Prevalência de consumo de alimentos ultraprocessados, álcool, tabaco e doenças crônicas não transmissíveis em Rio Branco, Acre, 2019: análise comparativa de dois inquéritos epidemiológicos

Prevalencia de consumo de alimentos ultraprocesados, alcohol, tabaco y enfermedades crónicas no transmisibles en Rio Branco, Acre, Brasil, 2019: análisis comparativo de dos encuestas epidemiológicas

Yara de Moura Magalhães Lima Fernanda Andrade Martins Alanderson Alves Ramalho Sobre os autores

Resumo

Objetivo

Descrever, comparativamente, as prevalências de doenças crônicas não transmissíveis, consumo de alimentos ultraprocessados, álcool e tabaco, estimadas pelo Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) e pela Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), em Rio Branco, Acre, Brasil.

Métodos

Estudo transversal, sobre dados sociodemográficos, de saúde e estilo de vida de inquéritos realizados em 2019. Foram descritas as prevalências e intervalos de confiança de 95% (IC95%), e calculadas as diferenças percentuais.

Resultados

Dos 3.037 indivíduos avaliados, observaram-se prevalências similares com diferença para pessoas de raça/cor da pele parda, entre Vigitel (60,3%; IC95% 56,2;64,3) e PNS (70,8%; IC95% 67,4;73,9). Na estratificação por sexo, diferenças percentuais entre os inquéritos foram observadas para obesidade (masculino= 6,5%; feminino= 0,4%), tabagismo (masculino= 4,0%; feminino= -1,5%) e consumo abusivo de álcool (masculino= 6,9%; feminino= -2,5%), embora com IC95% sobrepostos.

Conclusão

As estimativas avaliadas em ambos os inquéritos foram similares.

Palavras-chave:
Inquéritos Populacionais; Estudos Transversais; Monitoramento Epidemiológico; Doença Crônica; Prevalência

Resumen

Objetivo

Comparar la prevalencia de enfermedades crónicas no transmisibles, consumo de alimentos ultraprocesados, alcohol y tabaco, según el Sistema de Vigilancia de Factores de Riesgo y Protección de Enfermedades Crónicas por Encuesta Telefónica (Vigitel) y por la Encuesta Nacional de Salud (PNS), en Rio Branco, Acre.

Métodos

Estudio transversal, utilizando variables sociodemográficas, salud y estilo de vida de encuestas de 2019. Se describieron prevalencias e intervalos de confianza al 95% (IC95%) y se calcularon diferencias porcentuales.

Resultados

En los 3.037 individuos evaluados, hubo similitud en la prevalencia, con diferencia en raza/color de piel parda en Vigitel (60,3%; IC95% 56,2;64.3) y en PNS (70,8%; IC95% 67,4;73,9). En la estratificación por sexo, se observaron diferencias porcentuales entre las encuestas para obesidad (hombres= 6,5%; mujeres= 0,4%), tabaquismo (hombres= 4,0%; mujeres= -1,5%) y abuso de alcohol (hombres= 6,9%; mujeres= -2,5%), pero con IC95% superpuesto.

Conclusión

Las encuestas arrojaron estimaciones similares.

Palabras clave:
Fármacos Inductores del Sueño; Sueño; Salud Mental; Violencia contra la Mujer; Factores Socioeconómicos; Estudio Observacional

Contribuições do estudo

Principais resultados

Comparando-se Vigitel e Pesquisa Nacional de Saúde, em Rio Branco, foram identificadas prevalências similares do consumo de alimentos ultraprocessados, álcool e tabaco, e de doenças crônicas não transmissíveis.

Implicações para os serviços

Na indisponibilidade de pesquisas presenciais em regiões afastadas e com baixa cobertura de telefonia fixa, como Rio Branco, inquéritos telefônicos podem ser úteis no monitoramento de ações, melhorias no manejo de casos e gestão dos serviços.

Perspectivas

O desenvolvimento de novas pesquisas, que comparem regiões de baixa cobertura de telefonia fixa com aquelas de ampla cobertura, pode auxiliar na elucidação da validade das medidas de monitoramento das doenças crônicas por inquérito telefônico.

