Qualidade da dieta de adolescentes da rede pública de ensino de um município do sul do Brasil: estudo transversal, 2019

Calidad de la dieta de los adolescentes del sistema de escuelas públicas de un municipio del sur de Brasil: estudio transversal, 2019

Etiene Dias Alves Caroline Cardozo Bortolotto Nathalia Brandão Peter Cristina Corrêa Kaufmann Gicele Costa Mintem Renata Moraes Bielemann Ludmila Correa Muniz Sobre os autores

Resumo

Objetivo

Identificar os fatores associados à qualidade da dieta de estudantes do 9º ano da rede municipal de ensino de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil.

Métodos

Estudo transversal, realizado em 2019. As informações alimentares foram coletadas por formulário de frequência alimentar, e a qualidade da dieta foi avaliada mediante índice desenvolvido pelos autores. A dieta foi classificada como de baixa, intermediária ou alta qualidade. A associação foi avaliada por regressão logística multinomial.

Resultados

Os 808 adolescentes avaliados obtiveram média de 16,0 pontos (desvio-padrão=4,1) no índice desenvolvido. A alta qualidade da dieta mostrou-se associada a experimentação de tabaco [razão de chances, ou odds ratio (OR) 2,92; intervalo de confiança de 95% (IC95%) 1,74;4,92] e prática de atividade física no lazer (OR=1,65; IC95% 1,15;2,38).

Conclusão

Destaca-se a importância do incentivo à prática de atividade física, monitoramento de comportamentos de riscos nos adolescentes e promoção do consumo de alimentos considerados saudáveis.

Palavras-chave:
Comportamento Alimentar; Adolescentes; Estudantes; Estudos Transversais

Resumen

Objetivo

Identificar factores asociados a calidad de la dieta de estudiantes de 9º ano de escuelas municipales de Pelotas, Rio Grande do Sul.

Métodos

Estudio transversal, realizado en 2019. La información dietética se recopiló mediante Formulario de Frecuencia de Alimentos y la calidad de la dieta se evaluó mediante índice desarrollado por los autores. La dieta fue clasificada como de baja, intermedia o de alta calidad. La asociación se investigó mediante regresión logística multinomial.

Resultados

Los 808 adolescentes evaluados tuvieron en media 16,0 puntos (desvío-estándar=4,1) en el índice desarrollado. La alta calidad de la dieta se asoció con experimentación de tabaco [OR=2,92; intervalo de confianza del 95% (IC95%) 1,74;4,92] y práctica de actividad física en el tiempo libre (OR=1,65; IC95% 1,15;2,38).

Conclusión

Se destaca la importancia de fomentar la práctica de actividad física, el seguimiento de conductas de riesgo en adolescentes y promover el consumo de alimentos saludables.

Palabras clave:
Conducta Alimentaria; Adolescentes; Estudiantes; Estudios Transversales

Contribuições do estudo

Principais resultados

A baixa pontuação no escore dos indivíduos em estudo sinalizou para o consumo inadequado de alimentos considerados saudáveis, o que, junto a outros fatores, pode redundar em problemas de saúde no futuro.

Implicações para os serviços

Dado o incremento da obesidade, com maior aumento nos jovens adultos, a avaliação da qualidade da dieta dos adolescentes é útil para descrição e planejamento de intervenções de saúde e estratégias de educação alimentar baseadas no padrão alimentar.

Perspectivas

Ações dirigidas à promoção da saúde dos jovens devem focar no conjunto de fatores que impactam o estado geral de saúde e favorecem a prevenção de DCNT, subsidiadas por ferramentas que auxiliem na compreensão do papel da alimentação.

