ARTIGO ORIGINAL

 

Determinação de objetivos educativos

 

Stating educational objectives

 

 

João Alvécio Sossai

Da Disciplina Educação em Saúde Pública do Departamento de Prática de Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da USP – Av. Dr. Arnaldo, 715 – São Paulo, SP – Brasil

 

 


RESUMO

São analisados aspectos teóricos relacionados à determinação de objetivos educativos e à questão das técnicas de redação operacional de objetivos. Pretende-se destacar apenas alguns aspectos relevantes relacionados ao problema.

Unitermos: Educação*; Objetivo educativo*; Objetivo operacional*.


SUMMARY

Theoretical aspects related to stating objectives and the techniques for stating behavioural objectives are analysed. The intention is to emphasize only some of the relevant aspects related to the problem.

Uniterms: Educational objective*; Behavioral objective*.


 

 

1. INTRODUÇÃO

Um objetivo educativo adequadamente enunciado deve ser operacional. O que caracteriza um objetivo operacional é a precisão. Um objetivo bem redigido deve indicar claramente um comportamento esperado numa dada situação, de maneira que qualquer pessoa possa identificar se o comportamento pretendido foi ou não adquirido. Em outras palavras, um objetivo educativo deve indicar um comportamento passível de avaliação.

 

2. NÍVEIS DE OBJETIVOS

Objetivos operacionais referem-se a situações tão específicas que, se analisados isoladamente, não apresentam a unicidade que deve caracterizar os objetivos de um programa educativo. O educador poderia levantar questões como:

– qual a importância de tal objetivo em um dado programa?

– como se coordenam os objetivos com vistas a uma meta final?

Para se ter uma visão dos objetivos de um programa como um todo e para se indicar comportamentos finais, costuma-se redigir também objetivos gerais. Como as metas gerais de um programa geralmente implicam em processos mais complexos, dificilmente será possível redigir objetivos gerais de maneira operacional.

Para que se possa avaliar se os objetivos gerais de um programa foram atingidos é necessário que eles sejam operacionalisados através de outros objetivos, isto é, deve-se indicar que comportamentos devem ser apresentados que evidenciem a consecução de cada objetivo geral. Exemplo:

 

 

Se tomarmos cada um dos objetivos específicos citados, podemos verificar que indicam comportamentos mensuráveis que as gestantes devem apresentar em determinada fase de um programa. Parece, entretanto, que cada objetivo tomado isoladamente não tem razão de ser. Se convercionarmos que os três comportamentos sugeridos nos objetivos específicos indicam uma compreensão satisfatória da importância da alimentação adequada durante a gravidez, pode-se afirmar:

A maioria dos autores concorda em que um objetivo operacional deve ser redigido em termos da população alvo e não

– que têm sentido dentro de um programa;

– que a consecução dos objetivos específicos evidenciam a consecução do objetivo geral.

 

3. TÉCNICAS DE REDAÇÃO OPERACIONAL DE OBJETIVOS

A redação de objetivos de maneira operacional pode ser facilitada pela utilização de algumas técnicas.

Sabemos que um objetivo operacional deve incluir sempre um comportamento que é expresso por um verbo. Exemplo: citar, ingerir, mencionar. Além disso, o comportamento deve sempre referir-se a algum objeto ou conteúdo. Citar. . . o que? Ingerir. . . o que? Mencionar. . . o que? Os dois elementos básicos de um objetivo operacional são, portanto, comportamento e conteúdo. Exemplos:

 

 

em termos de quem pretende a mudança de comportamento. Exemplos:

 

 

Outra técnica utilizada para tornar a redação de um objetivo operacional mais precisa é a explicitação da situação e da adequação.

A situação indica em que circunstância deve ser apresentado um comportamento. Retomando um dos exemplos já citados:

 

 

A adequação indica com maior precisão em que nível consideramos satisfatório um comportamento para se admitir como atingido um objetivo. Exemplo:

 

 

Exemplo incluindo situação e adequação:

 

 

Neste caso, espera-se que as gestantes indiquem as razões em um texto, e não através de pesquisa de campo, em trabalho de grupo ou em consulta a especialistas.