Introdução

As doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) são um importante problema de saúde pública no mundo. No Brasil, além de comprometer a qualidade de vida de importante parcela da população e de contribuir para a sobrecarga dos serviços de saúde, as DCNTs estiveram associadas a, aproximadamente, 70% dos óbitos ocorridos em 2016. Inquéritos populacionais, como o do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) e a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), auxiliam no monitoramento das DCNTs nos municípios brasileiros, apesar de apresentarem diferenças metodológicas relevantes.11. Malta DC, Andrade SSCA, Oliveira TP, Moura L, Prado RR, Souza MFM. Probabilidade de morte prematura por doenças crônicas não transmissíveis, Brasil e regiões, projeções para 2025. Rev Bras Epidemiol. 2019;22: e190030. doi: 10.1590/1980-549720190030
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2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa nacional de saúde: 2019: percepção do estado de saúde, estilos de vida, doenças crônicas e saúde bucal: Brasil e grandes regiões. 2. ed. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2020 [citado 26 mai 2021]. 89 p. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101748.pdf
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-33. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2019: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2019. Brasília: Ministério da Saúde; 2020 [citado 26 mai 2021]. 137 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_2019_vigilancia_fatores_risco.pdf
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A PNS foi um inquérito de base populacional, com coleta presencial de dados, enquanto o Vigitel realizou-se por contato telefônico e, portanto, implicou menor custo e menor complexidade operacional.

No município de Rio Branco, capital do Acre - uma das capitais brasileiras com menores cobertura de telefonia fixa -, existem preocupações quanto à representatividade dos dados do Vigitel e possíveis vieses decorrentes dessa limitação. Entretanto, a avaliação comparativa das bases de dados de ambos os inquéritos pode contribuir para a melhor compreensão dos problemas metodológicos desses estudos no contexto do município.44. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa nacional por amostra de domicílios contínua [Internet]. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2019 [citado 25 mai 2021]. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ac/pesquisa/10070/62888?localidade2=120040
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O objetivo deste estudo foi comparar as prevalências de DCNTs, consumo de alimentos ultraprocessados, álcool e tabaco, estimadas pelo Vigitel e pela PNS em Rio Branco, Acre, Brasil.

Métodos

Estudo transversal com dados secundários coletados no Vigitel e na PNS, no ano de 2019, disponibilizados pelo Ministério da Saúde de forma aberta e integral, nos respectivos sítios eletrônicos.55. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Informação e Análise Epidemiológica. Vigitel [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2020 [citado 27 mai 2021]. Disponível em: http://svs.aids.gov.br/download/Vigitel/
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,66. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estatísticas [Internet]. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2020 [citado 25 mai 2021]. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/downloads-estatisticas.html
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As duas bases de dados foram acessadas em 4 de maio de 2021.

Rio Branco situa-se na região Norte do Brasil e é o principal centro financeiro, corporativo, político e cultural do estado do Acre, apresentando alto índice de desenvolvimento humano (IDH= 0,727), conforme o último Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, em 2010.77. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Cidades e Estados: Rio Branco [Internet]. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2020 [citado 26 mai 2021]. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ac/rio-branco/panorama
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,88. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Brasil. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Fundação João Pinheiro. Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil [Internet]. Brasília: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Brasil; 2020 [citado 27 mai 2021]. Disponível em: http://www.atlasbrasil.org.br/ranking
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No ano de 2020, Rio Branco tinha uma população de 413.418 habitantes,22. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa nacional de saúde: 2019: percepção do estado de saúde, estilos de vida, doenças crônicas e saúde bucal: Brasil e grandes regiões. 2. ed. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2020 [citado 26 mai 2021]. 89 p. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101748.pdf
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46,2% da população total do estado no período, e ocupava uma área territorial de 8.835,154 km2. Em 2019, 91,8% da população do município residia na zona urbana e, conforme o Censo Demográfico de 2010, a taxa de escolarização de 6 a 14 anos de idade era de 95,1%.77. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Cidades e Estados: Rio Branco [Internet]. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2020 [citado 26 mai 2021]. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ac/rio-branco/panorama
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,99. Secretaria de Estado de Saúde (Acre). Plano estadual de saúde, 2020-2023. Rio Branco: Secretaria de Estado de Saúde; 2020. Com relação aos indicadores de saúde, a taxa de mortalidade infantil foi de 11,1 óbitos por 1 mil nascidos vivos em 2019. Em 2020, Rio Branco dispunha de 837 estabelecimentos de saúde, e destes, 232 faziam parte do Sistema Único de Saúde (SUS).77. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Cidades e Estados: Rio Branco [Internet]. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2020 [citado 26 mai 2021]. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ac/rio-branco/panorama
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,1010. Ministério da Saúde (BR). Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2020 [citado 26 mai 2021]. Disponível em: http://cnes.datasus.gov.br/
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O Vigitel consiste de um inquérito telefônico, realizado em duas etapas: primeiramente, (i) o sorteio sistemático das linhas telefônicas locais, e logo, (ii) a identificação das linhas sorteadas quanto a sua elegibilidade. Não foram elegíveis linhas telefônicas de empresas, inativas ou que não atenderam à ligação realizada. Dessa forma, obteve-se uma amostra probabilística da população adulta (≥18 anos) domiciliada nas capitais brasileiras. Em relação à PNS, trata-se de um inquérito domiciliar, realizado em três estágios: (ii) o sorteio dos setores censitários [unidades primárias de amostragem (UPAs)], (ii) dos domicílios (unidades secundárias) e (iii) de um morador na idade de 15 anos ou mais (unidades terciárias). Mais informações quanto ao método da PNS estão disponíveis em outra publicação.22. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa nacional de saúde: 2019: percepção do estado de saúde, estilos de vida, doenças crônicas e saúde bucal: Brasil e grandes regiões. 2. ed. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2020 [citado 26 mai 2021]. 89 p. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101748.pdf
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Para este estudo, foram elegíveis os entrevistados com idade igual ou superior a 18 anos. Foram excluídos menores de 18 anos, gestantes e mulheres que não sabiam se estavam gestantes. Adicionalmente, foram excluídos os participantes das duas bases (Vigitel e PNS) que não apresentavam registros completos.