Introdução

A adolescência, que compreende a faixa etária dos 10 aos 19 anos,11. Müller AL, Lima Duarte da Silva CR, Vargas DM. Percepções de Aspectos Psicossociais no Cuidado em Saúde de Adolescente com Obesidade Grave. Rev. Psicol. Saúde. 2019; 11(3): 125-38. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2177-093X2019000300009&lng=pt&nrm=iso. doi: 10.20435/pssa.v11i3.596
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é considerada uma fase complexa de adaptação do indivíduo a suas mudanças físicas, psicológicas e ambientais.11. Müller AL, Lima Duarte da Silva CR, Vargas DM. Percepções de Aspectos Psicossociais no Cuidado em Saúde de Adolescente com Obesidade Grave. Rev. Psicol. Saúde. 2019; 11(3): 125-38. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2177-093X2019000300009&lng=pt&nrm=iso. doi: 10.20435/pssa.v11i3.596
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Trata-se de um período de extrema importância para a formação e consolidação de hábitos e atitudes saudáveis, incluindo os alimentares, com poder de influenciar o estado de saúde atual e futuro.22. Mellendick K, Shanahan L, Wideman L, Calkins S, Keane S, Lovelady C. Diets Rich in Fruits and Vegetables Are Associated with Lower Cardiovascular Disease Risk in Adolescents. Nutrients. 2018 Jan 27; 10(2): 136. doi: 10.3390/nu10020136
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A literatura tem sido consistente ao demonstrar o papel da alimentação adequada, em quantidade e qualidade, na prevenção de doenças como diabetes mellitus, hipertensão e doenças cardiovasculares, as quais vêm sendo identificadas em idades precoces, a exemplo da adolescência.33. Oliveira AS, Moreira NF, Moraes AB, Pereira RA, Veiga GV. Co-occurrence of behavioral risk factors for chronic non-communicable diseases in adolescents: Prevalence and associated factors. Rev Nutr. 2017; 30(6): 747-758. doi: 10.1590/1678-98652017000600007
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,44. Lane MM, Davis JA, Beattie S, Gómez-Donoso C, Loughman A, O'Neil A, et al. Ultraprocessed food and chronic noncommunicable diseases: a systematic review and meta-analysis of 43 observational studies. Obes. rev. 2020; 22(3): e13146. doi: 10.1111/obr.13146
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A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada em 2015, ao investigar o consumo alimentar de estudantes do 9º ano do ensino fundamental de escolas públicas e privadas de todo o país, observou consumo menos frequente de alimentos in natura (como frutas e hortaliças) ou minimamente processados, associado ao consumo elevado de alimentos não saudáveis e de baixa qualidade nutricional (como guloseimas e refrigerantes), conforme verificado em outros estudos.55. Brasil. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PENSE): 2015. Rio de Janeiro: IBGE, 2016. 132 p. Acesso em 01 Abr. 2020. Hábitos alimentares inadequados estão intimamente relacionados a desfechos desfavoráveis de saúde33. Oliveira AS, Moreira NF, Moraes AB, Pereira RA, Veiga GV. Co-occurrence of behavioral risk factors for chronic non-communicable diseases in adolescents: Prevalence and associated factors. Rev Nutr. 2017; 30(6): 747-758. doi: 10.1590/1678-98652017000600007
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,44. Lane MM, Davis JA, Beattie S, Gómez-Donoso C, Loughman A, O'Neil A, et al. Ultraprocessed food and chronic noncommunicable diseases: a systematic review and meta-analysis of 43 observational studies. Obes. rev. 2020; 22(3): e13146. doi: 10.1111/obr.13146
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e ganham maior relevância diante do aumento da prevalência de excesso de peso entre adolescentes brasileiros.66. Brasil. Pesquisa Nacional de Saúde: 2019: atenção primária à saúde e informações antropométricas. Rio de Janeiro: IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento, 2020. Acesso em: 15 Nov 2020. 66 p.

Frente às repercussões da alimentação no estado nutricional e na incidência de doenças, pesquisadores têm buscado desenvolver índices para avaliar a qualidade da dieta da população, tanto no nível individual quanto no populacional.77. Pires RK, Luft VC, Araújo MC, Bandoni D, Molina MDC, Chor D, et al. Análise crítica do índice de qualidade da dieta revisado para a população brasileira (IQD-R): aplicação no ELSA-Brasil. Ciênc. Saúde Colet. 2020 Feb [acesso em 2021 Feb 22]; 25(2): 703-713. doi: 10.1590/1413-81232020252.12102018
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,88. Morais DC, Moraes LF, Silva DC, Pinto CA, Novaes JF. Aspectos metodológicos da avaliação da qualidade da dieta no Brasil: revisão sistemática. Ciênc. Saúde Colet. 2017; 22 (8):2671-80. doi: 10.1590/1413-81232017228.23502015
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Esses índices foram formulados e adaptados para diferentes públicos, ao longo dos anos, levando em consideração as recomendações alimentares de cada país e as particularidades de cada estágio da vida. O índice de qualidade da dieta, ou IQD [tradução do original inglês, HEI (Healthy Eating Index)], desenvolvido pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e adaptado por Fisberg et al.99. Fisberg RM, Slater B, Barros RR, Lima FD, Cesar CL, Carandina L, et al. Índice de Qualidade da Dieta: avaliação da adaptação e aplicabilidade. Rev. Nut. 2004; 17(3): 301-18. doi: 10.1590/S1415-52732004000300003
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para uso no Brasil, utiliza informações provenientes de recordatórios de 24 horas.

