A contribuição do Consenso brasileiro em doença de Chagas no contexto epidemiológico nacional

Leila Posenato Garcia Elisete Duarte Sobre os autores

A doença de Chagas foi descrita pela primeira vez em 1909, pelo médico sanitarista e cientista brasileiro Carlos Ribeiro Justiniano Chagas (1878-1934), após a investigação de casos na cidade de Lassance-MG. Ele identificou o agente causador (Trypanosoma cruzi) e o vetor (Triatoma infestans), e descreveu a tripanossomíase americana, que posteriormente passou a ser conhecida como doença de Chagas, em consequência da fama de seu descobridor. Carlos Chagas foi o primeiro e único cientista até os dias de hoje a descrever o ciclo completo de uma doença infecciosa. Um fato interessante é que o protozoário T. cruzi foi nomeado por Chagas em homenagem a Oswaldo Cruz, outro grande sanitarista brasileiro.11. Kropf SP. Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde e nação, 1909-1962. Rio de Janeiro: Fiocruz;2009

Na primeira metade do século XX, a doença de Chagas era descrita como um mal que atacava o coração dos trabalhadores rurais. A sensação de mal-estar era conhecida como "avexume".11. Kropf SP. Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde e nação, 1909-1962. Rio de Janeiro: Fiocruz;2009 A doença, de evolução lenta e geralmente silenciosa, levava progressivamente ao esgotamento físico dos doentes e acabava por causar a morte. A partir da década de 1950, foi estabelecido o controle da transmissão vetorial da doença de Chagas no Brasil, embora a sua estruturação enquanto programa de abrangência nacional tenha ocorrido somente em 1975.

À época, estimava-se que havia em torno de 6,5 milhões de pessoas infectadas pelo T. cruzi no Brasil, ou aproximadamente 4,2% da população. 22. Vinhaes MC, Dias JCP. Doença de Chagas no Brasil. Cad Saude Publica. 2000;16 supl 2:7-12,33. Silveira AC, Silva GR, Prata A. O Inquérito de soroprevalência da infecção chagásica humana (1975-1980). Rev Soc Bras Med Trop. 2011;44 supl 2:33-9.

As ações de vigilância e controle foram bem-sucedidas. A partir da década de 1980, observou-se redução da população do T. infestans, da ocorrência da doença de Chagas, assim como da mortalidade específica pela doença.22. Vinhaes MC, Dias JCP. Doença de Chagas no Brasil. Cad Saude Publica. 2000;16 supl 2:7-12 Para a década de 2000, estimou-se prevalência no Brasil de 2,4% (IC95% 1,5;3,8), com 4,6 milhões (IC95% 2,9;7,2 milhões) de infectados pelo T. cruzi.44. Martins-Melo FR, Ramos Júnior AN, Alencar CH, Heukelbach J. Prevalence of Chagas disease in Brazil: a systematic review and meta-analysis. Acta Trop. 2014 Feb;130:167-74.

Em 2006, o Brasil recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) a Certificação Internacional de Eliminação da Transmissão da Doença de Chagas por seu principal vetor. Lembremos que a transmissão do protozoário ocorre quando o triatomíneo o elimina nas fezes, enquanto se alimenta de sangue humano.55. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de vigilância em saúde [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2014 [citado 2016 abr 15]. Disponível em: Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2015/fevereiro/06/guia-vigilancia-saude-atualizado-05-02-15.pdf
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Embora tenha sido um feito importante, a eliminação da transmissão vetorial pelo T. infestans não significa o fim da transmissão da doença. Além da existência de outros vetores e da possibilidade da retomada da transmissão pelo T. infestans, há outras formas de transmissão. A doença de Chagas também pode ser transmitida da mãe para o bebê durante a gestação (transmissão vertical), por meio de transfusão de sangue ou transplante de órgãos, em acidentes de laboratório e pela ingestão dos protozoários juntamente com alimentos (transmissão oral).55. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de vigilância em saúde [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2014 [citado 2016 abr 15]. Disponível em: Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2015/fevereiro/06/guia-vigilancia-saude-atualizado-05-02-15.pdf
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6. Gontijo ED, Andrade GMQ, Santos SE, Galvão LMC, Moreira EF, Pinto FS, et al. Triagem neonatal da infecção pelo Trypanosoma cruzi em Minas Gerais, Brasil: transmissão congênita e mapeamento das áreas endêmicas. Epidemiol Serv Saude. 2009 jul-set;18(3):243-54

