Fidedignidade e validade de uma escala de avaliação do apoio social para prática de atividade física para adolescentes - Escala ASAFA

José Cazuza de Farias Júnior Gerfeson Mendonça Alex Antonio Florindo Mauro Virgilio Gomes de Barros Sobre os autores

Resumo

Objetivo:

Analisar a fidedignidade e a validade de uma escala de apoio social para prática de atividade física para adolescentes - Escala ASAFA.

Métodos:

A amostra tinha 2.755 adolescentes (57,6% do sexo feminino; idade 16,5 ± 1,2 anos) do município de João Pessoa, Paraíba. Inicialmente a escala continha 12 itens: 6 para o apoio social dos pais e 6 para o dos amigos. A fidedignidade foi avaliada pelo alfa de Cronbach (α) e índice de fidedignidade combinada (IFC), a adequação do modelo com dois fatores e a invariância fatorial pela análise fatorial confirmatória (AFC).

Resultados:

A AFC confirmou a presença de dois fatores (fator 1: apoio social dos pais; fator 2: apoio social dos amigos), com cinco itens cada (foi excluído um item de cada escala), com cargas fatoriais elevadas (> 0,65) e índices de ajuste aceitáveis [RMR = 0,050; RMSEA = 0,063; IC90%: 0,060 - 0,067; AGFI = 0,903; GFI = 0,940; CFI = 0,934, NNFI = 0,932). A consistência interna foi satisfatória (pais: α ≥ 0,77 e IFC ≥ 0,83; amigos: α ≥ 0,87 e IFC ≥ 0,91). A invariância fatorial da escala foi confirmada (p > 0,05 para Δχ2 e ΔCFI ≤ 0,01) em todos subgrupos analisados (sexo, idade, classe econômica). A validade de construto foi constatada pela associação significativa (p < 0,05) entre o nível de atividade física e o escore de apoio social dos pais (rho = 0,29) e dos amigos (rho = 0,39).

Conclusões:

A escala analisada alcançou fidedignidade, invariância fatorial e validade satisfatórias, recomendando sua utilização em adolescentes.

Apoio social; Adolescente; Atividade motora; Avaliação; Validade dos testes; Reprodutibilidade dos testes


INTRODUÇÃO

Prevalências elevadas de inatividade física entre adolescentes estão amplamente descritas. Estima-se que cerca de 8 em cada 10 adolescentes são fisicamente inativos 1 Hallal PC, Andersen LB, Bull FC, Guthold R, Haskell W, Ekelund U, et al. Global physical activity levels: surveillance progress, pitfalls, and prospects. Lancet 2012; 380(9838): 247-57.. Baixos níveis de atividade física estão associados a vários problemas de saúde como obesidade, pressão arterial elevada e fatores de risco para síndrome metabólica 2 Lee IM, Shiroma EJ, Lobelo F, Puska P, Blair SN, Katzmarzyk PT. Effect of physical inactivity on major non-communicable diseases worldwide: an analysis of burden of disease and life expectancy. Lancet 2012; 380(9838): 219-29.. Além disso, os hábitos de atividade física adotados na adolescência predizem parte dos níveis de atividade física na idade adulta 3 Telama R. Tracking of physical activity from childhood to adulthood: a review. Obes Facts 2009; 2(3): 187-95..

Nesse sentido, aumentar os níveis de atividade física dos adolescentes tem sido considerado como uma prioridade em saúde pública 4 Van der Horst K, Paw MJCA, Twisk JWR, Van Mechelen W. A brief review on correlates of physical activity and sedentariness in youth. Med Sci Sports Exerc 2007; 39(8): 1241-50.. A identificação dos fatores que influenciam a atividade física dos adolescentes tem sido considerada uma informação essencial para o desenvolvimento de programas para aumentar os níveis de atividade física desse grupo populacional 5 van Sluijs EMF, McMinn AM, Griffin SJ. Effectiveness of interventions to promote physical activity in children and adolescents: systematic review of controlled trials. BMJ 2007; 335(7622): 703.. Dentre estes fatores (por exemplo, autoeficácia, apoio social, ambiente físico), o apoio social tem se destacado como um dos mais importantes 6 Glanz K, Rimer BK, Viswanath K. Health behavior and health education: health behavior and health education. 4ª ed. San Francisco (CA): Jossey-Bass; 2008..

O apoio social é caracterizado pela assistência oferecida ou recursos postos à disposição por diferentes grupos como pais, irmãos, parentes, amigos, dentre outros, em situações de necessidade, podendo ser mensurado por meio da percepção individual do grau com que as relações interpessoais correspondem a determinadas funções (apoio social instrumental/direto, psicológico/emocional, instrumental/informativo) 6 Glanz K, Rimer BK, Viswanath K. Health behavior and health education: health behavior and health education. 4ª ed. San Francisco (CA): Jossey-Bass; 2008..

No contexto da prática de atividade física, o apoio social representa um dos principais construtos das teorias e modelos utilizados (por exemplo, Teoria Sociocognitiva, Modelos Socioecológicos) nos estudos sobre fatores associados a este comportamento6. O apoio social está consistentemente associado a maiores níveis de prática de atividade física em adolescentes4, podendo ocorrer por meio de incentivos, prática conjunta, fornecimento de transporte e assistência, sendo que os pais e os amigos são as principais fontes de apoio 7 Duncan SC, Duncan TE, Strycker LA. Sources and types of social support in youth physical activity. Health Psychol 2005; 24(1): 3-10..

Há vários instrumentos para mensurar o apoio social para prática de atividade física em adolescentes disponíveis na literatura. Alguns consideram o apoio social de diferentes grupos sociais de forma simultânea 8 Motl RW, Dishman RK, Saunders RP, Dowda M, Pate RR. Perceptions of physical and social environment variables and self-efficacy as correlates of self-reported physical activity among adolescent girls. J Pediatr Psychol 2007; 32(1): 6-12., outros mensuram o apoio dos pais, dos amigos 9 Lubans DR, Morgan PJ. Social, psychological and behavioural correlates of pedometer step counts in a sample of Australian adolescents. J Sci Med Sport 2009; 12(1): 141-7. e há os que mensuram o apoio social de dois ou mais grupos, mas com itens específicos para cada um 10 10 Dishman RK, Hales DP, Sallis JF, Saunders RP, Dunn AL, Bedimo-Rung AL, et al. Validity of social-cogntive measures for physical activity in middle-school girls. J Pediatr Psychol 2010; 35(1): 72-88. , 11 11 Taymoori P, Rhodes R, Berry T. Application of a social cognitive model in explaining physical activity in Iranian female adolescents. Health Educ Res 2010; 25(2): 257-67.. Esses instrumentos também apresentam variações em relação aos tipos de apoio social mensurados 7 Duncan SC, Duncan TE, Strycker LA. Sources and types of social support in youth physical activity. Health Psychol 2005; 24(1): 3-10. , 12 12 Dowda M, Dishman RK, Pfeiffer KA, Pate RR. Family support for physical activity in girls from 8th to 12th grade in South Carolina. Prev Med 2007; 44(2): 153-9.