A avaliação da qualidade da dieta de estudantes adolescentes é um tema pertinente, haja vista a alimentação associar-se, de forma articulada, a indicadores de saúde atuais e futuros, posto que os hábitos alimentares adquiridos na adolescência poderão ter repercussões na vida adulta. A presente investigação pretende apoiar ações de promoção da alimentação saudável e prevenção de doenças e agravos nutricionais.1010. Oliveira MRM, Firmino MAD, Souza LM, Montenegro APDR, Montenegro-Junior RM, Maia CSC, et al. Qualidade da dieta e risco cardiometabólico em crianças e adolescentes com excesso de peso. Revista Brasileira em Promoção da Saúde. 2021. v. 34. doi: 10.5020/18061230.2021.10952
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São poucos os estudos que avaliam a qualidade da dieta nesse grupo etário,1111. Castilhos CB, Schneider BC, Muniz LC, Assunção MC. Qualidade da dieta de jovens aos 18 anos de idade, pertencentes à coorte de nascimentos de 1993 da cidade de Pelotas (RS), Brasil. Ciênc. Saúde Colet. 2015; 20(11): 3309-18. doi: 10.1590/1413-812320152011.17822014
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,1212. Horta PM, Verl-Junior E, Santos LC. Usual diet quality among 8-to 12-year-old Brazilian children. Cad. Saúde Pública. 2019; 35(2): e00044418. doi: 10.1590/0102-311X00044418
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principalmente sob a perspectiva de aplicação de um índice simples, na região Sul do país,1010. Oliveira MRM, Firmino MAD, Souza LM, Montenegro APDR, Montenegro-Junior RM, Maia CSC, et al. Qualidade da dieta e risco cardiometabólico em crianças e adolescentes com excesso de peso. Revista Brasileira em Promoção da Saúde. 2021. v. 34. doi: 10.5020/18061230.2021.10952
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,1111. Castilhos CB, Schneider BC, Muniz LC, Assunção MC. Qualidade da dieta de jovens aos 18 anos de idade, pertencentes à coorte de nascimentos de 1993 da cidade de Pelotas (RS), Brasil. Ciênc. Saúde Colet. 2015; 20(11): 3309-18. doi: 10.1590/1413-812320152011.17822014
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no ambiente escolar.

O objetivo do estudo foi identificar os fatores associados à qualidade da dieta de estudantes do 9º ano da rede municipal de ensino de Pelotas, estado do Rio Grande do Sul, Brasil.

Métodos

Estudo transversal, de tipo ‘censo de base escolar’, realizado no ano de 2019, com estudantes do 9º ano do ensino fundamental das escolas municipais da zona urbana de Pelotas, RS, vinculadas ao Programa Saúde na Escola (PSE). Vale ressaltar que o estudo faz parte de uma pesquisa mais abrangente, que avaliou o estado nutricional e outros indicadores de saúde de todos os escolares matriculados do 1º ao 9º ano do ensino fundamental das escolas municipais urbanas de Pelotas.

O município conta com uma população aproximada de 342 mil habitantes, dos quais 16% (52.485) são adolescentes.1313. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo 2010. Disponível em: http://www.censo.2010.ibge.gov.br/resultados
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Atualmente, Pelotas dispõe de 51 unidades básicas de saúde (38 localizadas na zona urbana e 13 na zona rural), o produto interno bruto per capita do município é estimado em R$ 17.353,15 e seu índice de desenvolvimento humano municipal (IDH-M) é igual a 0,739.1313. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo 2010. Disponível em: http://www.censo.2010.ibge.gov.br/resultados
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À época do estudo, a zona urbana de Pelotas contava com 40 escolas municipais de ensino fundamental (EMEF). Destas, 30 possuíam ensino fundamental completo, sendo 25 vinculadas ao PSE. Conforme a Secretaria Municipal de Educação e Desporto de Pelotas, em 2019, estas últimas ofereciam ensino fundamental para 11.658 estudantes, sendo elegíveis para o presente estudo todos os 951 matriculados no 9º ano.

O recorte populacional em estudantes do 9º ano do ensino fundamental justifica-se pelo fato de ser a mínima escolarização necessária para responder ao questionário autoaplicável, além do fato de os estudantes matriculados nesse ano escolar terem idade próxima à idade de referência preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS),1414. WHO Europe. Inequalities in young people's health Key findings from the Health Behaviour in School-aged Children (HBSC) 2005/2006 survey; 17 jun 2008 [acesso em 6 jun 2021]. Disponível em: https://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0004/83695/fs_hbsc_17june2008_e.pdf
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que é a de 13 a 15 anos. Para se iniciar a coleta de dados, deu-se preferência às escolas vinculadas ao PSE, porque utilizam o termo de autorização de participação nos Programas de Prevenção de Doenças e Promoção da Saúde, para todos os alunos, o que habilita a avaliação antropométrica de todos. Além disso, a coleta de dados restringiu-se a essas escolas, porque a pandemia de COVID-19, ao implicar a suspensão das atividades presencias nas escolas no início do ano letivo de 2020, impossibilitou a conclusão do trabalho de campo nas escolas ainda faltantes. Foram excluídos das análises aqueles estudantes com idade superior a 19 anos, pois o presente estudo se limitava a adolescentes. Os estudantes que apresentavam alguma incapacidade física ou mental que os impossibilitasse de preencher o questionário não foram incluídos no estudo. Tais incapacidades, quando existentes, eram informadas à equipe de pesquisa pela coordenação da escola. Considerou-se como perda para a pesquisa os estudantes não encontrados em sala de aula após 3 tentativas, em dias e horários diferentes, pela equipe de pesquisa.

