tornando criaturas indoors” e “O encapsulamento tomou e continua a assumir duas formas sociais básicas: familiar ou doméstica (a casa) e extrafamiliar ou pública”. Para outros estudiosos constitui “[...] um agregado de microesferas (casais, famílias, empresas, associações) de diferentes formatos que, como as bolhas individuais em uma montanha de espuma, se confinam e se sobrepõem umas às outras, mas sem realmente serem acessíveis ou efetivamente separáveis uma da outra” (p. 56). Otter ressalta a importância da multidisciplinaridade para a compreensão do encapsulamento.

O terceiro artigo, de Bradon Smith (pesquisador Senior da Universidade de Bristol), aborda as Envirommental Humanities, em especial “sua nova relação com as Energy Humanities, podem nos ensinar sobre os tipos de matrizes transdisciplinares preconizadas pelas Ciências Humanas”. Para ele, essa questão envolve o atual relacionamento da sociedade com a mudança climática e com a política energética - “a onipresença física, social e cultural do petróleo”. Lembra inclusive que “existe um corpo crescente de práticas culturais e artísticas em torno da energia e das mudanças climáticas [...] o surgimento da ficção científica e da petroficção (dois gêneros distintos e crescentes de romances) [...]”. As conclusões do autor são interessantes para o campo das Humanidades - reconsiderar que as “Energy Humanities são uma espécie de equívoco, pois o foco na energia requer uma atenção transdisciplinar que rompe rapidamente as humanidades, englobando também as ciências sociais e naturais” (p. 71) e a melhor denominação seria Energy ScienceHumanities. Ao desenvolver uma nova epistemologia, também recria as possibilidades de uma metodologia clássica das humanidades - a narrativa.

O quarto artigo, de Daneil Cordle (professor de Inglês e Literatura Americana na Universidade de Nottingham Trent, Reino Unido) aborda, de forma geral “o que significa a ciência na perspectiva literária”, em especial a “era nuclear”, no que denomina “Nuclear Humanities”. Serve-se de uma obra literária, o romance The Accident, de Dexter Masters (1955MASTERS, D. The Accident. London: Cassell & Co. Ltd., 1955.) - “um híbrido interessante de ficção e história” que aborda com “liberdade artística”, não apenas “[uma] consciência nuclear emergente em meados da década de 1940”, mas a história do físico canadaense Louis Slotin (1910-1946), que morreu (21/maio/1946) de radioatividade contraída durante um experimento perigoso realizado em Los Alamos. Cordle relata que “embora Masters mude significativamente a história de Slotin”, ele tinha amplo conhecimento do assunto e familiaridade “com as pessoas que haviam fabricado a bomba [atômica que destruiu Hisoshima e Nagazasaki em 1945] e sabia como isso incomodava muitos deles”. No romanace, Louis Slotin é transformado em Louis Saxl, descendente de imigrantes judeus da América do Norte, neto de imigrantes alemães no meio-oeste dos EUA, em vez de filho de imigrantes russos no Canadá.

Segundo Cordle:

Essa transformação do evento em narrativa é um pequeno exemplo de um conjunto muito mais amplo de respostas criativas para a era nuclear e, por extensão, sinaliza um papel importante para a ScienceHumanities, promovendo, interrogando e compreendendo esse processamento da ciência, da tecnologia e de seus conhecimentos e consequências em termos humanos (p. 80).

Três artigos compõem a seção das Práticas. O primeiro, de Leah Knight (professora associada de Literatura Inglesa da Universidade Brock, em Ontário, Canadá) e Alison Mark (acadêmica independente em Engenharia de Materiais), transcreve a correspondência trocada entre as duas pesquisadoras. Esclarecem que nessa época pesquisavam temas referentes às suas áreas - engenharia de materiais e literatura inglesa e, que “Apesar de sermos amigas ao longo da vida, nunca trabalhamos para superar o aparente abismo entre nossos campos disciplinares”. Ao estabelecerem esse diálogo e os conhecimentos que pesquisavam procuraram “reavaliar como podemos interrogar e reconceituar os limites disciplinares na produção de conhecimentos [...] em relação a duas produtoras individuais”. Concluem que há muita coisa em comum entre cientistas e humanistas quando se tornam “curiosos” por determinado assunto, mas há claramente “diferenças na cultura” - por exemplo, o trabalho individual, reflexivo, pessoal e institucional dos humanistas, e o dos cientistas que trabalhan de forma colaborativa em experimentos custosos, equipamentos caros e medições que resultam em observações quantificadas. Lembram que nas “humanidades existem textos e imagens, teorias e narrativas, obras de arte e argumentação, enquanto o equipamento costuma ser a mente e as observações são geralmente qualitativas” (p. 102). Apesar dessas diferenças, nossas disciplinas tinham em comum, entre outros:

