Prevalência de fatores de risco cardiovascular na população de Vitória segundo dados do VIGITEL e da Pesquisa Nacional de Saúde de 2013

Mariana Veronez Borgo Enildo Broetto Pimentel Marcelo Perim Baldo Juliana Bottoni de Souza Deborah Carvalho Malta José Geraldo Mill Sobre os autores

RESUMO:

Objetivo:

Comparar a prevalência de fatores de risco cardiovascular na população de Vitória (ES) em pesquisa autorreferida por contato telefônico (VIGITEL) ou por exames clínicos e laboratoriais realizados na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS).

Método:

Os inquéritos foram realizados na população adulta de Vitória (≥18anos). No VIGITEL foram entrevistados 1996 indivíduos (homens = 38%). Na PNS foi feita visita domiciliar seguida de exames clínicos e laboratoriais em 318 indivíduos (homens = 48%) selecionados em 20setores censitários da cidade. Nos dois inquéritos, as prevalências foram ajustadas para a estrutura populacional estimada para o ano de 2013. Os dados são fornecidos como porcentagens e intervalo de confiança de 95% (IC95%).

Resultados:

Foram encontradas prevalências similares no VIGITEL e na PNS, respectivamente, para tabagismo (8,2%; IC95% 6,7 - 9,7% versus 10,0; IC95% 6,4 - 13,6%) e hipertensão (24,8%; IC95% 22,6- 27,0% versus 27,2%; IC95% 21,8 - 32,5%). Houve diferença estatística (p < 0,01) entre o VIGITEL e a PNS, respectivamente, para as prevalências de obesidade (16,8%; IC95% 14,1 - 18,1% versus 25,7%; IC95% 20,4- 30,9%) e colesterol elevado (≥ 200mg/dL) no sangue (20,6%; IC95% 18,6 - 22,6% versus 42,3%; IC95% 36,9- 47,7%). A prevalência de diabetes também foi maior (p < 0,05) na PNS (6,7 versus 10,7%).

Conclusão:

A prevalência populacional de hipertensão e tabagismo foi estimada adequadamente no VIGITEL. Isso não ocorreu com a obesidade por provável viés de informação do peso corporal no VIGITEL. Os dados mostram a necessidade de melhorar a cobertura diagnóstica das dislipidemias em vista da importância do controle desse fator de risco na prevenção primária das doenças cardiovasculares.