Para a coleta das informações alimentares, utilizou-se o formulário de Marcadores de Consumo Alimentar do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan),1515. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Orientações para avaliação de marcadores de consumo alimentar na atenção básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 2 ed. 32 p. referente ao consumo, na última semana, de dez alimentos/itens alimentares, sendo cinco deles considerados saudáveis - frutas frescas ou salada de frutas (frutas); legumes e verduras cozidos; salada crua (vegetais crus); feijão; leite/iogurte - e os cinco demais considerados não saudáveis - batata frita, batata de pacote e salgados fritos (salgados fritos); bolachas/biscoitos doces ou recheados, doces, balas e chocolates (doces industrializados); bolacha/biscoitos salgados ou salgadinhos de pacote (salgados industrializados); hambúrguer e embutidos; refrigerantes.

A qualidade da dieta dos estudantes foi avaliada por meio de um índice desenvolvido pelos próprios autores, posteriormente à coleta de dados dos estudantes, tendo como base uma metodologia proposta em estudo anterior realizado com outro grupo etário, do mesmo município, e mais um estudo que adotou instrumento similar.1616. Gomes AP, Soares AL, Gonçalves H. Baixa qualidade da dieta de idosos: estudo de base populacional no sul do Brasil. Ciênc. Saúde Colet. 2016 [acesso em 2020 Sep 29]; 21(11): 3417-3428. doi:10.1590/1413-812320152111.17502015
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,1717. Sousa LLS, Mendes RSO, Ferreira MC, Alcantra CPS, Reis AD, Marques ACG, et al. Prevalência de Obesidade e Consumo Alimentar de Adolescentes da Região Nordeste do Brasil: Registros do Sisvan. In: Toledo MM (org). Ciências saúde: teoria e intervenção (5). Ponta Grossa, PR: Editora Atena. 2020. Disponível em: https://www.atenaeditora.com.br/post-artigo/33495
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Primeiramente, as frequências de consumo semanal de cada alimento/grupo de alimentos foram agrupadas em quatro categorias: (i) não comeu na última semana; (ii) comeu 1-3 dias na semana; (iii) comeu 4-6 dias na semana; e (iv) comeu diariamente. Para cada uma destas categorias, atribuiu-se uma pontuação variável, de 0 a 3 (Quadro 1). Levando-se em consideração que não existe uma recomendação de frequência ideal de consumo alimentar, convencionou-se que maiores pontuações seriam atribuídas a maior frequência de consumo semanal de alimentos considerados saudáveis, desde que maiores frequências, possivelmente, representem maior consumo desses alimentos. Dessa forma, os alimentos/grupos alimentares considerados saudáveis receberam pontuação de forma crescente (não comeu = 0 ponto; comeu diariamente = 3 ponto), enquanto os alimentos considerados não saudáveis receberam pontuação decrescente (não comeu = 3 pontos; comeu diariamente = 0 ponto), tendo em vista que a recomendação é de redução do consumo desses alimentos.

Quadro 1
- Pontuação utilizada para o cálculo do índice de qualidade da dieta proposto para o estudo

A pontuação total do índice poderia variar de 0 a 30 pontos, sendo uma maior pontuação sugestiva de maior frequência semanal de consumo de alimentos considerados saudáveis e menor frequência de consumo semanal de alimentos não saudáveis. Posteriormente, essa pontuação foi dividida em tercis: 1º tercil (menor pontuação) - baixa qualidade; 2º tercil - qualidade intermediária; e 3º tercil (maior pontuação) - alta qualidade da dieta.

As variáveis sociodemográficas independentes estudadas foram o sexo (masculino; feminino), a faixa etária (em anos completos: 13 a 14; 15; 16 a 19), a raça/cor da pele (informada pelo adolescente e posteriormente dicotomizada: branca ou preta/parda/amarela/indígena) e a escolaridade materna (informada pelo adolescente em número de anos de estudo da mãe concluídos com aprovação: <8; 8-11; ≥12).

Com relação às variáveis comportamentais, avaliou-se a realização de refeições na companhia da família (não; sim) mediante a proposição da pergunta Tu costumas almoçar ou jantar com as pessoas que moram contigo?, enquanto a experimentação de tabaco (não; sim) foi obtida pela pergunta Alguma vez na vida tu fumaste, mesmo uma ou duas tragadas? e a experimentação alcoólica (não; sim) pela pergunta Alguma vez na vida tu experimentaste bebida alcoólica?. O tempo semanal de atividade física no lazer foi mensurado a partir de uma lista de 12 atividades físicas propostas ao adolescente, suas respectivas frequências e durações. Foram considerados ativos os adolescentes que atingiram a prática de pelo menos 300 minutos de atividade física no lazer na semana anterior à entrevista, segundo recomendações atuais.1818. World Health Organization. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. 2020 [acesso em 5 fev 2021]. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240015128
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As escolas foram visitadas em datas aleatórias, durante o período de abril a dezembro de 2019, conforme disponibilidade da equipe de trabalho e do calendário escolar, em dia previamente acordado com a equipe diretiva da escola. Os alunos eram identificados e convidados a participação em sala de aula. A coleta de dados ocorreu na forma de questionário, autopreenchido.