7. Silva VLC, Luna EJA. Prevalência de infecção pelo T. cruzi em doadores de sangue nos hemocentros coordenadores do Brasil em 2007. Epidemiol Serv Saude. 2013 jan-mar;22(1):103-10
-88. Passos LAC, Guaraldo AMA, Barbosa RL, Dias VL, Pereira KS, Franco RMB, et al. Sobrevivência e infectividade do Trypanosoma cruzi na polpa de açaí: estudo in vitro e in vivo. Epidemiol Serv Saude.2012 abr-jun;21(2):223-32

A diversidade de formas de transmissão é somente um dos desafios impostos pela doença de Chagas. Destaca-se também que esta é uma doença negligenciada, relacionada à pobreza, que atinge as populações mais vulneráveis em uma extensa área do território nacional e que permanece como importante problema de saúde pública no Brasil. Os doentes crônicos podem desenvolver sequelas cardíacas e digestivas, com potenciais prejuízos à qualidade e à expectativa de vida, que requerem ações de assistência à saúde.99. Mota JC, Campos MR, Schramm JMA, Costa MFS. Estimativa de taxa de mortalidade e taxa de incidência de sequelas cardíacas e digestivas por doença de Chagas no Brasil, 2008. Epidemiol Serv Saude. 2014 out-dez;23(4):711-20

Por sua vez, as ações de vigilância dos casos e de controle vetorial devem ser continuadas, não somente no âmbito do Programa Nacional de Controle da Doença de Chagas, mas também de forma articulada com diversos processos da vigilância em saúde - a exemplo da vigilância entomológica, da hemovigilância, da vigilância do HIV/aids (como importante comorbidade) e da vigilância de eventos epidêmicos. Convém citar, ademais, as ações da atenção primária à saúde. 99. Mota JC, Campos MR, Schramm JMA, Costa MFS. Estimativa de taxa de mortalidade e taxa de incidência de sequelas cardíacas e digestivas por doença de Chagas no Brasil, 2008. Epidemiol Serv Saude. 2014 out-dez;23(4):711-20,1010. Hasslocher-Moreno AM, Jorge MJ, Sousa AS, Brasil PEAA, Xavier SS, Barreto NB, et al. Atenção integral e eficiência no Laboratório de Pesquisa Clínica em Doenças de Chagas do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas, 2009-2011. Epidemiol Serv Saude. 2013 abr- jun;22(2):295-306.

Nesse contexto, o Consenso brasileiro em doença de Chagas, 20151111. Dias JCP, Ramos Júnior NA, Gontijo ED, Luquetti A, Shikanai-Yasuda MA, Coura JR, et al. II Consenso brasileiro em doença de chagas, 2015. Epidemiol Serv Saude. 2016;25(nº esp):7-86. representa uma referência importante, ao revisar e atualizar o conteúdo de sua primeira versão, publicada em 2005.1212. Secretaria de Vigilância em Saúde. Consenso Brasileiro de Doença de Chagas. Rev Soc Bras Med Trop. 2005;38 supl 3:7-29 O documento apresenta as evidências mais atuais disponíveis e traz orientações para a padronização das estratégias de diagnóstico, tratamento, prevenção e controle da doença de Chagas no Brasil. A elaboração do Consenso brasileiro em doença de Chagas, 2015 foi viabilizada pela colaboração entre a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) e o Ministério da Saúde, e contou com a participação de especialistas brasileiros com vasta experiência.

A Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do Sistema Único de Saúde do Brasil tem satisfação em publicar o Consenso brasileiro em doença de Chagas, 20151111. Dias JCP, Ramos Júnior NA, Gontijo ED, Luquetti A, Shikanai-Yasuda MA, Coura JR, et al. II Consenso brasileiro em doença de chagas, 2015. Epidemiol Serv Saude. 2016;25(nº esp):7-86. neste número especial, juntamente com artigo de opinião sobre o tema.1313. Dias JCP, Cláudio LDG, Lima MM, Albajar-Viñas P, Albuquerque e Silva R, Alves RV, et al. Mudanças no paradigma da conduta clínica e terapêutica da doença de Chagas: avanços e perspectivas na busca da integralidade da saúde. Epidemiol Serv Saude. 2016;25(nº esp):87-90. Espera-se que o documento possa contribuir para a vigilância da doença de Chagas e o cuidado aos portadores da doença, assim como para subsidiar a tomada de decisão nos diferentes níveis da gestão do Sistema Único de Saúde (SUS), com vistas à formulação de políticas adequadas ao perfil epidemiológico atual.