Palavras-chave:
Hipertensão; Obesidade; Dislipidemias; Diabetes mellitus

INTRODUÇÃO

As doenças cardiovasculares (DCV) constituem a principal causa de morte no Brasil e um dos itens que mais contribuem para os gastos em saúde e dias perdidos de vida com qualidade11. Roth GA, Huffman MD, Moran AE, Feigin V, Mensah GA, Naghavi M, et al. Global and regional patterns in cardiovascular mortality from 1990 to 2013. Circulation 2015; 132(17): 1667-78. https://doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.114.008720
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,22. Smith SC Jr, Chen D, Collins A, Harold JG, Jessup M, Josephson S, et al. Moving from political declaration to action on reducing the global burden of cardiovascular diseases: a statement from the global cardiovascular disease task force. Circulation 2013; 128(23): 2546-8. https://doi.org/10.1161/CIR.0b013e3182a93504
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. AsDCV são doenças complexas, pois dependem tanto da predisposição genética como de hábitos de vida33. Ribeiro AL, Duncan BB, Brant LC, Lotufo PA, Mill JG, Barreto SM. Cardiovascular Health in Brazil: Trends and Perspectives. Circulation 2016; 133(4): 422-33. https://doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.114.008727
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,44. Knight BS, Sunn N, Pennell CE, Adamson SL, Lye SJ. Developmental regulation of cardiovascular function is dependent on both genotype and environment. Am J Physiol Heart Circ Physiol 2009; 297(6): H2234-41. https://doi.org/10.1152/ajpheart.01338.2008
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. Estudos epidemiológicos mostram que as DCV podem ser prevenidas pela adoção de hábitos saudáveis e, se diagnosticadas e tratadas de forma precoce, são passíveis de controle55. Yusuf S, Hawken S, Ounpuu S, Dans T, Avezum A, Lanas F, et al. Effect of potentially modifiable risk factors associated with myocardial infarction in 52 countries (The INTERHEART Study): case-control study. Lancet 2004; 364(9438): 937-52. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(04)17018-9
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A adoção de políticas públicas adequadas de diagnóstico e tratamento das DCV requer o monitoramento contínuo da população visando determinar a necessidade e a eficácia de intervenções. Estudos epidemiológicos mostram que a morbimortalidade cardiovascular pode ser reduzida por meio de políticas adequadas de controle dos seus principais fatores de risco: uso de tabaco, hipertensão arterial, diabetes, dislipidemias e sobrepeso/obesidade33. Ribeiro AL, Duncan BB, Brant LC, Lotufo PA, Mill JG, Barreto SM. Cardiovascular Health in Brazil: Trends and Perspectives. Circulation 2016; 133(4): 422-33. https://doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.114.008727
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,55. Yusuf S, Hawken S, Ounpuu S, Dans T, Avezum A, Lanas F, et al. Effect of potentially modifiable risk factors associated with myocardial infarction in 52 countries (The INTERHEART Study): case-control study. Lancet 2004; 364(9438): 937-52. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(04)17018-9
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. O estudo INTERHEART, por exemplo, mostrou que cerca de 90% do risco atribuível ao infarto do miocárdio depende da combinação de apenas 9 fatores de risco, incluindo os citados anteriormente66. Tzoulaki I, Elliott P, Kontis V, Ezzatti M. Worldwide exposures to cardiovascular risk factors and associated health effects: Current knowledge and data gaps. Circulation 2016; 133(23): 2314-33. https://doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.115.008718
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. Portanto, o monitoramento desses fatores na população é essencial para direcionar políticas públicas77. Schmidt MI, Duncan BB, Azevedo e Silva G, Menezes AM, Monteiro CA, Barreto SM, et al. Chronic non-communicable diseases in Brazil: burden and current challenges. Lancet 2011; 377(9781): 1949-61. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(11)60135-9
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. Para isso, o Ministério da Saúde implantou um sistema de vigilância de fatores de risco para as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) e passou a realizar, desde 2006, um inquérito telefônico (VIGITEL) anual em todas as capitais de estado e no Distrito Federal. Oprincipal objetivo do VIGITEL é monitorar os hábitos de vida, bem como a prevalência e as características epidemiológicas das DCNT, incluindo as DCV e seus fatores de risco, na população brasileira88. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. VIGITEL 2006: Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas em Inquérito Telefônico. Brasília: Ministério da Saúde; 2007.. Uma das limitações do VIGITEL é o fato de que todas as informações, incluindo os fatores de risco cardiovascular, são autorreferidas em entrevista telefônica. Presume-se que fatores de risco facilmente identificáveis, como o tabagismo, sejam determinados com maior acurácia nesse tipo de inquérito. Entretanto, a prevalência de fatores de risco cujo diagnóstico depende de exames clínicos e laboratoriais pode ser inadequada pelo viés de informação.

Em 2013 foi realizado em Vitória, capital do Espírito Santo, um subestudo da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) visando determinar o consumo de sal pela população adulta mediante coleta urinária de 24 horas e da medida da relação sódio/creatinina em amostra de urina casual99. Rodrigues SL, Souza Júnior PR, Pimentel EB, Baldo MP, Malta DC, Mill JG, et al. Relationship between salt consumption measured by 24-h urine collection and blood pressure in the adult population of Vitória (Brazil). Braz J Med Biol Res 2015; 48(8): 728-35. https://dx.doi.org/10.1590%2F1414-431X20154455
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. Nesta pesquisa também foi feita a determinação da presença de fatores de risco cardiovascular em entrevista domiciliar, além de exames clínicos e laboratoriais. Tendoem vista que os dois inquéritos foram realizados na mesma população e no mesmo ano, este trabalho teve como objetivo comparar as prevalências de fatores de risco apuradas, possibilitando obter um olhar crítico sobre a validade dos dados do VIGITEL, os quais, além de apresentarem abrangência nacional, são coletados em amostra robusta da população brasileira.

MÉTODO

Foram utilizados dados do VIGITEL/2013 e da PNS-Vitória/2013 apurados na população adulta de Vitória. O VIGITEL foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa para Seres Humanos do Ministério da Saúde (CONEP 355590) e o consentimento foi obtido verbalmente no contato telefônico com os entrevistados. A PNS-Vitória/2013 foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) (CEP/CCS 3243/2013), e todos os participantes assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes da coleta de dados.

O VIGITEL é realizado em amostra probabilística da população adulta (≥ 18 anos) de cada cidade onde é aplicado. Na pesquisa de 2013, em Vitória, foram sorteadas 3.800 linhas telefônicas fixas, das quais 2.786 foram elegíveis para o estudo, pois correspondiam a números residenciais. No contato telefônico, um morador do domicílio situado na faixa etária do estudo era convidado a participar. Foram realizadas 1.996 entrevistas (703 homens e 1.263mulheres) com aplicação de questionário para o levantamento de dados sociodemográficos e de saúde. Tendo em vista a discrepância entre a amostra entrevistada e a população elegível, as prevalências apuradas foram ponderadas pelo uso das estimativas de idade, sexo e escolaridade da população projetada para o ano da pesquisa1010. Graham, K. Compensating for missing survey data. Michigan: Ann Arbor; 1983.. Constam do questionário 83 questões de dados demográficos e socioeconômicos, padrão alimentar, hábitos de vida (atividade física, tabagismo e consumo de bebidas alcoólicas), dados antropométricos (peso e altura), autoavaliação do estado de saúde e morbidade referida1111. Brasil. VIGITEL Brasil 2013: Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. Brasília: Ministério da Saúde , Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis e Promoção da Saúde; 2014..

