Fatores associados à subnotificação de tuberculose com base no Sinan Aids e Sinan Tuberculose

Marcela Lopes Santos Cláudia Medina Coeli Joanna d’Arc Lyra Batista Maria Cynthia Braga Maria de Fátima Pessoa Militão de Albuquerque Sobre os autores

RESUMO:

Introdução:

A tuberculose (TB) é um dos graves problemas da saúde pública mundial. A vigilância epidemiológica tem se mostrado uma importante ferramenta para auxiliar em ações de controle e prevenção de doenças transmissíveis, como a TB e a aids. O objetivo do presente estudo foi estimar a proporção e os fatores associados à subnotificação da tuberculose em Pernambuco, entre os casos de coinfecção TB/aids, com base nos dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação da TB e da aids.

Métodos:

Realizou-se um estudo de corte seccional, baseado nos registros dos Sistemas de Notificação de TB e aids, para identificação de casos de subnotificação de TB no período de estudo, mediante a realização de linkage probabilístico utilizando o software RecLink III. Resultados: Verificou-se proporção de 29% de subnotificação de TB, e os fatores associados à subnotificação foram: apresentar forma clínica da TB pulmonar cavitária ou não especificada, ou ter os dois tipos de TB ao mesmo tempo; e ser atendido fora do Recife e em serviços que não são especializados para vírus da imunodeficiência humana (HIV)/aids.

Discussão:

A proporção de subnotificação encontrada em nosso estudo foi menor do que a observada em outras pesquisas brasileiras que levaram em consideração a subnotificação haja vista os dados de mortalidade.

Conclusão:

As variáveis associadas à subnotificação de TB referem-se, em sua maioria, à rede de atenção, e não às características individuais, o que aponta para a necessidade de capacitação dos profissionais de saúde para efetuar a notificação aos sistemas de informação.

Palavras-chave:
Tuberculose; Aids; Notificação de doenças

INTRODUÇÃO

A tuberculose (TB) constitui um grave problema de saúde pública, sendo anualmente responsável por cerca de 1,5 milhão de mortes pela doença12. Brasil. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Controle da Tuberculose [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2016 [citado 23 abr. 2017]. Disponível em: Disponível em: http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/fevereiro/21/Apresentacao-sobre-os-principais-indicadores-da-tuberculose.pdf
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,22. Brasil. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Controle da Tuberculose [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2016 [citado 23 abr. 2017]. Disponível em: Disponível em: http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/fevereiro/21/Apresentacao-sobre-os-principais-indicadores-da-tuberculose.pdf
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. A coinfecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) e pelo bacilo da TB representa um grande desafio para o controle dessas doenças, e foi observado que, entre os óbitos relacionados à TB ocorridos no ano de 2015, aproximadamente 0,4 milhões (28,6%) foram resultado da associação com o HIV33. Brasil. Ministério da Saúde. Série histórica da taxa de incidência de tuberculose [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde ; 2016 [citado 23 abr. 2017]. Disponível em: Disponível em: http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/janeiro/03/taxa-incidencia-tuberculose-1990-2015-OUTUBRO-2016.pdf
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. O Brasil está incluído na lista dos países com mais altas cargas de TB/HIV do mundo44. World Health Organization. Global tuberculosis report 2016 [Internet]. Genebra: World Health Organization; 2016 [citado 23 abr. 2017]. Disponível em: Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/250441/1/9789241565394-eng.pdf?ua=1
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, e o estado de Pernambuco situa-se em terceiro lugar, entre as unidades federadas com maior incidência de TB no Brasil (46,4/100 mil habitantes)33. Brasil. Ministério da Saúde. Série histórica da taxa de incidência de tuberculose [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde ; 2016 [citado 23 abr. 2017]. Disponível em: Disponível em: http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/janeiro/03/taxa-incidencia-tuberculose-1990-2015-OUTUBRO-2016.pdf
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A vigilância epidemiológica, particularmente o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), tem se mostrado uma importante ferramenta para auxiliar em ações de controle de doenças como a TB e a aids55. Brasil. Guia de Vigilância em Saúde. Brasil: Ministério da Saúde; 2016.. Os dados disponibilizados por esse sistema permitem traçar o perfil epidemiológico da TB na população, além de identificar casos de coinfecção TB-HIV e os fatores de risco associados a esse último evento55. Brasil. Guia de Vigilância em Saúde. Brasil: Ministério da Saúde; 2016.. A partir de 2014, casos de TB com teste HIV positivos passaram também a ser notificados no sistema, bem como aqueles com a doença manifesta (aids)66. Brasil. Ministério da Saúde. Infecção por HIV passa ser de notificação compulsória [Internet]. 2014 [citado 9 maio 2016]. Disponível em: Disponível em: http://www.blog.saude.gov.br/servicos/34102-infeccao-por-hiv-passa-ser-de-notificacao-compulsoria
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A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o início concomitante da terapia antirretroviral e o tratamento para TB a fim de reduzir a mortalidade em pessoas que apresentam essa comorbidade77. World Health Organization. Treatment of Tuberculosis: guidelines [Internet]. 4ª ed. Genebra: World Health Organization ; 2010 [citado 11 maio 2017]. Disponível em: Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/44165/1/9789241547833_eng.pdf
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. Um grande prejuízo para o paciente que não é notificado para TB é a possibilidade de não começar seu tratamento no momento oportuno, uma vez que a liberação do medicamento se faz por meio da apresentação obrigatória da notificação22. Brasil. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Controle da Tuberculose [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2016 [citado 23 abr. 2017]. Disponível em: Disponível em: http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/fevereiro/21/Apresentacao-sobre-os-principais-indicadores-da-tuberculose.pdf
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. Para que as estimativas da magnitude das doenças sejam feitas com a maior consistência e credibilidade, é necessário que a notificação seja realizada de forma correta e em tempo hábil88. Cowling K, Dandona R, Dandona L. Improving the estimation of the tuberculosis burden in India. Bull World Heal Organ [Internet] 2014 [citado 19 abr. 2017]; 92: 817-25. Disponível em: Disponível em: http://dx.doi.org/10.2471/BLT.13.129775
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. Para isso existem hoje mecanismos que podem auxiliar na identificação e complementação dos dados da notificação, como o relacionamento entre bancos de dados.