As variáveis sociodemográficas analisadas foram sexo (feminino; masculino), faixa etária (em anos: 18 a 24; 25 a 39; 40 a 59; 60 ou mais), raça/cor da pele (branca; preta; amarela; parda; indígena) e escolaridade (em anos de estudo: 0 a 8; 9 a 11; 12 e mais). As variáveis relativas ao estado de saúde foram autorreferidas, com base em diagnóstico anterior, confirmado por médico, de diabetes mellitus (não; sim), hipertensão arterial (não; sim), excesso de peso (não; sim) e obesidade (não; sim). As variáveis de estilo de vida foram tabagismo (não; sim), consumo abusivo de álcool (não; sim), consumo de alimentos ultraprocessados (não; sim) e de refrigerantes (não; sim) (Quadro 1).

Quadro 1
Variáveis da Pesquisa Nacional de Saúde e do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas Não Transmissíveis por Inquérito Telefônico, 2019

Os dados foram analisados utilizando-se um programa estatístico para amostragem complexa, o Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), em sua versão 26.0. Foram estimadas as prevalências das características sociodemográficas, de saúde e estilo de vida, e os intervalos de confiança de 95% (IC95%) totais e estratificados por sexo. As prevalências do Vigitel foram ponderadas (método rake) por estimativas de sexo, idade e escolaridade da população, projetadas para o município de Rio Branco no ano de 2019, objetivando padronizar a distribuição da população entrevistada com a estimada pelo Censo Demográfico.33. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2019: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2019. Brasília: Ministério da Saúde; 2020 [citado 26 mai 2021]. 137 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_2019_vigilancia_fatores_risco.pdf
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Já as estimativas da PNS foram ponderadas pelo peso do domicílio, ajustes das perdas por não resposta, por sexo e distribuição da população total por sexo e idade. Foram calculadas as diferenças em pontos percentuais, considerando-se as proporções de cada uma das amostras, Vigitel e PNS, sendo essa diferença observada pela não sobreposição dos IC95%.11. Malta DC, Andrade SSCA, Oliveira TP, Moura L, Prado RR, Souza MFM. Probabilidade de morte prematura por doenças crônicas não transmissíveis, Brasil e regiões, projeções para 2025. Rev Bras Epidemiol. 2019;22: e190030. doi: 10.1590/1980-549720190030
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,1111. Mendes GFF, Häfele V, Blumenberg C, Werneck AO, Radicchi MR, Coll CVN, et al. Comparação das estimativas de atividade física e comportamento sedentário em adultos brasileiros no Vigitel e PNS, Brasil, 2013. Rev Bras Ativ Fis Saúde. 2018; 23:e0062. doi: 10.12820/rbafs.23e0062
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,1212. Malta DC, Iser BPM, Santos MAS, Andrade SSA, Stopa SR, Bernal RTI, et al. Estilos de vida nas capitais brasileiras segundo a Pesquisa Nacional de Saúde e o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas Não Transmissíveis por Inquérito Telefônico (Vigitel), 2013. Rev Bras Epidemiol. 2015;18 (Supl 2):68-82. doi: 10.1590/1980-5497201500060007
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Os dados secundários utilizados neste artigo são de uso e acesso público, disponibilizados pelo Ministério da Saúde de forma irrestrita e sem identificações nominais, dispensando-se a necessidade de submissão à apreciação e aprovação de Comitê de Ética em Pesquisa, para a realização do estudo.