A amostra da PNS foi obtida por sorteio de 20 setores censitários de Vitória. Em cada setor foram visitados 20 domicílios residenciais para identificação de um voluntário (18 a 69anos de idade). O recrutamento em cada setor foi feito em cotas, sendo 50% para cada sexo e 20% para cada década de idade - a primeira englobou indivíduos na faixa de 18 a 29anos. Nãoforam incluídos indivíduos que, no momento da visita domiciliar, apresentavam-se acamados, com mobilidade reduzida ou dificuldade de comunicação, além de gestantes ou lactantes. Foramrecrutados 396 indivíduos, que responderam ao questionário da PNS no próprio domicílio para levantamento de dados sociodemográficos (sexo, escolaridade, raça/cor autorreferida, renda mensal, uso de medicamentos, morbidade autorreferida e hábitos de vida, incluindo uso de tabaco). A visita domiciliar foi realizada por profissionais de nível superior (enfermagem e nutrição) previamente treinados para a tarefa. Na visita domiciliar também era agendado o dia para a realização de exames clínicos e laboratoriais, incluindo a coleta urinária de 24 h. Todos os exames foram realizados num único dia na Clínica de Investigação Cardiovascular do Centro de Ciências da Saúde da UFES, no máximo 15 dias após a entrevista domiciliar. Os exames clínicos (antropometria e aferição da pressão arterial) foram feitos por enfermeiros previamente treinados. Compareceram para a realização dos exames 326 indivíduos, sendo que a coleta completa de dados foi obtida em 318 (80,3% da amostra domiciliar). Outros detalhes da metodologia do estudo e dos exames realizados já foram publicados99. Rodrigues SL, Souza Júnior PR, Pimentel EB, Baldo MP, Malta DC, Mill JG, et al. Relationship between salt consumption measured by 24-h urine collection and blood pressure in the adult population of Vitória (Brazil). Braz J Med Biol Res 2015; 48(8): 728-35. https://dx.doi.org/10.1590%2F1414-431X20154455
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,1212. Mill JG, Rodrigues SL, Baldo MP, Malta DC, Szwarcwald CL. Estudo de validação das equações de Tanaka e de Kawasaki para estimar a excreção diária de sódio através da coleta da urina casual. Rev Bras Epidemiol 2015; 18(Supl. 2): 224-37. http://dx.doi.org/10.1590/1980-5497201500060020
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.

Na visita clínica foi feita coleta de sangue em jejum para a realização de exames bioquímicos em um laboratório central (Laboratório Tommasi, Vitória) com certificação da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica. O peso foi obtido em balança eletrônica calibrada (Toledo, Brasil) com precisão de 0,1 kg e a estatura, em estadiômetro de parede (Seca, Alemanha) com precisão de 0,1cm. A classificação do peso foi feita em função do índice de massa corporal (IMC) calculado pela relação de Quételet (peso/estatura22. Smith SC Jr, Chen D, Collins A, Harold JG, Jessup M, Josephson S, et al. Moving from political declaration to action on reducing the global burden of cardiovascular diseases: a statement from the global cardiovascular disease task force. Circulation 2013; 128(23): 2546-8. https://doi.org/10.1161/CIR.0b013e3182a93504
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). A pressão arterial foi medida em sala apropriada, com temperatura controlada (22-24oC), no período da manhã, com o participante em jejum e após esvaziamento vesical. O participante permanecia em repouso por, pelo menos, cinco minutos na posição sentada. A pressão era aferida no braço esquerdo em aparelho oscilométrico (Onrom 765CP IntelliSense, Japão) e com uso de manguito apropriado à circunferência do braço. De cada participante foram obtidas três medidas a intervalos de 1minuto, e a pressão arterial casual foi calculada pela média das duas últimas medidas. Foi considerado hipertenso o indivíduo com pressão arterial ≥140/90mmHg ou relato de uso atual de anti-hipertensivo. O diabetes foi determinado pela presença de glicemia de jejum ≥ 126mg/dL ou pelo relato de uso atual de hipoglicemiante oral e/ou insulina. A presença de dislipidemia foi caracterizada pela presença de colesterol total igual ou maior ao valor limítrofe (≥ 200mg/dL) ou pelo uso atual de estatina1313. Xavier HT, Izar MC, Faria Neto JR, Assad MH, Rocha VZ, Sposito AL, et al. V Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. Arq Bras Cardiol 2013; 101(4 Supl. 1): 1-22. http://dx.doi.org/10.5935/abc.2013S010
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.

