Tendências de eventos toxicológicos relacionados a medicamentos atendidos por um Centro de Informações Toxicológicas

Thays Lopes Mathias Camilo Molino Guidoni Edmarlon Girotto Sobre os autores

RESUMO:

Introdução:

Os eventos toxicológicos relacionados a medicamentos têm alto impacto na morbimortalidade, representando a primeira causa de intoxicação no Brasil.

Objetivo:

Descrever as tendências de casos de eventos toxicológicos relacionados a medicamentos atendidos por um Centro de Informações Toxicológicas.

Método:

Estudo com abordagem quantitativa (transversal e de tendência), com análise dos dados referentes aos casos de eventos toxicológicos relacionados a medicamentos atendidos pelo Centro de Informações Toxicológicas do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina. Os dados foram coletados das fichas de atendimento, referentes ao período de 1985 a 2014. Para a análise estatística, utilizou-se um modelo de regressão linear simples.

Resultados:

Dos 36.707 casos atendidos pelo serviço, 22,5% (n = 8.608) foram eventos toxicológicos relacionados a medicamentos. Houve um aumento da proporção de casos em ambos os sexos (R2 = 0,195; p = 0,014) e no sexo masculino (R2 = 0,403; p < 0,001). Detectou-se tendência de elevação da proporção de casos envolvendo a classe de analgésicos, anti-inflamatórios e imunossupressores (R2 = 0,521; p = 0,018), antidepressivos (R2 = 0,923; p < 001) e antipsicóticos (R2 = 0,869; p < 0,001). Os antimicrobianos apresentaram tendência de redução da proporção de casos (R2 = 0,773; p = 0,001).

Conclusões:

Observou-se tendência de aumento da proporção de casos de eventos toxicológicos relacionados a medicamentos no sexo masculino. Também houve aumento nas tendências envolvendo analgésicos/anti-inflamatórios/imunossupressores, antidepressivos e antipsicóticos.

Palavras-chave:
Intoxicações; Medicamentos; Tendências

INTRODUÇÃO

A intoxicação humana aparece com uma grande variedade de processos fisiopatológicos relacionados com a interação entre um agente de natureza química ou biológica e o organismo. As intoxicações apresentam-se como grave problema mundial de saúde pública11. Mowry JB, Spyker DA, Brooks DE, McMillan N, Schauben JL. 2014 Annual Report of the American Association of Poison Control Centers' National Poison Data System (NPDS): 32st Annual Report. Clin Toxicol (Phila) 2015; 53(10): 962-1147. http://dx.doi.org/10.3109/15563650.2015.1102927
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, vitimando aproximadamente 500 mil pessoas/ano segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)22. World Health Organization. Guidelines for poison control. Genebra: World Health Organization; 1997.,33. Bitencourt NKS, Borges LM, Alves SMF, Souza FHHV. Intoxicações medicamentosas registradas pelo Centro de Informações Toxicológicas de Goiás, 2007. In: Anais do VI Seminário de Iniciação Científica. Anápolis: Universidade Estadual de Goiás; 2008. p. 1-6..

Os medicamentos são importantes ferramentas terapêuticas utilizadas para a prevenção, manutenção e recuperação das condições de saúde, entretanto seu uso irracional e indiscriminado causa inúmeras consequências negativas, como não controle ou cura do problema de saúde, intoxicações e até óbito. Os medicamentos ocupam o primeiro lugar nos registros de intoxicações e constituem a segunda causa de mortalidade relacionada às intoxicações humanas44. Bortoletto ME, Bochner R. Impacto dos medicamentos nas intoxicações humanas no Brasil. Cad Saúde Pública 1999; 15(4): 859-69. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1999000400020
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,55. Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas. Dados de intoxicação [Internet]. [acessado em mar. 2017]. Disponível em: http://sinitox.icict.fiocruz.br/dados-nacionais
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. Além disso, os anos potenciais de vida perdidos decorrentes das intoxicações por medicamentos indicam grandes perdas sociais e econômicas para a sociedade66. Mota DM, Melo JRR, Freitas DRC, Machado M. Perfil da mortalidade por intoxicação com medicamentos no Brasil, 1996-2005: retrato de uma década. Ciênc Saúde Coletiva 2012; 17(1): 61-70. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232012000100009
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.

Estudo realizado com base nos casos de intoxicação da Rede Nacional de Centros de Controle de Intoxicações aponta a tentativa de suicídio (41%) e os acidentes individuais (35,3%) como as principais circunstâncias de intoxicações por medicamentos. Em relação às classes terapêuticas, os benzodiazepínicos foram os medicamentos que mais promoveram intoxicações, seguidos pelos anticonvulsivantes, antidepressivos e analgésicos33. Bitencourt NKS, Borges LM, Alves SMF, Souza FHHV. Intoxicações medicamentosas registradas pelo Centro de Informações Toxicológicas de Goiás, 2007. In: Anais do VI Seminário de Iniciação Científica. Anápolis: Universidade Estadual de Goiás; 2008. p. 1-6..

