Consumo de substâncias psicoativas por adolescentes escolares de Ribeirão Preto, SP (Brasil). II - Distribuição do consumo por classes sociais*

The intake of psychoactive substances by school-age adolescents in an urban area of Southeastern region of Brazil. II - Distribution of consumption by social levels

 

Gilson M. Muza, Heloísa Bettiol, Gerson Muccillo e Marco A. Barbieri
Departamento de Puericultura e Pediatria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP - Brasil (G.M.M., H. B., M.A.B.), Departamento de Geologia, Física e Matemática da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP - Brasil (G.M.).

 

 

Resumo
Introdução Vários estudos epidemiológicos sobre o consumo de substâncias psicoativas têm incluído em suas análises a avaliação da influência do contexto social nos níveis de prevalência desse consumo. Analisa-se a distribuição do consumo dessas substâncias segundo as classes sociais, numa amostra de adolescentes escolares de Ribeirão Preto, SP, Brasil.
Material e Método Um questionário auto-aplicável, adaptado e submetido a um teste de confiabilidade, foi aplicado a uma amostra proporcional de 1.025 adolescentes matriculados na oitava série do primeiro grau e primeiro, segundo e terceiro anos do segundo grau, das escolas públicas e privadas da cidade. O questionário continha questões sobre o uso de dez classes de drogas. Utilizou-se a adaptação de um modelo que identifica 5 frações de classe social (burguesias empresarial, gerencial e pequena burguesia, proletariado e subproletariado), a partir de indicadores que situam os indivíduos dentro das relações sociais de produção.
Resultados As três frações da burguesia foram mais representadas que as outras na população de adolescentes escolares do que na população geral. Não houve diferenças na distribuição do consumo de álcool e tabaco pelas classes sociais, embora se observe uma tendência de maior prevalência nos extremos da escala social. Já o consumo de substâncias ilícitas foi maior nas burguesias e menor no proletariado.
Conclusões Embora o consumo de substâncias lícitas não tenha diferido entre as classes sociais, o maior consumo de substâncias ilícitas pelos mais ricos provavelmente se deveu ao maior custo desses produtos do que o álcool e o tabaco.
Abuso de substâncias, epidemiologia. Fatores socioeconômicos.

Abstract

Introduction Many of the epidemiological studies on the consumption of legal and illegal psychoactive substances have included the evaluation of the influence of social context on the levels of prevalence of this consumption using indirect social indicators such as family income, and educational and housing levels in an attempt to identify individuals or groups in different social contexts. The present study investigates the distribution of consumpition of psychoactive substances according to social class in a sample of teenage pupils in Ribeirão Preto, SP, Southeastern Brazil.
Material and Method A self-applicable questionnaire duly adapted and submitted to a reliability test was applied to a proportional sample of 1,025 teenagers enrolled in the 8th, 9th, 10th and 12th grades in public and private city schools. The questionnaires contained questions about the use of ten classes of psychoactive substances, demographic questions and validation information, as well as questions about the perception and intrinsic behavior related to drug consumption. The adaptation of a model that identifies 5 social class strata (business middle class, managerial middle class, lower middle class, proletariat and subproletariat) on the basis of indicators that situate the individuals within the social relations of production, was used.
Results The 3 middle class strata were more often represented, whereas the proletariat and subproletariat were less frequently represented in this teenage pupil population than in the population in general. There was no difference in alcohol or tobacco consumption according to social class, although prevalence tended to be higher at the two extremes of the social ladder. In contrast, the consumption of illegal substances was higher in the middle class and lower in the proletariat.
Conclusion Although the consumption of legal substances did not differ among social classes, the higher consumption of illegal substances by the wealthier teenagers was probably due to the higher cost of these products as compared those of alcohol and tobacco.
Substance abuse, epidemiology. Socieconomic factors.

 

 

INTRODUÇÃO

Uma boa parte dos estudos epidemiológicos a respeito do consumo de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas tem incluído em suas análises a avaliação da influência do contexto social nos níveis de prevalência de consumo dessas substâncias. Alguns desses estudos utilizam-se de indicadores sociais indiretos como renda familiar, nível educacional e local de moradia, por exemplo, numa tentativa de identificar indivíduos ou grupos de indivíduos segundo sua classe social.

Sarinana e col.16 (1982) e Maya-Sanches e Zavala11 (1986) utilizam-se da localização da escola como forma de classificar sua população-alvo em níveis sociais baixo, médio e alto. Os próprios autores citados reconhecem que a escolha é precária, uma vez que freqüentar uma escola numa determinada localidade não significa que seus alunos estejam uniformemente inseridos na classe social que a caracteriza.

