Completude das fichas de notificação de febre amarela no estado do Espírito Santo, 2017 **Artigo redigido com base na dissertação da autora Priscila Carminati Siqueira, intitulada ‘Análise espacial dos casos notificados de febre amarela no estado do Espírito Santo’, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) em 2019.

Completitud de las fichas de notificación de fiebre amarilla en el estado de Espírito Santo, Brasil, 2017

Priscila Carminati Siqueira Ethel Leonor Noia Maciel Rafael de Castro Catão Ana Paula Brioschi Theresa Cristina Cardoso da Silva Thiago Nascimento do Prado Sobre os autores

Resumo

Objetivo

descrever a completude de dados das fichas de notificação de febre amarela nos municípios do estado do Espírito Santo, Brasil, em 2017.

Métodos

trata-se de um estudo ecológico descritivo, com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan); a completude no preenchimento da ficha foi classificada como ruim (<70,0%), regular (70-89,9%) ou ótima (≥90,0%); foram elaborados mapas temáticos.

Resultados

53,1% dos municípios enquadraram-se na classificação ruim ou regular, para muitas variáveis da ficha de notificação dos casos de febre amarela, especialmente Classificação Final (57,1%), Critério de Confirmação/Descarte (63,2%) e Data do Encerramento (26,5%), campos de preenchimento obrigatório.

Conclusão

a completude no preenchimento foi ruim ou regular para diversas variáveis, apontando a necessidade de uma avaliação sistemática das informações sobre febre amarela no Sinan.

Febre Amarela; Epidemiologia; Sistemas de Informação em Saúde; Notificação de Doenças; Estudos Ecológicos

Resumen

Objetivo

describir la completitud de los datos en los formularios de notificación de fiebre amarilla en los municipios del Estado de Espírito Santo, Brasil, en 2017.

Métodos

este es un estudio ecológico descriptivo con datos del Sistema de Información de Agravamientos de Notificación (Sinan); las proporciones de la completitud se clasificaron como pobres (<70,0%), regulares (70-89,9%) o excelentes (≥90,0%); se prepararon mapas temáticos.

Resultados

53,1% de los municipios tenía una clasificación pobre o regular para muchas variables en el formulario de notificación, como la Clasificación final de casos (57,1%), Criterios de confirmación/Descarte (63,2%) y la Fecha de cierre (26,5%), considerados campos obligatorios.

Conclusión

la finalización fue pobre o regular para diversas variables, lo que indica la necesidad de una evaluación sistemática de la información sobre la fiebre amarilla en Sinan.

Fiebre Amarilla; Epidemiología; Sistemas de Información en Salud; Notificación de Enfermedades; Estudios Ecológicos