ANÁLISE DOS DADOS

As variáveis contínuas são apresentadas como média ± desvio padrão, e as proporções, como porcentagens e intervalo de confiança de 95% (IC95%). Tendo em vista a adoção de cotas por faixa etária na seleção da amostra na PNS, a prevalência populacional de cada fator de risco foi estimada a partir da estrutura da população de Vitória projetada para o ano de 2013, segundo os dados censitários de 20101414. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo demográfico, 2010 [Internet]. [acessado em 16 jul. 2014. Disponível em: Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/default_resultados_universo.shtm
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/...
. Dessa forma, os fatores de risco amostrais diferem daqueles estimados para a população-alvo. A comparação de médias foi feita pelo teste t de Student em amostras independentes, e a comparação de proporções, pelo teste estatístico Qui-quadrado de Pearson (χ2). A significância estatística foi estabelecida para p < 0,05.

RESULTADOS

A Tabela 1 apresenta as características sociodemográficas da amostra estudada na PNS. A proporção de homens e mulheres foi similar àquela apurada na contagem populacional de 2010. Como esperado pelo modelo adotado de seleção amostral (cota por faixa etária), a distribuição por idade é diferente em relação à população, com inclusão proporcional maior de pessoas nas faixas etárias mais altas. As demais características sociodemográficas (raça/corautorreferida e escolaridade) apresentaram distribuição similar aos dados censitários do município de Vitória apurados em 20101414. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo demográfico, 2010 [Internet]. [acessado em 16 jul. 2014. Disponível em: Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/default_resultados_universo.shtm
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/...
.

Tabela 1.
Características sociodemográficas da amostra Pesquisa Nacional de Saúde/Vitória, Espírito Santo, 2013.

As características clínicas e laboratoriais da amostra da PNS são apresentadas na Tabela2. Como esperado, as mulheres apresentaram menor (p < 0,05) peso e estatura, bem como valores mais baixos de creatinina, ácido úrico e pressão sistólica e valor mais alto da lipoproteína de alta densidade (HDL-c). As demais variáveis foram similares entre os sexos. Excessode peso (IMC ≥ 25 kg/m2) foi encontrado em 63,3% (IC95% 58,0 - 68,6%) dos participantes, dos quais 25,7% (IC95% 21,1 - 30,7%) apresentavam obesidade (IMC ≥ 30 kg/m2).

Tabela 2.
Características clínicas e laboratoriais dos indivíduos estudados na Pesquisa Nacional de Saúde/Vitória, Espírito Santo, 2013.

Dos 111 hipertensos da amostra, 65 estavam em uso de anti-hipertensivos e 44 apresentavam pressão arterial controlada (< 140/90mmHg), com 68% de controle. Observou-se conhecimento (awareness) da presença de hipertensão em 64% dos hipertensos identificados na visita clínica. Assim, no universo de hipertensos da amostra, o controle pressórico ficou próximo a 40%. Foram identificados 34 portadores de diabetes (prevalência de 10,7%; IC95% 7,3 - 14,1%), dos quais 26 (76%) haviam relatado essa condição na entrevista domiciliar. Desses, 25 estavam em uso de medicação e 9 apresentavam glicemia controlada (≤125mg/dL). Assim, o controle glicêmico ocorria em 36% dos portadores de diabetes em tratamento e abrangia apenas 26% do total dos doentes. Em relação ao colesterol total, detectou-se prevalência de 42,3% (IC95% 36,9 - 47,7%), sendo o relato dessa condição feito por apenas 43% dos portadores na entrevista. Apenas 29 estavam em uso de estatina, dos quais 23 apresentavam controle (< 200mg/dL). Dos 289 indivíduos sem uso de estatina, havia 107 com colesterol total ≥ 200mg/dL, sendo 29 com valores ≥ 240mg/dL. Como a frequência do uso de estatina entre os portadores de colesterol elevado foi baixa (21,3%), verificou-se que apenas 17% deles apresentavam controle desse fator de risco.

A comparação de prevalências de fatores de risco por sexo nos dois inquéritos é apresentada na Tabela 3. É interessante observar que, em relação à obesidade, a prevalência encontrada em mulheres foi maior na PNS, em que o IMC foi calculado a partir das medidas de peso e altura, do que no VIGITEL, no qual essas medidas foram autorreferidas. O colesterol elevado foi observado com maior frequência, tanto em homens quanto em mulheres, na PNS, o que certamente traduz o baixo conhecimento desse fator de risco pela população em geral.

Tabela 3.
Comparação das prevalências de fatores de risco cardiovascular no VIGITEL e na Pesquisa Nacional de Saúde no município de Vitória, Espírito Santo, 2013, por sexo.