RESULTADOS

Do total de 4.262 indivíduos elegíveis (2.829 do Vigitel e 1.433 da PNS), foram incluídos neste estudo os 3.037 com idade maior ou igual a 18 anos que haviam completado a entrevista (1.812 do Vigitel e 1.225 da PNS). Desses, 52,4% (IC95% 48,3;56,5) e 53,3% (IC95% 48,9;57,7) eram do sexo feminino, respectivamente no Vigitel e na PNS, tendo-se observado uma diferença de prevalências de -0,9% com os IC95% sobrepostos (Tabela 1).

Tabela 1
Prevalências de doenças crônicas não transmissíveis e consumo de alimentos ultraprocessados, álcool e fumo na população adulta (n=3.037), segundo a Pesquisa Nacional de Saúde e o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas Não Transmissíveis por Inquérito Telefônico, Rio Branco, Acre, 2019

Encontrou-se diferença entre os inquéritos quanto às prevalências de raça/cor da pele. A prevalência de pessoas de raça/cor parda foi menor no Vigitel (60,3%; IC95% 56,2;64,3), comparada à encontrada pela PNS (70,8%; IC95% 67,4;73,9). Não houve diferença entre prevalências estimadas pelos inquéritos em relação às demais variáveis sociodemográficas, de saúde e estilo de vida, não se tendo observado sobreposições dos valores dos IC95%.

Ao se estratificar as variáveis por sexo, não foram observadas diferenças de prevalência entre o Vigitel e a PNS em nenhuma das variáveis investigadas (Tabela 2). Mesmo havendo sobreposição de IC95%, a diferença da prevalência de obesidade entre os dois inquéritos foi de 3,2%, tendo-se observado prevalência de 6,5%, no sexo masculino, e de 0,4% no feminino.

Tabela 2
Prevalências de doenças crônicas não transmissíveis e consumo de alimentos ultraprocessados, álcool e fumo, estratificadas por sexo da população adulta (n=3.037), segundo a Pesquisa Nacional de Saúde e o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas Não Transmissíveis por Inquérito Telefônico, Rio Branco, Acre, 2019

As diferenças nas prevalências de tabagismo e consumo abusivo de álcool, entre os inquéritos Vigitel e PNS, foram de 4,0% e 6,9% respectivamente, no sexo masculino, e de -1,5% e -2,5% no sexo feminino.

