Panorama das publicações científicas nos 30 anos da Physis: hora de comemorar?

Kenneth Rochel de Camargo Sobre o autor

O ano de 1991 teve dois marcos importantes na história do Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro: o início do seu curso de doutorado e a criação da revista Physis. Outro marco relevante, este mundialmente, foi o início da World Wide Web, com a entrada no ar do primeiro site www da história. Estes eventos de alguma forma se entrelaçaram nas três décadas que se seguiram.

Muito mudou nesse período, em particular no panorama da publicação científica. A migração das revistas acadêmicas para o mundo on-line é possivelmente a mais significativa mudança de patamar tecnológico desde a criação desse tipo de periódico no século XVII. Bases bibliográficas, anteriormente distribuídas em volumes impressos, depois em mídia óptica, passaram a ser acessíveis imediatamente por qualquer pesquisador com uma conexão à internet. Esse processo enfrentou resistência considerável dos publishers tradicionais, que viram na nova mídia ameaça ao seu tradicional modelo de negócios. Esse enfrentamento se acirrou com o movimento do Acesso Aberto (Open Access - OA), que prega a livre disponibilidade de artigos científicos. Essa relação se modificou ao longo do tempo; importantes portais de OA simplesmente deslocaram na sua totalidade os custos da publicação para os ombros dos autores, cobrando destes elevadas quantias (article processing charges - APC) para a publicação de seus trabalhos. Publishers tradicionais compraram importantes portais OA, e revistas de acesso fechado passaram a dar a opção de abrir o acesso a artigos mediante o pagamento de valores ainda mais elevados que os já excessivos APCs. Muito da publicação científica, contudo, continua tendo o acesso restrito, apenas mediante pagamento de assinaturas ou por valores elevados para poder ler apenas um artigo, modelo chamado de paywall. Essa disputa já gerou um mártir - Jason Swartz, jovem brilhante induzido ao suicídio por uma ação na justiça que o ameaçava com décadas de cadeia11Sobre os eventos que levaram Swartz ao suicídio aos 26 anos de idade, ver: https://www.harvardmagazine.com/2013/01/rss-creator-aaron-swartz-dead-at-26 - e uma ativa guerrilheira, Alexandra Elbakyan, criadora do SciHub,22https://www.eff.org/deeplinks/2021/05/activists-mobilize-fight-censorship-and-save-open-sciencesite que disponibiliza milhões de artigos de outra forma fechados atrás de diversos paywalls.

No Brasil, a criação do portal SciELO - Scientific Electronic Library Online - em 1997 marca um importante momento para o movimento OA, ao criar um portal com financiamento público, janela de projeção da ciência brasileira para o mundo. Ainda assim, publicar uma revista tem custos, com cada vez mais dificuldades de financiamento pelos canais tradicionais das agências de pesquisa brasileiras, elas próprias lidando com o brutal desfinanciamento da ciência no Brasil, o que forçou várias revistas nacionais - dentre elas a Physis - a adotarem o modelo APC, ainda que em valores consideravelmente inferiores aos cobrados pelos publishers comerciais.

Apesar da visibilidade potencial trazida pelo acesso aberto, a ciência nacional enfrenta obstáculos para seu reconhecimento em larga escala, em parte pelo histórico autocentramento da produção do chamado “primeiro mundo”, e em outra parte pela pouca penetração da língua portuguesa, em que pesem sua riqueza e difusão no universo acadêmico global. Isso cria um dilema constante para autores e editores brasileiros, relativo ao seu público leitor. A publicação exclusiva em língua inglesa, lingua franca da ciência internacional, não é fácil para todos os autores e potencialmente exclui muitos leitores; por outro lado, a publicação apenas em língua portuguesa, como já foi dito, limita o alcance dos artigos. Contratar tradução especializada e fazer uma publicação bilíngue acarreta custos adicionais, dificilmente cobertos quando mesmo a manutenção da publicação em apenas uma língua já enfrenta desafios consideráveis. Na prática, o ônus mais uma vez corre o risco de ser transferido para os autores. Em suma, um dilema de difícil solução.

Um resultado imprevisto das mudanças econômicas na publicação científica foi o surgimento dos chamados publishers predatórios - empresas com portfólio de diversas revistas com títulos muitas vezes enganosos, nas quais o simples pagamento de uma APC, muitas vezes relativamente modesta, garante a publicação rápida sem qualquer revisão por pares, o que foi evidenciado múltiplas vezes, eventualmente de forma cômica.33https://www.theguardian.com/australia-news/2014/nov/25/journal-accepts-paper-requesting-removal-from-mailing-list A caracterização de um publisher como predatório, porém, nem sempre é adequada e por vezes esconde disputas comerciais ou chauvinismo acadêmico.