Os dados foram duplamente digitados utilizando-se o programa EpiData em sua versão 3.1 (Epidata Association, Odense, Dinamarca), enquanto as análises estatísticas foram realizadas utilizando-se o pacote estatístico Stata versão 16.0 (Stata Corp., College Station, Estados Unidos). Primeiramente, foi realizada a descrição da amostra em números absolutos (N) e relativos (%), conforme características socioeconômicas, demográficas e comportamentais dos adolescentes. Compararam-se as médias de escore de cada componente de acordo com os tercis de qualidade da dieta, mediante análise de variância (oneway). A regressão logística multinomial foi utilizada para avaliar a associação da classificação da qualidade da dieta (baixa; intermediária; alta) com as variáveis independentes, sendo os resultados descritos em odds ratio (OR: razão de chances) bruta e ajustada para possíveis fatores de confusão, com os respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%). Aplicou-se ‘baixa qualidade da dieta’ como categoria de referência. A análise ajustada foi conduzida de maneira hierarquizada, em dois níveis: no primeiro nível, foram incluídas as variáveis sociodemográficas; e no segundo nível, as variáveis comportamentais. Em cada nível, o p-valor foi verificado, removendo-se as variáveis com o maior p-valor, um a um, do modelo de análise. Foram mantidas na análise, para controle de possíveis efeitos de confusão, as variáveis associadas ao desfecho com p-valor <0,20 (experimentação de tabaco e atividade física no lazer). Testes de tendência linear (teste de Wald) e heterogeneidade (teste de Parm) foram utilizados de acordo com a natureza das variáveis. Assumiu-se um nível de significância de 5% nas associações.

O projeto do estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas (CEP_FEN/UFPel): Parecer nº 2.843.572, emitido em 24 de agosto de 2018. Previamente à coleta de dados, todos os participantes foram esclarecidos sobre os objetivos do estudo e apenas responderam ao questionário aqueles cujos pais/responsáveis assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A realização da pesquisa foi autorizada pela Secretaria Municipal de Educação e Desporto de Pelotas.

RESULTADOS

Dos 951 estudantes adolescentes elegíveis para o estudo, 808 foram avaliados. As perdas e recusas corresponderam a 15% (143), em sua maioria do sexo feminino (56,0%) e adolescentes com 15 anos (37,3%).

As características sociodemográficas e comportamentais desses estudantes são apresentadas na Tabela 1. A maior parte da amostra era do sexo feminino (51,6%), de 13 a 15 anos de idade (80,5%) e de raça/cor da pele branca (61,3%). Quanto à escolaridade materna, cerca de 75% dos adolescentes tinham mães com pelo menos oito anos completos de estudo. Em relação às características comportamentais, 85,4% dos adolescentes informaram realizar refeições com a família, enquanto 18,2% e 73,6% já haviam experimentado tabaco e álcool, respectivamente. Mais da metade dos adolescentes (54,2%) foram classificados como inativos.

Tabela 1
Descrição das características sociodemográficas e comportamentais de adolescentes (n=808) da rede municipal de ensino da zona urbana de Pelotas, Rio Grande do Sul, 2019

A mediana de pontos do índice foi de 16,0 - na amplitude de valores de 3 a 30 pontos. A média de pontos de cada componente (grupo ou combinação de alimentos), por categoria do índice, pode ser observada na Tabela 2. Para cada componente, a pontuação poderia variar de 0 a 3 pontos. Na categoria de baixa qualidade da dieta, encontraram-se as menores médias para os alimentos saudáveis (indicando menor consumo) e não saudáveis (indicando maior consumo). Foi notável a diferença no consumo de legumes e verduras cozidos, entre as categorias de qualidade da dieta, em que a média parte de 0,75 ponto, na baixa qualidade, passa para 1,31 na qualidade intermediária e chega a 2,10 na qualidade alta. No grupo de alta qualidade da dieta, vegetais crus (média de 1,91 ponto) e leite/iogurte (média de 1,95 ponto) tiveram menor frequência de consumo. Quanto aos alimentos considerados não saudáveis, salgados fritos (média de 2,31 pontos) foram os mais frequentemente consumidos entre os adolescentes com alta qualidade da dieta, enquanto doces industrializados (média de 1,92 ponto) foram os de mais baixo consumo entre os adolescentes desse grupo.