Introdução

A febre amarela é uma doença infecciosa febril aguda, imunoprevenível, caracterizada por dois ciclos epidemiológicos de transmissão distintos: silvestre e urbano.11. Monath TP, Vasconcelos PFC. Yellow fever. J Clin Virol [Internet]. 2015 Mar [cited 2020 May 8];64:160-73. Available from: https://doi.org/10.1016/j.jcv.2014.08.030
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A febre amarela silvestre é considerada uma doença endêmica no Brasil (Região Amazônica) e na África. Na Região Extra-Amazônica, períodos epidêmicos são registrados ocasionalmente, caracterizando a reemergência da doença no país.22. Klitling R, Gould EA, Paupy C, Lamballerie X. What does the future hold for yellow fever virus? Genes (Basel) [Internet]. 2018 Jun [cited 2020 May 8];9(6):291-318. Available from: https://doi.org/10.3390/genes9060291
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No ciclo silvestre, os transmissores são mosquitos de atividade diurna com hábitos estritamente silvestres, sendo os gêneros Haemagogus e Sabethes os mais importantes na América Latina.33. Jentes ES, Poumerol E, Gershman MD, Lemarchand J, Lewis RF, Wilder- Smith A, et al. The revised global yellow fever risk map and recommendations for vaccination, 2010: consensus of the Informal WHO working Group on Geographic Risk for yellow fever. Lancet Infect Dis [Internet]. 2011 Aug [cited 2020 May 8];11(8):622-32. https://doi.org/10.1016/S1473-3099(11)70147-5
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Os primatas não humanos funcionam como amplificadores da infecção de mosquitos e disseminam o vírus à medida que se deslocam na mata.44. Veronesi R, Focaccia R. Tratado de infectologia. 4. Ed. Rio de Janeiro: Atheneu; 2010. No ciclo urbano, a doença é uma antroponose, o vírus é transmitido entre seres humanos e mosquitos, predominantemente o Aedes aegypti , em áreas urbanizadas.33. Jentes ES, Poumerol E, Gershman MD, Lemarchand J, Lewis RF, Wilder- Smith A, et al. The revised global yellow fever risk map and recommendations for vaccination, 2010: consensus of the Informal WHO working Group on Geographic Risk for yellow fever. Lancet Infect Dis [Internet]. 2011 Aug [cited 2020 May 8];11(8):622-32. https://doi.org/10.1016/S1473-3099(11)70147-5
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O atual surto da doença em humanos no país ocorreu, principalmente, em regiões metropolitanas, onde se observa uma ampla dispersão do vetor Aedes aegypti , de tal forma que se estabeleceu um risco para reintrodução da febre amarela urbana.22. Klitling R, Gould EA, Paupy C, Lamballerie X. What does the future hold for yellow fever virus? Genes (Basel) [Internet]. 2018 Jun [cited 2020 May 8];9(6):291-318. Available from: https://doi.org/10.3390/genes9060291
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Surtos substanciais de febre amarela ocorreram nos últimos anos, além do Brasil, em Angola e na República Democrática do Congo. Concomitantemente à distribuição global do principal vetor urbano, o Aedes aegypti , a infecção tem o potencial de se espalhar internacionalmente, aumentando não só o impacto da febre amarela na saúde das populações como também os encargos financeiros dos sistemas de Saúde Pública nacionais.

O vírus amarílico ressurgiu em dezembro de 2016, na região Sudeste,55. Klaucke DN, Buehler JW, Thacker SB, Parrish G, Trowbridge FL, Berkelman RL, Center for Diseases Control and Prevention. Guidelines for evaluating surveillance systems: recommendations from the guidelines working group. Morb Mortal Wkly Rep [Internet]. 1988 May [cited 2020 May 8];37(S-5):1-18. Available from: https://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/00001769.htm
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causando o maior surto de febre amarela silvestre no país desde o período de 1934 a 1940, atingindo principalmente os estados da região Sudeste, onde existe maior concentração populacional e um índice considerável de infestação pelo Aedes aegypti .66. World Health Organization - WHO. Yellow fever – Brazil [Internet]. Geneva: World Health Organization; 2017[cited 2017 Apr 3]. Available from: http://www.who.int/csr/don/06-march-2017-yellow-fever-brazil/en/
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A epidemia do período de 2106/2017 envolveu, principalmente, os estados de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Rio de Janeiro. Em 2017, as maiores taxas de incidência da doença foram registradas no Espírito Santo (6,3/100 mil habitantes) e em Minas Gerais (2,2 casos/100 mil hab.). Em todo o país, foram notificados 261 óbitos, com letalidade de 33,6%; no Espírito Santo, foram 83 óbitos, com letalidade de 32,9%.88. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Monitoramento do período sazonal da febre amarela no Brasil 2017/2018: informe 10 [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2018 [citado 2018 jan 25]. 13 p. Disponível em: https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2018/janeiro/25/af-informe-febre-amarela-10-25jan18.pdf
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Para analisar e compreender a real magnitude dessa epidemia de febre amarela, é importante poder contar com um sistema de informações de qualidade, confiável, com os campos das fichas de notificação preenchidos de forma correta, com dados completos e atualizados. A baixa qualidade do sistema de vigilância limita a análise epidemiológica do agravo e dificulta o acompanhamento da dinâmica da doença, comprometendo a adoção de medidas de intervenção de forma adequada para minimizar os efeitos do surto da doença e sua expansão para outras regiões.55. Klaucke DN, Buehler JW, Thacker SB, Parrish G, Trowbridge FL, Berkelman RL, Center for Diseases Control and Prevention. Guidelines for evaluating surveillance systems: recommendations from the guidelines working group. Morb Mortal Wkly Rep [Internet]. 1988 May [cited 2020 May 8];37(S-5):1-18. Available from: https://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/00001769.htm
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Nesse sentido, o presente estudo teve por objetivo descrever a completude de dados das fichas de notificação de febre amarela nos municípios do estado do Espírito Santo, Brasil, em 2017.