13 Kirby J, Levin KA, Inchley J. Parental and peer influences on physical activity among scottish adolescents: a longitudinal study. J Phys Act Health 2011; 8(6): 785-93.
- 14 14 Morrissey JL, Wenthe PJ, Letuchy EM, Levy SM, Janz KF. Specific types of family support and adolescent non-school physical activity levels. Pediatr Exerc Sci 2012; 24(3): 333-46..

As diferentes fontes e os tipos de apoio social influenciam de maneira particular a participação dos adolescentes nas diferentes atividades físicas 7 Duncan SC, Duncan TE, Strycker LA. Sources and types of social support in youth physical activity. Health Psychol 2005; 24(1): 3-10. , 12 12 Dowda M, Dishman RK, Pfeiffer KA, Pate RR. Family support for physical activity in girls from 8th to 12th grade in South Carolina. Prev Med 2007; 44(2): 153-9.. Por exemplo, o apoio social fornecido pelos pais associado à prática de atividade física se dá por meio da facilitação do acesso a equipamentos esportivos e locais de prática, transporte até os locais de prática e incentivos para que seus filhos realizem atividades físicas 15 15 Seabra AF, Mendonça DM, Thomis MA, Anjos LA, Maia JA. Determinantes biológicos e sócio-culturais associados à prática de atividade física de adolescentes. Cad Saúde Pública. 2008; 24(4): 721-36.. Quanto aos amigos, a participação conjunta em atividades físicas e incentivos para prática estão associados a maior participação dos adolescentes em atividades físicas 7 Duncan SC, Duncan TE, Strycker LA. Sources and types of social support in youth physical activity. Health Psychol 2005; 24(1): 3-10. , 12 12 Dowda M, Dishman RK, Pfeiffer KA, Pate RR. Family support for physical activity in girls from 8th to 12th grade in South Carolina. Prev Med 2007; 44(2): 153-9. , 14 14 Morrissey JL, Wenthe PJ, Letuchy EM, Levy SM, Janz KF. Specific types of family support and adolescent non-school physical activity levels. Pediatr Exerc Sci 2012; 24(3): 333-46. , 16 16 Voorhees CC, Murray D, Welk G, Birnbaum A, Ribisl KM, Johnson CC, et al. The role of peer social network factors and physical activity in adolescent girls. Am J Health Behav 2005; 29(2): 183-90.. Isso reforça a importância de se considerar as principais fontes e os diferentes tipos de apoio social para prática de atividade física quando se avalia esse construto.

Os estudos sobre apoio social e nível de atividade física têm sido desenvolvidos, predominantemente, com adolescentes dos Estados Unidos e de alguns países da Europa 4 Van der Horst K, Paw MJCA, Twisk JWR, Van Mechelen W. A brief review on correlates of physical activity and sedentariness in youth. Med Sci Sports Exerc 2007; 39(8): 1241-50. , 17 17 Plugliese J, Tinsley B. Parental socialization of child and adolescent physical activity: a meta-analysis. J Psychol 2007; 21(3): 331-43.. Em função de diferenças socioculturais e ambientais, os instrumentos disponíveis e utilizados nesses estudos apresentam restrições de aplicação em adolescentes brasileiros. Também é necessário considerar que a maioria passou por análise de fidedignidade 4 Van der Horst K, Paw MJCA, Twisk JWR, Van Mechelen W. A brief review on correlates of physical activity and sedentariness in youth. Med Sci Sports Exerc 2007; 39(8): 1241-50. , 17 17 Plugliese J, Tinsley B. Parental socialization of child and adolescent physical activity: a meta-analysis. J Psychol 2007; 21(3): 331-43., não representando uma condição suficiente para expressar validade 18 18 Cook DA, Beckman TJ. Current concepts in validity and reliability for psychometric Instruments: theory and application. Am J Med 2006; 119(2): 166: e7-16.. Com isso, Farias Júnior et al. 19 19 Farias Júnior JC, Lopes AS, Reis RS, Nascimento JV, Borgatto AF, Hallal PC. Development and validation of a questionnaire measuring factors associated with physical activity in adolescents. Rev Bras Saúde Matern Infant 2011; 11(3): 301-12. desenvolveram e analisaram a fidedignidade e a estrutura fatorial de uma escala de avaliação do apoio social para prática de atividade física em adolescentes brasileiros - Escala ASAFA. Esta escala considera os diferentes tipos e as principais fontes de apoio social para prática de atividade física, e foi construída a partir de itens extraídos de outras escalas utilizadas em adolescentes. A análise fatorial exploratória desta escala identificou a presença de 2 fatores (apoio social dos pais e dos amigos, 6 itens para cada), com consistência interna (α 0,81 - 0,90) e reprodutibilidade teste-reteste (coeficiente de correlação intraclasse [CCI] 0,89 - 0,91) satisfatórias. Entretanto, a análise fatorial confirmatória, a invariância fatorial e a validade de construto da Escala ASAFA ainda não foram estabelecidas.