Tabela 2
Média e desvio-padrão de cada componente e das categorias do índice de qualidade da dieta de adolescentes (n=808) da rede municipal de ensino da zona urbana de Pelotas, Rio Grande do Sul, 2019

As Tabelas 3 e 4 mostram as ORs brutas e ajustadas para as variáveis independentes, conforme categorias de qualidade da dieta - intermediária e alta, respectivamente. Apenas as variáveis ‘experimentação de tabaco’ (p<0,001) e ‘atividade física no lazer’ (p=0,012) estiveram associadas à alta qualidade da dieta. Após ajuste para possíveis fatores de confusão, aqueles que informaram ter experimentado tabaco apresentaram 2,92 vezes mais chances (IC95% 1,74;4,92; p<0,001) de estarem classificados no grupo de alta qualidade da dieta, relativamente aos que não haviam experimentado tabaco. Os adolescentes ativos no lazer tiveram 65,0% (IC95% 1,15;2,38; p-valor=0,007) mais chances de estarem classificados no grupo de alta qualidade da dieta. As demais variáveis estudadas permaneceram estatisticamente não associadas ao desfecho.

Tabela 3
Análises bruta e ajustada entre qualidade intermediária da dieta e variáveis sociodemográficas e comportamentais de adolescentes (n=808) da rede municipal de ensino da zona urbana de Pelotas, Rio Grande do Sul, 2019
Tabela 4
Análises bruta e ajustada entre qualidade alta da dieta e variáveis sociodemográficas e comportamentais de adolescentes (n=808) da rede municipal de ensino de Pelotas, Rio Grande do Sul, 2020

Discussão

A pontuação total do índice de qualidade da dieta, com uma baixa mediana entre os adolescentes incluídos no estudo, alerta para a importância da alimentação dos jovens. A alimentação é a base para a promoção e proteção da saúde, ao possibilitar o crescimento e o desenvolvimento com qualidade de vida.

A baixa frequência de consumo de vegetais crus e de leite/iogurte, aliada à ingestão regular de biscoitos doces, configura-se como a principal inadequação na alimentação dos adolescentes avaliados e corrobora os resultados de estudos populacionais, um realizado em Cuiabá, MT, no ano de 2011,1919. Wendpap LL, Ferreira MG, Rodrigues PR, Pereira RA, Loureiro AD, Gonçalves-Silva RM. Qualidade da dieta de adolescentes e fatores associados. Cad. Saude Pública, 2014 [acesso em 2020 Sep 29]; 30(1): 97-106. doi: 10.1590/0102-311X00082412
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e outro com dados da PeNSE 2012.2020. Silva JB, Elias BC, Mais LA, Warkentin S, Konstantyner T, Oliveira FL. Fatores associados ao consumo inadequado de leite em adolescentes: Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar - PeNSE 2012. Rev. paul. Pediatr. 2020 [acesso em 6 jul 2021]; 38. doi: 10.1590/1984-0462/2020/38/2018184
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Os estudos mostram que os adolescentes têm feito escolhas alimentares ruins, substituindo o consumo de alimentos in natura ou minimamente processados por alimentos considerados não saudáveis, como biscoitos doces, refrigerantes e salgados fritos.55. Brasil. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PENSE): 2015. Rio de Janeiro: IBGE, 2016. 132 p. Acesso em 01 Abr. 2020. Cabe destacar que o consumo reduzido de leite/iogurte observado2121. Brasil. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018: análise do consumo alimentar pessoal no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento. 2020. 120 p. pode estar associado à omissão do desjejum,2222. Santos Correa A, Rodrigues PR, Monteiro LS, Souza RA, Sichieri R, Pereira RA. Beverages characterize the nutritional profile of Brazilian adolescents' breakfast. Nutrire. 2016 [citado 01 Mar 2020]; 41(3): 1-11 doi:10.1186/s41110-016-0004-z
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visto que, geralmente, os produtos lácteos são mais consumidos no café da manhã. Simultaneamente, entre adolescentes, tem-se registrado a substituição do leite por bebidas com adição de açúcar.1919. Wendpap LL, Ferreira MG, Rodrigues PR, Pereira RA, Loureiro AD, Gonçalves-Silva RM. Qualidade da dieta de adolescentes e fatores associados. Cad. Saude Pública, 2014 [acesso em 2020 Sep 29]; 30(1): 97-106. doi: 10.1590/0102-311X00082412
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,2222. Santos Correa A, Rodrigues PR, Monteiro LS, Souza RA, Sichieri R, Pereira RA. Beverages characterize the nutritional profile of Brazilian adolescents' breakfast. Nutrire. 2016 [citado 01 Mar 2020]; 41(3): 1-11 doi:10.1186/s41110-016-0004-z
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Os achados sobre os maus hábitos alimentares tornam-se preocupantes. Uma alimentação nutricionalmente adequada é necessária para suprir o crescimento acelerado e as modificações na composição corporal características da adolescência.2323. Diniz CB, Feitosa AA, Coutinho BL, Gomes SC, Sant'Anna AL, Araújo AF, et al. Acompanhamento nutricional de adolescentes no Programa Saúde na Escola. J. Hum. Growth Dev. 2020; 30(1): 32-39. doi: 10.7322/jhgd.v30.9961
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Hábitos alimentares menos saudáveis contribuem substancialmente para o aumento do excesso de peso (sobrepeso e obesidade),1919. Wendpap LL, Ferreira MG, Rodrigues PR, Pereira RA, Loureiro AD, Gonçalves-Silva RM. Qualidade da dieta de adolescentes e fatores associados. Cad. Saude Pública, 2014 [acesso em 2020 Sep 29]; 30(1): 97-106. doi: 10.1590/0102-311X00082412
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fato que já acomete 19,4% da população brasileira adolescente.66. Brasil. Pesquisa Nacional de Saúde: 2019: atenção primária à saúde e informações antropométricas. Rio de Janeiro: IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento, 2020. Acesso em: 15 Nov 2020. 66 p.