Métodos

Neste estudo, foram incluídas todas as fichas de notificação dos casos suspeitos ou confirmados de febre amarela registradas pelas secretarias municipais do Espírito Santo, no ano de 2017. Foram excluídas as fichas de notificação que apresentassem duplicidade de registro.

A ficha de investigação para febre amarela apresenta 70 campos a serem preenchidos. Para a análise da completude dos dados, foram selecionadas variáveis obrigatórias e variáveis essenciais, segundo sua importância epidemiológica para o agravo. As variáveis obrigatórias estudadas neste trabalho foram: classificação final, local provável de infecção e data do encerramento do caso. As variáveis essenciais foram: ocupação, dados da investigação entomológica e de epizootias (ocorrência de epizootias, isolamento de vírus em mosquitos e presença de mosquito Aedes aegypti em área urbana), sinais e sintomas, exames inespecíficos e critério de confirmação/descarte do caso. A completude das variáveis foi definida pelo preenchimento dos respectivos campos de informações, à exceção do campo ‘Ignorado’.

Para a análise, utilizou-se o item ‘Qualidade dos dados’ do documento Update Guidelines for Evaluating Public Health Surveillance Systems, publicado pelo Centers for Diseases, Control and Prevention (CDC) do Estados Unidos, e que reflete a integralidade e a validade dos dados registrados nos sistemas de vigilância em Saúde Pública.55. Klaucke DN, Buehler JW, Thacker SB, Parrish G, Trowbridge FL, Berkelman RL, Center for Diseases Control and Prevention. Guidelines for evaluating surveillance systems: recommendations from the guidelines working group. Morb Mortal Wkly Rep [Internet]. 1988 May [cited 2020 May 8];37(S-5):1-18. Available from: https://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/00001769.htm
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Uma medida direta e fácil para avaliar a qualidade dos dados consiste em examinar a porcentagem de itens dos formulários da vigilância epidemiológica em que as respostas são desconhecidas ou os campos de preenchimento são deixados em branco.55. Klaucke DN, Buehler JW, Thacker SB, Parrish G, Trowbridge FL, Berkelman RL, Center for Diseases Control and Prevention. Guidelines for evaluating surveillance systems: recommendations from the guidelines working group. Morb Mortal Wkly Rep [Internet]. 1988 May [cited 2020 May 8];37(S-5):1-18. Available from: https://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/00001769.htm
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Para melhor exemplificar a análise e melhor visualizar os resultados, as taxas de completude das variáveis selecionadas foram estratificadas segundo sua completude: ruim, quando menos de 70% do dado é preenchido, entre todos os casos; regular, com 70 a 89,9%; e ótima, quando o dado é preenchido em 90% ou mais dos casos.1313. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Sistema de agravos de notificação – Sinan: normas e rotinas [Internet]. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2007 [citado 2020 maio 8]. 68 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/07_0098_M.pdf
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Primeiramente, o banco de dados foi organizado com uso do aplicativo Microsoft Excel, versão 10, posteriormente incluído no programa Arcgis 10.3 juntamente com a malha digital contendo as informações geográficas do estado, disponível no sítio eletrônico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).1414. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Malhas digitais: Espírito Santo [Internet]. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2018 [citado 2018 jul 20]. Disponível em: https://downloads.ibge.gov.br/downloads_geociencias.htm
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Foram elaborados mapas temáticos da completude no preenchimento das categorias de variáveis representadas pelos itens da ficha de notificação descritos a seguir: [32] Ocupação; [33] Informar os dados da investigação entomológica e de epizootias; [39] Sinais e sintomas; [45] Exames Inespecíficos; [57] Classificação Final; [58] Critério de Confirmação/Descarte; e [70] Data do Encerramento.