No entanto, os estudos conduzidos no Brasil sobre intoxicações por medicamentos são comumente realizados com crianças e adolescentes77. Oliveira FF, Suchara EA. Epidemiological profile of exogenous poisoning in children and adolescents from a municipality in the state of Mato Grosso. Rev Paul Pediatr 2014; 32(4): 299-305. https://dx.doi.org/10.1016%2Fj.rpped.2014.06.002
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,88. Werneck GL, Hasselmann MH. Profile of hospital admissions due to acute poisoning among children under 6 years of age in the metropolitan region of Rio de Janeiro, Brazil. Rev Assoc Med Bras 2009; 55(3): 302-7. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302009000300023
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ou idosos99. Paula TC, Bochner R, Montilla DE. Clinical and epidemiological analysis of hospitalizations of elderly due to poisoning and adverse effects of medications, Brazil from 2004 to 2008. Rev Bras Epidemiol 2012; 15(4): 828-44. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-790X2012000400014
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. Somente o estudo de Margonato et al.1010. Margonato FB, Thomson Z, Paoliello MMB. Acute intentional and accidental poisoning with medications in a southern Brazilian city. Cad Saúde Pública 2009; 25(4): 849-56. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2009000400016
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, realizado com casos de intoxicação ocorridos em 2004, avaliou as intoxicações por medicamentos na população geral. Ainda assim, os estudos não têm apresentado as tendências de evolução dos casos de intoxicação por medicamentos ao longo dos anos.

No contexto das intoxicações medicamentosas, destacam-se os serviços realizados pelos Centros de Informações Toxicológicas (CITs), importantes instâncias de orientação sobre os casos de intoxicação e envenenamento1111. Azevedo JLS. A importância dos centros de informação e assistência toxicológica e sua contribuição na minimização dos agravos à saúde e ao meio ambiente no Brasil [dissertação]. Brasília: Universidade de Brasília; 2006.. Dessa forma, é fundamental a sistematização dos casos notificados por esses serviços, especialmente os medicamentos, pouco explorados nos estudos científicos. O conhecimento do perfil de intoxicações por medicamentos poderá direcionar estratégias de controle e de implementação de assistência adequada ao uso incorreto e indiscriminado desses recursos terapêuticos. Por conseguinte, este trabalho propôs-se a investigar os casos de eventos toxicológicos relacionados a medicamentos (ETMs) atendidos por um CIT.

MÉTODO

Trata-se de um estudo transversal e de tendência, desenvolvido com dados do CIT do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina (CIT/HU/UEL), localizado no município de Londrina (PR). O CIT/HU/UEL fornece orientação em caso de acidentes com animais peçonhentos e intoxicações intencionais ou acidentais, bem como qualquer contato com substância exógena, ainda que não gere manifestações clínicas. Para este estudo, ­utilizou-se o termo “evento toxicológico relacionado a medicamentos (ETM)”, e não “intoxicação por medicamentos”1212. Gandolfi E, Andrade MGG. Eventos toxicológicos relacionados a medicamentos no Estado de São Paulo. Rev Saúde Pública 2006; 40(6): 1056-64. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102006000700014
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, uma vez que não se analisaram apenas casos de intoxicação, mas todos os eventos tóxicos relacionados aos medicamentos, incluindo as exposições e reações adversas.

Analisaram-se todos os casos de ETM atendidos pelo CIT/HU/UEL no período de 1985 a 2014. Esses casos foram atendidos presencialmente (pronto-socorro do Hospital Universitário) ou a distância (atendimento telefônico), dando-se suporte clínico ao profissional de saúde que realizava o atendimento ao paciente.

Os dados foram coletados dos formulários para notificação e evolução dos casos de intoxicações e envenenamentos do serviço. As variáveis de estudo utilizadas para a descrição dos casos foram: idade (em anos), faixa etária (4 anos ou menos; 5 a 9 anos; 10 a 14 anos; 15 a 19 anos; 20 a 39 anos; 40 a 59 anos; 60 anos ou mais), sexo (masculino; feminino), exposição (aguda; crônica), circunstância (tentativa de suicídio; acidental; erro de administração; uso terapêutico; automedicação; prescrição médica; outra), ocorrência (intoxicação; apenas exposição; reação adversa; outras), via de exposição (apenas oral; apenas parenteral; outras), análises toxicológicas (sim; não), internação (sim; não), tempo de internação (em dias), evolução (alta; óbito; outra) e classes de medicamentos. A definição da denominação das classes de medicamentos baseou-se nos critérios utilizados pelo próprio serviço (CIT/HU/UEL). As fichas de notificação do serviço permitiam a inclusão de apenas três agentes, assim, para pacientes envolvidos em intoxicações por quatro agentes ou mais (apenas medicamentos ou medicamentos em associação com outras substâncias), não foi possível identificar alguns desses agentes. Nessas situações, o profissional que realizava a notificação era orientado a registrar as substâncias que poderiam apresentar maior gravidade.