A utilização da renda familiar (Couto e col.6, 1981) não é infreqüente, contudo esbarra no fato de que muitos jovens desconhecem a renda familiar, outros a subestimam ou a superestimam deliberadamente.

Outros autores dão preferência à utilização do nível educacional dos pais (Bachman e col.1, 1981; Kandel10, 1982) ou à ocupação profissional desses (Salber e Mac Mahon15, 1986) como inferência da inserção social familiar. O nível educacional e/ou profissão dos pais tem sido o indicador preferencial da inserção social, entre os autores de língua inglesa.

A combinação de dois indicadores, como o nível de instrução do pai e as condições de moradia da família (Carlini e col.3, 1989; Carlini e col.4, 1990), visando dar maior consistência e fidedignidade à insersão social, também são utilizados.

Entende-se que o consumo de drogas entre adolescentes é um fenômeno bastante complexo e não se trata aqui de reduzi-lo a uma faceta da dimensão social, mas trata-se apenas de analisar, à luz de um estudo epidemiológico, como se dá o consumo de álcool, tabaco e drogas, segundo a classe social das famílias de uma amostra de adolescentes da cidade de Ribeirão Preto. A falta de homogeneidade quanto aos critérios de classificação socioeconômica proporciona série de transtornos operacionais, dificultando a comparação transcultural dos resultados. A comparação com outros estudos deve ser vista, portanto, com bastante cuidado.

 

POPULAÇÃO DE ESTUDO E MÉTODOS

O desenho metodológico utilizado foi um estudo de corte-transversal, realizado na cidade de Ribeirão Preto, localizada na região nordeste do Estado de São Paulo, distante cerca de 320 km da capital do Estado.

O universo amostral constituiu-se de 21 escolas de primeiro e segundo graus, com 12 unidades estaduais, 1 municipal e 9 particulares, com 11.250 alunos matriculados na oitava série do primeiro grau e demais séries do segundo grau da rede pública e privada. O processo de amostragem foi casual simples e estratificado com partilha proporcional.

O instrumento utilizado para inquérito é uma adaptação do instrumento proposto pela Organização Mundial de Saúde, o "self administered questionary" (Smart e col.17, 1980). O instrumento foi adaptado, procurando suprimir ou substituir questões, frases ou termos inexistentes ou distantes da realidade cultural da amostra de adolescentes, em um estudo piloto desenvolvido em três etapas e submetido a um teste de confiabilidade com um intervalo de 15 dias. Maiores detalhes sobre a metodologia estão relatados em outros trabalhos (Muza12, 1991; Muza13 e col., 1997).

A coleta de dados foi realizada em regime intensivo durante os meses de março a junho de 1990. Posteriormente foram codificados em folha própria e armazenados em microcomputador, através de um banco de dados criado em DBase III. Os dados foram criticados e após a digitação foram submetidos a testes para detecção de erros dessa etapa. Os testes estatísticos foram realizados utilizando-se o qui-quadrado.

A conceituação de classe social foi baseada no modelo proposto por Singer18 (1981) e adaptado para uso epidemiológico por Barros2 (1986), empregando indicadores que situam os indivíduos dentro das relações sociais de produção, sendo que este conceito estabelece um conjunto de grupos "sócio-ocupacionais" que, reagrupados, permitem a discriminação das "frações de classes" na população estudada: a burguesia, proprietária dos meios de produção, constituída pela burguesia empresarial (proprietária legal dos meios de produção) e gerencial (composta pelos técnicos, administradores e dirigentes assalariados das empresas); a pequena burguesia, classe intermediária, que trabalha mas é, ao mesmo tempo, proprietária de seus meios de produção; o proletariado, que vende sua força de trabalho em troca de salário; e o subproletariado, constituído dos demais trabalhadores com inserção débil no mercado de trabalho.

 

RESULTADOS

De um total de 1.125 questionários, 11 foram devolvidos totalmente sem respostas e 89 ou não se incluíam na faixa etária dos 13 aos 19 anos ou possuíam 4 ou mais respostas sobre consumo de substâncias psicoativas em branco, incoerentes ou claramente sem um mínimo de fidedignidade. A análise dos resultados se restringiu, portanto, a 1.025 adolescentes escolares com idade entre 13 e 19 anos, matriculados nas escolas de primeiro e segundo graus da cidade de Ribeirão Preto-SP.