Encontrar padrões e trabalhar com analogias [...] saber que o dinheiro se tornou tão importante nas ciências humanas e que é cada vez mais esperado que elas sigam um modelo de financiamento semelhante à ciência [...] Finalmente, embora ambas esperássemos que o outro campo estivesse à frente com curadoria e reconhecimento digital, parece que nenhum dos dois descobriu como lidar muito bem com iniciativas digitais (p. 102).

O segundo artigo, de Charlote Sleigh (Professora de ScienceHumanities da Universidade de Kent), aborda os contextos de encontros entre arte e ciência, num cruzamento com filosofia, história e comunicação. Inicia o breve ensaio apontando como objects se transformam em things, a fim de entender “Where the A&S things are” e que “A&S podem ir além do STS (Science and Technological Studies), criando novos e estranhos híbridos [...], incluisve “espaços cívicos, museus locais, galerias, festivias e centros comerciais” (p. 109). Enfatiza o trabalho transdisiciplinar para as práticas integradas ScienceHumanities.

No terceiro artigo, Janine Rogers (professora de Literatura Inglesa, Medieval e Século XVI da Universidade de Mount Allison, New Brunswick, Canadá) inicia apontando um fato interessante: “a natureza plural das humanidades - um termo estranho: gramaticalmente plural, é no entanto frequentemente mencionado como um [termo] singular - tende a se localizar na diversidade entre disciplinas: os elos entre literatura e história, por exemplo, ou filosofia e clássicos” (p. 113). Acrescenta, e isso parece-me especialmente pertinente, que “[mas] a pluralidade das humanidades também pode e deve ser entendida como multiplicidade dentro das disciplinas” (grifo da autora). Chama atenção que “além do ethos do holismo hermenêutico, alguns dos preceitos específicos da cultura medieval podem inspirar novos pensamentos e trocas entre as ciências e as humanidades”. Destaco sua afirmação “que iniciativas como ScienceHumanities podem moldar novas comunidades e criar novas redes de amigos acadêmicos, que incluem formas de conhecimento recentes e resistem a mitos triunfalistas e progressistas da história do conhecimento [...] perigosa competitividade e hierarquização das disciplinas acadêmicas que visam as ciências humanas, em particular hoje” (p. 118).

O último artigo desta seção é de Laurence Talairach (professora de Inglês na Universidade Toulouse Jean Jaurès e pesquisadora associada do Alexandre Koyré Centre for the History of Science and Technology Science). A autora parte da consideração de que “[a] fertilização cruzada dos campos médico e literário não é novidade”. Originada nos séculos XVIII e XIX, chega ao século XXI, quando “a ascensão das humanidades médicas” constitui um novo cenário de reflexão da prática médica e da trajetória dos gêneros literários que “foi essencial para um projeto colaborativo com um museu médico e resultou na realização de um curta-metragem e uma exposição fotográfica”. Neste artigo a ênfase é sobre o museu de medicina, “um lugar que reduziu a divisão entre as ciências e as humanidades e que o projeto artístico desenvolvido ao redor do museu destacou a importância da estética para entender as coleções médicas, seus significados, seus usos e seu futuro” (p. 122). Lembra que o trabalho exigiu que os diversos participantes reformulassem seus “limites disciplinares” e a necessidade de criar ferramentas que possam avaliar as metodologias utilizadas.

O artigo conclusivo é de Robert Mitchel (professor de Inglês e Diretor do Center for Interdisciplinary Studies in Science and Cultural Theory, da Universidade de Duke). Sua proposição inicial:

Vivemos em um mundo que cada vez mais aspira a ser inteligente. Um mundo inteligente é, em parte, caracterizado por um número crescente de dispositivos inteligentes - por exemplo, smartfone, cidades inteligentes e redes elétricas inteligentes - que vinculam muitos usuários através de sensores e computação em tempo real (p. 128).