A análise fatorial confirmatória (AFC) tem sido considerada como a análise mais apropriada para testar de forma robusta a estrutura fatorial de uma escala 20 20 Kline R. Principles and practice of structural equation modeling. 2ª ed. New York: Guild Ford Press; 2005.. A validade de construto se refere às relações entre o construto supostamente captado pelo instrumento que se deseja avaliar e atributos ou características relacionadas ao construto em estudo, de acordo com hipóteses prévias e suportadas na literatura 18 18 Cook DA, Beckman TJ. Current concepts in validity and reliability for psychometric Instruments: theory and application. Am J Med 2006; 119(2): 166: e7-16.. A invariância fatorial de uma escala representa o nível pelo qual uma estrutura fatorial, as cargas fatoriais, as variâncias, covariâncias e os erros de medida dos seus itens são similares entre sujeitos com diferentes características 21 21 Vandenberg RJ, Lance CE. A review and synthesis of the measurement invariance literature: suggestions, practices, and recomendations for organizational research. Organ Res Meth 2000; 3(1): 4-70.. A invariância fatorial é uma condição necessária para a comparação de diferentes grupos em relação aos resultados de uma variável 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. . Na ausência de invariância fatorial, possíveis diferenças entre os subgrupos ou populações para uma determinada variável poderão ser atribuídas às variações nas propriedades psicométricas do instrumento em detrimento às variações reais nos resultados da mesma 21 21 Vandenberg RJ, Lance CE. A review and synthesis of the measurement invariance literature: suggestions, practices, and recomendations for organizational research. Organ Res Meth 2000; 3(1): 4-70.. Diferenças nos níveis de atividade física e de apoio social entre os adolescentes com diferentes características sociodemográficas estão amplamente documentadas na literatura 8 Motl RW, Dishman RK, Saunders RP, Dowda M, Pate RR. Perceptions of physical and social environment variables and self-efficacy as correlates of self-reported physical activity among adolescent girls. J Pediatr Psychol 2007; 32(1): 6-12.

Lubans DR, Morgan PJ. Social, psychological and behavioural correlates of pedometer step counts in a sample of Australian adolescents. J Sci Med Sport 2009; 12(1): 141-7.

10 Dishman RK, Hales DP, Sallis JF, Saunders RP, Dunn AL, Bedimo-Rung AL, et al. Validity of social-cogntive measures for physical activity in middle-school girls. J Pediatr Psychol 2010; 35(1): 72-88.

11 Taymoori P, Rhodes R, Berry T. Application of a social cognitive model in explaining physical activity in Iranian female adolescents. Health Educ Res 2010; 25(2): 257-67.

12 Dowda M, Dishman RK, Pfeiffer KA, Pate RR. Family support for physical activity in girls from 8th to 12th grade in South Carolina. Prev Med 2007; 44(2): 153-9.

13 Kirby J, Levin KA, Inchley J. Parental and peer influences on physical activity among scottish adolescents: a longitudinal study. J Phys Act Health 2011; 8(6): 785-93.
- 14 14 Morrissey JL, Wenthe PJ, Letuchy EM, Levy SM, Janz KF. Specific types of family support and adolescent non-school physical activity levels. Pediatr Exerc Sci 2012; 24(3): 333-46.. Sendo assim, faz-se necessário avaliar possíveis variações nas propriedades psicométricas da Escala ASAFA em função dessas características. Este estudo analisou a fidedignidade, a invariância fatorial e a validade de uma escala de apoio social para prática de atividade física em adolescentes no nordeste do Brasil.

METODOLOGIA

Estudo inserido em pesquisa maior intitulada "Nível de atividade física e fatores associados em adolescentes do ensino médio na cidade de João Pessoa, Paraíba: uma abordagem ecológica", aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal da Paraíba (0062/09) e realizada em 2009. Todos os adolescentes < 18 anos de idade foram autorizados pelos pais ou responsáveis a participar do estudo.

A seleção da amostra foi por conglomerados em dois estágios. No primeiro foram selecionadas sistematicamente 30 escolas, distribuídas proporcionalmente por tipo (pública ou privada), zona do município (norte, sul, leste, oeste) e tamanho da escola (nº de alunos matriculados). No segundo estágio foram selecionadas aleatoriamente 135 turmas de ensino médio, distribuídas proporcionalmente por série de ensino médio (1ª, 2ª e 3ª séries) e turno de estudo (diurno [manhã + tarde] e noturno). Informações detalhadas sobre o processo amostral foram descritas em publicação prévia 23 23 Farias Júnior JC, Lopes AS, Mota J, Santos MP, Ribeiro JC, Hallal PC. Perception of the social and built environment and physical activity among Northeastern Brazil adolescents. Prev Med 2011; 52(2): 114-9..

A coleta de dados ocorreu entre maio e setembro de 2009, foi realizada por 6 alunos do curso de Educação Física previamente treinados e que receberam um manual com o protocolo de coleta de dados do estudo. O questionário foi preenchido pelos próprios adolescentes, em sala de aula, seguindo instruções prévias da equipe de coleta de dados.

Foram selecionados 3.477 escolares para participar do estudo, sendo que 70 não foram autorizados pelos pais ou responsáveis ou se recusaram a participar do estudo e 187 não foram encontrados em pelo menos 3 visitas da equipe de pesquisa. Dos 3.220 adolescentes que responderam ao questionário, 361 foram excluídos (271 eram < 14 ou > 19 anos de idade, 65 não informaram a idade, 15 não informaram o sexo, 5 devolveram com várias questões sem resposta e 5 tinham alguma limitação de ordem física ou mental). Foram obtidos dados de 2.859 adolescentes de 14 a 19 anos e de ambos os sexos.

Para a caracterização da amostra foram utilizadas as seguintes variáveis: sexo, idade e classe econômica. A determinação da classe econômica seguiu a proposta da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP) 24 24 Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP). Critério de classificação econômica Brasil. Dispinível em http://www.abep.org (Acessado em 26 de novembro de 2009).
Dispinível em http:...
, que agrupa as pessoas nas classes A1, A2 (melhor condição), B1, B2, C1,C2, D e E (pior condição).

A escala de avaliação do apoio social para prática de atividade física em adolescentes brasileiros - Escala ASAFA - foi elaborada a partir de compilação de itens de outras escalas aplicadas em adolescentes 19 19 Farias Júnior JC, Lopes AS, Reis RS, Nascimento JV, Borgatto AF, Hallal PC. Development and validation of a questionnaire measuring factors associated with physical activity in adolescents. Rev Bras Saúde Matern Infant 2011; 11(3): 301-12.. A versão inicial dessa escala continha 12 itens, sendo 6 destinados ao apoio social dos pais e 6 ao apoio social dos amigos, considerando diferentes tipos de apoio (estimular, praticar, assistir, convidar, comentar, conversar e transportar ou fornecer transporte). Todos os itens estão ancorados com escala Likert de quatro pontos e perguntavam a frequência (nunca = 0; raramente = 1; frequentemente = 2; sempre = 3) com que os pais e os amigos ofereciam cada um dos tipos de apoio social durante uma semana típica. Maiores informações foram descritas previamente 19 19 Farias Júnior JC, Lopes AS, Reis RS, Nascimento JV, Borgatto AF, Hallal PC. Development and validation of a questionnaire measuring factors associated with physical activity in adolescents. Rev Bras Saúde Matern Infant 2011; 11(3): 301-12..