A distribuição da população de estudo por classes sociais encontra-se na Tabela 1. Os dados mostram que as maiores proporções da amostra de escolares se encontram nas frações de classes da pequena burguesia (36,3%) e do proletariado (34,9%), seguidas pela burguesia gerencial (11,9%) e burguesia empresarial (4,6%). A fração de classe do subproletariado está representada por apenas 3,5% da amostra. Em 28 questionários (2,7%) não há informações a respeito das variáveis que permitem a classificação por classes sociais e em 63 (6,1%) as informações são incompletas, o que não permite a identificação da fração de classe a que pertencem.

 

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As Tabelas 2 a 4 mostram as distribuições do consumo de bebidas alcoólicas, tabaco e substâncias psicoativas de uso ilícito por frações de classes. Para cada uma das substâncias são consideradas 4 categorias de consumo: uso na vida, no último ano, no último mês (uso atual) e uso diário. Os testes estatísticos foram realizados somente para a categoria de uso atual, uma vez que o uso na vida e no último ano pode significar um uso experimental e remoto, ao mesmo tempo que o uso diário se encontra representado na categoria de uso no último mês (uso atual).

 

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A Tabela 2 mostra a distribuição do consumo de bebidas alcoólicas pelas frações de classes sociais da amostra. Os resultados mostram tendência distinta no perfil de consumo de bebidas alcoólicas entre as classes sociais. As maiores taxas de consumo de bebidas alcoólicas tendem a se alternar entre os dois extremos da escala social, com a burguesia empresarial ocupando a primeira posição nas categorias de consumo no último ano (87,2%), último mês (63,8%) e uso diário (12,8%), e o subproletariado ocupando a primeira posição na categoria de uso na vida (94,4%). As menores taxas de consumo, por outro lado, tendem a recair, preferentemente, entre as frações de classe da pequena burguesia e do proletariado. Todavia, as diferenças observadas não são estatisticamente significantes.

A Tabela 3 traz a distribuição do consumo de tabaco pelas frações de classes sociais da amostra. Do mesmo modo como foi identificado para o consumo de bebidas alcoólicas, não existem diferenças estatisticamente significantes na distribuição do consumo atual de tabaco pelas frações de classes sociais. Nota-se que o consumo de tabaco também tende a não apresentar um perfil único para todas as categorias de consumo, onde as maiores taxas de prevalência parecem gravitar em torno das frações de classes que compõem as burguesias, exceto para a categoria de uso diário onde a maior taxa tende a se situar na fração de classe do subproletariado.

A Tabela 4 diz respeito à distribuição do consumo de substâncias psicoativas de uso ilícito pelas frações de classes sociais. Os resultados indicam que existe um perfil de uso bastante similar entre as várias categorias de consumo, onde as maiores taxas de prevalência se situam nas classes sociais mais favorecidas, e as menores taxas entre as classes desprotegidas. Os testes estatísticos revelam que existem diferenças significantes na distribuição do consumo atual de substâncias psicoativas de uso ilícito pelas frações de classes.

 

DISCUSSÃO

Quando se compara a distribuição da amostra de adolescentes escolares em frações de classes sociais com a distribuição em frações de classe da população geral de Ribeirão Preto, obtidas por Barros2 (1986), verifica-se que as frações da burguesia empresarial, burguesia gerencial e a pequena burguesia são mais representadas na amostra de adolescentes escolares do que na amostra da população geral. Por outro lado, as frações de classe do proletariado e do subproletariado estão menos representadas na população de adolescentes escolares do que na população geral.

Pode-se compreender tal fenômeno à luz de alguns dados de nossa história recente. Embora na década de 80 tenha ocorrido aumento substancial na oferta de vagas no sistema educacional, as taxas de repetência, reprovação e evasão, ainda hoje resistem em patamares significativos a ponto de se conviver com uma realidade tal que de cada 1.000 alunos matriculados nas escolas apenas 25% deles terminam o primeiro grau (IBGE8, 1989). Sem dúvida o fenômeno emerge com mais expressão entre as classes populares, obrigadas a conviver com uma escola de baixa qualidade e pouco atrativa, que compete com um mercado de trabalho obrigatório para crianças de inúmeras famílias, concorrendo para uma infância de curta duração (Dauster7, 1992). Estes elementos sustentam a idéia de que as classes menos favorecidas convivem com maiores dificuldades de acesso e permanência nas instituições de ensino.