Em elaborada e erudita mas sintética apresentação, trata da “explosão da linguagem da inteligência”, “atual disseminação de tecnologias inteligentes”, “lógica da inteligência com a lógica da universidade” e “relacionamento entre as ciências e as humanidades”. Destaque-se, entre outros pontos, a questão levantada sobre o tipo de pesquisa na universidade (de caráter mais lento, por exemplo, doutorados que duram, nos Estados Unidos, cerca de cinco anos, e as exigidas pelo mercado), como também “um local de mediação” entre a vita activa e a vita contempativa, na acepção de Hanna Arendt, fundamental para “os defensores da ScienceHumanities [...] entender(em) smartness e suas implementações tecnológicas como um meio de equilibrar os objetivos da vida contemplativa e da vida ativa” (p. 137).

Complementam este número quatro revisões de artigos abordando diferentes assuntos. Como foi visto, a temática é das mais atuais e relevantes. A questão das humanidades - conceito e aplicação - tem atravessado as diferentes áreas do conhecimento, incluindo a medicina e a saúde. Trata-se de uma discussão inovadora que se estende à diversidade do conhecimento.

De A Manifesto for the ScienceHumanities (WILLIS; WADDINGTON; CASTELL, 2017WILLIS, M.; WADDINGTON, K.; CASTELL, J. ScienceHumanities: Theory, Politics, Practice. Journal of Literature and Science, v. 10, n. 2, 2017, p. 6-18.), extraio pontos que são básicos para essa proposta: prática transdisciplinar, igualdade de espaços a serem ocupados pelas humanidades, ciências sociais e ciências e alinhamento com seus diveros métodos de pesquisa (estético, experiencial, fenomenal, imaginativo, subjetivo e linguístico); trabalhar com problemas comuns, sem afiliações disciplinares específicas e sem hierarquias de poder; reconhecer e defender as diferenças entre as ciências humanas e as ciências, aceitar epistemologias particulares e seus valores; abertura para a investigação cultural; aprimorar pesquisas que estão ocorrendo em áreas especializadas; reconhecer “a diversidade da produção global de conhecimento e sensíbilidade à hegemonia das formações ocidentais de especialização”. Finalmente, que “colaborações desse tipo também devem defender a importância cívica e política do trabalho das ScienceHumanities, especialmente para o público, além da academia”.

Agradecimento

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela Bolsa Produtividade IA, processo 303924/2019-5.

Referências

  • CASTELL, J.; WADDINGTON, K.; WILLIS, M. ScienceHumanities: Introduction. Journal of Literature and Science, v. 10, n. 2, p. 1-5, 2013.
  • LEAVIS, F. R. The Two Cultures? The Significance of C.P. Snow. Cambridge: Cambridge University Press, 2013, p 53-88.
  • MASTERS, D. The Accident. London: Cassell & Co. Ltd., 1955.
  • RUTTEN, K.; STEFAAN, B.; RONALD, S. Introduction: Perspectives on Science and Culture. In: ______. (eds.) Perspectives on Science and Culture. West Lafayette, Indiana: Purdue University Press, 2018, p. ix-xxiii.
  • SNOW, C. P. The Two Cultures and the Scientific Revolution. New York: Cambridge University Press, 1959.
  • ______. The Two Cultures. New York: Cambridge University Press, 1998.
  • ______. The Two Cultures: A Second Look. London: Cambridge University Press, 1963.
  • ______. The Two Cultures, New Statesman, 6 October, 1956.
  • WILLIS, M.; WADDINGTON, K.; CASTELL, J. ScienceHumanities: Theory, Politics, Practice. Journal of Literature and Science, v. 10, n. 2, 2017, p. 6-18.

  • 1
    Todas as citações foram traduzidas pelo autor da resenha.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Abr 2021
  • Data do Fascículo
    2021

Histórico

  • Recebido
    25 Mar 2020
  • Aceito
    17 Out 2020
  • Publicado
    25 Jan 2021
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