Estudo longitudinal da evolução ponderal de crianças pré-termo do nascimento até o sexto mês pós-termo*

 

Longitudinal study of weight gain in preterm infants from birth to the 6th post-term month

 

 

Josepha Bandeira de SouzaI; Arthur Lopes GonçalvesII; Gérson MucilloIII

IDepartamento Materno-Infantil da Universidade Federal da Paríba-UFPb; pós-graduanda em Pediatria na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - Ribeirão Preto, SP - Brasil
IIDepartamento de Puericultura e Pediatria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP
IIIDepartamento de Geologia, Física e Matemática da Faculdade de Filosofía, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP

 

 


RESUMO

Estudou-se a dinâmica do crescimento em peso de 95 recém-nascidos pré-termo adequados para a idade gestacional, do nascimento até o sexto mês pós-termo. As crianças estudadas foram divididas em 4 grupos, segundo a idade em semanas com que nasceram - 33, 34, 35 e 36 semanas de gestação, respectivamente, tendo sido pesadas ao nascer e depois a cada 2 ou 4 semanas. Para cotejo dos resultados foram estudados os incrementos do peso para cada grupo nas mesmas idades corrigidas, tendo o seguimento sido efetuado até 64 semanas de idade pós-menstrual, equivalente ao sexto mês pós-termo. Os resultados evidenciaram que nas duas primeiras semanas de vida pós-natal o ganho ponderal foi pequeno, aumentando consideravelmente nas semanas subseqüentes, mantendo incremento periódico (VCI) quase constante nos 4 grupos nos primeiros meses de vida, porém a velocidade de crescimento por unidade (VCU) apresentou valores máximos no primeiro mês pós-natal e queda semelhante nos 4 grupos nos meses seguintes, com valores próximos aos de crianças de países desenvolvidos.

Descritores: Peso corporal. Crescimento. Prematuro. Idade gestacional.


ABSTRACT

The dynamics of weight gain were studied in 95 preterm adequate for gestational age infants between birth and their 6th post-term month. The infants were divided into 4 groups according to the number of weeks of gestation at birth, i.e., 33, 34, 35 and 36 weeks, respectively. To compare the results, weight gains were studied for each group of the same corrected ages up to the 64th week of post-menstrual age, corresponding to the 6th post-term month. Weigth gain was small during the first 2 weeks of post-natal life but increased considerably over the subsequent weeks with an almost constant periodical increment (GRI) being maintained in all 4 groups during the first months of life. However, unit growth rate (UGR) reached its highest value during the first post-natal month and decreased a similary in all 4 groups during the subsequent months, with values approximating to those reported for infants in developed countries.

Keywords: Body weight. Growth. Infant, premature. Gestacional age.


 

 

Introdução

Estudos sobre crescimento físico de crianças nascidas antes do termo, principalmente nos primeiros meses de vida, têm merecido destaque especial, visto que crescimento adequado neste período é importante indicador do bem estar da criança.

Contudo, é pouco conhecida a dinâmica do crescimento pós-natal das crianças pré-termo, porque as curvas de crescimento em relação à idade pós-menstrual (idade corrigida), as quais são mais informativas do que aquelas de distância, são ainda raras na literatura atual (Brandt4, 1986).

Por outro lado, sabe-se que para avaliação do crescimento dessas crianças, a maioria dos serviços utilizam como referencial o padrão de crescimento intra-uterino do terceiro trimestre de gestação. No entanto, as curvas de crescimento intra-uterino disponíveis, obtidas através de coortes transversais, indicam crescimento acentuado nos dois últimos meses de gestação a termo e diminuição do ritmo de crescimento, em especial do peso, nos dias próximos ao termo. Isso não é observado em estudos longitudinais do crescimento pós-natal de crianças pré-termo (Babson2, 1970; Largo15, 1980; Brandt4, 1986; Altigani1, 1989), pois segundo Dunn7 (1985), crianças nascidas entre 28 e 36 semanas de gestação têm como característica, nas primeiras 18 semanas de vida pós-natal, crescimento linear, indicando, assim, ganho de peso constante.

Contudo, são ainda escassos estudos longitudinais sobre crescimento pós-natal de crianças pré-termo, os únicos que permitem análise do incremento (ou velocidade) de crescimento, além do que a maioria dos estudos refere-se a populações de crianças de outros países, com diferentes condições socioeconômicas e étnicas da brasileira, o que limita a utilização destas para avaliação do crescimento pós-natal das nossas crianças.

Levando em consideração essas observações, o objetivo do presente trabalho é descrever a dinâmica do crescimento ponderal de crianças brasileiras nascidas pré-termo, para obtenção de referênciais locais, visando seguimento mais adequado dessas crianças em nosso meio.

 

Material e métodos

Foram estudadas 95 crianças pré-termo, de ambos os sexos, nascidas no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP, no período de março de 1986 a novembro de 1987, sem malformações ou patologias crônicas e cujas famílias pertenciam à classe assalariada em sua maior parte.