A comparação entre as prevalências de fatores de risco apuradas no VIGITEL e na PNS 2013 é mostrada na Figura 1. Como a amostra do VIGITEL foi mais robusta, composta de 1.996 entrevistas telefônicas, as prevalências populacionais foram estimadas por meio de pesos de pós-estratificação por escolaridade, sexo e estrutura etária da população. Na PNS fez-se a estimativa da prevalência populacional a partir dos ajustes para a população de Vitória na faixa etária de 18 a 69 anos. O tabagismo foi autorreferido em ambos os inquéritos por telefone (VIGITEL) e na entrevista domiciliar da PNS. Observa-se que as prevalências de tabagismo (8,2%; IC95% 6,7 - 9,7 versus 10,4%; IC95% 7,0 - 13,4%) e de hipertensão arterial (24,8%; IC95% 24,8 - 27,0% versus 27,2%; IC95% 21,8 - 32,5%) foram similares no VIGITEL e na PNS, respectivamente. Em relação à hipertensão, os dois inquéritos apresentam prevalência global similar (27,9 versus 28,2%, respectivamente), porém tendência a serem diferentes em relação ao sexo (Tabela 3). Quanto ao diabetes, o VIGITEL apurou prevalência de 6,7% (IC95% 5,6 - 7,9%), valor inferior (χ2 = 23,0; p < 0,01) àquele da PNS (10,8%; IC95% 7,1 - 14,5%). Cabe ressaltar que a presença de diabetes foi autorreferida na entrevista da visita domiciliar por 9,3% (IC95% 6,2 - 12,6%) dos participantes da PNS.

Figura 1.
Prevalências de fatores de risco cardiovascular no VIGITEL e na Pesquisa Nacional de Saúde na população adulta de Vitória, Espírito Santo, 2013.Os dados são fornecidos como porcentagem e intervalo de confiança de 95%.

Diferenças marcantes nos dois inquéritos foram detectadas em relação à obesidade (IMC ≥ 30 kg/m2) e ao colesterol elevado. Segundo o VIGITEL, a prevalência de obesidade foi de 16,8% (IC95% 14,1 - 18,1%), enquanto o valor de 25,7% (IC95% 20,4 - 30,9%) foi apurado na PNS (Figura 1). Cabe observar que a maior discrepância entre os dois inquéritos foi detectada em mulheres (Tabela 3), com a prevalência de obesidade aferida pelas medidas antropométricas sendo praticamente duas vezes maior do que a apurada por entrevista telefônica.

A maior diferença foi encontrada em relação ao colesterol elevado, o qual foi referido por 20,6% (IC95% 18,6 - 22,6%) no VIGITEL e encontrado em 40,9% (IC95% 35,0 - 46,8%) dos participantes da PNS (Figura 1). Diferentemente do observado em relação à obesidade e à hipertensão, a diferença entre os dois inquéritos para o colesterol ocorreu tanto em homens como em mulheres (Tabela 3). A prevalência de colesterol elevado autorrelatado na PNS foi de apenas 18,2% (IC95% 14,0 - 22,4%), valor similar ao apurado no VIGITEL.

DISCUSSÃO

O estudo apresenta as frequências de indicadores relativos ao risco cardiovascular (tabagismo, obesidade, hipertensão arterial, diabetes e colesterol total elevado) na população de uma mesma cidade, Vitória, capital do Espírito Santo, segundo dados apurados em dois inquéritos que seguiram metodologias diferentes. No VIGITEL, todos os dados foram coletados em entrevista telefônica, e no subestudo da PNS 2013, a coleta foi feita por questionário aplicado durante visita domiciliar, seguido de medidas e exames em ambiente clínico. Comparando-se os dois inquéritos, foram encontradas prevalências similares para tabagismo e hipertensão arterial. Para o diabetes houve tendência de maior prevalência na PNS. Para obesidade e colesterol elevado, entretanto as prevalências foram nitidamente maiores na PNS, ou seja, quando foram realizadas medidas objetivas desses parâmetros. No caso da obesidade, a discrepância decorreu da prevalência menor em mulheres apurada no VIGITEL. Em relação ao colesterol alto, entretanto, a subinformação no VIGITEL ocorreu em ambos os sexos, sendo decorrente da baixa frequência de conhecimento dessa condição pela população em geral, haja vista que a presença de colesterol autorreferido foi similar na entrevista telefônica (VIGITEL) e na entrevista domiciliar (PNS). Em relação ao diabetes, houve diferença amostral que não se confirmou após ajuste para a estrutura etária da população. Isso se deveu, entretanto, ao pequeno número de indivíduos incluídos na PNS, dificultando estabelecer, com poder estatístico adequado, prevalências inferiores a 10%