A AFC foi utilizada com intuito de avaliar a qualidade de ajuste do modelo em duas dimensões ou fatores - apoio social dos pais e apoio social dos amigos -, e comparar os modelos concorrentes. Para tanto, foi utilizada a modelagem por equações estruturais, por meio do programa AMOS 20.0 (Analysis of Moment Structures), recorrendo-se ao método de máxima verossimilhança 20 20 Kline R. Principles and practice of structural equation modeling. 2ª ed. New York: Guild Ford Press; 2005..

A normalidade multivariada dos dados foi verificada pelo índice de Mardia, cujo valor estandardizado deve ser inferior a cinco para caracterizar distribuição normal multivariada 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. . Isso foi constatado neste estudo (Mardia = 4,73; valor crítico = 1,93). A avaliação da qualidade de ajuste dos modelos foi efetuada por meio de diferentes índices de ajuste, pois cada um reflete aspectos particulares 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. . No presente estudo, os índices utilizados e os seus respectivos valores considerados aceitáveis foram: qui-quadrado (χ2), Root Mean Square Residual (RMR) (< 0,05, tolera-se valores até 0,08), Root Mean Square of Aproximation (RMSEA) (≤ 0,05, tolera-se valores até < 0,10), Goodness of Fit Index (GFI) (≥ 0,90), Adjusted Goodness of Fit Index (AGFI) (≥ 0,90), Comparative Fit Index (CFI) (≥ 0,90), Non-normed Fit Index (NNFI) (≥ 0,90) 20 20 Kline R. Principles and practice of structural equation modeling. 2ª ed. New York: Guild Ford Press; 2005..

No modelo inicial, considerou-se que a escala de apoio social para prática de atividade física tinha dois fatores, com seis itens cada, pois essa configuração já havia sido identificada na análise fatorial exploratória 19 19 Farias Júnior JC, Lopes AS, Reis RS, Nascimento JV, Borgatto AF, Hallal PC. Development and validation of a questionnaire measuring factors associated with physical activity in adolescents. Rev Bras Saúde Matern Infant 2011; 11(3): 301-12.: (1) apoio social dos pais; (2) apoio social dos amigos. As modificações no modelo (reespecificação) foram efetuadas a partir do índice de modificação (Modification Index - MI) e nos valores dos resíduos. O MI indica as mudanças esperadas nos valores da estatística χ2, caso determinado parâmetro que está fixado fosse estimado livremente. Não há um valor de referência para esse indicador, devendo a decisão de produzir mudanças no modelo ser baseada em evidências e em base teórica 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. . Em relação aos valores dos resíduos padronizados, recomenda-se que eles fiquem em torno de ± 2,58 20 20 Kline R. Principles and practice of structural equation modeling. 2ª ed. New York: Guild Ford Press; 2005.. A AFC foi repetida após cada modificação para avaliar as possíveis mudanças na qualidade do ajuste do modelo 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. . A avaliação das mudanças no ajuste foi efetuada pelo Aike Information Critério (AIC) e Expected Cross-Validation Index (ECVI). Reduções nos valores do AIC e no ECVI indicam melhoria do ajuste 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. . Foram considerados também os seguintes índices: RMR, RMSEA (IC90%), GFI, AGFI, CFI, NNFI 20 20 Kline R. Principles and practice of structural equation modeling. 2ª ed. New York: Guild Ford Press; 2005. , 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. .

Analisou-se a fidedignidade da escala de apoio social por meio da determinação da consistência interna, recorrendo-se ao coeficiente alfa de Cronbach (α) e ao índice de fidedignidade combinada - IFC = [Σ das cargas fatoriais] 2 Lee IM, Shiroma EJ, Lobelo F, Puska P, Blair SN, Katzmarzyk PT. Effect of physical inactivity on major non-communicable diseases worldwide: an analysis of burden of disease and life expectancy. Lancet 2012; 380(9838): 219-29./[Σ das cargas fatoriais] 2 Lee IM, Shiroma EJ, Lobelo F, Puska P, Blair SN, Katzmarzyk PT. Effect of physical inactivity on major non-communicable diseases worldwide: an analysis of burden of disease and life expectancy. Lancet 2012; 380(9838): 219-29. + Σ [1- cargas fatoriais 2 Lee IM, Shiroma EJ, Lobelo F, Puska P, Blair SN, Katzmarzyk PT. Effect of physical inactivity on major non-communicable diseases worldwide: an analysis of burden of disease and life expectancy. Lancet 2012; 380(9838): 219-29.]. Valores de α podem ser subestimados em escalas com dois ou mais fatores 25 25 Helms JE, Henze KT, Sass TL, Mifsud VA. Treating cronbach's alpha reliability coefficients as data in counseling research. Couns Psychol 2006; 34(5): 630-60.. Valores de α e do IFC foram considerados satisfatórios quando iguais ou superiores a 0,70 25 25 Helms JE, Henze KT, Sass TL, Mifsud VA. Treating cronbach's alpha reliability coefficients as data in counseling research. Couns Psychol 2006; 34(5): 630-60..

A invariância fatorial da escala foi analisada testando e comparando uma série de modelos, adotando-se um conjunto de procedimentos padronizados. O primeiro passo foi determinar o ajuste do modelo para cada subgrupo separadamente (masculino versus feminino; 14 - 16 versus 17 - 19 anos de idade; classe econômica A/B versus C/D/E) 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. . Em seguida, esse modelo foi submetido a uma análise multigrupos, recorrendo-se à opção "correção Emulisrel 6 Glanz K, Rimer BK, Viswanath K. Health behavior and health education: health behavior and health education. 4ª ed. San Francisco (CA): Jossey-Bass; 2008." do programa AMOS 20.0, fixando-se as cargas fatoriais, variância e covariâncias, e os erros de mensuração, conforme recomendações da literatura 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. . O modelo 1 testou a equivalência do modelo estrutural hipoteticamente proposto, sem a imposição de restrições. Esse modelo serviu de base para comparação com os modelos mais restritivos que serão apresentados na sequência. No modelo 2, a restrição foi imposta às cargas fatoriais dos itens - permite avaliar se a estrutura fatorial é semelhante entre os subgrupos analisados. No modelo 3, as variâncias e as covariâncias, e no modelo 4, a variância dos erros de medida dos itens. O valor da diferença do χ2 (Δχ2) e dos seus graus de liberdade (Δdf) e da diferença entre os valores do CFI (ΔCFI) foram utilizados para analisar as diferenças entre os modelos (M1 versus M2 - M4). Valores de p > 0,05 para a Δχ2 e ΔCFI ≤ 0,01 foram os critérios para definir invariância fatorial 20 20 Kline R. Principles and practice of structural equation modeling. 2ª ed. New York: Guild Ford Press; 2005.

