Necrológico Necrology

 

Reinaldo Ramos

 

 

Evelin Naked de Castro Sá

Departamento de Prática de Saúde Pública

 

 

11-10-1920 † 19-09-1990

 

 

Incumbida da triste tarefa de escrever o necrológico de Reinaldo Ramos, eis que tenho em mãos, escrito em 1979, o necrológico que o Professor Reinaldo escreveu por ocasião da morte do Professor Rodolfo dos Santos Mascarenhas. Assim, ao iniciar este escrito sobre a vida de Reinaldo Ramos, é sua figura ao lado de Mascarenhas, o que primeiro nos vem à lembrança, já que sabemos personificaram a essência, o destemor, a competência, a dedicação, o pioneirismo emprestado à Administração Sanitária nesta Faculdade de Saúde Pública e, por meio dela, para quantas escolas, sanitaristas, pesquisadores, apreenderam a identificar e encaminhar soluções para os graves problemas de saúde pública do nosso Estado, do País e da América Latina.

O Professor Reinaldo acompanhou com desvelo e dedicação a longa doença do Professor Mascarenhas e após a sua morte, continuou à testa da Administração Sanitária, emprestando suas energias até a exaustão, no ministrar aulas, acompanhar pesquisas e trabalhos de campo, assessorar os dirigentes de órgãos, orientar alunos e a atender, pacientemente, quantos o procurassem.

Meticuloso e organizado, suas aulas eram primores de didática e conteúdo de ensinamentos da área de Saúde Pública. Incansável, não deixava que sua equipe reduzida fosse motivo para deixar que as tarefas docentes fossem cumpridas. Era comum que ministrasse aulas o dia inteiro, quando as circunstâncias o exigiam, não se eximindo dessa tarefa mesmo quando passou a ser habitual que professores mais titulados não mais o fizessem. Trazia para esta casa, entre tantas outras contribuições, sua valiosa experiência do então Serviço Especial de Saúde Pública, o que contribuiu para que a ênfase emprestada ao binômio serviço x academia incentivasse a vinda de alunos de outros estados e países.

O Professor Reinaldo Ramos nasceu em Pilar, Estado de Alagoas, em 11 de outubro de 1920, tendo cursado a então Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, onde se diplomou em 1944.

Em 1947, contemplado com bolsa de estudos do SESP, acompanhou o Curso Normal de Higiene e Saúde Pública, da Faculdade de Higiene e Saúde Pública, recebendo o diploma de médico-sanitarista. Aprovado com a média final 9,38 e em virtude de sua classificação, a direção da Faculdade conferiu-lhe o Prêmio de Aplicação/1947.

Indicado pelo Serviço Especial de Saúde Pública, freqüentou em 1950 o Terceiro Curso Internacional de Organização e Administração de Hospitais, no Rio de Janeiro, promovido pela Repartição Sanitária Panamericana e pela Associação Intermericana de Hospitais.

Contemplado com bolsa de estudos da International Cooperation Administration, realizou um treinamento em administração sanitária nos Estados Unidos da América, tendo ocasião de observar o funcinamento de serviços de saúde em áreas rurais dos Estados de Maryland, Tennessee, Georgia e Louisiana.

Concluiu, em 1963, o Curso de Doutoramento em Higiene e Saúde Pública, iniciado em 1960. Sua tese, intitulada "Indicadores do nível de Saúde - Sua aplicação no Município de São Paulo (1894-1959)", mereceu da Comissão Julgadora - composta dos Professores Rodolfo dos Santos Mascarenhas, Augusto Leopoldo Ayrosa Galvão e Elsa Salvatori Berquó - a nota final 9,33.

Acompanhou, em 1963, as disciplinas "Administração" e "Administração Pública" do Curso de Bacharelado em Ciênicas Políticas e Sociais da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Freqüentou, em 1963, o Curso de Planejamento promovido pelo Comitê Brasileiro da Conferência Internacional de Serviço Social - Comitê Regional de São Paulo.

Em 1964, realizou viagem de estudos ao Território Federal do Amapá e áreas rurais dos Estados do Pará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia e Minas Gerais, a fim de observar a organização e funcionamento de serviços locais de saúde.

Acompanhou, em 1966, o Curso Livre de Introdução ao Planejamento em Saúde Pública, promovido pela Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP em colaboração com a Organização Panamericana da Saúde.

Freqüentou, em 1967, o Curso de Especialização em Planejamento do Setor Saúde, oferecido pela Escola Nacional de Saúde Pública.

Acompanhou, em 1973, o Curso de Introdução ao Estudo de Modelos para o Setor Saúde - Administração por Sistemas, promovido pela Associação Paulista de Saúde Pública.

Freqüentou, em 1974, o Curso "Sistemas de Saúde - Subsistema de Assitência Médica", promovido pela Associação Paulista de Saúde Pública.

Sua carreira universitária iniciou-se em 1960, como Assitente, seguindo-se os cargos de Instrutor em 1962, Professor Assitente em 1963, Professor Livre-Docente em 1972, Professor Adjunto em 1977, cargo no qual se aposentou.

Na área de serviços, exerceu importantes posições no então Serviço Especial de Saúde Pública, depois Fundação SESP, dentre as quais a de Chefe Interino dos Distritos Sanitários de Marabá e Santarem, Estado do Pará e do Distrito Sanitário de Rio Branco, então Território Federal do Acre.

Foi Assitente e depois Diretor do Programa da Bahia, e Chefe de Serviços Médico-Sanitários do Programa do mesmo Estado.

Dentre seus títulos, além dos referentes à vida acadêmica e de serviços, destaco ter sido várias vezes patrono e homenageado pelos alunos sanitaristas, ser sócio fundador da Associação Paulista de Saúde Pública, e ter sido agraciado com a Medalha do Cinqüentário da Faculdade de Saúde Pública.

Sua extensa e dedicada atividade docente e de orientação soma centenas de horas/aula e dezenas de orientadores de mestrado e doutorado. Publicou dezoito trabalhos científicos, além das teses de sua carreira universitária, sempre de alto interesse para os serviços e a academia. Reinaldo Ramos costumava dizer que sua tese de doutorado "Indicadores do nível de saúde: sua aplicação no município de São Paulo (1894-1959)" lhe dava muita satisfação e se considerava realizado pelo alcance que teve para os estudiosos da Administração Sanitária, tanto que, dali, surgiram outras teses, debatendo, reformulando, enfim mostrando que a obra de Reinaldo Ramos era pioneira.

E, em 1973, sua tese de livre-docência "A integração sanitária - Doutrina e prática", confirmava, pela emergência do assunto, sua ampla capacidade e visão de Saúde Pública.

Enfim, acho que posso finalizar, como se fora Reinaldo Ramos,

"Combati o bom combate.
Acabei a carreira.
Guardei a fé."

(2a Epístola de São Paulo a Timóteo, capítulo 4, versículo 7)

Adeus, Reinaldo Ramos, com muita saudade e carinho

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