Os inquéritos populacionais são fundamentais para a obtenção de informações em saúde, agregando importância ao planejamento e às ações em saúde coletiva. A comparação entre os distintos inquéritos produz desafios metodológicos1515. Malta DC, Leal MC, Costa MFL, Morais Neto OL. Inquéritos Nacionais de Saúde: experiência acumulada e proposta para o inquérito de saúde brasileiro. Rev Bras Epidemiol 2008; 11(Supl. 1):159-67. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2008000500017
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,1616. Barros MBA. Inquéritos domiciliares de saúde: potencialidades e desafios. Rev Bras Epidemiol 2008; 11(Supl. 1): 6-19. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2008000500002
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. Na PNS/Vitória foi feita entrevista face a face, e no VIGITEL toda a coleta de dados foi obtida por telefone. Em geral, entrevistas são tidas como padrão ouro na pesquisa epidemiológica, pois coletam informações com maior precisão sobre a realidade da saúde. Têm, entretanto, maior custo e apresentam dificuldades operacionais e logísticas não encontradas em inquéritos telefônicos1616. Barros MBA. Inquéritos domiciliares de saúde: potencialidades e desafios. Rev Bras Epidemiol 2008; 11(Supl. 1): 6-19. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2008000500002
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,1717. Organização Mundial de Saúde. STEPwise approach to surveillance (STEPS) [Internet]. Organização Mundial de Saúde [acessado em 16 jul. 2014]. Disponível em: Disponível em: http://www.who.int/chp/steps/en/
http://www.who.int/chp/steps/en/...
. Estes têm grande importância para a vigilância epidemiológica pela capacidade de monitorar fatores e comportamentos de risco de forma contínua, com periodicidade regular, além de serem extremamente ágeis e de baixo custo1111. Brasil. VIGITEL Brasil 2013: Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. Brasília: Ministério da Saúde , Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis e Promoção da Saúde; 2014.,1515. Malta DC, Leal MC, Costa MFL, Morais Neto OL. Inquéritos Nacionais de Saúde: experiência acumulada e proposta para o inquérito de saúde brasileiro. Rev Bras Epidemiol 2008; 11(Supl. 1):159-67. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2008000500017
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,1818. Bernal RTI, Malta DC, Araujo TS, Silva NN. Inquérito por telefone: pesos de pós-estratificação para corrigir vícios de baixa cobertura em Rio Branco, AC. Rev Saúde Pública 2013; 47(2): 316-25. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-8910.2013047003798
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.

A comparação de dados de prevalência em diferentes inquéritos é complexa em vista das diferenças metodológicas em relação à amostragem, às estratégias de coleta de dados e ao tempo de coleta de campo1919. Galán I, Rodriguez-Artalejo F, Zorrilla B. Comparación entre encuestas telefónicas y encuestas «cara a cara» domiciliarias en la estimación de hábitos de salud y prácticas preventivas. Gac Sanit 2004; 18(Supl. 2): 440-50.. Mesmo quando se usam questionários e definições idênticas, diferenças encontradas podem estar relacionadas ao próprio entendimento das questões, uma vez que a presença do pesquisador pode melhorar a compreensão de perguntas formuladas, bem como das opções de respostas, podendo levar a achados mais próximos da realidade. Por outro lado, os levantamentos remotos (telefone, internet), por serem mais impessoais, podem ser mais adequados para o levantamento de temas sensíveis, como uso de álcool e outras drogas, por exemplo2020. Malta DC, Bernal RTI, Mascarenhas MDM, Silva MMA, Szwarcwald CL, Morais Neto OL. Consumo de bebidas alcoólicas e direção de veículos nas capitais brasileiras e no Distrito Federal, segundo dois inquéritos nacionais de saúde. Rev Bras Epidemiol 2015 18(Supl. 2): 214-23. http://dx.doi.org/10.1590/1980-5497201500060019
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. Visando à maior comparabilidade dos dados, apesar das diferenças metodológicas, o questionário da PNS para o módulo de estilo de vida, em geral, seguiu modelo semelhante ao inquérito telefônico adotado no VIGITEL, embora tenham sido introduzidas pequenas variações em algumas questões. Em relação à morbidade autorreferida, entretanto, as perguntas e opções de resposta foram similares nos dois inquéritos.

Dos cinco indicadores avaliados com maior detalhe, foram identificadas estimativas semelhantes em três deles ao usar o intervalo de confiança para a estimativa populacional: uso de tabaco e diagnóstico prévio de hipertensão e diabetes. É fácil entender a reprodutibilidade dos dados relativos ao uso de tabaco, uma vez que não há grande dificuldade para os indivíduos reportarem esse hábito em contato direto ou telefônico com o entrevistador. Em relação à hipertensão, a similaridade dos dados sugere cobertura diagnóstica adequada desse fator de risco em Vitória. Quanto ao diabetes, os dados de prevalência populacional são frágeis por conta do reduzido número amostral da PNS.