Se o texto apresenta dez razões, por exemplo, considera-se satisfatória a identificação de 8 razões, isto é, 80%. Quando não se menciona a adequação, está sempre implícito que o nível de aceitação é 100%.

Os verbos utilizados na redação de objetivos para indicar o comportamento esperado, podem ser mais ou menos precisos. Não há um critério para se estabelecer quais termos são precisos e quais são imprecisos. Na redação operacional de objetivos devemos utilizar os verbos que indicam com maior precisão o comportamento esperado. O seguinte rol de palavras permite uma comparação entre termos que indicam comportamentos com maior e com menor precisão:

 

 

Utilizando corretamente as técnicas de redação operacional de objetivos poderemos com maior facilidade indicar comportamentos mensuráveis, o que é fundamental para a avaliação e reformulação de um programa educativo.

 

4. ÁREAS DE COMPORTAMENTO

Com base na concepção de que o homem primeiramente conhece, depois aceita e por fim age, costuma-se dividir os objetivos educativos em três áreas: cognitiva, afetiva e ativa. Embora esta divisão não tenha fundamento rigorosamente científico, tem sido adotada em larga escala por educadores.

Os objetivos cognitivos incluem desde a simples evocação de material aprendido até a combinação e sintetização de novas idéias e materiais. Os comportamentos na área cognitiva são expressos por verbos como: relacionar, comparar, Interpretar, distinguir, resumir, enumerar.

Os objetivos afetivos referem-se ao grau de aceitação ou de internalização de um conceito, comportamento ou fato. Refere-se a uma atitude ou sentimento em relação a alguma coisa. Os comportamentos na área afetiva são expressos por verbos como: aceitar, responsabilizar-se, reconhecer, perceber, tolerar, apreciar.

Os objetivos ativos referem-se a alguma atividade ou prática que deve ser adotada. Geralmente envolvem uma atividade motora. Os comportamentos na área ativa são expressos por verbos como: construir, confeccionar, escrever, ingerir, participar, distribuir, organizar, cooperar *.

Segundos os teóricos, um programa educativo bem elaborado deve conter objetivos nas três áreas. Várias questões, entretanto, podem ser levantadas:

– Os objetivos cognitivos podem ser avaliados em um nível teórico, ou, como se costuma dizer, a nível de sala de aula. Ora, a aquisição de um comportamento na área cognitiva nem sempre é garantia de que o indivíduo será capaz de aplicar o conhecimento adquirido numa situação prática, que é o que se pretende em última análise.

– Os objetivos afetivos não podem ser avaliados diretamente, mas sim através dos objetivos cognitivos ou ativos. Pergunta-se então: qual a finalidade destes objetivos num programa educativo?

– A aquisição de uma prática é geralmente demonstrada na vida "fora da escola". Por isso, os objetivos ativos não podem ser facilmente avaliados em situação de sala de aula, e esta é a "situação educativa" mais freqüente.

Na prática o que pode ocorrer é o seguinte: o educador inclui no planejamento de um programa alguns objetivos na área cognitiva e admite "a priori" que o educando, conhecendo certas coisas, vai aceitá-las e adotar práticas relativas aos conhecimentos adquiridos. Este, aliás, tem sido um pressuposto admitido ao longo de toda a história da educação.

 

5. SELEÇÃO E COORDENAÇÃO VERTICAL DOS OBJETIVOS

Em educação deve-se partir do conhecido para o desconhecido, do simples para o complexo, do concreto para o abstrato. Este é um princípio elementar de psicologia da aprendizagem.

Um programa educativo bem estruturado deve conter objetivos que indiquem comportamentos a serem adquiridos numa ordem de dificuldade, desde os mais fáceis até os mais difíceis. Desta maneira, o comportamento será modelado tendo-se em vista as metas finais.

