Susceptibilidade larval de duas populações de Aedes egypti a inseticidas químicos*
Larval susceptibility to chemical insecticides of two Aedes egypti populations

Jairo Campos** e Carlos FS Andrade

Departamento de Zoologia do Instituto de Biologia da Unicamp. Campinas, SP, Brasil

 

 

DESCRITORES
Aedes.# Inseticidas derivados do carbamato.# Inseticidas organofosforados.# Piretróides.# Resistência a inseticidas. Controle de mosquitos.
RESUMO

OBJETIVO:
A susceptibilidade dos insetos tem sido um dos mais importantes aspectos a ser monitorados em programas de saúde pública que tratam do controle de vetores. O estudo objetiva avaliar a susceptibilidade de larvas de Aedes aegypti a inseticidas químicos em áreas sujeitas ou não a controle.

MÉTODOS:
Bioensaios foram realizados com concentração de diagnóstico e concentração múltipla, segundo padrão da Organização Mundial de Saúde para as coletas de larvas de Aedes aegypti, em uma área não sujeita ¾ Campinas, SP ¾ e em uma outra área sujeita ¾ Campo Grande, MS ¾ a tratamentos químicos de controle.

RESULTADOS:
Larvas de Aedes aegypti coletadas em Campinas indicaram resistência potencial à concentração-diagnóstico (CD) de 0,04 ppm do organofosforado temephos. O teste de concentração múltipla registrou sobrevivência de 24,5% à concentração de 0,0125 ppm. A susceptibilidade dessa mesma linhagem foi avaliada para o organofosforado fenitrothion (CD=0,08 ppm) e o piretróide cipermetrina (CD=0,01 ppm), resultando em valores normais para essas concentrações. Larvas de Ae. aegypti coletadas em Campo Grande mostraram susceptibilidade normal ao temephos (CD=0,04 ppm) e à cipermetrina (CD=0,01 ppm). Também foram estabelecidas as CL50 e as CL95 de cipermetrina 25 CE, cyfluthrin 5 CE, betacyfluthrin 1,25 SC e propoxur 20 CE para Ae. aegypti. Com base nos dados da linhagem-padrão Rockefeller, foram estimadas as razões de resistência de 2,9, 2,2, 2,4 e 1,3, respectivamente, pela CL50, e de 3,5, 2,6, 3,9 e 1,3 pela CL95.

CONCLUSÃO:
Os resultados reforçam a necessidade de avaliações prévias e monitoramento da efetividade dos inseticidas que devem ser usados em programas de controle de mosquitos.

KEYWORDS
Aedes.# Insecticides, carbamate.# Insecticides, organophosphate.# Pyrethroids.# Insecticide resistance. Mosquito control.
ABSTRACT

OBJECTIVE:
Insect susceptibility has been one of the most important aspects to be monitored in public health programs for vector control. The purpose of the study is to assess the susceptibility to chemical insecticides of Aedes aegypti larvae in both areas under vector control and no vector control.

METHODS:
World Health Organization standard bioassays for diagnostic concentration and multiple concentrations were performed in mosquito larvae collected in an area under no vector control (Campinas, SP) and an area under vector chemical control (Campo Grande, MS), in Brazil.

RESULTS:
Potential resistance to a diagnostic concentration of temephos (DC=0.04 ppm) was registered for an
Ae. aegypti larval population collected in Campinas. Multiple concentration tests confirmed the larvae resistance, with 24.5% of them surviving at the 0.0125 ppm concentration. Bioassays with the organophosphate fenitrothion (DC=0.08 ppm) and pyrethroid cypermethrin (DC=0.01 ppm) in the same population revealed their susceptibility to these agents. Bioassays carried out in an Ae. aegypti larval population collected in Campo Grande showed their susceptibility to temephos (DC=0.04 ppm) and cypermethrin (DC=0.01 ppm). LC50 and LC95 for cypermethrin (CE25), cyfluthrin (CE5), betacyfluthrin (SC1.25) and propoxur (CE20) were determined for Ae. aegypti . Using the Rockefeller standard strain values, ratios of resistance were estimated: 2.9, 2.2, 2.4 and 1.3 for LC50 and 3.5, 2.6, 3.9 and 1.3 for LC95, respectively.

CONCLUSION:
The findings reinforce the need for routinely monitoring pesticide efficacy as a very important step in vector control management programs.