Como o diagnóstico de hipertensão é feito, em geral, na atenção primária, nossos dados indicam boa cobertura diagnóstica em Vitória. Resultado similar foi obtido em estudo que comparou inquéritos domiciliares (National Health Interview Survey - NHIS) e telefônicos (Behavioral Risk Factor Surveillance System - BRFSS) nos Estados Unidos2121. Nelson DE, Powell-Griner E, Town M, Kovar MG. A comparison of national estimates from the National Health Interview Survey and the Behavioral Risk Factor Surveillance System. Am J Public Health 2003; 93(8): 1335-41.. Outro estudo realizado em Madri, Espanha, que investigou fatores de risco comportamentais, também mostrou semelhança entre os resultados obtidos em entrevistas telefônicas e face a face1919. Galán I, Rodriguez-Artalejo F, Zorrilla B. Comparación entre encuestas telefónicas y encuestas «cara a cara» domiciliarias en la estimación de hábitos de salud y prácticas preventivas. Gac Sanit 2004; 18(Supl. 2): 440-50.. No Brasil, um estudo em Belo Horizonte também apontou semelhanças nos resultados do VIGITEL e do inquérito domiciliar2222. Ferreira AD, César CC, Malta DC, Andrade ACS, Ramos CGC, Proietti FA, et al. Validade de estimativas obtidas por inquérito telefônico: comparação entre Vigitel 2008 e Inquérito Saúde em Beagá. Rev Bras Epidemiol 2011; 14(Supl. 1): 16-30. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2011000500003
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. Já o estudo comparativo IsaCAMP (Campinas, São Paulo) detectou diferenças nas estimativas de prevalência de hipertensão arterial e osteoporose em inquéritos telefônico e domiciliar2323. Francisco PMSB, Barros MBA, Segri NJ, Alves MCGP, Cesar CLG, Malta DC. Comparação de estimativas para o auto-relato de condições crônicas entre inquérito domiciliar e telefônico - Campinas (SP), Brasil. Rev Bras Epidemiol 2011; 14(Supl. 1): 5-15. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2011000500002
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.

Na PNS/Brasil (2013) também se observaram discrepâncias entre dados referidos e medidos de altura e peso, resultando em prevalências de obesidade em mulheres cerca de 20% mais elevadas com o uso de medidas24. Esse achado foi confirmado em nosso estudo, cabendo uma grande parte da diferença à subestimação do peso em mulheres. Já é conhecido que os dados relativos à altura são superestimados e os de peso, subestimados quando obtidos por autorreferência, com consequente subestimação da prevalência de obesidade. Uma alternativa para essa situação foi apresentada em estudo realizado no Canadá, em que os dados foram coletados diretamente e também por autorreferência. Isso ajudou no desenvolvimento de fórmulas para a correção das prevalências obtidas em diferentes condições com base no nível de erro da medida2525. Connor Gorber S, Tremblay M, Moher D, Gorber B. A comparison of direct vs. self-report measures for assessing height, weight and body mass index: a systematic review. Obes Rev 2007; 8(4): 307-26. https://doi.org/10.1111/j.1467-789X.2007.00347.x
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,2626. Connor Gorber S, Shields M, Tremblay MS, McDowell I. The feasibility of establishing correction factors to adjust self-reported estimates of obesity. Health Reports 2008; 19(3): 71-82.. Em nosso trabalho observamos boa concordância entre os valores de peso e estatura autorreferidos na entrevista domiciliar e as medidas objetivas aferidas na clínica (dados não apresentados). Uma possível explicação para o fato seria que os participantes da PNS, ao serem entrevistados em domicílio, já sabiam que seriam analisados posteriormente na clínica, o que os levaria a reportar de forma mais adequada as medidas antropométricas reais.