As tendências foram calculadas com base na proporção de casos de ETM, segundo o sexo (masculino e feminino), em relação ao total de casos (variável dependente) e por ano de análise (1985 a 2014) (variável independente). Já as tendências das classes de medicamentos foram calculadas com base na proporção de casos por classe em relação ao total de casos de ETM (variável dependente), por triênio de análise (1985-1987 a 2012-2014) (variável independente). As análises de tendência ao longo dos triênios foram realizadas somente com as cinco classes de medicamentos que apresentaram maior frequência. A escolha do período de 1985 a 2014 deve-se à opção por triênios nas análises de tendência das classes de medicamentos, com início no ano de funcionamento do CIT/HU/UEL (1985), formando-se dez triênios.

Os dados foram digitados em banco de dados criado no programa Epi Info versão 3.5.4 para Windows® e a análise estatística, realizada com uso do programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 19.0 para Windows®. A análise procedeu a obtenção das frequências simples e relativas das variáveis qualitativas e as medidas de tendência central das quantitativas (média e desvio padrão). A análise de tendência foi realizada por meio de modelos de regressão linear simples. A modelagem estatística considerou a proporção de casos dos desfechos em estudo como variável dependente e o tempo cronológico sob análise como variável independente. O modelo estimado pode ser escrito como: Y = β0 + β1 (X - 1985 [ou 1985-1987]). Nesses modelos, Y corresponde à proporção de casos, β0 à proporção anual média, β1 ao coeficiente de efeito linear (velocidade) e X ao ano ou triênio1313. Neter J, Kutner MH, Nachtschiem CJ, Wasserman W. Applied Linear Statistical Models. 4ª ed. Chicago: Irwin Series in Statistics; 1996.. A tendência foi considerada significativa quando o modelo obteve p < 0,05. Como medida de precisão dos modelos, utilizou-se o coeficiente de determinação (R2). Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da Universidade Estadual de Londrina (CEP-UEL) (CAAE nº 45986415.1.0000.5231).

RESULTADOS

No período de 1985 a 2014 o CIT/HU/UEL registrou 36.707 casos envolvendo intoxicações ou envenenamentos. Desses casos, os medicamentos foram responsáveis por 8.608 (23,5%). Dos casos de ETMs (n = 8.608), em 7,4% houve associação com outros agentes químicos (Tabela 1). Dos casos atendidos somente com medicamentos (n = 7.972), 1.994 (25%) envolveram 2 ou mais fármacos.

Tabela 1.
Caracterização dos eventos toxicológicos relacionados a medicamentos. Centro de Informações Toxicológicas do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina, 1985-2014 (N = 8.608).

O sexo feminino representou a maioria dos ETMs (n = 5.138; 65,1%). A média de idade foi de 19,1 ± 16,3 anos, variando de recém-nascido a 90 anos. As faixas etárias que apresentaram maior frequência foram as de 4 anos ou menos (30,6%) e 20 a 39 anos (32,0%). A exposição aguda foi a mais frequente (99,4%). As tentativas de suicídio (53,1%) e a ocorrência acidental (35,1%) representaram as principais circunstâncias dos ETMs (Tabela 2).

Tabela 2.
Caracterização dos casos de eventos toxicológicos relacionados a medicamentos atendidos pelo Centro de Informações Toxicológicas do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina, 1985-2014 (N = 8.608).

Em adição, 31,4% (n = 2.702) dos pacientes com ETM necessitaram de internação hospitalar (Tabela 2), com 0,6% (n = 50) evoluindo a óbito. Com relação ao número de dias de internação, obteve-se média de 2,7 ± 4,6 dias, máximo de 103 dias. A maioria dos atendimentos realizados foi por telefone (n = 6.313; 73,3%) e ocorreu na zona urbana (n = 8.234; 95,7%). A realização de análises toxicológicas foi conduzida em 1,2% (n = 107) dos pacientes com ETM.

Com relação aos medicamentos, observou-se que os anticonvulsivantes, sedativos ou hipnóticos (29,5%), os analgésicos, anti-inflamatórios ou imunossupressores (13,0%) e os antidepressivos (12,8%) foram as principais classes envolvidas (Tabela 3). Neste caso, foi considerado o total de medicamentos envolvidos nas intoxicações (N = 11.162).