 

 

INTRODUÇÃO

Poucas espécies sinantrópicas de mosquitos dos gêneros Aedes, Culex e Anopheles formam ainda hoje os maiores desafios em saúde pública. Estão implicadas na transmissão, respectivamente, da dengue, da filariose bancroftiana e da malária, de forma particularmente grave, em vários Estados brasileiros.

Os 50 milhões de casos anuais de dengue no mundo e o recrudescimento da filariose e da malária permitem questionar a competência dos responsáveis pelo controle dos vetores no terceiro mundo em relação a um freqüente emprego de inseticidas químicos. No caso da dengue, o uso desses produtos tem sido feito não só em áreas críticas, como cemitérios e ferros-velhos, mas também no ambiente domiciliar, devido à dificuldade da população em eliminar criadouros de mosquito vetor pela mudança de hábitos.2 Assim, a eficiência dos inseticidas rotineiramente empregados ou o desenvolvimento de resistência por parte dos vetores devem sempre ser avaliados como medida de segurança para a população envolvida e também como uma economia para os cofres públicos.

Embora avanços importantes tenham surgido no desenvolvimento de medidas alternativas para o controle de mosquitos, os inseticidas químicos ainda se mantêm como parte vital dos programas de controle integrado. Dessa forma, diversos casos de resistência têm sido registrados no mundo para espécies de mosquitos vetores3,6,11,13,14,17 e, mais particularmente, para populações de Aedes aegypti no Brasil.1,9,10 Além da detecção de resistência para a formulação das estratégias de controle, também é fundamental o conhecimento dos seus mecanismos. Devido ao uso no passado, por exemplo, de DDT ou de inseticidas agrícolas clorados, a resistência cruzada pode reduzir a eficácia de piretróides, mesmo antes de sua introdução no combate a um vetor.

A avaliação rápida da susceptibilidade de mosquitos a inseticidas pode ser feita no laboratório por meio de testes de dose ou concentração-diagnóstico (DD ou CD). Dose, quando se trabalha com uma quantidade conhecida em contato de uma vez com o inseto, e concentração, quando os insetos são expostos a um meio contendo o agente letal por um determinado período. Trabalhando-se com uma colônia de mosquitos susceptível putativa, a CD para larvas é determinada para vários ensaios como sendo a menor concentração com capacidade de matar todos os indivíduos em 24 horas ou a que causa 99,9% de mortalidade (CL99,9) em testes de múltiplas concentrações.3 Dessa forma, a Organização Mundial da Saúde (OMS) indica, por exemplo, uma CD de 0,012 mg/litro (ppm) de temephos para larvas de Ae. Aegypti.18

No Brasil, tem-se suspeitado ou registrado para Ae. aegypti a ocorrência de resistência a organofosforados pelo menos em oito municípios do Estado de São Paulo1,10 e em Goiás.9,16 Devido ainda à detecção de resistência ao temephos em municípios do Rio de Janeiro, o controle passou a ser feito com Bacillus thuringiensis var. israelensis e methoprene a partir de um Fórum Estadual (setembro/2000). O presente trabalho avalia a susceptibilidade de uma colônia de laboratório de Ae. Aegypti estabelecida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e de amostras desse mosquito obtidas em Campo Grande, MS, município com dengue na época e sob tratamento com inseticidas.

 

MÉTODOS

As larvas de Ae. aegypti avaliadas no presente estudo são de duas origens: da colônia Aae-Unicamp (Departamento de Zoologia) formada a partir das primeiras larvas coletadas em armadilhas no Campus, onde previamente não existia a espécie, e de coletas feitas no Campus da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Aae-UFMS), em Campo Grande, MS (maio/98 e março/99). A colônia Aae-Unicamp foi iniciada ao final de 1997, assim que a espécie foi detectada no programa de monitoramento de mosquitos no Campus.*** Até essa época, não foram feitas aplicações de quaisquer produtos de controle no campus, e não havia transmissão de dengue no município. Como padrão de referência, foi usada a linhagem Rockefeller, cedida pela Sucen (Superintendência de Controle de Endemias), Marília, SP, e proveniente do CDC (Center for Disease Control) em Porto Rico.