21 Vandenberg RJ, Lance CE. A review and synthesis of the measurement invariance literature: suggestions, practices, and recomendations for organizational research. Organ Res Meth 2000; 3(1): 4-70.
- 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. .

O coeficiente de correlação de Spearman entre o escore do nível de atividade física e os de apoio social foi utilizado como indicador de validade de construto, estratégia utilizada em outros estudos e recomendada pela literatura da área 18 18 Cook DA, Beckman TJ. Current concepts in validity and reliability for psychometric Instruments: theory and application. Am J Med 2006; 119(2): 166: e7-16.. O uso da correlação de Spearman se justifica pelo fato de que os dados de atividade física não apresentaram distribuição normal (Kolmogorov-Smirnov = 0,753, p = 0,001). Neste estudo, o resultado esperado era correlação positiva e significativa entre o escore de atividade física e o de apoio social dos pais e dos amigos, tendo em vista a relação consistentemente descrita entre apoio social e maiores níveis de atividade física. Foram calculados escores de apoio social dos pais e dos amigos a partir do somatório dos resultados das respostas dos itens de cada subescala. A atividade física foi mensurada por questionário previamente validado para esse grupo 26 26 Farias Júnior JC, Lopes AS, Mota J, Santos MP, Ribeiro JC, Hallal PC. Validity and reproducibility of a physical activity questionnaire for adolescents: adapting the Self-Administered Physical Activity Checklist. Rev Bras Epidemiol 2012; 15(1): 198-210.. Considerando uma lista de 24 atividades físicas de intensidade moderada a vigorosa, com a possibilidade de incluir mais 2 atividades, os adolescentes referiram a frequência (dias/semana) e a duração (minutos/dia) das atividades praticadas, na semana anterior à coleta de dados. O nível de atividade física foi determinado com base no somatório dos produtos do tempo pelas respectivas frequências de prática, resultando num escore em minutos por semana de atividades físicas.

O tamanho da amostra foi adequado para realizar todas as análises estatísticas do estudo. Para a AFC, avaliou-se que o tamanho da amostra foi apropriado com base em 3 critérios: amostra deve ter 500 sujeitos ou mais; razão de 10:1 ou de 20:1 entre o número de sujeitos na amostra e o de parâmetros livres a serem estimados no modelo 20 20 Kline R. Principles and practice of structural equation modeling. 2ª ed. New York: Guild Ford Press; 2005.. O número de parâmetros livres variou de 25 (modelo inicial) a 100 (multigrupos).

RESULTADOS

Dos 2.859 que fizeram parte da amostra foram excluídos 104 adolescentes que não responderam a um ou mais itens da escala de apoio social para prática de atividade física. Não foram identificadas diferenças significativas (sexo, idade, classe econômica, atividade física) entre os que foram incluídos e os excluídos das análises (p < 0,05). A amostra final incluiu 2.755 adolescentes: 50,2% do sexo feminino (n = 1.586), 53,8% pertenciam às classes econômicas C/D/E, 82,2% tinham de 14 a 17 anos de idade (média = 16,5 +/-1,2 anos) e 50,3% praticavam 300 minutos ou mais por semana de atividades físicas.

Os resultados da AFC sustentaram a hipótese da presença de dois fatores para a escala de apoio social: fator 1 - apoio social dos pais; fator 2 - apoio social dos amigos, conforme evidenciado pelos índices de ajuste do modelo (χ2 = 939,054; df = 53; p < 0,001; RMR = 0,070; RMSEA = 0,078 [IC90%: 0,073 - 0,082]; AGFI = 0,912; GFI = 0,940; CFI = 0,820; NNFI = 0,812).

O modelo foi reestruturado levando em consideração os índices de modificação de ajuste, valores dos resíduos e covariância entre os erros de medida entre os itens "e" e "f" da subescala de apoio social dos pais e a dos amigos. O novo modelo com a covariância entre os erros de medida entre os itens "e" e "f" da subescala de apoio social dos pais e a dos amigos alcançou níveis de ajuste ligeiramente superiores para alguns parâmetros (CFI = 0,908; NNFI = 0,905), mas não para todos (χ2 = 1601,424; df = 51; p < 0,001; RMR = 0,072; RMSEA = 0,105 [IC90%: 0,101 - 0,110]; AGFI = 0,854; GFI = 0,905), demonstrando que não houve melhora no ajuste do modelo comparado ao anterior. Um terceiro modelo foi construído excluindo-se o item "f" ("Os pais [amigos] conversam sobre atividade física") de cada subescala. A exclusão desse item foi baseada nos valores elevados nos resíduos destes itens (> 2,58), no índice de modificação (pais MI = 171,636; Pr = 0,148; amigos MI = 160,172; Pr = 0,100), nas covariâncias elevadas entre os erros dos itens "e" e "f" (Pais = 0,497; p < 0,01 e Amigos = 0,523; p < 0,01) e no incremento nos valores dos índices de ajuste do modelo. O modelo sem esses dois itens alcançou os melhores índices de ajuste (χ2 = 897,313; df = 34; p < 0,001; RMR = 0,050; RMSEA = 0,063 [IC90%: 0,060 - 0,067]; AGFI = 0,903; GFI = 0,940; CFI = 0,934; NNFI = 0,932). Também foi identificada uma redução nos valores do AIC e ECVI comparado ao modelo com 6 itens para cada subescala, passando, respectivamente, de 989,054 para 680,531 e de 0,357 para 0,216. Esses resultados foram similares em todos os subgrupos analisados. Este modelo foi considerado o mais apropriado para descrever a escala de apoio social, sendo utilizado na análise de invariância.

Na escala de apoio social para prática de atividade física com 5 itens, todas as cargas fatoriais foram significativas e superiores a 0,65 (pais: 0,67 - 0,81; amigos: 0,77 - 0,87), confirmando a validade fatorial. Em relação à consistência interna, tanto a subescala de apoio social dos pais quanto a dos amigos alcançaram valores satisfatórios, coeficientes α superiores a 0,70 e variações desprezíveis entre os subgrupos analisados (Tabela 1). O mesmo foi observado para o IFC. A versão final da Escala ASAFA encontra-se em anexo.

Tabela 1
Parâmetros da qualidade de ajuste dos modelos e indicadores de consistência interna da escala de apoio social para prática de atividade física em adolescentes. João Pessoa, Paraíba, 2009.