Tabela 3.
Distribuição das classes terapêuticas dos medicamentos envolvidos nos casos de eventos toxicológicos relacionados a medicamentos. Centro de Informações Toxicológicas do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina, 1985-2014 (N = 11.162).

Na análise de proporção de casos de ETM segundo sexo, observa-se tendência de aumento na proporção do total de casos em ambos os sexos (R2 = 0,195; p = 0,014) e no sexo masculino (R2 = 0,403; p < 0,001) (Figura 1). Em números proporcionais, a elevação para o período de 1985-2014 foi de 2,3% em ambos os sexos e 64,0% no sexo masculino. Destaque também para a queda proporcional de casos (total, masculino e feminino) no ano de 1997.

Figura 1.
Tendências dos casos de eventos toxicológicos relacionados a medicamentos (%) segundo sexo. Centro de Informações Toxicológicas do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina, 1985 a 2014*.

Entre as cinco principais classes envolvidas nos ETMs segundo os triênios pré-determinados, houve tendência de elevação na proporção de casos com analgésicos, ­anti-inflamatórios e imunossupressores (R2 = 0,521; p = 0,018), antidepressivos (R2 = 0,923; p < 0,001) e antipsicóticos (R2 = 0,869; p < 0,001). Os antimicrobianos apresentaram tendência de redução da proporção de casos (R2 = 0,773; p = 0,001) (Tabela 4).

Tabela 4.
Tendências dos casos de eventos toxicológicos relacionados a medicamentos (%) segundo classe terapêutica. Centro de Informações Toxicológicas do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina, 1985 a 2014.

DISCUSSÃO

A proporção de casos envolvendo medicamentos (23,5%) assemelha-se aos resultados de outros estudos realizados no Brasil44. Bortoletto ME, Bochner R. Impacto dos medicamentos nas intoxicações humanas no Brasil. Cad Saúde Pública 1999; 15(4): 859-69. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1999000400020
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,1414. Morais ICO, Brito MT, Mariz SR, Fook SML, Rabello IP, Oliveira FN. Perfil epidemiológico das intoxicações medicamentosas registradas pelo Centro de Assistência e Informação Toxicológica de Campina Grande (PB) no período de 2005 a 2007. Rev Bras Farm 2008; 89(4): 352-7.,1515. Malaman KR, Paranaíba ASC, Duarte CMS, Cardoso RA. Perfil das intoxicações medicamentosas, no Brasil. Infarma 2009; 21(7/8): 9-15.,1616. Teles AS, Oliveira RFA, Coelho TCB, Ribeiro GV, Mendes WML, Santos PNP. Papel dos medicamentos nas intoxicações causadas por agentes químicos em município da Bahia, no período de 2007 a 2010. Rev Ciênc Farm Básica Apl 2013; 34(2): 281-8. e aos dados divulgados pelo Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox) (28,5%)55. Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas. Dados de intoxicação [Internet]. [acessado em mar. 2017]. Disponível em: http://sinitox.icict.fiocruz.br/dados-nacionais
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. Destaca-se também a associação de medicamentos com outros agentes, especialmente as drogas de abuso, o que tende a tornar a intoxicação mais grave. Além disso, pode-se sugerir que o uso de drogas de abuso aumenta o risco de ETMs, especialmente nas circunstâncias de tentativa de suicídio1717. Rocha CN, Silveira DB, Camargo RS, Fernandes S, Ferigolo M, Barros MMT. Risco de suicídio em dependentes de cocaína com episódio depressivo atual: sentimentos e vivências. SMAD, Rev Eletrônica Saúde Mental Alcool Drog 2015; 11(2): 78-84..