Os inseticidas usados (concentração, nome comercial) foram: o carbamato propoxur (20%, Baygon 20 CE), os organofosforados temephos (50%, Abate 500 E) e fenitrothion (40%, Sumithion PM) e os piretróides à base de cipermetrina (25%, Ciper 250 CE e 25%, Cymperator 25 CE), à base de cyfluthrin (5%, Solfac 5CE) e de betacyfluthrin (1,25%, Responsar 1,25 SC). Esses produtos foram inicialmente diluídos para uma solução estoque à concentração de 100 ppm i.a. em água (ou acetona, para o Solfac 5 CE). A seguir, foram feitas diluições em água destilada para se chegar às concentrações de trabalho.

Para os organofosforados, foram realizados testes de concentração-diagnóstico de resistência ao temephos (CD=0,04 ppm) para as larvas de Aae-Unicamp e de Aae-UFMS. Para a colônia da Unicamp, foi ainda feito o teste de concentração múltipla (CM=0,0125 a 1,5625 ppm) a esse inseticida. A susceptibilidade ao fenitrothion só foi avaliada para larvas de Aae-Unicamp pela CD (=0,08 ppm).

A resistência aos piretróides foi avaliada para a cipermetrina nas larvas de Aae-Unicamp, em vários testes de concentração múltipla e concentrações-diagnóstico tentativas, usando-se os produtos Ciper 250 CE e Cymperator 25 CE. Para Aae-UFMS, foi realizado um teste com uma concentração de Ciper 250 CE (0,01 ppm i.a.).

Para a cipermetrina, o cyfluthrin, a betacyfluthrin e o propoxur, foram estabelecidas as concentrações letais mediana (CL50) e as CL95 com larvas de Aae-Unicamp.

Os bioensaios foram feitos seguindo os padrões previamente propostos.3,17,18 Usaram-se grupos de 25 ou mais larvas de terceiro estádio tardio e/ou quarto estádio inicial em copos descartáveis, com as soluções dos inseticidas para três ou mais réplicas. As testemunhas receberam água destilada ou água com acetona (Solfac 5 CE).

Nos testes de concentração múltipla, foram usadas quatro ou mais concentrações, produzindo mortalidade entre 0% e 100%. Durante toda a exposição aos produtos, observaram-se mortalidade ou paralisia das larvas. A mortalidade final foi avaliada 24 horas após o contato com os inseticidas. Os valores médios dos dados foram submetidos à análise probit,5 usando-se o programa POLO-PC.8

As razões de resistência (RR) foram calculadas para as CL50 e CL95, comparando-se os valores da colônia Aae-Unicamp com aqueles da linhagem susceptível Rockefeller, depois de ter verificado paralelismo nas respostas.8

 

RESULTADOS

Os testes realizados com larvas da colônia Aae-Unicamp indicaram, para o organofosforado temephos, sobrevivência (2,86%) para a CD adotada no presente trabalho (=0,04 ppm). No teste de concentração múltipla, a sobrevivência para a concentração de 0,0125 ppm (= CD adotada pela OMS) foi alta (24,5%). Para o fenitrothion, a mortalidade foi total para a CD adotada (0,08 ppm), e não foi avaliada a resposta dessa colônia à concentração 0,04 ppm, proposta pela OMS como CD. Para a cipermetrina, dois testes de concentração múltipla com essa colônia mostraram mortalidades de 99% e 100% para a concentração 0,01 ppm. As CL50 e as CL95 para os piretróides cipermetrina (Cymperator 25CE), cyfluthrin, betacyfluthrin e para o carbamato propoxur, comparadas com os valores obtidos para a linhagem-padrão Rockefeller, encontram-se na Tabela.

 

 

Para a população Aae-UFMS, foi observada 100% de mortalidade ao temephos (CD=0,04 ppm) e à cipermetrina (CD=0,01 ppm).

Usando-se a colônia Aae-Unicamp, observou-se diminuição na potência do produto comercial Ciper 250 CE, quando foram comparadas as respostas para 0,01 ppm i.a. espaçadas pelo período de um ano (de 100% para 67%). O produto estava ainda dentro de sua validade e foi adequadamente estocado no laboratório.