O presente estudo teve como objetivo verificar a proporção da subnotificação de TB no Sinan TB entre aqueles pacientes com comorbidade TB/HIV identificados pelo Sinan Aids e os fatores associados a essa subnotificação no estado de Pernambuco.

MÉTODOS

Estudo de corte seccional para estimar a proporção e os fatores associados à subnotificação de TB no Sinan, durante os anos de 2001 a 2010, no estado de Pernambuco, Brasil. Utilizou-se apenas a notificação de aids, pois o registro de HIV ainda não era compulsório no período de estudo. A coleta de dados foi realizada ao longo dos meses de janeiro a junho de 2012, para garantir que os registros do período de estudo estivessem devidamente completos.

Para avaliar a subnotificação de TB (variável dependente), definiu-se como caso de subnotificação de TB o registro que se encontrava no Sinan Aids com relato de TB no item “Infecções associadas”, entretanto que não estava notificado no Sinan TB.

A população de estudo compreendeu todos os registros de notificação de casos existentes no banco do Sinan TB no estado de Pernambuco, durante o período de 2001 a 2010, e no Sinan Aids no mesmo período.

As informações investigadas dizem respeito à comorbidade TB e aids. Inicialmente, foi feita a análise de detecção da duplicidade (conceito utilizado para situações em que o mesmo paciente é notificado mais de uma vez pela mesma ou outra unidade de saúde) nos dois bancos de dados, mediante rotina desenvolvida por Bierrenbach et al.99. Bierrenbach AL, Stevens AP, Gomes ABF, Noronha EF, Glatt R, Carvalho CN, et al. Impact on tuberculosis incidence rates of removal of repeat notifi cation records. Rev Saúde Pública [Internet]. 2007 [citado 28 abr. 2017]; 41(Supl. 1). Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v41s1/en_6491.pdf
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Após a identificação das duplicidades, realizou-se a série de linkage, por meio dos dois bancos (Sinan TB e Sinan Aids). O linkage probabilístico foi efetuado empregando o programa RecLink III1010. Camargo Jr. KR, Coeli CM. OpenRecLink. 2012., utilizando uma rotina de múltiplos passos em que, em cada passo, foi usada determinada chave de blocagem a partir da combinação dos campos: código ­soundex do primeiro e do último nome, sexo, ano de nascimento e município de residência. Ao todo, foram utilizadas 18 estratégias de blocagem com diversas reorganizações dessas variáveis, partindo desde uma chave de blocagem mais restrita até a menos específica. Para comparação de registros, recorreram-se aos campos: nome completo do paciente, nome da mãe e data de nascimento. As variáveis aplicadas para cálculo dos escores apresentaram grau de completude de pelo menos 90%, para que não houvesse prejuízo no processo de comparação. A revisão manual dos pares ocorreu em todos os passos para garantir a qualidade do processo.

