EDITORIAL

 

Fórum de Editores Científicos em Saúde Pública

 

 

Em agosto de 2006, durante a realização do 8º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva e 11º Congresso Mundial de Saúde Pública, a Revista de Saúde Pública organizou, como parte das atividades de comemoração dos seus 40 anos de existência, o Fórum de debates sobre a divulgação da produção científica na área de saúde pública. Organizado em colaboração com a BIREME e ABRASCO, o Fórum reuniu editores da maioria das revistas científicas brasileiras da área, além dos editores das revistas da Organização Panamericana de Saúde e da Organização Mundial de Saúde, editores de revistas de saúde pública de vários países da América Latina e editores brasileiros que atuam nos periódicos: American Journal of Public Health, American Journal of Epidemiology e International Journal of Epidemiology. Também participaram do Fórum os coordenadores de cursos de pós-graduação da área de saúde púbica.

O objetivo principal do Fórum foi o fortalecimento dos periódicos científicos da área da saúde pública, visando a consolidar o que Abel Packer, diretor da BIREME, chamou de "a corrente principal sul" na divulgação dos conhecimentos científicos em saúde.

Durante um dia intenso de atividades, foram discutidos diversos aspectos relacionados com a produção editorial, incluindo tópicos polêmicos como a primazia dos fatores de impacto calculados pelo Thomson Scientific na avaliação de qualidade da ciência produzida na América Latina e Caribe.

O Fórum examinou ainda os critérios que têm norteado a inclusão de periódicos na Coleção SciELO Saúde Pública. Por reconhecer a importância do acesso livre e do trabalho da BIREME na indexação e divulgação da produção científica latino-americana, os participantes do Fórum consideraram necessário rever o critério restritivo adotado pelo Comitê Consultivo da SciELO de só incluir revistas previamente indexadas na base MEDLINE ou no Journal Citation Reports (JCR) do Thomson Scientific. Para subsidiar esta discussão, a BIREME, com base no modelo de avaliação da SciELO, apresentou um estudo exploratório comparativo entre três grupos de periódicos: da coleção SciELO Saúde Pública; de revistas estrangeiras mais citadas nessa coleção; e revistas incluídas nas coleções SciELO dos países da América-Latina mas não incluídas na coleção Saúde Pública. A partir dessa comparação, demonstrou-se que apenas dois aspectos distinguem as revistas que não fazem parte da coleção SciELO Saúde Pública: a periodicidade que tende a ser menor e a proporção de autores nacionais que tende a ser maior. Por outro lado, considerando os periódicos latino-americanos e do Caribe, da grande área das ciências da saúde, verifica-se que apenas 28 deles são indexados pelo JCR , enquanto o Medline indexa 65, a SciELO 141 e o LILACS, 690. Portanto, ao restringir a inclusão na Coleção SciELO Saúde Pública dos periódicos com indexação no MEDLINE ou JCR, a SciELO acabaria por reforçar a chamada "corrente principal" em vez de fortalecer uma "corrente alternativa" do sul.

Ainda em relação à base SciELO, é importante frisar que os critérios de inclusão na coleção dos países já são bastante rígidos, valorizando a qualidade dos periódicos. No período de 2001 a 2005, apenas 15% dos pedidos de inclusão na base foram aprovados. Estar na SciELO aumenta a visibilidade de qualquer periódico, pois hoje esta base apresenta cerca de seis milhões de downloads de artigos por mês e está entre as 10 principais fontes de consultas do Google Scholar. Os acessos se originam em mais de 500 cidades espalhadas por todos os continentes, sendo que o Brasil é o primeiro, em número de acessos, seguido pelos Estados Unidos e Portugal.

Outra conclusão importante a que chegou o Fórum foi a conveniência de se utilizar os índices cientométricos gerados pela SciELO combinados com ou complementados pelo fator de impacto do JCR. Essa combinação seria particularmente relevante na avaliação da produção científica produzida pelos programas brasileiros de pós-graduação e na formulação da política científica nacional. Notou-se, também, que as estatísticas da SciELO permitem avaliar o diálogo entre as revistas. Por exemplo, dados acumulados desde o início da SciELO indicam a Revista de Saúde Pública como a mais citada no âmbito da SciELO Saúde Pública. As citações da RSP vêm fundamentalmente de Cadernos de Saúde Pública (55%), dela própria (34%) e da Revista Panamericana de Salud Pública (9%).

A partir das apresentações dos vários editores, presentes no Fórum, pudemos constatar, ainda, que o processo de revisão por pares empregado pela Revista de Saúde Pública e também pelos Cadernos de Saúde Pública é tão rigoroso quanto o praticado pelas revistas internacionais de grande prestígio na área. O aspecto que mais distancia nossas revistas das internacionais são os prazos mais longos entre submissão e publicação (ou rejeição) dos manuscritos. A título de comparação, o American Journal of Public Health tem prazos médios de 2,6 meses entre a submissão do manuscrito e a primeira resposta fornecida ao autor, de 4,5 meses entre submissão e aceitação, e de 8,7 meses entre submissão e publicação. Esses prazos são menores para o International Journal of Epidemiology, onde a primeira decisão leva em média 18 dias e a decisão final, após a revisão por pares, em média 68 dias. Ambas possuem sistema totalmente informatizado para submissão e avaliação dos manuscritos, o qual permite encurtar substancialmente os prazos para publicação. A Revista de Saúde Pública, por sua vez, em face de ainda não ter concluído a informatização do seu sistema de submissão e avaliação, ainda leva, em média, 9 meses para aprovar o manuscrito e 13,7 meses para publicá-lo. Como forma de compensar esses prazos ainda extensos, encontra-se em fase de teste a iniciativa da SciELO para implantação do sistema ahead of print. Assim, tão logo esteja devidamente editado, o artigo é divulgado em meio eletrônico independentemente do fascículo estar completo. A Revista de Saúde Pública é um dos periódicos pioneiros a integrar esse sistema. Acredita-se que o ahead of print possa garantir maior rapidez na divulgação e indexação dos artigos.

Esperamos que, conforme recomendação unânime dos seus participantes, o Fórum de Editores Científicos da área da Saúde Pública seja repetido em futuros congressos da ABRASCO. Seria sem dúvida uma contribuição importante para aprimorar nossos periódicos científicos e para que a ciência latino-americana seja mais bem representada no cenário mundial. O conjunto das apresentações feitas durante o Fórum está disponível no site da BIREME (http://www.eventos.bvsalud.org/forumsp).

 

Carlos Augusto Monteiro
Rita de Cássia Barradas Barata
Editores Científicos

Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo São Paulo - SP - Brazil
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