 

DISCUSSÃO

A colônia Aae-Unicamp pode ser considerada muito tolerante ao temephos ou mesmo resistente, quando comparada com outros trabalhos.11,13,17 Embora originada de ambiente nunca exposto às aplicações de inseticidas, os mosquitos fundadores dessa colônia podem ter chegado ao campus já na condição de resistentes. Esses mosquitos foram obtidos, ao final de 1997, assim que detectados em armadilhas de larvas e após seis anos de monitoramento sem sua presença. Em meados dos anos 90, Macoris et al9 trataram como modificação da susceptibilidade ao temephos a resistência de Ae. aegypti e, mais recentemente, relataram a resistência em populações de Campinas e Santos, SP, com RRs (CL50) de 2,7 e 6,3 (Macoris et al10). Andrade & Modolo1 (1991) já haviam indicado resistência para essa espécie em Campinas, devido à sobrevivência de larvas para concentrações de 0,025 ppm i.a. e de 0,05 ppm i.a. de temephos, em coletas feitas em 1987. Para o carbamato propoxur, as RRs para Aae-Unicamp (cf. Tabela) são menores que as encontradas em populações do Caribe.6,17

Os piretróides são mais usados como adulticidas, e, por isso, a cipermetrina tem sido pouco avaliada contra as larvas de Ae. aegypti. Ainda assim, algumas CL50 foram estabelecidas para esse piretróide, tais como 0,16 ppb (a 20oC) e 0,34 ppb (a 30oC) para larvas de terceiro estádio de Ae. aegypti, usando-se grau técnico.4 Shajahan,15 por sua vez, estabeleceu uma LC50 muito maior (78 ppb i.a.) usando larvas de quarto estádio desse mosquito, mas estranhamente não considerou a colônia resistente, talvez por ter usado o produto comercial (Ripcord 10 CE) que, além de cipermetrina, contém outros inseticidas na sua formulação. De fato, as formulações podem influenciar, e uma diminuição de 5X na toxicidade foi verificada em ensaios com cipermetrina grau-técnico, quando comparados com um concentrado emulsionável 40 CE (LC50=0,045 ppb i.a. e 0,233 ppb i.a., respectivamente).7 No presente trabalho, a toxicidade obtida para a cipermetrina 25 CE (1,842 ppb i.a. [Tabela]) foi menor ainda do que essas mencionadas, sugerindo resistência.

A perda de potência de um produto comercial à base de cipermetrina, detectada usando-se larvas de Ae. aegypti, deve-se ao fato dos piretróides em geral serem moléculas pouco estáveis. Mesmo quando armazenadas em temperaturas inferiores a 30oC e protegidas da luz, como foi o caso do produto usado, podem perder potência.

Os resultados obtidos para os mosquitos das áreas sujeitas ou não a tratamentos com inseticidas, Campo Grande e Campinas, e as conclusões apontadas em outros trabalhos asseguram a necessidade de monitoramentos rotineiros. A determinação dos coeficientes angulares e das razões de resistência (RR) permite acompanhar as mudanças temporais de susceptibilidade aos produtos químicos e orienta o planejamento do manejo da resistência e das estratégias de controle a ser aplicadas. Mudanças da CL50 não acompanhadas por mudanças na CL95 podem ser manejadas com a troca temporária do produto. Ou caso seja econômico, pela substituição definitiva do produto por outros que não apresentem risco de resistência cruzada. No caso específico do temephos, a atual opção da Fundação Nacional de Saúde pelo uso do Bti e inibidores de crescimento (methoprene, por exemplo) é indispensável, mas poderia ter sido feito um rodízio monitorado desde o início dos programas oficiais de combate à dengue, em meados da década de 80, no Rio de Janeiro. No caso de Ae. aegypti, ao contrário do uso de inseticidas, o que melhor permite baixas populações são as práticas como educação para mudança de hábito e a participação das comunidades.

 

AGRADECIMENTOS

À Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), pelo uso das instalações; à pesquisadora Maria de Lourdes G Macoris (Sucen/Marília, SP) pelo subministro da linhagem Rockefeller; à Sucen/Campinas, SP, e ao médico veterinário Paulo de Tarso G Rocha, do Centro de Controle de Zoonoses (Hortolândia, SP), pelo fornecimento de inseticidas; ao dr. José Bento do Instituto de Biologia do Exército ¾ (Rio de Janeiro), por facilitar o programa estatístico.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência para/Correspondence to:
Jairo Campos
Departamento de Zoologia, IB, Unicamp
13084-971 Campinas, SP, Brasil
E-mail: jairocag@unicamp.br

*Parte dos resultados foram apresentados no I Workshop dos Pós-Graduandos da Unicamp, Campinas, setembro de 1998.

**Aluno de Pós-Graduação da Unicamp.

Recebido em 22/9/2000. Reapresentado em 9/3/2001. Aprovado em 2/4/2001.

***Relatório Interno - VED, Zoologia/Unicamp; dados inéditos.

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revsp@org.usp.br