Para a identificação dos fatores associados à subnotificação da TB por intermédio dos dados do Sinan Aids, foram estudadas variáveis independentes individuais e relacionadas ao serviço de saúde, selecionadas pelo modelo teórico e com completude de informações ≥ 80%, conforme apresentado no Quadro 1.

Quadro 1:
Categorização das variáveis independentes individuais e relacionadas ao serviço de saúde.

A regressão logística multivariada foi realizada com todas as variáveis com associação ao desfecho p < 0,20 na análise bivariada, e foram calculados as odds ratios (OR) ajustadas e intervalos de confiança de 95%. A inclusão das variáveis foi feita uma a uma, seguindo a ordem de associação estatística com o desfecho em um procedimento forward stepwise, utilizando a razão de veromaximossemelhança, sendo consideradas significantes as associações cujo valor p foi menor do que 0,05.

O presente projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (CPqAM) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

RESULTADOS

O banco do Sinan Aids apresentou 9.350 registros referentes às notificações realizadas no período de 2001 a 2010, no estado de Pernambuco. Destes, 307 representavam registros duplicados (mesmo paciente notificado mais de uma vez) e foram retirados antes do linkage probabilístico, resultando em 9.043 registros sem duplicidade. Foram ainda excluídos 7.736 registros sem relato de TB no momento da notificação. Restaram 1.307 casos de aids com relato de TB no momento da notificação, e foram esses registros que seguiram para o processo de relacionamento de bancos de dados.

O banco do Sinan TB apresentou 51.488 registros referentes às notificações da doença de 2001 a 2010, no estado de Pernambuco, dos quais 4.846 eram duplicados e foram retirados antes do linkage probabilístico, resultando em 46.642 registros únicos de TB, que foram utilizados na próxima etapa da análise.

O linkage feito entre os 46.642 registros do Sinan TB e os 1.307 registros do Sinan Aids evidenciou 926 pares (71% dos registros de aids). Esses pares representam indivíduos que foram notificados tanto no Sinan TB quanto no Sinan Aids de 2001 a 2010, enquanto 381 (29%) registros existentes no Sinan Aids com relato da coexistência de TB não foram encontrados pelo relacionamento probabilístico no Sinan TB e, portanto, representam registros com subnotificação de TB.

Entre as variáveis estudadas, a subnotificação foi mais frequente para aqueles com idade menor que 40 anos, do sexo masculino, que apresentaram TB pulmonar cavitária ou não especificada, não residentes da capital, que foram atendidos no segundo quinquênio do período do estudo, em Serviços de Assistência Especializada (SAEs) do munícipio do Recife. Para o grupo sem subnotificação, as características foram semelhantes, diferindo apenas pela cidade de residência, sendo mais prevalente o Recife (Tabela 1).

Tabela 1:
Análise univariada da associação entre os fatores individuais e de serviços de saúde e a subnotificação de tuberculose com base nos dados do Sinan Aids, Pernambuco, Brasil, 2001-2010.

A Tabela 1 mostra, além da distribuição de frequência das variáveis, o resultado da análise bivariada da associação entre fatores individuais e de serviços de saúde e a subnotificação da TB. Verificou-se que as variáveis grupo etário, sexo, forma clínica da TB, município de residência, quinquênio de atendimento e unidade de atendimento apresentaram associação com a subnotificação de TB, com p inferior a 0,20. A Tabela 2 contém o modelo final da regressão logística multivariada da associação entre os fatores individuais e dos serviços de saúde e a subnotificação de TB. Permaneceram associados à subnotificação de TB casos de TB pulmonar cavitária ou não especificada e a presença das duas formas ao mesmo tempo notificados em municípios fora da capital e em serviços que não são especializados para HIV/aids.