A idade gestacional foi determinada com base na data do último período menstrual (Naegelle) e confirmada pelo método de Dubowitz6 (1970). Considerou-se pré-termo toda criança nascida antes de 37 semanas completas de gestação (FIGO13, 1982).

Os recém-nascidos estudados foram agrupados conforme a idade gestacional e classificados em adequados para a idade gestacional (AIG) conforme as curvas de crescimento intra-uterino propostas por Battaglia e Lubchenco3 (1967).

Assim, formaram-se 4 grupos de crianças, todas adequadas para a AIG e nascidas com:

A coleta de dados foi prospectiva, pelo método longitudinal puro, tendo-se avaliado as mesmas crianças em diferentes idades. Foram aferidos vários índices antropométricos, sendo aqui descritos e discutidos os dados referentes à variável "peso", cujas medidas obedeceram os critérios de padronização recomendados pelo INCAP12 (1965).

As crianças foram medidas nas seguintes idades: 0, 15, 30, 60, 90, 120, 150, 180 e 240 dias de vida extra-uterina com tolerância de ± 3 dias até o terceiro mês e de ± 5 dias do quarto ao oitavo mês de vida pós-natal.

 

Análise dos dados

Na análise dos dados de cada grupo, considerou-se a idade pós-menstrual (idade gestacional + idade pós-natal) como referencial de tempo (idade) único.

Para ajustamento dos dados foi utilizada uma função polinomial do tipo F(y) = ax2 + bx + e (Goldstein10, 1979), ou seja, polinômio de grau 2 onde Y é a variável antropométrica estudada e X é a idade da criança em semanas (tempo) no momento da observação. Após esse ajustamento de dados calculou-se, para cada grupo estudado, média, mediana, erro padrão, velocidade média de crescimento por incremento (VCI) e velocidade média de crescimento por unidade (VCU). Para obtenção das velocidades foram usadas as fórmulas propostas por Martell16 (1981):

 

Resultados

As Tabelas 1 e 2 mostram os valores de mediana, média e erro padrão do peso das crianças de 33, 34, 35 e 36 semanas de idade gestacional. Observa-se que nos 4 grupos de crianças o ganho ponderal foi pequeno nas duas primeiras semanas de vida pós-natal, aumentando consideravelmente nas semanas seguintes, mantendo velocidades médias de crescimento por incremento nitidamente constantes nesse período,conforme demonstram as Tabelas 3 e 4, bem como a Figura. Pode-se ver que nos 4 grupos as curvas de VCI, a partir da terceira semana de vida pós-natal, atingiram seus valores máximos e assim se mantiveram até 56 semanas de idade pós-menstrual nas crianças de 33 e 34 semanas e até 52 semanas nas crianças de 35 e 36 semanas. Já na VCU, o pico máximo ocorreu até a terceira e quarta semanas de vida pós-natal e depois declinaram de forma semelhante nos 4 grupos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Discussão

Para obtenção dos dados utilizou-se o método longitudinal puro, que permite avaliar a VCI, em g/dia, e a VCU, em g/kg/dia.

A VCU é uma nova forma de avaliar o crescimento, a qual tem a vantagem de comparar crianças de diferentes pesos e dessa forma avaliar melhor as variações globais do peso em determinado tempo (Martel17, 1988). Já a VCI tem importância do ponto de vista nutricional, uma vez que ela permite calcular as necessidades basais da criança (Fomon8, 1974).

Considerando que os nossos dados não mostraram diferenças significativas até o primeiro mês pós-termo entre meninos e meninas e também devido ao tamanho amostral, resolveu-se juntar os dados das crianças dos dois gêneros, o que também foi feito por outros autores, como Gruenwald11 (1966) e Babson2 (1970), que propuseram índices antropométricos únicos para meninos e meninas pré-termo nos primeiros meses de vida pós-natal.

Na evolução ponderal dos RN-AIG do presente trabalho, observou-se padrão semelhante àquele classicamente descrito para essas crianças. A distribuição dos recém-nacidos (RN) conforme a idade gestacional (Tabelas 1 e 2) mostraram que o crescimento lento apresentado inicialmente por essas crianças, especialmente nas de menor idade, concordam com os dados de Babson2 (1970), Cruise5 (1973); Largo15 (1980) e Brandt4 (1986).

Este período de menor ganho de peso é devido à redução da água total do corpo, que ocorre pós-nascimento (Kagan14, 1972) e corresponde às duas primeiras fases do crescimento de crianças pré-termo descritas por Gairdner e Pearson9 (1971) e Largo15 (1980).

A fase seguinte, que mostra crescimento acelerado (terceira fase de Pearson ) foi maior nas crianças de menor idade gestacional (33 e 34 semanas). Após este período houve ganho de peso quase constante, que se manteve até 16 semanas depois do termo nas crianças de 33 e 34 semanas e até 12 semanas pós-termo nas crianças de 35 e 36 semanas de gestação. Esta tendência de ganho constante de peso que ocorreu nas crianças estudadas evidenciou que elas não apresentaram achatamento das curvas (Figuara) próximo à idade do termo.