A coordenação vertical dos objetivos assim entendida supõe não só o domínio de princípios teóricos, mas requer a aplicação repetida e controlada de um programa. É através da experiência que se pode verificar em que medida a ordem em que são esperados os comportamentos é adequada para determinada população.

Uma questão à parte da técnica de redação e dos princípios de organização dos objetivos num programa educativo, refere-se aos critérios de seleção de objetivos. A seleção de objetivos deve partir da análise do que se pretende com um programa e das condições em que será desenvolvido. Este aspecto não pode ser esquecido, do contrário poderemos elaborar objetivos tecnicamente perfeitos mas que não apresentam nenhuma relevância para uma dada situação.

 

6. CONCLUSÃO

Embora tenhamos discutido apenas alguns aspectos teóricos relativos à determinação de objetivos educativos, pode-se concluir que esta é uma questão extremamente importante quando nos referimos a planejamento de programas educativos. Pode-se também fazer algumas inferências sobre as relações entre objetivos educativos, metodologia de ensino, critérios e instrumentos de avaliação.

Em relação à determinação de objetivos educativos, acreditamos que o domínio das técnicas de redação e a aplicação de alguns princípios para seleção e organização dos objetivos em um programa, tornarão mais fácil a aquisição de comportamentos desejáveis e a mudança de comportamentos inadequados.

A adoção de práticas adequadas em relação à determinação de objetivos de um programa educativo não deve ser motivada por uma necessidade de satisfazer exigências teóricas, mas pela convicção de sua função produtiva. Isto implica aquisição de conhecimentos, mudança de atitudes e adoção de práticas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BLOOM, B.S. et al. – Taxonomia dos objetivos educacionais, 1 – Domínio cognitivo. Porto Alegre, Ed. Globo, 1972.        

2. BLOOM, B.S. et al. – Taxonomia dos Objetivos educacionais. 2 – Domínio afetivo. Porto Alegre, Ed. Globo, 1972.        

3. GARCÍA, L.O. – La Redacción de objetivos en términos de conducta observable. Universidad de Puerto Rico, Facultad de Pedagogia, 1970.        

4. MAGER, R.F. – Preparing objectives for programmed instruction. San Francisco, Fearon Publishers, 1961.        

5. POLLOCK, M.B. – Behavioral objectives: a process approach to health education. Intern. J. Hlth. Educ., 13:27-35, 1970.        

 

 

Recebido para publicação em 18/9/1974
Aprovado para publicação em 4/10/1974

 

 

* BLOOM (1972) utiliza o termo "psicomotor" para designar a terceira área do comportamento. Para este autor os objetivos psicomotores "enfatizam alguma habilidade muscular ou motora, alguma manipulação de material e objetos ou algum ato que requer coordenação neuromuscular (pág. 5)". De acordo com esta conceituação, o termo "ativo" para designar a terceira área do comportamento, como o definimos aqui, não concorda exatamente com a conceituação do autor citado. Por outro lado, pouco mais adiante o mesmo autor afirma: "... a avaliação dos resultados da aprendizagem tem envolvido técnicas para apreciar pensamento, sentimento e ação (pág. 6)". O termo "psicomotor" ou psicomotricidade é substituído por "ação", o que dá margem a se supor que um eqüivale ao outro.

Este ponto, portanto, não parece estar muito claro. Além disso, se na situação de sala de aula objetivos psicomotores, como são definidos por Bloom, apresentam certa relevância, parece que o mesmo não ocorre em Educação em Saúde. Neste campo o que se pretende é a adoção de práticas. Sabemos ainda que o ser humano funciona como um todo e não ocorre uma ação que não seja comandada pelo psiquismo. Neste sentido toda ação ou atividade é "psicomotora".

Por isso julgamos ser mais adequado utilizar o termo "ativo" ao invés de "psicomotor" para designar a terceira área do comportamento quando estamos tratando de Educação em Saúde e definir um comportamento nesta área como implicando na adoção de uma prática.

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