Tabela 2:
Análise multivariada da associação entre os fatores individuais e de serviços de saúde e a subnotificação de tuberculose com base nos dados do Sinan Aids, Pernambuco, Brasil, 2001-2010.

DISCUSSÃO

A proporção de subnotificação de TB com base nos dados do Sinan TB e Aids, no estado de Pernambuco, para o período de 2001 a 2010, foi de 29%.

Não encontramos na literatura estudos sobre subnotificação de TB por meio do linkage entre o Sinan TB e o Sinan Aids. O único artigo referente à coinfecção verifica a incompletude do preenchimento das informações sobre comorbidades1111. Carvalho CN, Dourado I, Bierrenbach AL. Subnotificação da comorbidade tuberculose e aids: uma aplicação do método de linkage. Rev Saúde Pública [Internet]. 2011 [citado 23 abr. 2017]; 45(3): 548-55. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102011000300013&lng=pt&nrm=iso&tlng=en http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102011005000021
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, contudo nessa pesquisa os autores entenderam como subnotificação de comorbidade TB/aids tomando como referência os pares encontrados no linkage que foram considerados padrão ouro da proporção de comorbidade, e foram tidos como subnotificação aqueles registros do linkage em que não estava preenchida a questão referente à comorbidade1111. Carvalho CN, Dourado I, Bierrenbach AL. Subnotificação da comorbidade tuberculose e aids: uma aplicação do método de linkage. Rev Saúde Pública [Internet]. 2011 [citado 23 abr. 2017]; 45(3): 548-55. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102011000300013&lng=pt&nrm=iso&tlng=en http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102011005000021
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. Aqui, de forma diferente, foram vistos como subnotificação de TB os casos que não apareceram no linkage, tomando como padrão ouro aqueles registros que no Sinan Aids disseram ter TB.