De um modo geral, o consumo de bebidas alcoólicas, tabaco e substâncias psicoativas ilícitas se distribuem diferentemente (sem significância estatística para o álcool e o tabaco) entre as frações de classes sociais. Embora o consumo de álcool apresente tendência de maior prevalência nos extremos da escala social, não significa que a fração de classe da burguesia empresarial e do proletariado consumam do mesmo modo. Caroma e col.5 (1986), no Chile, por exemplo, identificaram que os adolescentes de nível socioeconômico mais elevado consumiam bebidas alcoólicas com maior freqüência e em menor quantidade que aqueles de nível menos elevado.

Estudos sobre alcoolismo entre adultos revelam uma maior prevalência do fenômeno entre os indivíduos das classes trabalhadoras e entre os desempregados (Ramos e col.14, 1987). Não se pode, contudo, centrar a atenção no alcoolismo ou no uso abusivo de álcool apenas a partir da insersão no processo produtivo. Vários fatores se associam ao abuso de álcool na adolescência, a começar pelos aspectos sócio-históricos como o processo de industrialização e urbanização de décadas recentes e a crise econômica dos anos 80, responsável pela dificuldade de inserção do jovem no mercado de trabalho e conseqüente insatisfação de suas necessidades. Não se pode subestimar, também, a crescente produção industrial de bebidas alcoólicas e o forte apelo da mídia em favor do consumo por indivíduos de todas as classes sociais.

Quando se aborda o consumo de tabaco apenas a partir da categoria de uso diário, nota-se que a fração de classe do subproletariado tende a apresentar a maior taxa de prevalência de consumo, enquanto que a fração de classe da burguesia empresarial mostra tendência de ter a menor taxa de freqüência de consumo. Uma série de atitudes contrárias ao uso do tabaco foram desencadeadas em épocas recentes que incluem, dentre outras, um volume importante de informações a respeito dos prejuízos à saúde e uma legislação que interfere, sobretudo, no poder da mídia na indução ao consumo. Este conjunto de medidas seguramente alcançam mais rapidamente as classes mais favorecidas, cujo acesso às informações se dá sem dificuldades e nem sempre estão disponíveis às classes populares.

O consumo de substâncias psicoativas de uso ilícito foi o único a apresentar um perfil praticamente idêntico em todas as categorias de consumo, onde o uso é maior entre os indivíduos das frações de classes da burguesia e menor entre aqueles das frações de classe do proletariado.

Diferentemente do que foi observado no presente estudo, o consumo de substâncias psicoativas ilícitas por adolescentes escolares em países como Estados Unidos (EUA) (Bachaman e col.1, 1981), França e Israel (Kandel e col.9, 1981) e México (Sarinana e col. 16, 1982) não mostra diferenças estatisticamente significantes quando comparadas por níveis socioeconômicos. Carlini e col.4 (1990), por outro lado, verificaram que em algumas capitais brasileiras o consumo de substâncias psicoativas de uso ilícito é maior entre os adolescentes de níveis socioeconômicos mais baixos.

Deve-se chamar a atenção para o consumo de "crack" (derivado da cocaína), um fenomêno que vem se avolumando em anos recentes, com graves repercussões a um contingente importante de crianças e adolescentes. O consumo dessa substância tem se mostrado como um mercado seguro entre as populações de baixa renda das periferias das grandes cidades. O fenomêno é mais expressivo ainda entre os meninos e meninas que vivem e/ou moram nas ruas, um grupo excluído da sociedade, com pouca ou nenhuma assistência e de alto risco aos agravos à saúde integral de seus membros.

O grupo de adolescentes escolares que compõem as frações de classe do proletariado e subproletariado da presente amostra, tampouco pode ser comparado a esses grupos populacionais, a começar pela inserção no sistema educacional, o que permite inferir que se trata de famílias minimamente estruturadas a ponto de garantir o acesso e a manutenção de seus filhos no ensino formal. São essas mesmas famílias que muitas vezes incorporam os valores da sociedade ocidental e os sustentam até com mais rigidez que as famílias das frações de classe da burguesia (empresarial e gerencial) e mesmo da pequena burguesia, essas com uma postura muitas vezes mais liberal em relação ao consumo de substâncias psicoativas.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A conceituação e a operacionalização das classes sociais, com suas respectivas frações de classes, esbarram em obstáculos importantes como a existência de diferentes conceituações de classe social e pelas dificuldades de operacionalização destes mesmos conceitos. O objeto de estudo, o consumo de substâncias psicoativas, e o sujeito, os adolescentes, impõem dificuldades adicionais, proporcionadas pelas necessidades metodológicas de se utilizar um questionário auto-aplicável e a freqüente falta de informação desse grupo etário a respeito das atividades de trabalho de seus pais. Esses obstáculos não só não invalidam esses esforços, como também abrem espaços para novas investigações abordando as questões que permeiam a conceituação e a operacionalização das classes sociais para uso em pesquisas epidemiológicas.