Para avaliar a invariância fatorial da Escala ASAFA, efetuou-se a AFC em cada subgrupo adotando-se uma sequência estruturada de fixação de vários parâmetros (cargas fatoriais, variâncias e covariâncias, erros de medida dos itens dos fatores). Os resultados da Δχ2 e do ΔCFI indicaram invariância fatorial da escala entre os diferentes subgrupos. Os índices de ajuste alcançaram valores satisfatórios e houve sobreposição dos intervalos de confiança do RMSEA, reforçando a presença da invariância fatorial da escala (Tabela 2).

Tabela 2
Índices de adequação dos testes de invariância fatorial da escala de apoio social entre diferentes subgrupos de adolescentes (masculino versus feminino, 14 - 16 versus 17 - 19 anos de idade, classe econômica A/B versus C/D/E). João Pessoa, Paraíba, 2009.

Na Tabela 3, encontram-se os coeficientes de correlação entre tempo de prática de atividade física e os escores de apoio social. Houve correlação positiva e significativa entre o escore de atividade física e o de apoio social dos pais (rho = 0,28; p < 0,01) e dos amigos (rho = 0,39; p < 0,01), indicando sua validade de construto.

Tabela 3
Coeficiente de correlação de Spearman entre nível de prática de atividade física e o escore de apoio social dos pais e dos amigos - validade de construto - em adolescentes. João Pessoa, Paraíba, 2009.

DISCUSSÃO

O presente estudo analisou a fidedignidade, a validade e a invariância fatorial de uma escala de apoio social para prática de atividade física em adolescentes - Escala ASAFA. Os resultados do estudo confirmaram a presença de dois fatores para a escala de apoio social, um para mensurar o apoio social dos pais e outro o dos amigos, apresentando qualidade de ajuste e consistência interna satisfatórias. Outro achado importante foi a confirmação de invariância fatorial, demonstrando que esta escala pode mensurar de forma equivalente o apoio social para prática de atividade física entre adolescentes de diferentes características sociodemográficas. A validade de construto também foi evidenciada pela associação positiva e significativa entre o nível de prática de atividade física e o escore de apoio social dos pais e amigos.

Uma das limitações deste estudo foi ter utilizado um escore de atividade física produzido por questionário como um dos critérios de validação. Essas medidas tendem a superestimar o nível de atividade física dos adolescentes 27 27 Adamo KB, Prince SA, Tricco AC, Connor-Gorber S, Tremblay M. A comparison of indirect versus direct measures for assessing physical activity in the pediatric population: a systematic review. Int J Pediatr Obes 2009; 4(1): 2-27.. Entretanto, os coeficientes de correlação encontrados foram no sentido e magnitude esperados, assemelhando-se aos de outros estudos 28 28 Huang YJ, Wong SH, Salmon J, Hui SS. Reliability and validity of psychossocial and environmental correlates measures of physical activity and screen-based behaviors among Chinese children in Hong Kong. Int J Behav Nutr Phys Act. 2011; 8: 16. , 29 29 Reis RS, Sallis JF. Validade e reprodutibilidade da versão brasileira da escala de suporte social para exercício físico. Rev Bras Ciênc Mov 2005; 13(2): 7-14.. Este estudo também apresenta pontos fortes. Um deles foi ter utilizado uma amostra representativa. Normalmente, os estudos de validação de instrumentos não recorreram a amostras representativas. Ter utilizado diferentes procedimentos de análise para avaliar as propriedades psicométricas da escala, sobretudo a avaliação de invariância fatorial, foi outro ponto forte deste estudo.

Os resultados da AFC sustentaram a hipótese do presente estudo que pressupôs a presença de dois fatores na escala de apoio social: (1) apoio social dos pais; (2) apoio social dos amigos, confirmando os resultados encontrados na análise exploratória desta escala 19 19 Farias Júnior JC, Lopes AS, Reis RS, Nascimento JV, Borgatto AF, Hallal PC. Development and validation of a questionnaire measuring factors associated with physical activity in adolescents. Rev Bras Saúde Matern Infant 2011; 11(3): 301-12.. A confirmação da presença de dois fatores na escala de apoio social avaliada neste estudo é condizente com a proposição da literatura que tem demonstrado que o apoio social pode ser proveniente de diferentes grupos sociais, com destaque para o apoio fornecido por pais e amigos 12 12 Dowda M, Dishman RK, Pfeiffer KA, Pate RR. Family support for physical activity in girls from 8th to 12th grade in South Carolina. Prev Med 2007; 44(2): 153-9.

13 Kirby J, Levin KA, Inchley J. Parental and peer influences on physical activity among scottish adolescents: a longitudinal study. J Phys Act Health 2011; 8(6): 785-93.
- 14 14 Morrissey JL, Wenthe PJ, Letuchy EM, Levy SM, Janz KF. Specific types of family support and adolescent non-school physical activity levels. Pediatr Exerc Sci 2012; 24(3): 333-46.. Está amplamente documentado que o apoio social dos pais e dos amigos está relacionado de forma particular com a prática de atividade física, indicando que se trata de construto com duas dimensões distintas e implicações específicas para a atividade física 7 Duncan SC, Duncan TE, Strycker LA. Sources and types of social support in youth physical activity. Health Psychol 2005; 24(1): 3-10. , 13 13 Kirby J, Levin KA, Inchley J. Parental and peer influences on physical activity among scottish adolescents: a longitudinal study. J Phys Act Health 2011; 8(6): 785-93. , 14 14 Morrissey JL, Wenthe PJ, Letuchy EM, Levy SM, Janz KF. Specific types of family support and adolescent non-school physical activity levels. Pediatr Exerc Sci 2012; 24(3): 333-46.. Conforme observado neste estudo, outros também identificaram a presença de dois fatores em escalas de apoio social para prática de atividade física, contendo itens direcionados aos pais e aos amigos 10 10 Dishman RK, Hales DP, Sallis JF, Saunders RP, Dunn AL, Bedimo-Rung AL, et al. Validity of social-cogntive measures for physical activity in middle-school girls. J Pediatr Psychol 2010; 35(1): 72-88. , 28 28 Huang YJ, Wong SH, Salmon J, Hui SS. Reliability and validity of psychossocial and environmental correlates measures of physical activity and screen-based behaviors among Chinese children in Hong Kong. Int J Behav Nutr Phys Act. 2011; 8: 16.