Referências

  • 1
    Kropf SP. Doença de Chagas, doença do Brasil: ciência, saúde e nação, 1909-1962. Rio de Janeiro: Fiocruz;2009
  • 2
    Vinhaes MC, Dias JCP. Doença de Chagas no Brasil. Cad Saude Publica. 2000;16 supl 2:7-12
  • 3
    Silveira AC, Silva GR, Prata A. O Inquérito de soroprevalência da infecção chagásica humana (1975-1980). Rev Soc Bras Med Trop. 2011;44 supl 2:33-9.
  • 4
    Martins-Melo FR, Ramos Júnior AN, Alencar CH, Heukelbach J. Prevalence of Chagas disease in Brazil: a systematic review and meta-analysis. Acta Trop. 2014 Feb;130:167-74.
  • 5
    Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de vigilância em saúde [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2014 [citado 2016 abr 15]. Disponível em: Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2015/fevereiro/06/guia-vigilancia-saude-atualizado-05-02-15.pdf
    » http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2015/fevereiro/06/guia-vigilancia-saude-atualizado-05-02-15.pdf
  • 6
    Gontijo ED, Andrade GMQ, Santos SE, Galvão LMC, Moreira EF, Pinto FS, et al. Triagem neonatal da infecção pelo Trypanosoma cruzi em Minas Gerais, Brasil: transmissão congênita e mapeamento das áreas endêmicas. Epidemiol Serv Saude. 2009 jul-set;18(3):243-54
  • 7
    Silva VLC, Luna EJA. Prevalência de infecção pelo T. cruzi em doadores de sangue nos hemocentros coordenadores do Brasil em 2007. Epidemiol Serv Saude. 2013 jan-mar;22(1):103-10
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    Passos LAC, Guaraldo AMA, Barbosa RL, Dias VL, Pereira KS, Franco RMB, et al. Sobrevivência e infectividade do Trypanosoma cruzi na polpa de açaí: estudo in vitro e in vivo. Epidemiol Serv Saude.2012 abr-jun;21(2):223-32
  • 9
    Mota JC, Campos MR, Schramm JMA, Costa MFS. Estimativa de taxa de mortalidade e taxa de incidência de sequelas cardíacas e digestivas por doença de Chagas no Brasil, 2008. Epidemiol Serv Saude. 2014 out-dez;23(4):711-20
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    Hasslocher-Moreno AM, Jorge MJ, Sousa AS, Brasil PEAA, Xavier SS, Barreto NB, et al. Atenção integral e eficiência no Laboratório de Pesquisa Clínica em Doenças de Chagas do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas, 2009-2011. Epidemiol Serv Saude. 2013 abr- jun;22(2):295-306.
  • 11
    Dias JCP, Ramos Júnior NA, Gontijo ED, Luquetti A, Shikanai-Yasuda MA, Coura JR, et al. II Consenso brasileiro em doença de chagas, 2015. Epidemiol Serv Saude. 2016;25(nº esp):7-86.
  • 12
    Secretaria de Vigilância em Saúde. Consenso Brasileiro de Doença de Chagas. Rev Soc Bras Med Trop. 2005;38 supl 3:7-29
  • 13
    Dias JCP, Cláudio LDG, Lima MM, Albajar-Viñas P, Albuquerque e Silva R, Alves RV, et al. Mudanças no paradigma da conduta clínica e terapêutica da doença de Chagas: avanços e perspectivas na busca da integralidade da saúde. Epidemiol Serv Saude. 2016;25(nº esp):87-90.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jun 2016
Secretaria de Vigilância em Saúde - Ministério da Saúde do Brasil Brasília - Distrito Federal - Brazil
E-mail: leilapgarcia@gmail.com