Em relação à faixa etária mais acometida pelos ETMs, destacou-se a de 20 a 39 anos, provavelmente relacionados às circunstâncias intencionais (como tentativa de suicídio)1818. Klinger EI, Schmidt DC, Lemos DB, Pasa L, Possuelo LG, Valim ARM. Intoxicação exógena por medicamentos na população jovem do Rio Grande do Sul. Rev Epidemiol Controle Infecç 2016; 6 (Supl. 2): 1-8. http://dx.doi.org/10.17058/reci.v1i1.8216
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e às crianças com 4 anos ou menos, as quais estão mais expostas aos erros de administração ou às causas acidentais1919. Matos GC, Rozenfeld S, Bortoletto ME. Intoxicações medicamentosas em crianças menores de cinco anos. Rev Bras Saúde Matern Infant 2002; 2(2): 167-76. http://dx.doi.org/10.1590/S1519-38292002000200009
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,2020. Amador JC, Thomson Z, Guilherme CES, Rocha SF. Perfil das intoxicações agudas exógenas infantis na cidade de Maringá (PR) e região, sugestões de como se pode enfrentar o problema. Pediatria 2000; 22(4): 295-301.. Outros estudos no Brasil identificaram as crianças e os adultos jovens como os principais grupos etários envolvidos em ETMs1919. Matos GC, Rozenfeld S, Bortoletto ME. Intoxicações medicamentosas em crianças menores de cinco anos. Rev Bras Saúde Matern Infant 2002; 2(2): 167-76. http://dx.doi.org/10.1590/S1519-38292002000200009
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,2121. Monte BS, Nunes MST, Nunes MDS, Mendes CMM. Estudo epidemiológico das intoxicações por medicamentos registrados pelo centro de informações toxicológicas do Piauí: 2007 a 2012. Rev Interdisciplin 2016; 9(3): 96-104.. Informações do Sinitox também reforçam essas faixas etárias como as mais expostas a esse tipo de intoxicação44. Bortoletto ME, Bochner R. Impacto dos medicamentos nas intoxicações humanas no Brasil. Cad Saúde Pública 1999; 15(4): 859-69. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1999000400020
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,2222. Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do SUS. Informações de saúde. Epidemiológicas e morbidade. Intoxicação exógena [Internet]. [acessado em mar. 2017]. Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0203&id=29878153
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.

Quanto às circunstâncias dos ETMs, tentativa de suicídio (35,6%), causa acidental (40,1%) e uso terapêutico (8,7%) têm sido, segundo o Datasus, as principais causas de intoxicação exógena por medicamentos desde 20072222. Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do SUS. Informações de saúde. Epidemiológicas e morbidade. Intoxicação exógena [Internet]. [acessado em mar. 2017]. Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0203&id=29878153
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. Essas circunstâncias foram destaque em estudo de casos de ETMs atendidos por um CIT do Rio Grande do Sul2323. Ramos CLJ, Targa MBM, Stein AT. Perfil das intoxicações na infância atendidas pelo Centro de Informação Toxicológica do Rio Grande do Sul (CIT/RS), Brasil. Cad Saúde Pública 2005; 21(4): 1134-41. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2005000400015
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. Dentre essas três circunstâncias, a tentativa de suicídio tende a ser a mais grave, uma vez que o indivíduo tem intencionalidade em ingerir uma grande quantidade do medicamento2424. Oliveira MLF, Buriola AA. Gravidade das intoxicações por inseticidas inibidores das colinesterases no noroeste do estado do Paraná, Brasil. Rev Gaúcha Enferm 2009; 30(4): 648-55. http://dx.doi.org/10.1590/S1983-14472009000400010
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, o que exige um manejo mais cuidadoso dos casos.

Observou-se tendência de aumento na proporção de casos de ETMs ao longo dos anos, assim como verificado especificamente para o sexo masculino. A razão para o aumento nessa tendência pode estar relacionada à fácil aquisição desses produtos e sua grande disponibilidade em domicílios, além da grande variedade de medicamentos no varejo farmacêutico77. Oliveira FF, Suchara EA. Epidemiological profile of exogenous poisoning in children and adolescents from a municipality in the state of Mato Grosso. Rev Paul Pediatr 2014; 32(4): 299-305. https://dx.doi.org/10.1016%2Fj.rpped.2014.06.002
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. Ademais, a precariedade de alguns serviços públicos, associada à facilidade da obtenção de medicamentos em farmácia, as quais ainda apresentam caráter comercial em detrimento do assistencial, aumenta a disponibilidade desses produtos para a sociedade2525. Aquino DS. Por que o uso racional de medicamentos deve ser uma prioridade? Ciênc Saúde Coletiva 2008; 13(Supl. 1): 733-6. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232008000700023
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Em adição, muitos profissionais de saúde e pacientes ignoram os perigos da associação de medicamentos, aumentando o risco de erros de administração ou reações adversas. Ainda, deve-se mencionar a propaganda de medicamentos, que tem sido um estímulo frequente para o uso inadequado dos mesmos, sobretudo por ressaltar os benefícios e omitir ou minimizar os riscos e possíveis efeitos adversos, transmitindo a impressão de que são produtos inócuos, influenciando o consumo como qualquer outra mercadoria2525. Aquino DS. Por que o uso racional de medicamentos deve ser uma prioridade? Ciênc Saúde Coletiva 2008; 13(Supl. 1): 733-6. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232008000700023
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,2626. Rabello ET, Camargo Junior KR. Propagandas de medicamentos: a saúde como produto de consumo. Interface (Botucatu) 2012; 16(41): 557-67. http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832012000200006
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.