29 Reis RS, Sallis JF. Validade e reprodutibilidade da versão brasileira da escala de suporte social para exercício físico. Rev Bras Ciênc Mov 2005; 13(2): 7-14.
- 30 30 Pirasteh A, Hidarnia A, Asghari A, Faghihzadeh S, Ghofranipour F. Development and validation of psychosocial determinants measure of physical activity among Iranian adolescent girls. BMC Public Health 2008; 8 :150.. Dishman et al. 10 10 Dishman RK, Hales DP, Sallis JF, Saunders RP, Dunn AL, Bedimo-Rung AL, et al. Validity of social-cogntive measures for physical activity in middle-school girls. J Pediatr Psychol 2010; 35(1): 72-88., ao efetuar a análise fatorial confirmatória de uma escala de apoio social para prática de atividade física (com alguns itens semelhantes aos deste estudo) também verificou a presença dos mesmos fatores.

Dos 12 itens que faziam parte da escala inicial, optou-se por excluir o item "f" ("Os pais/amigos conversam sobre atividade física") nas duas subescalas ou fatores. A exclusão desse item foi baseada nos valores elevados nos resíduos destes itens (> 2,58), no índice de modificação - magnitude das mudanças na estatística χ2 (pais MI = 171,636; Pr = 0,148; amigos MI = 160,172; Pr = 0,100) -, nas covariâncias elevadas entre os erros dos itens "e" e "f" e no incremento nos valores dos índices de ajuste do modelo22. Esses achados sugerem que o item "e" de cada subescala (Os pais/amigos comentam...) e o "f" (Os pais/amigos conversam...) mensuraram aspectos similares (sobreposição de conteúdos). Outro aspecto que também reforçou a decisão em excluir esse item foi que na aplicação desta escala em estudo epidemiológico, os adolescentes referiram grandes dificuldades em distinguir o "comentar" do "conversar". Também é importante acrescentar que como essa escala foi baseada em itens de outras escalas, as que utilizaram o "comentar" não utilizaram o "conversar". Sendo assim, ao utilizar esses dois itens numa mesma escala verificou-se que eles mensuravam aspectos similares. Itens com resíduos e covariâncias elevadas, ao serem eliminados de um escala, tendem a produzir uma melhora no ajuste do modelo 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. . Covariâncias elevadas entre os erros dos itens de escala sugerem sobreposição de conteúdo, mesmo que descritos de forma diferente 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. . Espera-se que os erros dos itens de uma mesma escala não estejam correlacionados 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. , o que não foi observado no presente estudo, pois a correlação entre os erros dos itens "e" e "f" foram elevados na subescala dos pais (r = 0,497; p < 0,01) e dos amigos (r = 0,523; p < 0,01). As cargas fatoriais desses itens foram as mais baixas: pais = 0,44 e amigos = 0,59.

A exclusão de um ou mais itens que não favorecem um bom ajuste do modelo tem sido recomendada e adotada, devendo ser efetuada quando se dispõe de plausibilidade para suportar tal decisão 22 22 Byrne BM. Structural equation modeling with AMOS: basic concepts, applications, and programming. Mahwah (NJ): Lawrence Erlbaum Associates Inc; 2010. 416 p. . Dishman et al. 10 10 Dishman RK, Hales DP, Sallis JF, Saunders RP, Dunn AL, Bedimo-Rung AL, et al. Validity of social-cogntive measures for physical activity in middle-school girls. J Pediatr Psychol 2010; 35(1): 72-88., ao analisarem a validade fatorial de uma escala de apoio social para prática de atividade física em adolescentes com três itens para os amigos e quatro para os pais, excluíram um dos itens da escala dos pais por apresentar covariância elevada entre os erros de dois itens.

A escala de apoio social para prática de atividade física com cinco itens para cada um dos fatores apresentou um incremento na sua qualidade de ajuste comparada a escala com seis itens. Todas as cargas fatoriais foram elevadas (> 0,65), significativas e saturaram nos seus respectivos fatores: fator 1 - apoio social dos pais (cargas fatoriais: 0,67 - 0,81); fator 2 - apoio social dos amigos (cargas fatoriais: 0,77 - 0,87). Os índices de ajuste do modelo alcançaram valores dentro dos limites recomendados 20 20 Kline R. Principles and practice of structural equation modeling. 2ª ed. New York: Guild Ford Press; 2005., demostrando a presença de validade fatorial. A evidência de validade fatorial é importante e necessária para definir o quanto um conjunto de itens mensura um construto conforme definido teoricamente 20 20 Kline R. Principles and practice of structural equation modeling. 2ª ed. New York: Guild Ford Press; 2005..

Em relação à consistência interna, verificou-se que os valores dos coeficientes alfa de Cronbach (α) encontrados para a subescala de apoio dos pais (α = 0,79) e dos amigos (α = 0,90) foram superiores ao valor mínimo recomendado (α > 0,70) para definir consistência interna aceitável 25 25 Helms JE, Henze KT, Sass TL, Mifsud VA. Treating cronbach's alpha reliability coefficients as data in counseling research. Couns Psychol 2006; 34(5): 630-60.. O mesmo foi observado para os valores do IFC. Outros estudos também demonstraram valores similares aos do presente estudo para a consistência interna de outras escalas de apoio social para prática de atividade física 10 10 Dishman RK, Hales DP, Sallis JF, Saunders RP, Dunn AL, Bedimo-Rung AL, et al. Validity of social-cogntive measures for physical activity in middle-school girls. J Pediatr Psychol 2010; 35(1): 72-88. , 30 30 Pirasteh A, Hidarnia A, Asghari A, Faghihzadeh S, Ghofranipour F. Development and validation of psychosocial determinants measure of physical activity among Iranian adolescent girls. BMC Public Health 2008; 8 :150.. Reis e Sallis 29 29 Reis RS, Sallis JF. Validade e reprodutibilidade da versão brasileira da escala de suporte social para exercício físico. Rev Bras Ciênc Mov 2005; 13(2): 7-14. analisaram a consistência interna de uma escala de apoio social para prática de exercícios físicos em adolescentes de Curitiba e verificaram que os coeficientes de consistência interna alfa de Cronbach variaram de 0,69 a 0,83 para a subescala de apoio social dos pais e de 0,81 a 0,87 para a de apoio social dos amigos. Outro parâmetro que reforça a presença de consistência interna aceitável para escala analisada é a magnitude das correlações item-total (correlação entre cada item e o escore geral do seu respectivo fator). Recomenda-se que estas correlações variem de 0,40 a 0,80 18 18 Cook DA, Beckman TJ. Current concepts in validity and reliability for psychometric Instruments: theory and application. Am J Med 2006; 119(2): 166: e7-16.. Neste estudo, elas variaram de 0,50 a 0,68 para o apoio dos pais e de 0,68 a 0,77 para o dos amigos (dados não apresentados).