Discussão

A análise dos dados do Vigitel e da PNS de 2019 demonstrou que as prevalências relativas às DCNTs, do consumo de alimentos ultraprocessados, do consumo abusivo de álcool e de tabagismo foram semelhantes, com sobreposição dos IC95% das variáveis analisadas. Apenas a comparação das prevalências do indicador raça/cor da pele mostrou diferença entre participantes de raça/cor parda, entre ambos os inquéritos, possivelmente relacionada a dificuldades de autopercepção e autodeclaração dessa característica.1313. Piza E, Rosemberg F. Cor nos censos brasileiros. Rev USP. 1999;40:122-37. doi: 10.11606/issn.2316-9036.v0i40p122-137
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A sobreposição dos intervalos de confiança para as prevalências de excesso de peso e obesidade sugerem não haver diferenças na comparação entre os dois inquéritos, e corrobora estudos que sugerem peso e altura autorreferidos como medidas válidas para determinar o estado nutricional.1414. Moreira NF, Luz VG, Moreira CC, Pereira RA, Sichieri R, Ferreira MG, et al. Peso e altura autorreferidos são medidas válidas para determinar o estado de peso: resultados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS 2013). Cad Saude Publica. 2018;34(5): e00063917. doi: 10.1590/0102-311X00063917
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,1515. Hodge JM, Shah R, McCullough ML, Gapstur SM, Patel AV. Validation of self-reported height and weight in a large, nationwide cohort of U.S. adults. PLos ONE. 2020;15(4):1-11. doi: 10.1371/journal.pone.0231229
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No presente estudo, não foram observadas diferenças entre as prevalências de tabagismo e consumo abusivo de álcool. Entretanto, outras investigações sugerem que, por se tratar de uma pesquisa sem contato visual, entrevistados por telefone podem se sentir mais à vontade para responder a questões sensíveis, como o consumo de drogas lícitas.1616. Barros MBA. Perfil do consumo de bebidas alcoólicas: diferenças sociais e demográficas no município de Campinas, Estado de São Paulo, Brasil, 2003. Epidemiol Serv Saude. 2008; 17(4):259-70. doi: 10.5123/S1679-49742008000400003
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,1717. Malta DC, Iser BPM, Sá NNB, Yokota RTC, Moura L, Claro RM, et al. Tendências temporais no consumo de tabaco nas capitais brasileiras, segundo dados do VIGITEL, 2006 a 2011. Cad Saude Publica. 2013;29(4):812-22. doi: 10.1590/S0102-311X2013000400018
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As semelhanças identificadas na prevalência de consumo de alimentos ultraprocessados e refrigerantes, entre ambos os inquéritos, e na prevalência da maior parte das variáveis avaliadas neste estudo, são similares às de outro estudo que analisou dados dos inquéritos Vigitel e PNS de 2013,1212. Malta DC, Iser BPM, Santos MAS, Andrade SSA, Stopa SR, Bernal RTI, et al. Estilos de vida nas capitais brasileiras segundo a Pesquisa Nacional de Saúde e o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas Não Transmissíveis por Inquérito Telefônico (Vigitel), 2013. Rev Bras Epidemiol. 2015;18 (Supl 2):68-82. doi: 10.1590/1980-5497201500060007
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quando foram comparadas as variáveis relativas a saúde e estilo de vida nas capitais brasileiras.

O presente estudo possui algumas limitações, no que se refere ao método adotado por cada um dos inquéritos, motivo pelo qual as comparações realizadas estão sujeitas a possíveis vieses de informação e seleção. Pode haver viés de seleção no que concerne aos dados do Vigitel, considerando-se a necessidade de cobertura de telefone fixo. Ainda, deve-se ressaltar a possibilidade de viés de informação devido à forma de coleta dos dados do Vigitel, via chamada telefônica, em comparação à forma de coleta da PNS. Contudo, foram utilizados métodos de ponderação e as diferenças das informações nos inquéritos apresentaram sobreposição dos IC95%, podendo-se inferir que os resultados do inquérito telefônico foram semelhantes aos do inquérito presencial. Estes achados reforçam evidências de outros estudos, que não observaram diferenças estatísticas na comparação de parâmetros estimados, a partir de inquéritos telefônicos e presenciais, de doenças crônicas como hipertensão e diabetes mellitus, e variáveis sociodemográficas, como sexo, idade (em anos) e escolaridade.1818. Francisco PMSB, Barros MBA, Segri NJ, Alves MCGP, Cesar CLG, Malta DC. Comparação de estimativas para o auto-relato de condições crônicas entre inquérito domiciliar e telefônico - Campinas (SP), Brasil. Rev Bras Epidemiol. 2011;14(Supl 1):5-15. doi: 10.1590/S1415-790X2011000500002
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,1919. Bernal RTI, Malta DC, Morais Neto OL, Claro RM, Mendoça BCA, Oliveira ACC, et al. Vigitel-Aracaju, Sergipe, 2008: efeitos da pós-estratificação na correção de vícios decorrentes da baixa cobertura de domicílios com telefone fixo. Rev Bras Epidemiol. 2014;17(1):163-74. doi: 10.1590/1415-790X201400010013ENG
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As estimativas da prevalência de DCNTs, do consumo de alimentos ultraprocessados, do consumo abusivo de álcool e de tabagismo em Rio Branco, no ano de 2019, sobrepuseram-se nos inquéritos do Vigitel e da PNS, sugerindo que, mesmo para regiões mais distantes dos grandes centros e com baixa cobertura de telefonia fixa, caso do município de Rio Branco, os inquéritos telefônicos podem ser uma alternativa mais econômica, quando comparados aos inquéritos presenciais.

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Abr 2022
  • Data do Fascículo
    2022

Histórico

  • Recebido
    21 Jul 2021
  • Aceito
    07 Jan 2022
Secretaria de Vigilância em Saúde - Ministério da Saúde do Brasil Brasília - Distrito Federal - Brazil
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