Apesar das mulheres representarem o principal grupo acometido pelos ETMs, conforme verificado neste estudo e em outros realizados no Brasil44. Bortoletto ME, Bochner R. Impacto dos medicamentos nas intoxicações humanas no Brasil. Cad Saúde Pública 1999; 15(4): 859-69. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1999000400020
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1999...
,1414. Morais ICO, Brito MT, Mariz SR, Fook SML, Rabello IP, Oliveira FN. Perfil epidemiológico das intoxicações medicamentosas registradas pelo Centro de Assistência e Informação Toxicológica de Campina Grande (PB) no período de 2005 a 2007. Rev Bras Farm 2008; 89(4): 352-7.,1515. Malaman KR, Paranaíba ASC, Duarte CMS, Cardoso RA. Perfil das intoxicações medicamentosas, no Brasil. Infarma 2009; 21(7/8): 9-15.,1616. Teles AS, Oliveira RFA, Coelho TCB, Ribeiro GV, Mendes WML, Santos PNP. Papel dos medicamentos nas intoxicações causadas por agentes químicos em município da Bahia, no período de 2007 a 2010. Rev Ciênc Farm Básica Apl 2013; 34(2): 281-8.,1818. Klinger EI, Schmidt DC, Lemos DB, Pasa L, Possuelo LG, Valim ARM. Intoxicação exógena por medicamentos na população jovem do Rio Grande do Sul. Rev Epidemiol Controle Infecç 2016; 6 (Supl. 2): 1-8. http://dx.doi.org/10.17058/reci.v1i1.8216
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,2323. Ramos CLJ, Targa MBM, Stein AT. Perfil das intoxicações na infância atendidas pelo Centro de Informação Toxicológica do Rio Grande do Sul (CIT/RS), Brasil. Cad Saúde Pública 2005; 21(4): 1134-41. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2005000400015
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, a tendência de aumento da proporção de casos no sexo masculino pode estar relacionada ao maior consumo desses produtos pelos homens na última década1616. Teles AS, Oliveira RFA, Coelho TCB, Ribeiro GV, Mendes WML, Santos PNP. Papel dos medicamentos nas intoxicações causadas por agentes químicos em município da Bahia, no período de 2007 a 2010. Rev Ciênc Farm Básica Apl 2013; 34(2): 281-8.,2727. Bertoldi AD, Dal Pizzol TS, Ramos LR, Mengue SS, Luiza VL, Tavares NUL, et al. Perfil sociodemográfico dos usuários de medicamentos no Brasil: resultados da PNAUM 2014. Rev Saúde Pública 2016; 50 (Supl. 2): 5s. http://dx.doi.org/10.1590/S1518-8787.2016050006119
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,2828. Prado MAMB, Francisco PMSB, Bastos TF, Barros MBA. Uso de medicamentos prescritos e automedicação em homens. Rev Bras Epidemiol 2016; 19(3): 594-608. http://dx.doi.org/10.1590/1980-5497201600030010
http://dx.doi.org/10.1590/1980-549720160...
em comparação a décadas anteriores2929. Bertoldi AD, Barros AJD, Hallal PC, Lima RC. Utilização de medicamentos em adultos: prevalência e determinantes individuais. Rev Saúde Pública 2004; 38(2): 228-38. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102004000200012
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,3030. Simões MJS, Farache Filho A. Consumo de medicamentos em região do Estado de São Paulo (Brasil), 1985. Rev Saúde Pública 1988; 22(6): 494-9..

Também deve ser mencionada a redução geral na proporção de ETMs registrada no ano de 1997. Essa diminuição se deve à sistemática de notificações de intoxicações exógenas, as quais passaram a compor, em 1997, os agravos de notificação obrigatória, sendo incluídas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).

No que se refere às classes de medicamentos mais comuns nos ETMs durante o período de análise (1985-2014), destacaram-se as que atuam no sistema nervoso central, a dos analgésicos/anti-inflamatórios/imunossupressores e a dos antimicrobianos. Esses dados corroboram a Pesquisa Nacional de Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos (PNAUM), a qual identificou que os fármacos que agem no sistema nervoso (com os analgésicos representando 40,8% deles) e no sistema musculoesquelético (incluindo anti-inflamatórios e antirreumáticos) são utilizados por 18,6 e 8,7% da população pesquisada, respectivamente3131. Bertoldi AD, Arrais PSD, Tavares NUL, Ramos LR, Luiza VL, Mengue SS, et al. Utilização de medicamentos genéricos na população brasileira: uma avaliação da PNAUM 2014. Rev Saúde Pública 2016; 50(Supl. 2): 11s. http://dx.doi.org/10.1590/S1518-8787.2016050006120
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. O elevado consumo de analgésicos, anti-inflamatórios e antirreumáticos evidenciado por essa pesquisa3131. Bertoldi AD, Arrais PSD, Tavares NUL, Ramos LR, Luiza VL, Mengue SS, et al. Utilização de medicamentos genéricos na população brasileira: uma avaliação da PNAUM 2014. Rev Saúde Pública 2016; 50(Supl. 2): 11s. http://dx.doi.org/10.1590/S1518-8787.2016050006120
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expõe a população ao maior risco de ETMs por esses grupos terapêuticos.