O item da ficha de notificação supracitado, em que são informados os dados da investigação entomológica (mosquitos) e de epizootias, composto por três campos de preenchimento – Ocorrência de Epizootias; Isolamento de vírus em mosquitos; Presença de mosquito Aedes aegypti em área urbana –, teve sua completude calculada pela média das taxas desses três campos.

A taxa de completude da categoria Sinais e sintomas, por sua vez, resultou do cálculo da média das taxas das variáveis Dor abdominal, Sinal de Faget, Sinais hemorrágicos e Distúrbios de excreção renal.

A completude da categoria Exames Inespecíficos, por sua vez, correspondeu à taxa média dos campos destinados aos registros dos exames de bilirrubina total, bilirrubina direta e aminotransferases AST (TGO) e ALT (TGP).

Finalmente, realizou-se o cálculo da completude das variáveis referentes à média das taxas de Classificação Final, Critério de Confirmação/Descarte e Data do Encerramento. Seus resultados foram traduzidos em um mapa do estado.

O projeto do estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo (CEP/CCS/UFES), em 26 de junho de 2017: Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº 68580617.3.0000.5060; Parecer nº 2.137.234.

Resultados

Em 2017, 858 casos suspeitos de febre amarela foram notificados no estado do Espírito Santo. Havia 63 notificações duplicadas e, após sua exclusão, foram estudadas 795 fichas. Os casos confirmados para a doença representaram 26,9% das fichas de investigação (N=214); e os inconclusivos, 36,4% (N=290).

Sobre a distribuição de casos suspeitos, no ano de 2017, houve notificação desses casos em 49 dos 78 municípios do estado, destacando-se a capital, Vitória, com 157 notificações (19,7%) ( Tabela 1 ).

Tabela 1
– Distribuição dos casos suspeitos de febre amarela silvestre de acordo com o município de notificação, Espírito Santo, 2017

No que se refere ao local provável de infecção, os casos confirmados distribuíram-se em 34 municípios, com concentração na região serrana do estado, principalmente nos municípios de Domingos Martins e Marechal Floriano. Os cinco municípios que compõem a região metropolitana da Grande Vitória tiveram registros de febre amarela; contudo, não foi observado caso autóctone dentro dos limites da capital.

A Figura 1 corresponde ao mapa da completude das fichas de notificação de febre amarela quanto às variáveis de ocupação, antecedentes epidemiológicos, sinais e sintomas e exames inespecíficos.

Figura 1
– Avaliação da completude nas variáveis ‘A – ocupação’, ‘B – antecedentes epidemiológicos’, ‘C – sinais e sintomas’ e ‘D – exames inespecíficos’ das fichas de notificação de febre amarela no Sistema de Informação de Agravos de Notificação, Espírito Santo, 2017

Para a categoria Ocupação ( Figura 1A ), o percentual de completude no preenchimento variou de ruim a ótimo. A média do estado foi classificada como ruim. Os municípios que compreendem a região metropolitana da Grande Vitória, assim como aqueles localizados no litoral do estado, foram classificados como de completude ruim; ao todo, 24 municípios do Espírito Santo apresentaram completude para essa variável.