O principal achado deste estudo é a subestimação da prevalência de dislipidemias autorreferidas. Apesar de existirem vários tipos de dislipidemias, analisamos apenas os dados relativos ao colesterol total por ser o elemento de mais fácil compreensão pela população em geral. Como os valores da hipercolesterolemia autorrelatada no VIGITEL e na PNS foram similares, nossos dados indicam que a baixa prevalência de colesterol elevado relatada no VIGITEL pode decorrer da baixa cobertura diagnóstica desse fator de risco, o que indicaria falha na atenção primária. Esses dados corroboram um estudo realizado em 12 países da Europa (European Health Examination Survey Pilot Project) que mostrou subestimação na prevalência autorreferida de colesterol elevado tanto em homens quanto em mulheres, quando comparada com a medida direta desse parâmetro2727. Tolonen H, Koponen P, Mindell JS, Männistö S, Giampaoli S, Dias CM, et al. Under-estimation of obesity, hypertension and high cholesterol by self-reported data: comparison of self reported information and objective measures from health examination surveys. Eur J Public Health 2014; 24(6): 941-8. https://doi.org/10.1093/eurpub/cku074
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. É importante lembrar que vários estudos, incluindo o BRFSS e o American Heart Association National Survey, usam os dados autorreferidos dos níveis de colesterol como uma ferramenta para reportar a prevalência de dislipidemia2828. Centers for Disease Control and Prevention. Progress in chronic disease prevention factors related to cholesterol screening and cholesterol level awareness-United States, 1989. MMWR Morb Mortal Wkly Rep 1990; 39: 633-7.,2929. Nash IS, Mosca L, Blumenthal RS, Davidson MH, Smith SC, Pasternak RC. Contemporary awareness and understanding of cholesterol as a risk factor. Arch Intern Med 2003; 163(13): 1597-600. https://doi.org/10.1001/archinte.163.13.1597
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. Nossos dados sugerem que essa conduta não seria adequada se aplicada à população brasileira. Adicionalmente, indicam a necessidade de intensificar esforços para melhorar o diagnóstico das dislipidemias, até porque a doença isquêmica cardíaca, cuja incidência é fortemente associada às dislipidemias, é a principal causa de morte individual no Brasil.

Uma das limitações deste estudo foram as diferenças nos métodos de amostragem e no tamanho das amostras dos dois inquéritos. Em vista do N amostral da PNS, o poder estatístico é relativamente baixo (da ordem de 70%) para detectar diferenças de prevalência inferiores a 5%. Além disso, parte da diferença encontrada em relação ao colesterol nos dois inquéritos pode se dever a diferentes pontos de corte para colesterol alto considerados pelos participantes do VIGITEL (autorreferido) e na PNS (≥ 200mg/dL neste trabalho). Alémdisso, a dimensão reduzida da amostra da PNS limita subanálises por sexo e faixa etária. Épossível que as discrepâncias entre diagnósticos (autorreferido e exame de sangue) sejam maiores nas faixas etárias mais jovens.

Portanto, nossos dados sugerem que, em condições de elevada cobertura diagnóstica, como no caso da hipertensão arterial, inquéritos telefônicos, como os aplicados no VIGITEL, mostram bons índices de desempenho na apuração de prevalências. Em relação à obesidade, nossos dados sugerem um viés de informação dessa variável no VIGITEL. A boa correlação entre os dados de peso e estatura relatados na entrevista domiciliar e as medidas efetuadas sugere que a presença do entrevistador inibe a subestimação do peso pelo entrevistado.

Não se pode descartar que algumas das diferenças entre os dois inquéritos também podem refletir diferenças de escolaridade e renda, já que a posse de telefone fixo na residência é um indicador social geralmente associado à população de maior escolaridade e renda, embora o uso de fatores de ponderação para essas variáveis no VIGITEL busque minimizar as diferenças entre a população com e sem telefone fixo residencial.

CONCLUSÃO

Os dados deste estudo permitem concluir que o VIGITEL detecta com boa acurácia a prevalência de tabagismo e hipertensão, mas subestima a prevalência de obesidade e, principalmente, de dislipidemias. A discrepância em relação à obesidade se deve, provavelmente, ao viés de informação do peso no inquérito telefônico. Em relação ao colesterol, a principal causa seria a baixa cobertura diagnóstica dessa condição na população. Quanto ao diabetes, nossos dados exigem cautela, pois sua prevalência na população é baixa em comparação aos outros fatores e uma tendência a maiores valores foi observada na PNS/Vitória. Tendoem vista o impacto do aumento do colesterol na incidência de doenças isquêmicas2626. Connor Gorber S, Shields M, Tremblay MS, McDowell I. The feasibility of establishing correction factors to adjust self-reported estimates of obesity. Health Reports 2008; 19(3): 71-82.,2727. Tolonen H, Koponen P, Mindell JS, Männistö S, Giampaoli S, Dias CM, et al. Under-estimation of obesity, hypertension and high cholesterol by self-reported data: comparison of self reported information and objective measures from health examination surveys. Eur J Public Health 2014; 24(6): 941-8. https://doi.org/10.1093/eurpub/cku074
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, há necessidade de aumentar o diagnóstico precoce dessa condição, notadamente em adultos jovens (< 45 anos), já que a doença isquêmica cardíaca é a principal causa individual de morte no Brasil.

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  • Fonte de financiamento: Departamento de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Histórico

  • Recebido
    23 Maio 2016
  • Revisado
    19 Mar 2017
  • Aceito
    14 Ago 2017
  • Publicação Online
    25 Abr 2019
  • Publicação em número
    2019
Associação Brasileira de Pós -Graduação em Saúde Coletiva São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revbrepi@usp.br