A conceituação e a operacionalização das classes sociais, com vistas à sua utilização em estudos epidemiológicos na área da saúde, ainda é pouco estudada. Novos esforços devem ser envidados, sejam eles na comparação com outros métodos, seja no aprimoramento da presente proposta, seja na elaboração de um novo modelo capaz de representar com fidedignidade uma realidade a se estudar. A falta de homogeneidade quanto ao critério de classificação socioeconômica proporciona uma série de transtornos operacionais, dificultando, principalmente, a comparação transcultural dos dados.

Entende-se o consumo de substâncias psicoativas, antes de mais nada, como fenomêno histórico e cultural. Tem-se registro da existência do álcool como produto da fermentação de cereais, nos mais antigos documentos da civilização egípcia. Entre os gregos e romanos era consumido pelo seu valor alimentício e social, representado pelas festas e cerimônias religiosas. O ópio entre os gregos era investido de significado divino e seus efeitos eram considerados como uma dádiva dos deuses. A disseminação do uso dos narcóticos, no entanto, se processa nos EUA somente a partir do último terço do século XIX.

O hábito de consumir a coca data de cerca de 4.000 anos, como atestam alguns achados arqueológicos. Nas regiões andinas as folhas de coca são mastigadas (ato de coquear) há séculos pela população indígena, onde esse ato assume um papel comunitário e ritual, e serve como expressão da identidade étnica dessa população. Da mesma forma a maconha, que é consumida há mais de 4.000 anos, se investe de significados distintos quando consumida por diferentes segmentos de uma mesma sociedade. Nas últimas décadas, no entanto, ocorreu uma expansão sem precedentes, alcançando indivíduos de todas as classes sociais.

Como visto, a história da produção e do consumo de substâncias psicoativas faz parte da própria história da humanidade e deve ser entendida, portanto, como um fenômeno cultural e histórico, não existindo sociedade que não tenha recorrido ao seu uso, em todos os tempos, com finalidades as mais diversas. Focar a atenção na distribuição do consumo por classes sociais se configura numa fração da tarefa, que é alcançar a realidade do consumo de drogas entre adolescentes,

Outra tarefa que se apresenta como inadiável é entender que papel desempenha a família no contexto da adicção na adolescência. Se se assume, e já foi feito, que a qualidade das relações interpessoais intrafamiliares são importantes, não se pode mais preteri-la. É a próxima tarefa.

A abordagem da questão do consumo de drogas hoje é mal dimensionada em muitos de seus aspectos. A dimensão político-institucional, por exemplo, dispensa enormes volumes de recursos para o combate ao tráfico de drogas e minimiza o papel dos programas de atenção primária ao abuso de substâncias; a dimensão educacional ainda convive com idéias sem um minímo de sustentação e insiste na utilização de técnicas do tipo "amedrontamento", com eficácia bastante duvidosa; a dimensão médico-psicológica muitas vezes supervaloriza o poder das drogas e relega o contexto sociofamiliar a um plano menos importante; e a dimensão social, por sua vez, trata a dependência às drogas ilícitas como um fenômeno de primeira grandeza, quando de fato o são as dependências ao álcool e tabaco, duas drogas lícitas.

Abordar as questões do uso/abuso de substâncias psicoativas não é uma tarefa simples e, certamente, uma única disciplina jamais dará conta do fenomêno se não for abordado a partir da perspectiva da interdisciplinaridade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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* Parte da dissertação de mestrado "Estudo de variáveis psicossociais associadas ao consumo de substâncias psicoativas por adolescentes escolares da cidade de Riberão Preto, SP, 1990", apresentada à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, em 1991.

Correspondência para/Correspondence to: Marco Antonio Barbieri - Departamento de Puericultura e Pediatria da Faculdade de Medicina de Riberão Preto - Av. Bandeirantes, 3900 - 14040-900 Ribeirão Preto, SP - Brasil. E-mail: mabarbie@fmrp.usp.br
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