Quanto às variáveis de antecedentes epidemiológicos ( Figura 1B ), os municípios que compõem a região metropolitana da Grande Vitória foram classificados como de completude ruim para o preenchimento desses dados, à exceção de Guarapari e Vila Velha, cujas completudes foram classificadas como regulares.

Para a categoria Sinais e Sintomas ( Figura 1C ), 33 municípios apresentaram classificação ótima, enquanto Vitória foi classificada como ruim no preenchimento desse indicador.

Dos 78 municípios do estado, 37 não preencheram as variáveis relacionadas à completude da categoria Exames Inespecíficos ( Figura 1D ), classificada, portanto, como ruim. Apenas cinco municípios foram classificados como de completude ótima para essa categoria: São Mateus (região norte do estado), Itaguaçu e Afonso Cláudio (região metropolitana de Vitória), Ibatiba e Jerônimo Monteiro (região sul do estado).

A Figura 2 apresenta a classificação de cada município como ruim, regular ou ótima quanto à completude média das variáveis Classificação Final, Critério de Confirmação/Descarte e Data do Encerramento do caso. Vinte e seis municípios que realizaram as notificações encontraram sua completude entre ruim e regular. A capital Vitória apresentou completude ruim. Vinte e três cidades do estado foram classificadas como de completude ótima, com destaque para a região sul do estado, da qual 11 municípios alcançaram essa classificação.

Figura 2
– Avaliação da completude nas variáveis ‘A – ocupação’, ‘B – antecedentes epidemiológicos’, ‘C – sinais e sintomas’ e ‘D – exames inespecíficos’ das fichas de notificação de febre amarela no Sistema de Informação de Agravos de Notificação, Espírito Santo, 2017

Discussão

O estudo apontou que os municípios do Espírito Santo apresentaram classificação entre ruim e regular para muitas variáveis da ficha de notificação, com destaque para a capital do estado, Vitória. Com referência às variáveis de ocupação, antecedentes epidemiológicos, sinais e sintomas e exames inespecíficos, identificou-se completude ruim nos municípios integrantes da região metropolitana de Vitória – salvo as exceções de Vila Velha e Guarapari, quanto aos antecedentes epidemiológicos.

Além disso, os resultados mostram a duplicidade da notificação dos casos suspeitos de febre amarela no estado. Observou-se, também, a presença de casos todavia inconclusivos, para os quais não foi possível descartar ou confirmar o adoecimento pela doença amarílica devido a dados insuficientes, a campos da ficha deixados em branco ou preenchidos de forma inadequada, ou ainda, por conta da não coleta de amostras para a realização dos exames diagnósticos.