O fato de grande parte dos ETMs envolver aqueles que agem no sistema nervoso central pode estar relacionado ao crescente uso dessas substâncias3232. Loyola Filho AI, Castro-Costa E, Firmo JOA, Peixoto SV. Tendências no uso de antidepressivos entre idosos mais velhos: Projeto Bambuí. Rev Saúde Pública 2014; 48(6): 857-65. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-8910.2014048005406
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, principalmente em razão do aumento no número de pacientes diagnosticados com doenças psicossomáticas, como depressão, ansiedade, síndrome do pânico, entre outras3333. Mojtabai R, Olfson M, Han B. National Trends in the Prevalence and Treatment of Depression in Adolescents and Young Adults. Pediatrics 2016; 138(6): e20161878. https://doi.org/10.1542/peds.2016-1878
https://doi.org/10.1542/peds.2016-1878...
,3434. John A, Marchant AL, McGregor JI, Tan JO, Hutchings HA, Kovess V, et al. Recent trends in the incidence of anxiety and prescription of anxiolytics and hypnotics in children and young people: An e-cohort study. J Affect Disord 2015; 183: 134-41. https://doi.org/10.1016/j.jad.2015.05.002
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.

Os analgésicos, que também se destacaram nos casos de intoxicação, são os medicamentos mais populares e seguros quando administrados em condições terapêuticas recomendadas3535. Mastroianni PC, Lucchetta RC, Sarra JR, Galduróz JCF. Estoque doméstico e uso de medicamentos em uma população cadastrada na estratégia saúde da família no Brasil. Rev Panam Salud Publica 2011; 29(5): 358-64., no entanto têm sido importante causa de intoxicação por fármacos entre crianças e adultos, uma vez que são comercializados sem a necessidade de apresentação da prescrição médica3535. Mastroianni PC, Lucchetta RC, Sarra JR, Galduróz JCF. Estoque doméstico e uso de medicamentos em uma população cadastrada na estratégia saúde da família no Brasil. Rev Panam Salud Publica 2011; 29(5): 358-64., o que facilita o acesso.

As tendências de aumento da proporção de casos envolvendo antidepressivos e antipsicóticos verificadas neste estudo remetem ao processo de medicalização da sociedade. A medicalização expõe demasiadamente a população às ciências médicas3636. Ignácio VTG, Nardi HC. A medicalização como estratégia biopolítica: um estudo sobre o consumo de psicofármacos no contexto de um pequeno município do Rio Grande do Sul. Psicol Soc 2007; 19(3): 88-95. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822007000300013
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em detrimento das questões sociais, culturais e comportamentais, o que aumenta a prática prescritiva de psicofármacos para o tratamento de agravos psicossomáticos3636. Ignácio VTG, Nardi HC. A medicalização como estratégia biopolítica: um estudo sobre o consumo de psicofármacos no contexto de um pequeno município do Rio Grande do Sul. Psicol Soc 2007; 19(3): 88-95. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-71822007000300013
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.

Relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) demonstrou que a amitriptilina (antidepressivo) foi o quarto psicofármaco de maior consumo no Brasil em 20103737. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Boletim de farmacoepidemiologia. Brasília: Agência Nacional de Vigilância Sanitária; 2011.. Estudo realizado no município de Pelotas (RS) identificou que, entre os psicofármacos, o consumo de antidepressivos aumentou de 8,4%, em 1994, para 31,6% em 20033838. Rodrigues MAP, Facchini LA, Lima MS. Modificações nos padrões de consumo de psicofármacos em localidade do Sul do Brasil. Rev Saúde Pública 2006; 40(1): 107-14.. Essa tendência de aumento também é observada em outros estudos3939. Hemels ME, Koren G, Einarson TR. Increased use of antidepressants in Canada, 1981-2000. Ann Pharmacother 2002; 36(9): 1375-9. https://doi.org/10.1345/aph.1A331
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,4040. Olfson M, Marcus SC, Druss B, Elinson L, Tanielian T, Pincus HA. National trends in the outpatient treatment of depression. JAMA 2002; 287(2): 203-9. e está associada ao crescimento do diagnóstico das doenças depressivas e à ampliação das opções terapêuticas para o tratamento3838. Rodrigues MAP, Facchini LA, Lima MS. Modificações nos padrões de consumo de psicofármacos em localidade do Sul do Brasil. Rev Saúde Pública 2006; 40(1): 107-14..