A maior consistência interna identificada na subescala de apoio social dos amigos em comparação à subescala dos pais é explicada pela maior quantidade de tempo de convívio dos adolescentes com os amigos, pela influência exercida pelos pares sobre os adolescentes e pela necessidade de comungar de certas normas sociais 17 17 Plugliese J, Tinsley B. Parental socialization of child and adolescent physical activity: a meta-analysis. J Psychol 2007; 21(3): 331-43.. Maior impacto do apoio social dos amigos em comparação ao dos pais sobre a participação dos adolescentes em atividades físicas com o passar da idade foi relatado em várias investigações 7 Duncan SC, Duncan TE, Strycker LA. Sources and types of social support in youth physical activity. Health Psychol 2005; 24(1): 3-10. , 12 12 Dowda M, Dishman RK, Pfeiffer KA, Pate RR. Family support for physical activity in girls from 8th to 12th grade in South Carolina. Prev Med 2007; 44(2): 153-9..

A escala de apoio social analisada neste estudo apresentou invariância fatorial para a estrutura e cargas fatoriais, variâncias e covariâncias e erros de medida dos itens, entre os diferentes subgrupos (masculino versus feminino, 14 - 16 versus 17 - 19 anos e de classe econômica A/B versus C/D/E). Esses resultados sugerem que o apoio social para prática de atividade física pode ser mensurado equivalentemente entre adolescentes de ambos os sexos, faixas etárias e classes econômicas. Estabelecer a invariância fatorial de um instrumento permite verificar o quanto ele mensura um construto similarmente entre diferentes subgrupos populacionais, descartando-se que as possíveis diferenças entre eles sejam por flutuações nas propriedades psicométricas do instrumento 20 20 Kline R. Principles and practice of structural equation modeling. 2ª ed. New York: Guild Ford Press; 2005. , 21 21 Vandenberg RJ, Lance CE. A review and synthesis of the measurement invariance literature: suggestions, practices, and recomendations for organizational research. Organ Res Meth 2000; 3(1): 4-70..

A validade de construto da Escala ASAFA foi observada pela presença de uma associação significativa entre o nível de prática de atividade física dos adolescentes e o escore de apoio social para prática de atividade física, conforme relatado em estudos prévios 28 28 Huang YJ, Wong SH, Salmon J, Hui SS. Reliability and validity of psychossocial and environmental correlates measures of physical activity and screen-based behaviors among Chinese children in Hong Kong. Int J Behav Nutr Phys Act. 2011; 8: 16. , 29 29 Reis RS, Sallis JF. Validade e reprodutibilidade da versão brasileira da escala de suporte social para exercício físico. Rev Bras Ciênc Mov 2005; 13(2): 7-14.. Foram identificadas correlações positivas e significativas entre o nível de atividade física e o escore de apoio social, reforçando achados de outros estudos 28 28 Huang YJ, Wong SH, Salmon J, Hui SS. Reliability and validity of psychossocial and environmental correlates measures of physical activity and screen-based behaviors among Chinese children in Hong Kong. Int J Behav Nutr Phys Act. 2011; 8: 16. , 29 29 Reis RS, Sallis JF. Validade e reprodutibilidade da versão brasileira da escala de suporte social para exercício físico. Rev Bras Ciênc Mov 2005; 13(2): 7-14.. O apoio social fornecido pelos pais e amigos estão consistentemente associados a maiores níveis de prática de atividade física em adolescentes 12 12 Dowda M, Dishman RK, Pfeiffer KA, Pate RR. Family support for physical activity in girls from 8th to 12th grade in South Carolina. Prev Med 2007; 44(2): 153-9.

13 Kirby J, Levin KA, Inchley J. Parental and peer influences on physical activity among scottish adolescents: a longitudinal study. J Phys Act Health 2011; 8(6): 785-93.
- 14 14 Morrissey JL, Wenthe PJ, Letuchy EM, Levy SM, Janz KF. Specific types of family support and adolescent non-school physical activity levels. Pediatr Exerc Sci 2012; 24(3): 333-46.. Entretanto, correlações de baixa a moderada magnitude eram esperadas, pois a prática de atividade física é um comportamento complexo determinado por múltiplos fatores 21 21 Vandenberg RJ, Lance CE. A review and synthesis of the measurement invariance literature: suggestions, practices, and recomendations for organizational research. Organ Res Meth 2000; 3(1): 4-70..

A Escala ASAFA representa a primeira escala de apoio social para prática de atividade física validada para adolescentes brasileiros, considerando diferentes tipos e fontes de apoio social, e com capacidade de avaliar esse construto de forma similar entre adolescentes com diferentes características sociodemográficas. Isso é importante, tendo em vista que alguns tipos de apoio social são mais importantes do que outros, conforme as atividades físicas praticadas pelos adolescentes, variando também em função da fonte de fornecimento do apoio social (pais versus amigos).

Entretanto, essa escala é mais apropriada para atividade física geral (combinando diferentes domínios: lazer, deslocamento, escola) ou para atividades físicas no contexto do lazer. Estudos que pretendem avaliar a influência do apoio social para atividades físicas num determinado domínio, por exemplo, deslocamento ativo, precisam recorrer a escalas de apoio social para esse tipo de prática, pois os tipos de apoio social que influenciam a participação em atividades físicas variam conforme o tipo de prática. Por fim, conclui-se que a Escala ASAFA alcançou fidedignidade, invariância fatorial e validade satisfatórios, recomendando a sua utilização para mensurar o apoio social para atividade física em adolescentes.

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Anexo.   Escala de apoio social para prática de atividade física em adolescentes – Escala ASAFA Versão inicial da Escala ASAFA (12 itens, 6 itens para cada tipo de fonte de apoio social)

Autor correspondente: José Cazuza de Farias Júnior Centro de Ciência da Saúde do Departamento de Educação Física da Universidade Federal Paraíba, Cidade Universitária, CEP: 58059-900, João Pessoa, PB, Brasil E-mail: jcazuzajr@hotmail.com
Conflito de interesses: nada a declarar
Fonte de financiamento: nenhuma.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jun 2014

Histórico

  • Recebido
    08 Ago 2012
  • Revisado
    07 Out 2013
  • Aceito
    13 Nov 2013
Associação Brasileira de Pós -Graduação em Saúde Coletiva São Paulo - SP - Brazil
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