Outra característica marcante deste período - a meu ver indesejável - foi a crescente influência de índices bibliográficos na política científica e editorial de diversas agências e países, incluindo o Brasil. A incorreta assimilação de volume de citações à qualidade de periódicos, artigos e mesmo pesquisadores não se faz sem resistências, contudo; após críticas contundentes formuladas, por exemplo, pelo DORADORA. Disponível em: <Disponível em: https://sfdora.org/ >. Acesso em: jan. 2022.
https://sfdora.org/...
(Declaration on Research Assessment)44https://sfdora.org/ e pelo Manifesto de LeidenLEIDEN MANIFESTO FOR RESEARCH METRICS. Disponível em: <Disponível em: http://www.leidenmanifesto.org/ >. Acesso em: jan. 2022.
http://www.leidenmanifesto.org/...
,55http://www.leidenmanifesto.org/ processos de avaliação no Reino Unido e na França reduziram ou mesmo eliminaram o uso de tais indicadores. No Brasil, contudo, esse processo foi radicalizado na mais recente revisão do sistema de ranqueamento de periódicos criado pela CAPES, o Qualis, que aprofundou a classificação de periódicos com base exclusivamente em indicadores gerados a partir de bases de dados de empresas transnacionais.

Nesse mesmo período, ainda que enfrentando muitas dificuldades, Physis se adaptou e cresceu, passando de duas para quatro edições por ano. Depois de uma reformulação gráfica que visou modernizar a revista e reduzir custos de impressão, tivemos que optar pela publicação apenas on-line, em função das restrições de financiamento. Incorporamos diversos editores associados, todos pesquisadores destacados em aspectos diversos do abrangente campo da Saúde Coletiva. Adotamos padrões estritos de controle editorial, incluindo a obrigatoriedade de uma declaração de autoria, necessária face à observação de uma imotivada inflação do número de autores em alguns dos manuscritos submetidos. Definimos uma linha editorial específica, única no campo das publicações nacionais de nossa área, em função da diversidade de periódicos já existentes no país. A qualidade de nossa publicação pode ser vista na íntegra da coleção, disponível nos portais SciELO e Redalyc, entre outros.

Essa atuação só foi possível por contarmos com respaldo constante de todas as direções do IMS - nosso publisher - no período, que não só respeitaram a independência editorial da revista como sempre procuraram cooperar com o financiamento da revista, mesmo enfrentando as conhecidas dificuldades do mundo acadêmico brasileiro.

A “mortalidade infantil” de publicações científicas é elevada em todo mundo. Completar 30 anos de existência já marca em si uma trajetória vitoriosa. Face a um terreno em constante mutação e desafios permanentes, a revista Physis tem uma história de resistência e afirmação, a serviço da Saúde Coletiva brasileira, que nos comprometemos a continuar e expandir nos próximos 30 anos e seus múltiplos, agradecendo aos autores, revisores e editores que a constroem dia a dia.

Referências

Notas

  • 1
    Sobre os eventos que levaram SwartzHARVARD MAGAZINE. RSS Creator Aaron Swartz Dead at 26. Disponível em: <Disponível em: https://www.harvardmagazine.com/2013/01/rss-creator-aaron-swartz-dead-at-26 >. Acesso em: jan. 2022.
    https://www.harvardmagazine.com/2013/01/...
    ao suicídio aos 26 anos de idade, ver: https://www.harvardmagazine.com/2013/01/rss-creator-aaron-swartz-dead-at-26
  • 2
    https://www.eff.org/deeplinks/2021/05/activists-mobilize-fight-censorship-and-save-open-scienceMIR, R. Activists Mobilize to Fight Censorship and Save Open Science. 24 maio 2021. Disponível em: <Disponível em: https://www.eff.org/deeplinks/2021/05/activists-mobilize-fight-censorship-and-save-open-science >. Acesso em: jan. 2022.
    https://www.eff.org/deeplinks/2021/05/ac...
  • 3
    https://www.theguardian.com/australia-news/2014/nov/25/journal-accepts-paper-requesting-removal-from-mailing-listTHE GUARDIAN. Journal accepts bogus paper requesting removal from mailing list. Disponível em: <Disponível em: https://www.theguardian.com/australia-news/2014/nov/25/journal-accepts-paper-requesting-removal-from-mailing-list >. Acesso em: jan. 2022.
    https://www.theguardian.com/australia-ne...
  • 4
    https://sfdora.org/
  • 5
    http://www.leidenmanifesto.org/

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Abr 2022
  • Data do Fascículo
    2022
IMS-UERJ RJ - Brazil
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