Esses achados confirmam resultados de outros autores (Largo15, 1980; Dunn7, 1985; Brandt4, 1986; Altigani1, 1989), os quais reportam que as curvas de crescimento intra-uterino são impróprias para seguimento do crescimento pós-natal de crianças pré-termo.

Por outro lado, a elevada velocidade destas crianças nos primeiros meses de vida pós-natal, principalmente naquelas de menor idade gestacional (33 e 34 semanas), mostrou que elas tiveram bom desenvolvimento, pois comparando-se os valores médios de peso dessas crianças com crianças AIG de 31 a 33 semanas do estudo de Babson2 (1970), observou-se que as crianças por ele estudadas apresentaram ao nascer 1.590g e no sexto mês pós-termo 7.030g, valores esses inferiores às do presente estudo, o que talvez seja devido às melhores condições de alimentação dessas crianças, graças às técnicas de alimentação atualmente adotadas, com início mais precoce e fórmulas infantis mais adequadas.

Quanto às curvas de VCI e VCU das crianças do presente estudo (Figura), verificaram-se algumas diferenças entre os 4 grupos de crianças e também entre elas. Assim, enquanto os valores da VCI oscilam nos 4 grupos ao longo do período do estudo, a VCU dos 4 grupos apresentou diminuição progressiva do nascimento ao sexto mês pós-termo, com vários imbricamentos e nítida tendência de aproximação das curvas dos vários grupos. Já a comparação da VCU das nossas crianças com as do trabalho de Dunn7 (1985), que engloba todas suas crianças pré-termo num único grupo (Figura), demonstra a ocorrência de pequenas diferenças entre os valores de VCU dos dois trabalhos em algumas idades e superposição de valores em outras, o que evidencia ser a VCU das crianças inglesas por ele seguidas muito semelhante aos valores das nossas crianças, o que também deve ocorrer com outras populações adequadamente assistidas, podendo-se eventualmente utilizar a VCU de estudos bem conduzidos como referencial para o crescimento esperado de crianças de diferentes localidades.

Dessa forma, o presente trabalho mostrou que a idade gestacional ao nascimento teve influência na evolução ponderal, pois a velocidade de crescimento dos grupos estudados fez-se de modo diferente, tendo as crianças de menor idade gestacional apresentado maior incremento nas primeiras 21 semanas de vida pós-natal, provavelmente porque elas nasceram em períodos de crescimento intra-urerino de maior velocidade.

Esta elevada velocidade de ganho ponderal evidencia a importância das boas condições de manejo e em especial da alimentação dessas crianças nos primeiros meses de vida, que procura manter o recém-nascido pré-termo nas melhores condições possíveis no meio extra-uterino, para o qual ainda não está adequadamente preparado, mas que graças ao melhor conhecimento sobre sua fisiologia e devido aos avanços tecnológicos e ao adestramento dos profissionais da área, têm lhes proporcionado maior ganho ponderal. Este ganho precisa ser continuadamente avaliado, dia a dia, durante o período de hospitalização dessas crianças e periodicamente após sua alta, sendo imprescindível que se disponha de referênciais confiáveis e adequados para interpretar corretamente a evolução da criança.

Os dados coletados certamente prestam-se melhor para avaliar as crianças do País, no seu crescimento ponderal, que os de outros países, seja através das curvas de distâncias, seja das curvas de VCI e de VCU. Esta última apresenta valores bem próximos aos da literatura estrangeira, em que pese as diferenças genéticas, socioeconômico e culturais das populações estudadas.

 

Referências Bibliográficas

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3. BATTAGLIA, F.C. & LUBCHENCO, L. O. A pratical classification of newborn infants by birth weight and gestational age. J. Pediatr., 71: 159, 1967.        

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12.INSTITUTO DE NUTRICION DE CENTRO AMERICA Y PANAMÁ (INCAP). Como estandarizar la técnica de tomar peso y falta. Nurt. Salud publ., 10 (7): 1965.        

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17. MARTELL, M. et al. Velocidad de crescimiento en niños nascidos pretermino y con bajo peso. In: Cusminsky, M. et al. Crescimiento y desarrollo. Washington, 1988, p. 164. (OPS-Publicación Cientifica, 510).        

 

 

Recebido para publicação em 25.2.1992
Reapresentado em 15.6.1992
Aprovado para publicação em 8.7.1992

 

 

Separatas/Reprints: J.B. de Souza - Av. Bandeirantes, 3900 - 14049-900 - Ribeirão Preto, SP - Brasil
Publicação financiada pela FAPESP. Processo Saúde Coletiva 91/4994-0
Trabalho desenvolvido pelo Departamento de Puericultura e Pediatria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.

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