Outros estudos publicados compararam o Sinan com o Sistema de Informações de Mortalidade (SIM). Oliveira et al.1212. Oliveira GP de, Pinheiro RS, Coeli CM, Barreira D, Codenotti SB. Uso do sistema de informação sobre mortalidade para identificar subnotificação de casos de tuberculose no Brasil. Rev Bras Epidemiol [Internet]. 2012 [citado 23 abr. 2017]; 15(3): 468-77. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-790X2012000300003&lng=pt&nrm=iso&tlng=en http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2012000300003
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encontraram 39,4% de subnotificação de TB no Sinan no Brasil, mediante a comparação com o SIM, número maior do que o evidenciado neste estudo, quando comparamos Sinan TB e Sinan Aids. Dois estudos no estado do Rio de Janeiro que tinham como objetivo verificar a subnotificação de TB no Sinan pelos dados do SIM alcançaram proporção de subnotificação no Sinan TB de 44,8% em um município da região metropolitana do Rio de Janeiro1313. Pinheiro RS, de Oliveira GP, Oliveira PB, Coeli CM. Melhoria da qualidade do sistema de informação para a tuberculose: uma revisão da literatura sobre o uso do linkage entre bases de dados. In: Brasil. Ministério da Saúde (Ed.). Melhoria da qualidade do sistema de informação para a tuberculose: uma revisão da literatura sobre o uso do linkage entre bases de dados. Brasília: Editora MS; 2011. v. 1. p. 175-84. e de 43,2% para a capital1414. Sousa LMO, Pinheiro RS. Óbitos e internações por tuberculose não notificados no município do Rio de Janeiro. Rev Saúde Pública [Internet]. 2011 [citado 23 abr. 2017]; 45(1): 31-9. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102011000100004&lng=pt&nrm=iso&tlng=en http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102011000100004
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Observa-se que a subnotificação de TB pelos dados de mortalidade apresenta condição pior do que a observada em nosso estudo, que tomou como referência o registro da TB no momento do diagnóstico da aids. Uma possível hipótese para essa situação é que, em muitos casos, o diagnóstico da TB se faz concomitantemente ao da Aids, e, dessa forma, as notificações são realizadas em conjunto, o que poderia favorecer a notificação correta de ambas as doenças. Além disso, estudos têm demonstrado grande parcela de diagnóstico no momento do óbito, o que explicaria não apresentar a notificação1515. Lawn SD, Ayles H, Egwaga S, Williams B, Mukadi YD, Santos Filho ED, et al. Potential utility of empirical tuberculosis treatment for HIV-infected patients with advanced immunodeficiency in high TB-HIV burden settings. Int J Tuberc Lung Dis. 2011; 15(3): 287-95.,1616. Macpherson P, Dimairo M, Bandason T, Zezai A, Munyati SS, Butterworth AE, et al. Risk factors for mortality in smear-negative tuberculosis suspects: a cohort study in Harare, Zimbabwe. Int J Tuberc Lung Dis [Internet]. 2011 [citado 9 maio 2017]; 15(10): 1390-6. Disponível em: Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3272461/pdf/ukmss-38008.pdf http://dx.doi.org/10.5588/ijtld.11.0056
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,1717. Zenner D, Southern J, van Hest R, deVries G, Stagg HR, Antoine D, et al. Active case finding for tuberculosis among high-risk groups in low-incidence countries [State of the art series. Case finding/screening. Number 3 in the series]. Int J Tuberc Lung Dis [Internet]. 2013 [citado 9 maio 2017]; 17(5): 573-82. Disponível em: Disponível em: http://openurl.ingenta.com/content/xref?genre=article&issn=1027-3719&volume=17&issue=5&spage=573 https://doi.org/10.5588/ijtld.12.0920
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Existe, ainda, um estudo sobre o linkage entre o Sinan TB e o Sistema de Internações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS) que encontrou proporção de subnotificação de TB de 22,1% no ano de 2004 no estado fluminense1414. Sousa LMO, Pinheiro RS. Óbitos e internações por tuberculose não notificados no município do Rio de Janeiro. Rev Saúde Pública [Internet]. 2011 [citado 23 abr. 2017]; 45(1): 31-9. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102011000100004&lng=pt&nrm=iso&tlng=en http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102011000100004
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. O valor achado é bem próximo ao constatado em nosso trabalho, pois ambos abordam a notificação de casos vivos. Os trabalhos onde a comparação com o SIM se faz presente geralmente apresentam proporção de notificação maior em razão da gravidade dos casos que foram a óbito e da dificuldade de diagnosticar a TB previamente. O uso do linkage com o banco de dados de mortalidade é de fato um importante procedimento para captar casos de TB não notificados, ou notificados no momento do óbito, entretanto só seriam encontrados casos graves. De outro modo, o linkage do Sinan TB com outras bases de dados, como o Sinan Aids, traz o valor adicional de localizar os pacientes antes de se tornarem casos graves e poder atuar na prevenção de desfechos mais graves.

