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Memória da vigilância sanitária*

 

History of health surveillance

 

 

Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa

 

 

LIVRO CONTA A EVOLUÇÃO DA SAÚDE PÚBLICA NO BRASIL

A história da Vigilância Sanitária brasileira é a história do País, a história do medo da doença e da morte, um relato de tragédias e heroísmos, de conquistas, desafios e perdas, uma espécie de certificado de resistência às atrocidades do poder, à ignorância dos governantes, ao descaso das autoridades sanitárias que no passado isolavam os doentes como método de cura. E tratavam a população com a habitual truculência da cegueira administrativa, em relação à saúde pública, empregando muitas vezes nas comunidades revoltadas a providencial profilaxia da violência e da brutalidade. Mas essa é uma memória que deveria permanecer guardada a sete chaves, se uma nação não fosse feita também da matéria dos traumas e do sonho de evolução e modernidade.

É essa história que o escritor Eduardo Bueno narra em À Sua Saúde – A Vigilância Sanitária na História do Brasil – a primeira tentativa de reunir dados, extrair de fatos históricos, da realidade do passado e do presente, os contornos nebulosos daquilo que no Brasil Colônia se resumia a uma expressão – "água vai" – em nome da higiene, enquanto nos ares da nova "pátria" impunha-se a ferro e fogo, no meio rudimentar da Ciência, a teoria dos miasmas como única explicação para a destruição do homem pelas enfermidades, novas e desconhecidas, que a natureza e os colonizadores trouxeram à Terra de Santa Cruz.

A partir de uma exaustiva pesquisa, encomendada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), vertida em livro pela Editora Anvisa, em 208 páginas Bueno nos mostra como foi construído no Brasil, desde antes mesmo de seu "descobrimento", por Cabral, o conceito de vigilância sanitária. Relata os fatos com tal vigor narrativo, para o resgate histórico do cotidiano das caravelas e dos incipientes processos de tratamento e cura, com pleno domínio da técnica do flashback, para não cansar o leitor, que fica difícil não tragar todas as linhas do livro de um só gole.

Não temos apenas com a obra a história da vigilância sanitária e dos embriões de formação das ações de saúde pública e de barreiras sanitárias do Brasil, mas também uma parte da história antiga da Higiene, da Alimentação e da Medicina, desde as remotas invenções da inteligência egípcia, persa, helênica e romana para abater seus principais inimigos – os micróbios. A viagem pelo passado da Medicina e da doença que Eduardo Bueno nos traz só é possível imaginar com os bilhetes certos para a entrada em outro universo complexo e fascinante – o da pesquisa documental.

O escritor, autor dos consagrados A Viagem do Descobrimento, Náufragos, Traficantes e Degredados e Capitães do Brasil, livros de história que carregam o feito de atingir milhões de leitores, enclausurou-se durante sete meses nas bibliotecas da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Visitou a Biblioteca Nacional, os arquivos do Ministério da Saúde e entrevistou personagens com presença de fundamental importância na história contemporânea da vigilância sanitária e da saúde pública. Entre eles o ex-ministro da Saúde e atual prefeito de São Paulo, José Serra, os ex-presidentes da Anvisa, médicos de vasta experiência em gestão de saúde pública, Gonzalo Vecina e Cláudio Maierovitch Pessanha Henriques.

Não há dúvida quanto ao caráter documental do livro, obra de registro histórico que nem por isso perde o sabor literário de uma narrativa de medo, de crenças e de horror, injustiças e vitórias, de renascimento de um povo a partir de medidas políticas e sanitárias inovadoras como as de Oswaldo Cruz, com o combate à febre amarela, e Carlos Chagas, no combate à peste bubônica. Enfim, À Sua Saúde, configura-se um rico e extenso relicário de fatos e episódios indeslindáveis do contexto social e político, da história do Brasil Colônia, Brasil Império e República, até os dias atuais. Sem dúvida uma memória recuperada e consagrada à saúde pública e a quem a realizou nos preceitos de Hipócrates e de Avicena. Além de tudo isso, conta com introdução do escritor membro da Academia Brasileira de Letras (e médico sanitarista) Moacyr Scliar (A orelha de Van Gogh), o que faz ressaltar sobremaneira o valor da obra.

 

 

* Resenha de autoria de Carlos Tavares.

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
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