A maior chance de classificação no grupo de alta qualidade da dieta, para adolescentes que experimentaram tabaco, pode ser considerada inesperada, possivelmente fruto do acaso, dada a reconhecida fragilidade do autorrelato de tabagismo por adolescentes2424. Menezes AMB, Dumith S, Martínez J, Silva AE, Cascaes A, Domínguez GG, et al. Mental health problems and smoking among adolescents from Southern Brazil. Rev. Saude Publica, 2011 [citado 2020 Dez 29]; 45(4): 700-5. e a limitação da variável, que pode ter distorcido o resultado encontrado. Na literatura, consta que adolescentes, ao experimentarem tabaco, estão propensos a se tornar tabagistas na vida adulta, e que o hábito de fumar destes está relacionado ao consumo alimentar inadequado, apontando para a direção oposta à associação observada no presente estudo.2424. Menezes AMB, Dumith S, Martínez J, Silva AE, Cascaes A, Domínguez GG, et al. Mental health problems and smoking among adolescents from Southern Brazil. Rev. Saude Publica, 2011 [citado 2020 Dez 29]; 45(4): 700-5.

25. Ribeiro SC, Pires GAR, Charlo PB, Silva Rodrigues TFC, Paiano M, Radovanovic CAT, et al. O consumo de derivados do tabaco por adolescentes: Revisão integrativa da literatura. Saude Coletiva. 2019; 9(51): 2005-12.
-2626. Bergmans RS, Coughlin L, Wilson T, Malecki K. Cross-sectional associations of food insecurity with smoking cigarettes and heavy alcohol use in a population-based sample of adults. Drug Alcohol Depend. 2019 [acesso em 29 Dez 2020]; 205: e107646. doi: 10.1016/j.drugalcdep.2019.107646
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Entretanto, a associação positiva entre atividade física no lazer e qualidade da dieta foi consistente com a literatura.1919. Wendpap LL, Ferreira MG, Rodrigues PR, Pereira RA, Loureiro AD, Gonçalves-Silva RM. Qualidade da dieta de adolescentes e fatores associados. Cad. Saude Pública, 2014 [acesso em 2020 Sep 29]; 30(1): 97-106. doi: 10.1590/0102-311X00082412
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,2727. Andrade SC, Barros MBA, Carandina L, Goldbaum M, Cesar CLG, Fisberg RM. Dietary quality index and associated factors among adolescents of the state of São Paulo, Brazil. J Pediatr. 2010 [acesso em 2020 Dec 14]; 156(3): 456-60. doi: 10.1016/j.jpeds.2009.09.066
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A prática de esportes pode levar à inclusão de outros hábitos positivos no estilo de vida do adolescente, com reflexo na melhora do estado de saúde, auxiliando na prevenção de consequências patológicas futuras.55. Brasil. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PENSE): 2015. Rio de Janeiro: IBGE, 2016. 132 p. Acesso em 01 Abr. 2020.,66. Brasil. Pesquisa Nacional de Saúde: 2019: atenção primária à saúde e informações antropométricas. Rio de Janeiro: IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento, 2020. Acesso em: 15 Nov 2020. 66 p. A associação encontrada põe em evidência a necessidade de apoiar estratégias de estímulo à adoção de comportamentos saudáveis, e de campanhas eficazes de saúde preventiva, principalmente no ambiente escolar.