Estudos relatam tendências de aumento nos casos e internações por psicoses nos últimos anos4141. Medel-Herrero A, Amate JM, Saz-Parkinson Z, Gómez-Beneyto M. Changing trends in hospitalization rates associated with psychosis: Spain, 1980-2009. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol 2015; 50(12): 1843-55. https://doi.org/10.1007/s00127-015-1128-9
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, o que tende a elevar o uso de antipsicóticos, associados à maior amplitude do arsenal terapêutico para o tratamento desse grupo de doenças. Essa situação expõe os indivíduos ao maior risco de ETMs por antipsicóticos, conforme evidenciado por esta pesquisa.

Por outro lado, houve redução nas tendências de ETMs por antimicrobianos, o que remete à prescrição racional desse grupo terapêutico, mas também a novas regulamentações que norteiam a prescrição e a aquisição desses produtos. Em 2011, a Anvisa publicou uma resolução quanto à obrigatoriedade de prescrição médica para a aquisição de substâncias antimicrobianas, incluindo a necessidade de retenção da receita médica pelos estabelecimentos farmacêuticos4242. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 20, de 5 de maio de 2011. Dispõe sobre o controle de medicamentos à base de substâncias classificadas como antimicrobianos, de uso sob prescrição, isoladas ou em associação. Brasília: Agência Nacional de Vigilância Sanitária; 2011.. Estudos anteriores demostravam que a aquisição desses produtos ocorria sem a necessidade de prescrição4343. Vilarino JF, Soares IC, Silveira CM, Rödel APP, Bortoli R, Lemos RR. Perfil da automedicação em município do Sul do Brasil. Rev Saúde Pública 1998; 32(1): 43-9. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101998000100006
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,4444. Sá MB, Barros JAC, Sá MPBO. Automedicação em idosos na cidade de Salgueiro-PE. Rev Bras Epidemiol 2007; 10(1): 75-85., o que poderia gerar o uso irracional de antimicrobianos.

Alguns aspectos metodológicos devem ser apontados em relação a esta pesquisa. Por se tratar de um estudo com dados secundários (fichas de notificação do CIT), as informações podem ter sido registradas erroneamente e/ou ser ilegíveis, além de ter sido preenchidas como “ignorado” ou “sem informação”. Nesse caso, destaca-se que apenas três registros tiveram o campo “idade” não preenchido. Salienta-se também a limitação do número de medicamentos a serem registrados nas fichas do CIT/HU/UEL (máximo de três), o que afeta a completude e a consistência das informações. Em adição, a não notificação dos agravos, especialmente os mais leves, pode levar a uma subnotificação dos casos. Ainda assim, apesar das limitações apresentadas, o estudo reúne dados consistentes e inéditos sobre as tendências de ETMs, os quais podem contribuir para novas explorações de dados secundários sobre esses agravos.

Os resultados obtidos levantam uma preocupação com o acesso e o uso de psicofármacos, denotando a necessidade de ações que estimulem a prescrição racional desses produtos e maior rigor em sua aquisição. Além disso, revelam a necessidade de um acompanhamento mais rigoroso do paciente com a finalidade de atingir o objetivo terapêutico do tratamento, reduzindo o risco da ocorrência de pensamentos suicidas. Ademais, o fácil acesso aos analgésicos e anti-inflamatórios pode ser um contribuinte importante para que esses medicamentos também apresentem tendência crescente nas intoxicações e, por isso, políticas que favoreçam o seu uso racional podem contribuir para a diminuição desse grupo nos ETMs.

CONCLUSÕES

Verificou-se a predominância de mulheres nos casos de ETM, indivíduos com 20 a 39 anos e com 4 anos ou menos e as tentativas de suicídio e as causas acidentais como as principais circunstâncias para sua ocorrência. A proporção de ETMs apresentou tendência de aumento, especialmente no sexo masculino. Os principais medicamentos envolvidos foram os que atuam no sistema nervoso central, sendo que os antidepressivos e os antipsicóticos apresentaram a maior tendência de crescimento proporcional entre 1985 e 2014.

AGRADECIMENTOS

Aos estagiários do Centro de Informações Toxicológicas do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina e à técnica administrativa Miriam de Cássia Tóffolo pelo auxílio aos pesquisadores durante o processo de coleta de dados.

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  • Fonte de financiamento: nenhuma

Histórico

  • Recebido
    29 Mar 2017
  • Revisado
    04 Jul 2017
  • Aceito
    01 Set 2017
  • Publicação Online
    01 Abr 2019
Associação Brasileira de Pós -Graduação em Saúde Coletiva São Paulo - SP - Brazil
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