Entre as variáveis classificadas como de completude ruim a ótima, encontram-se as de ocupação, sinais e sintomas e exames inespecíficos, consideradas essenciais, embora não obrigatórias para inserção dos dados no sistema.1313. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Sistema de agravos de notificação – Sinan: normas e rotinas [Internet]. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2007 [citado 2020 maio 8]. 68 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/07_0098_M.pdf
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São variáveis importantes para as análises epidemiológicas, identificação de características específicas da febre amarela e localização da circulação viral, além de servirem para o cálculo de indicadores.1818. Hamrick PN, Aldighieris S, Machado G, Leonel DG, Vilca LM, Uriona S, et al. Geographic patterns and environmental factors associated with human yellow fever presence in the Americas. PLoS Negl Trop Dis [Internet]. 2017 Sep [cited 2020 May 8];11(9):1-27. Available from: https://doi.org/10.1371/journal.pntd.0005897
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Os municípios notificadores – equivalentes a 75,5% – não preencheram os dados dos exames inespecíficos. Tais exames compreendem os valores de bilirrubina total e indireta, e das aminotransferases AST (TGO) e ALT (TGP); são realizados para verificar a função hepática, visando detectar a presença de doença hepática, fazer diagnóstico diferencial com outras doenças, avaliar a extensão da lesão do tecido hepático e orientar a condução do tratamento.2020. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Guia de vigilância em saúde: volume 2 [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2017 [citado 2020 maio 8]. 3 v. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_vigilancia_saude_volume_2.pdf
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Com referência às variáveis Classificação Final, Local Provável de Infecção e Data do Encerramento, necessárias para a conclusão do caso, trata-se de campos considerados de preenchimento obrigatório, porque sua ausência impossibilita a inclusão da notificação no Sinan.1212. Cavalvante KRLJ, Tauil PL. Risco de reintrodução da febre amarela urbana no Brasil. Epidemiol Serv Saúde [Internet]. 2017 jul-set [citado 2020 maio 8];26(3):617-20. Disponível em: https://doi.org/10.5123/S1679-49742017000300018
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Evidenciou-se que a proporção de informação ignorada e deixada em branco foi elevada, implicando classificação da completude entre ruim e regular. Uma vez que tais dados não são coletados no primeiro momento da investigação, faz-se necessário seu acompanhamento para posterior preenchimento dessas variáveis. Este método passivo de coleta de dados pode gerar subnotificação, atraso nas notificações e na digitação, problemas no processamento e transferência das informações atualizadas, ausência de uma retroalimentação adequada à fonte notificadora, e, consequentemente, desestímulo e descontinuidade no processo de vigilância.2020. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Guia de vigilância em saúde: volume 2 [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2017 [citado 2020 maio 8]. 3 v. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_vigilancia_saude_volume_2.pdf
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Já o encerramento dos casos em tempo oportuno permite o conhecimento dos casos confirmados e descartados, e a adoção de medidas de controle.

Um estudo publicado no Reino Unido em 2018, sobre zonas de risco de infecção existentes e potenciais para febre amarela, relatou subnotificação dos casos da doença e desconhecimento de sua distribuição exata. Estratégias de controle da infecção necessitam de uma base de dados com qualidade, para identificar as populações mais vulneráreis a adoecer.2222. Schearer FM, Longbottom J, Browne AJ, Pigott DM, Brady OJ, Kraemer MUG, et al. Existing and potential infection risk zones of yellow fever worldwide: a modelling analysis. Lancet [Internet]. 2018 Mar [cited 2020 May 8];6(3):E270-78. Available from: https://doi.org/10.1016/S2214-109X(18)30024-X
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As variáveis classificadas como de completude ruim e regular podem decorrer da falta de motivação, de profissionais, ou de tempo insuficiente para o preenchimento completo da ficha de notificação, diante da priorização de outras demandas das unidades notificadoras. Pode-se também considerar, como outro fator para o preenchimento incompleto da fichas, o fato de os profissionais de saúde considerarem a atividade meramente burocrática, de importância secundária.1616. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Sinan relatórios: manual de operação [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2015 [citado 2020 maio 8]. 124 p. Disponível em: https://portalsinan.saude.gov.br/images/documentos/Aplicativos/relatorios/Manual%20de%20Operacao%20SINAN%20Relatorios%20-%20versao_4.8.pdf
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Mais um possível motivo a justificar a incompletude dos campos de notificação da febre amarela no Espírito Santo seria o fato de o estado, considerado área indene para circulação do vírus amarílico,99. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Emergência epidemiológica de febre amarela no Brasil, no período de dezembro de 2016 a julho de 2017. Bol Epidemiol [Internet]. 2017 [citado 2019 fev 7];48(28):1-22. Disponível em: http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2017/setembro/06/2017_027.pdf
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contar com profissionais que, por desconhecimento da forma de notificação, métodos diagnósticos, sinais e sintomas da manifestação da doença, estariam despreparados para lidar com uma epidemia de grande magnitude como a observada no período entre 2016 e 2017.