Dado que são escassos os estudos avaliativos da qualidade da dieta de adolescentes no ambiente escolar, este é um dos pontos positivos a destacar do presente estudo. A escola se apresenta como um ambiente favorável para intervenções e estratégias de educação promotoras de melhores condições de vida e saúde.2323. Diniz CB, Feitosa AA, Coutinho BL, Gomes SC, Sant'Anna AL, Araújo AF, et al. Acompanhamento nutricional de adolescentes no Programa Saúde na Escola. J. Hum. Growth Dev. 2020; 30(1): 32-39. doi: 10.7322/jhgd.v30.9961
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As escolas participantes deste estudo estão vinculadas ao PSE, programa integrante do Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) no Brasil - 2011-2022 e que tem, por finalidade, a promoção da segurança alimentar e alimentação saudável dos escolares. Vê-se no PSE uma oportunidade de ofertar, no cardápio escolar, alimentos que contemplem gêneros alimentícios básicos, e que essas refeições sejam pautadas na alimentação diária saudável e adequada.55. Brasil. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PENSE): 2015. Rio de Janeiro: IBGE, 2016. 132 p. Acesso em 01 Abr. 2020. Contudo algumas adversidades podem ser encontradas, uma vez que a alimentação fora do ambiente escolar ocorre no meio social, comumente em família, e esbarra com a facilidade de aquisição de alimentos processados e o efeito midiático da propaganda sobre a alimentação. Ressalta-se, também como ponto positivo, o baixo percentual de perdas e recusas comparado ao de outros estudos de mesma natureza,2828. Oliveira RR, Peter NB, Muniz LC. Consumo alimentar segundo grau de processamento entre adolescentes da zona rural de um município do sul do Brasil. Ciên Saúde Colet. 2021; 26(3): 1105-1114.,2929. Gonsalez PS, Retondario A, Bricarello LP, González-Chica DA, Silva DAS, Vasconcelos FAG. Exclusive breastfeeding, complementary feeding and association with body fat excess among schoolchildren in Florianópolis, Santa Catarina, Brazil. Rev. Bras. Saude Mater. Infant. 2017 [acesso em 2020 Nov 07]; 17(1): 115-125. doi: 10.1590/1806-93042017000100007
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o que reforça a representatividade da amostra avaliada.

O estudo apresenta algumas limitações. A primeira delas diz respeito à utilização do formulário de Marcadores de Consumo Alimentar do Sisvan,1515. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Orientações para avaliação de marcadores de consumo alimentar na atenção básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 2 ed. 32 p. referente ao consumo na semana anterior de dez alimentos/itens alimentares. Embora seja um instrumento de fácil aplicação e compreensão pelos entrevistados, o curto período prévio considerado pode não refletir o hábito alimentar de longo prazo. Todavia, optou-se por utilizar esse instrumento, haja vista tratar-se de um estudo de base escolar, onde o próprio estudante preencheu o questionário, inviabilizando a aplicação de inquéritos recordatórios de 24 horas. Deve-se considerar, ademais, que, dada a natureza do instrumento aplicado, no qual alguns alimentos/itens alimentares se encontram agrupados, pode ter ocorrido perda de informação específica sobre cada alimento, e possível subestimação do consumo dos componentes do índice. A utilização de um índice não validado para a população-alvo também representa fragilidade do estudo. Todavia, a experiência com índices similares, igualmente desenvolvidos a partir de formulário reduzido para outros grupos etários do mesmo município, mostrou-se satisfatória para fins de rastreamento, ao possibilitar a identificação dos grupos de maior ou menor vulnerabilidade em relação à dieta, além de alimentos ou grupos de alimentos que mais contribuem com a qualidade da dieta. Porém, a impossibilidade de aplicar um ponto de corte para a definição de alta qualidade da dieta torna inviável a comparação de sua prevalência com a encontrada por outros estudos.

Em síntese, a pesquisa observou baixa mediana no índice de qualidade da dieta dos adolescentes desenvolvido para o presente estudo, tendo-se revelado baixo consumo de vegetais crus e alimentos lácteos, mesmo entre adolescentes classificados no grupo de alta qualidade da dieta.

Sabe-se que as escolhas alimentares se baseiam não só em escolhas individuais. Elas também sofrem interferência econômica e social, sendo pertinente o incentivo a práticas e políticas públicas visando melhor distribuição de renda, a ponto de ampliar o acesso aos alimentos; e que, nessas iniciativas, sejam respeitados, protegidos e promovidos os direitos humanos à saúde. Outrossim, é importante salientar que comportamentos de risco, a exemplo do tabagismo, que se mostrou associado ao desfecho, podem vir a se tornar problemas sociais e de saúde pública. É imprescindível que esses comportamentos sejam tratados em ações de educação em saúde, articulando-se educação e sociedade em prol da saúde atual e futura dos adolescentes.

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  • Trabalho acadêmico associado

    Artigo derivado de dissertação de mestrado intitulada ‘Qualidade da dieta de adolescentes da rede pública de ensino de um município do sul do Brasil: estudo transversal, 2019’, defendida por Etiene Dias Alves no Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Alimentos, da Universidade Federal de Pelotas, em 2020.
  • Financiamento O presente trabalho contou com o apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (Capes) - Código de Financiamento 001, mediante concessão de bolsa de mestrado à autora Etiene Dias Alves

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Abr 2022
  • Data do Fascículo
    2022

Histórico

  • Recebido
    28 Jul 2021
  • Aceito
    10 Jan 2022
Secretaria de Vigilância em Saúde - Ministério da Saúde do Brasil Brasília - Distrito Federal - Brazil
E-mail: leilapgarcia@gmail.com