É importante lembrar que os dados do presente estudo tomaram como base os registros de notificação de aids, porém esses registros também revelam grande percentual de subnotificação, como foi evidenciado na pesquisa de Gonçalves et al. realizada em Fortaleza, que encontrou variação de notificação de 14,1 a 33,1%. Isso vem a agravar ainda mais a situação, uma vez que os dados de base podem estar subnotificados1818. Gonçalves VF, Kerr LRFS, Mota RMS, Mota JMA. Estimativa de subnotificação de casos de aids em uma capital do Nordeste. Rev Bras Epidemiol. 2008; 11(3): 356-64. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2008000300003.
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Estudos em outros países também encontraram subnotificação de TB, demonstrando que esse não é um problema exclusivo do Brasil. Na Grécia, a notificação da TB é obrigatória, mas estudos apontam subnotificação de 48% com base nos registros de três grandes hospitais do país1919. Jelastopulu E, Merekoulias G, Alexopoulos EC. Underreporting of communicable diseases in the prefecture of Achaia, western Greece, 1999-2004 - missed opportunities for early intervention. Euro Surveill [Internet]. 2010 [citado 19 abr. 2017]; 15(21). Disponível em: Disponível em: https://www.eurosurveillance.org/content/10.2807/ese.15.21.19579-en https://doi.org/10.2807/ese.15.21.19579-en
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. Outro estudo realizado na Itália chegou à subnotificação média de 69,4% entre os casos de TB2020. Melosini L, Vetrano U, Dente FL, Cristofano M, Giraldi M, Gabbrielli L, et al. Evaluation of underreporting tuberculosis in Central Italy by means of record linkage. BMC Public Health [Internet]. 2012 [citado 19 abr. 2017]; 12(472): 1-6. Disponível em: Disponível em: http://download.springer.com/static/pdf/352/art%253A10.1186%252F1471-2458-12-472.pdf?originUrl=http%3A%2F%2Fbmcpublichealth.biomedcentral.com%2Farticle%2F10.1186%2F1471-2458-12-472&token2=exp=1492637938~acl=%2Fstatic%2Fpdf%2F352%2Fart%25253A10.1186%25252F https://doi.org/10.1186/1471-2458-12-472
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. Apesar de encontrarmos subnotificação em diversos sistemas, sabe-se que a subnotificação ocorre principalmente por conta do desconhecimento das doenças de notificação obrigatória e por problemas no fluxo da notificação pelos profissionais de saúde1111. Carvalho CN, Dourado I, Bierrenbach AL. Subnotificação da comorbidade tuberculose e aids: uma aplicação do método de linkage. Rev Saúde Pública [Internet]. 2011 [citado 23 abr. 2017]; 45(3): 548-55. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102011000300013&lng=pt&nrm=iso&tlng=en http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102011005000021
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No que se refere à notificação da associação TB/aids ao Sinan, aspectos estruturais e organizacionais dos serviços de saúde do SUS e do fluxograma do Sinan podem explicar uma parcela da subnotificação de casos ao sistema de vigilância2121. Ferreira VM, Portela MC, Vasconcellos MT. Fatores associados à subnotificação de pacientes com Aids, no Rio de Janeiro, RJ, 1996. J Public Health (Bangkok). 2000; 34(2): 170-177. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102000000200011
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, entretanto a TB no Brasil é um agravo de responsabilidade da atenção básica. Portanto, não deveria haver impedimento para a captação nem para a notificação dos casos1212. Oliveira GP de, Pinheiro RS, Coeli CM, Barreira D, Codenotti SB. Uso do sistema de informação sobre mortalidade para identificar subnotificação de casos de tuberculose no Brasil. Rev Bras Epidemiol [Internet]. 2012 [citado 23 abr. 2017]; 15(3): 468-77. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-790X2012000300003&lng=pt&nrm=iso&tlng=en http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2012000300003
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. Apesar disso, a atenção básica ainda apresenta grandes desafios para o controle da TB, como o próprio programa de descentralização insatisfatório, além de deficiências estruturais e de recursos humanos2222. Claudeli M, Leite CEA, Vieira MCA, Jacobi C da S, Sarmento SS, Motta CA. A importância da atenção básica no controle da tuberculose no Brasil: uma revisão da literatura. In: XVII Seminário Internacional de Educação no Mercosul. 2015.. Dessa forma, o diagnóstico da TB para coinfectados ainda continua sendo predominante em hospitais e SAEs.

A chance de subnotificação para TB foi maior entre aqueles com diagnóstico de TB pulmonar cavitária ou não especificada e com as duas formas da doença (disseminada/extrapulmonar/não cavitária e TB pulmonar cavitária ou não especificada) ao mesmo tempo. A TB extrapulmonar apresenta seu diagnóstico mais complexo44. World Health Organization. Global tuberculosis report 2016 [Internet]. Genebra: World Health Organization; 2016 [citado 23 abr. 2017]. Disponível em: Disponível em: http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/250441/1/9789241565394-eng.pdf?ua=1
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e, uma vez identificada, poderia se pensar que existe preocupação maior na notificação correta. Com isso, a chance de ser subnotificado ao ter outras formas de TB seria maior em comparação com o tipo extrapulmonar. Por outro lado, a TB pulmonar é responsável pela transmissão e, por isso, deveria haver mais atenção para a notificação desses casos e início do tratamento. Esses casos são de extrema importância para o controle da TB, já que podem colocar em risco seus contatos e disseminar a doença.