Em um sistema de informações de saúde, casos duplicados costumam ocorrer em função da notificação do mesmo evento por diferentes unidades, e da falta de acompanhamento dessas notificações. A existência desses casos no Sinan pode ocasionar uma superestimação, aumentando a incidência do agravo.1212. Cavalvante KRLJ, Tauil PL. Risco de reintrodução da febre amarela urbana no Brasil. Epidemiol Serv Saúde [Internet]. 2017 jul-set [citado 2020 maio 8];26(3):617-20. Disponível em: https://doi.org/10.5123/S1679-49742017000300018
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Já o sub-registro de casos atribui-se a diversos fatores, como atraso nas notificações e digitação dos dados, problemas no processamento e transferência das informações, demora na liberação dos resultados de exames, ausência de atualização dos dados ou de uma retroalimentação adequada da fonte notificadora, o que também pode gerar desestímulo e descontinuidade do processo.1717. Duarte HHP, França EB. Qualidade dos dados da vigilância epidemiológica da dengue em Belo Horizonte, MG. Rev Saúde Pública [Internet]. 2006 fev [citado 2020 maio 8];40(1):134-42. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0034-89102006000100021
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Embora o estudo revele achados importantes para a vigilância e avaliação da qualidade da informação em saúde, como também para a replicação dos métodos utilizados na avaliação da completude das fichas do Sinan em outros estados do país – e para outros agravos –, apresenta uma limitação que reside, justamente, em suas características regionais, peculiares ao Espírito Santo, não extensivas à realidade de outros estados do país.

Sabe-se que a análise geoespacial e o mapeamento são ferramentas úteis para detectar padrões espaciais de doenças e seus fatores associados, oferecendo possibilidades inovadoras de vincular dados epidemiológicos de Saúde Pública; e de situá-los, sobrepô-los geograficamente, facilitando a visualização dos dados estatísticos no território.2828. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. sistema de informação de agravos de notificação: dicionário de dados – Sinan NET – Versão 5.0 [Internet]. Brasília: Ministério da saúde; 2010 [citado 2019 jan 20]. Disponível em: http://portalsinan.saude.gov.br/images/documentos/Agravos/Febre%20Amarela/DIC_DADOS_Febre_Amarela_v5.pdf
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Os resultados encontrados no Sinan sobre a distribuição espacial da febre amarela demonstram completude ruim a regular para diversas variáveis do estudo, apontando a necessidade de uma avaliação sistemática da qualidade da informação gerada pelos sistemas de informações em saúde.

Análises realizadas a partir de dados de má qualidade podem não representar o real perfil epidemiológico dos agravos, prejudicando a adoção de medidas de controle mais adequadas e o mapeamento das regiões de risco.1010. German RR, Westmoreland D, Armstrong G, Birkhead GS, Horan JM, Center for Diseases Control and Prevention, et al. Updated guidelines for evaluating public health surveillance systems: recommendations from the guidelines working group. Morb Mortal Wkly Rep [Internet]. 2001 Jul [cited 2020 May 8];50(RR13):1-35. Available from: https://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/rr5013a1.htm
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É necessário treinar e conscientizar os profissionais para (i) o preenchimento das fichas de notificação de doenças e agravos de forma correta, evitando deixar campos em brancos ou preenchê-los como ‘Ignorado’, e promover entre eles (ii) o entendimento da importância desse serviço não apenas burocrático, uma vez que, a partir do perfil epidemiológico traçado pelos sistemas de informações em saúde, são adotadas as medidas de prevenção, distribuição de recursos e implementação de políticas públicas na área.

Referências

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    Artigo redigido com base na dissertação da autora Priscila Carminati Siqueira, intitulada ‘Análise espacial dos casos notificados de febre amarela no estado do Espírito Santo’, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) em 2019.
  • Editor associado: Bruno Pereira Nunes - orcid.org/0000-0002-4496-4122

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Jun 2020
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    21 Out 2019
  • Aceito
    14 Abr 2020
Secretaria de Vigilância em Saúde - Ministério da Saúde do Brasil Brasília - Distrito Federal - Brazil
E-mail: leilapgarcia@gmail.com