Os indivíduos que foram atendidos em municípios do interior ou da região metropolitana tiveram mais chance de subnotificação de TB quando comparados àqueles atendidos na capital. Esse achado pode demonstrar a necessidade de capacitação continuada dos profissionais para notificação dos casos em cidades do interior ou da região metropolitana1111. Carvalho CN, Dourado I, Bierrenbach AL. Subnotificação da comorbidade tuberculose e aids: uma aplicação do método de linkage. Rev Saúde Pública [Internet]. 2011 [citado 23 abr. 2017]; 45(3): 548-55. Disponível em: Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102011000300013&lng=pt&nrm=iso&tlng=en http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102011005000021
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. De outra forma, os casos registrados no interior, em municípios com serviços de saúde não informatizados, podem sofrer mais com atrasos ou extravio das fichas durante o percurso para a Secretaria de Saúde estadual, levando à perda dessa informação. Nesses casos, a ficha de notificação é encaminhada para a regional de saúde para digitação.

Os casos de aids notificados em outras unidades que não sejam SAEs para HIV/aids apresentam mais chance para a subnotificação de TB. Os SAEs para HIV/aids estão potencialmente mais capacitados para a investigação, o diagnóstico e a notificação mais correta para coinfecções, entre elas a TB2323. Brasil. Ministério da Saúde. Serviço de Assistência Especializada em HIV/Aids | Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais [Internet]. 2016 [citado 28 abr. 2017]. Disponível em: Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt-br/servico-de-assistencia-especializada-1
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.

A subnotificação de TB representa grande prejuízo, visto que é um pré-requisito para iniciar o seu tratamento22. Brasil. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Controle da Tuberculose [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2016 [citado 23 abr. 2017]. Disponível em: Disponível em: http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/fevereiro/21/Apresentacao-sobre-os-principais-indicadores-da-tuberculose.pdf
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. Diante disso, é interessante saber até que ponto a não notificação está influenciando o tratamento da TB ou se esses indivíduos, mesmo não sendo registrados, estão recebendo o tratamento adequado, pois se faz necessária a notificação para a liberação do medicamento para o tratamento da TB. É importante investigar o significado e a repercussão da subnotificação da TB, se existe prejuízo para o indivíduo com TB não notificado, como o não recebimento do tratamento, ou para a vigilância, que, ao não detectar esses indivíduos, elabora planejamentos equivocados, que podem comprometer a disponibilidade dos medicamentos para o tratamento dos indivíduos com TB, bem como o controle da disseminação da doença entre os contatos.

Uma limitação do presente estudo é a inexistência de um padrão ouro de comparação. Sendo assim, as estimativas apresentadas fundamentam-se no pressuposto de que os dados preenchidos nas fichas de notificação de TB e de aids estão corretos, não sendo possível, entretanto, afastar a presença de viés de classificação pelo erro no preenchimento das fichas do Sinan.

Contudo, os resultados encontrados são de grande importância para o sistema de vigilância epidemiológica. Os fatores associados à não notificação dos casos de TB no Sinan TB entre os casos de comorbidade registrada no Sinan Aids se referem, em sua maioria, a características relacionadas à unidade de saúde e à rede de atenção, e não às características individuais dos pacientes. Logo, mais atenção para essa área poderia melhorar os dados referentes à coinfecção TB/aids e garantir que as estimativas sejam mais bem calculadas, aproximando-se mais da realidade do serviço.

CONCLUSÃO

A interação entre os programas de controle da TB e da aids é de fundamental importância para o controle da coinfecção. Recomenda-se a realização do linkage entre sistema de informações qualitativamente distintos, como o Sinan TB e Sinan Aids, para complementação das informações sobre casos já registrados de coinfecção e para detecção de casos que não foram notificados por um dos sistemas.

Mais atenção para a notificação correta e eficaz se faz necessária para a melhoria dos dados referentes à coinfecção TB/aids, garantindo, assim, que as estimativas epidemiológicas sejam mais bem calculadas. Dessa forma, o planejamento de ações nessas áreas seria mais bem conduzido e mais preciso.

REFERÊNCIAS

  • Fonte de financiamento: nenhuma

Histórico

  • Recebido
    27 Maio 2017
  • pub
    04 Nov 2017
  • Aceito
    24 Nov 2017
  • Publicação Online
    11 Out 2018
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